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20 anos sem Brizola: político segue referência para luta democrática

Repro­dução: © Família Brisola/Arquivo Pes­soal

Político gaúcho chegou a usar ondas do rádio para evitar golpe em 1961


Publicado em 21/06/2024 — 06:53 Por Luiz Claudio Ferreira — Repórter da Agência Brasil — Brasília

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O momen­to era de ten­são total. Naque­le 28 de agos­to de 1961, o gov­er­nador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizo­la, foi cor­ren­do para o porão do Palá­cio Pira­ti­ni e fez um pro­nun­ci­a­men­to para uma rádio que a equipe mon­tou de impro­vi­so. “Hoje, nes­ta min­ha alocução, ten­ho os fatos mais graves a rev­e­lar. O Palá­cio Pira­ti­ni, meus patrí­cios, está aqui trans­for­ma­do em uma cidadela que há de ser hero­ica (…)”. Ele pedia resistên­cia até o fim.  Aque­le seria um dos momen­tos que faria com que Brizo­la (1922 — 2004), que mor­reu há 20 anos, entrasse para a história brasileira. Segun­do pesquisadores, ele foi respon­sáv­el por evi­tar, via uma rede de rádios, que o golpe mil­i­tar ocor­resse naque­le ano.

Momen­tos como esse terão destaque em um doc­u­men­tário de Sílvio Tendler, que deve ser lança­do no segun­do semes­tre deste ano. Aque­le episó­dio ocor­reu depois da renún­cia de Jânio Quadros. Como João Goulart, o vice-pres­i­dente, esta­va em mis­são diplomáti­ca fora do País, a cúpu­la mil­i­tar posi­cio­nou-se para impedir a trans­mis­são de posse para o vice. Hou­ve um impasse e quem assum­iu o país foi o pres­i­dente da Câmara, Paschoal Ranieri Mazz­il­li.

Brasília (DF) 20/06/2024 - 20 anos da morte de Leonel Brisola.Foto: Família Brisola/Arquivo Pessoal
Repro­dução: 20 anos da morte de Leonel Briso­la– Família Brisola/Arquivo Pes­soal

Leitura de país

De acor­do com o neto de Brizo­la, Leonel Brizo­la Neto, que cedeu as ima­gens para o filme e que bus­ca divul­gar o lega­do do avô com uma asso­ci­ação cul­tur­al, o então gov­er­nador tin­ha a noção da ameaça de uma rup­tura democráti­ca.

“Ele tin­ha uma leitu­ra do que esta­va acon­te­cen­do. Naque­la época, não havia a facil­i­dade das infor­mações que nós temos hoje. Ele enten­deu e começou a orga­ni­zar (a resistên­cia). Todos os atos do Brizo­la foram sem­pre den­tro da legal­i­dade democráti­ca”, argu­men­ta o neto.

Em nome dessa legal­i­dade, Brizo­la pas­sou a uti­lizar a Rádio Guaí­ba, através de um ato gov­er­na­men­tal, para defend­er a posse do vice. Para o pro­fes­sor de história Adri­ano de Freixo, da Uni­ver­si­dade Fed­er­al Flu­mi­nense, Brizo­la foi a figu­ra cen­tral da resistên­cia.

Freixo ressalta que hou­ve de fato uma ten­ta­ti­va de golpe em 1961, orquestra­da pelos que exe­cu­taram o golpe de 1964.

“Quan­do Brizo­la mon­tou a rede da legal­i­dade, com seus dis­cur­sos sendo trans­mi­ti­dos para todo o Brasil, ele tam­bém con­segue apoio mil­i­tar, do Exérci­to no Rio Grande do Sul e da Briga­da Mil­i­tar gaúcha, dis­pos­tos a ir para o con­fron­to. Isso faz, inclu­sive, com que out­ras lid­er­anças civis se ani­massem a resi­s­tir”, afir­mou o pro­fes­sor.

