...
quinta-feira ,22 fevereiro 2024
Home / Saúde / Ações para cuidados da doença de Chagas devem ser implantadas em 2022

Ações para cuidados da doença de Chagas devem ser implantadas em 2022

Repro­du­ção: © Eras­mo Salomão/MS

Tema foi debatido em simpósio da Fiocruz sobre doenças negligenciadas


Publi­ca­do em 18/11/2021 — 15:43 Por Ake­mi Nitaha­ra – Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — Rio de Janei­ro

Ao menos duas ini­ci­a­ti­vas para cui­dar da for­ma crô­ni­ca da doen­ça de Cha­gas e evi­tar a trans­mis­são con­gê­ni­ta devem ser implan­ta­das no ano que vem. O pro­je­to Comu­ni­da­des Uni­das para Ino­va­ção, Desen­vol­vi­men­to e Aten­ção para a doen­ça de Cha­gas (Cui­da Cha­gas), coor­de­na­do pelo Ins­ti­tu­to Naci­o­nal de Infec­to­lo­gia Evan­dro Cha­gas da Fun­da­ção Oswal­do Cruz (INI/Fiocruz), está em fase final de apro­va­ção da comis­são de éti­ca para ser implan­ta­do a par­tir de 2022, com dura­ção de 4 anos.

O outro pro­je­to é a fina­li­za­ção do Guia para estru­tu­ra­ção de linhas de cui­da­do para doen­ça de Cha­gas, que está sen­do fei­to por um gru­po de tra­ba­lho da Secre­ta­ria de Vigi­lân­cia Sani­tá­ria do Minis­té­rio da Saú­de da Saú­de. As duas ini­ci­a­ti­vas foram apre­sen­ta­das na manhã de hoje (18), duran­te o 1º Sim­pó­sio de Doen­ças Negli­gen­ci­a­das Fio­cruz-Novar­tis: Cha­gas e Han­se­nía­se, pro­mo­vi­do pela Fio­cruz e a far­ma­cêu­ti­ca Novar­tis.

A pes­qui­sa­do­ra prin­ci­pal do estu­do Cui­da Cha­gas, Andréa Sil­ves­tre, expli­cou que o pro­je­to pilo­to, que con­ta com o finan­ci­a­men­to da agên­cia glo­bal Uni­taid, será implan­ta­do nos muni­cí­pi­os de Espi­no­sa e de Por­tei­ri­nha (MG), São Desi­dé­rio (BA), São Luís de Mon­tes Belos (GO) e Igua­racy (PE).

“Nós atu­a­re­mos com a vigi­lân­cia de casos crô­ni­cos, com todas as ações pri­o­ri­zan­do e acon­te­cen­do na aten­ção pri­má­ria à saú­de, ras­tre­a­men­to e bus­ca ati­va de novos casos, per­mi­tin­do toda uma via­bi­li­da­de ope­ra­ci­o­nal. Nós ima­gi­na­mos que nes­ses ter­ri­tó­ri­os nós temos a pos­si­bi­li­da­de de ava­li­ar qua­se 6 mil pes­so­as, que serão iden­ti­fi­ca­das den­tro des­se pro­ces­so de detec­ção”.

De acor­do com ela, o pro­je­to tam­bém ocor­re­rá em dez