A “rede da legal­i­dade”, como ficou con­heci­da, con­gre­gou mais de 100 rádios pelo Brasil, que pas­saram a retrans­mi­tir dis­cur­sos pela manutenção da democ­ra­cia e da legal­i­dade.

Brizo­la pas­sou a denun­ciar que aviões mil­itares brasileiros teri­am ordem para ati­rar con­tra o palá­cio do gov­er­no gaú­cho. Segun­do os pesquisadores ouvi­dos pela Agên­cia Brasil, como con­seguiu adesão de praças da própria Força Aérea boico­taram as aeron­aves para que não deco­lassem.

 Frustração

O pro­fes­sor Adri­ano de Freixo avalia que Brizo­la esta­va dis­pos­to, inclu­sive, a par­tir para o con­fron­to, se fos­se necessário. “Como ele mes­mo disse em alguns depoi­men­tos, a ideia dele era mar­char para o Rio de Janeiro e dis­solver o Con­gres­so, já que par­la­mentares tin­ham sido coniventes com ten­ta­ti­va de golpe e garan­tir a posse do Jan­go”, afir­ma o pro­fes­sor. Foi uma decepção para Brizo­la ter con­hec­i­men­to de que Jan­go con­cor­dou com uma solução con­cil­i­atória e assum­iu um regime par­la­men­tarista pro­vi­so­ri­a­mente.

A frus­tração de Brizo­la com o pres­i­dente deu-se diante de um con­tex­to políti­co. Pesquisadores do perío­do enten­dem que havia expres­si­vo apoio pop­u­lar à posse de Jan­go em 1961. De acor­do com o sociól­o­go Yago Jun­ho, que tam­bém pesquisa a tra­jetória de Brizo­la, o então gov­er­nador do Rio Grande do Sul gan­hou a opinião públi­ca porque com­preen­deu a importân­cia do proces­so de comu­ni­cação.

“A batal­ha políti­ca é a batal­ha das comu­ni­cações. Mais de 70% da pop­u­lação apoia­va a posse do Jan­go e o Brizo­la, em relação a esse apoio pop­u­lar, que­ria efe­ti­va­mente pro­mover mudanças. Acabou prevale­cen­do a con­cil­i­ação e a con­cil­i­ação só serviu para adi­ar o golpe por três anos”, anal­isa o sociól­o­go. Os pesquisadores avaliam que Brizo­la foi hábil, mas não con­ta­va que Jan­go iria cur­var-se às condições dos mil­itares.

Legados

Brasília (DF) 20/06/2024 - 20 anos da morte de Leonel Brisola. Foto: Família Brisola/Arquivo Pessoal
Repro­dução: 20 anos da morte de Leonel Briso­la. Foto: Família Brisola/Arquivo Pes­soal — Família Brisola/Arquivo Pes­soal

Os pesquisadores da tra­jetória de Leonel Brizo­la enten­dem que a infân­cia pobre no Rio Grande do Sul foi fator deci­si­vo para as escol­has políti­cas do homem que foi gov­er­nador de dois esta­dos, o que ele nasceu, e o Rio de Janeiro.  Yago Jun­ho anal­isa que Brizo­la defend­eu o tra­bal­his­mo e os dire­itos da Con­sol­i­dação das Leis do Tra­bal­ho.

O his­to­ri­ador Adri­ano de Freixo vê Brizo­la como uma das fig­uras públi­cas mais impor­tantes da segun­da metade do sécu­lo pas­sa­do.

“Ele con­stru­iu uma car­reira políti­ca muito profícua. Ele defend­eu mel­hor dis­tribuição de riquezas, com pro­postas como a real­iza­ção da refor­ma agrária, edu­cação inte­gral nas esco­las e defe­sa do país diante de pressões estrangeiras”, diz

Os pesquisadores assi­nalam que Brizo­la acred­i­ta­va que a edu­cação seria a for­ma de ger­ar uma con­strução de uma sociedade menos desigual, tan­to na gestão do Rio Grande do Sul (1959 — 1963) como do Rio de Janeiro (1983 — 1987 e 1991 — 1994).

“Essa pre­ocu­pação do Brizo­la com uma edu­cação de qual­i­dade, com uma esco­la de tem­po inte­gral, é algo que hoje con­tin­ua no âmbito de inves­ti­gadores edu­ca­cionais do Brasil”, afir­ma o his­to­ri­ador Adri­ano de Freixo. Sobre a esco­la em tem­po inte­gral, defen­di­da pelo políti­co gaú­cho, o pesquisador avalia que foi uma ideia que acabou sendo com­bat­i­da por difer­entes setores. “Essa é uma questão cen­tral no pen­sa­men­to do Brizo­la”.

O resul­ta­do foi que hou­ve redução do anal­fa­betismo com a con­strução de mais de seis mil esco­las. “O pai dele foi assas­si­na­do. A mãe alfa­bet­i­zou os fil­hos. Ele foi depois, com 14 anos, estu­dar soz­in­ho numa esco­la téc­ni­ca em Viamão, que é per­to de Por­to Ale­gre. “Con­seguiu entrar na uni­ver­si­dade como engen­heiro”, afir­ma Leonel Brizo­la Neto.  No Rio de Janeiro, ele imple­men­tou a ideia do antropól­o­go Dar­cy Ribeiro e criou os Cen­tros Inte­gra­dos de Edu­cação Públi­ca (Ciep) para faz­er valer a edu­cação inte­gral.

Contra o “atraso”

Além da edu­cação, out­ra mar­ca de Brizo­la foi a defe­sa enfáti­ca da refor­ma agrária. “Enten­do que essa é uma questão cen­tral para aque­la esquer­da tra­bal­hista do iní­cio dos anos 60: o lat­ifún­dio tin­ha que ser com­bat­i­do. Você não con­segue com­bat­er e super­ar o sub­de­sen­volvi­men­to se não super­ar a questão agrária”, sub­lin­ha o his­to­ri­ador Adri­ano de Freixo. O pesquisador expli­ca que, além da neces­si­dade de se com­bat­er as pressões inter­na­cionais, seria necessário mod­ern­izar o cap­i­tal­is­mo brasileiro, numa defe­sa de uma sociedade menos desigual. “O lat­ifún­dio seria uma das causas do atra­so nacional”.

O sociól­o­go Yago Jun­ho crê que Brizo­la “pagou um preço muito alto” pelas ideias que defendia. “O final da vida dele num ostracis­mo tem a ver com uma incom­preen­são sobre o lega­do políti­co dele”. Uma das acusações dos opos­i­tores é que teria havi­do uma políti­ca inefi­caz de segu­rança públi­ca e que a crim­i­nal­i­dade aumen­tou. O resul­ta­do foi, segun­do avalia, um final de vida no ostracis­mo.

Brasília (DF) 20/06/2024 - 20 anos da morte de Leonel Brisola.Foto: Família Brisola/Arquivo Pessoal
Repro­dução: 20 anos da morte de Leonel Briso­la. Foto: Família Brisola/Arquivo Pes­soal — Família Brisola/Arquivo Pes­soal

Visibilidade

Na defe­sa do lega­do do avô, Leonel, além do doc­u­men­tário, quer dar mais vis­i­bil­i­dade às histórias do políti­co. “A gente está ago­ra em um out­ro proces­so para ten­tar dig­i­talizar todos eles e jog­ar na inter­net para as pes­soas olharem e pesquis­arem”.

Leonel lem­bra não só do políti­co, mas tam­bém do homem dis­ci­plinador que cobra­va pon­tu­al­i­dade, e que se diver­tia con­tan­do suas histórias nas fes­tas de família. “Lem­bro dele me ensi­nan­do a faz­er orça­men­to domés­ti­co. E tam­bém plan­tan­do bananeira (pon­ta-cabeça no chão) em casa. Ele era um homem muito forte”, recor­da o neto.

Edição: Aline Leal

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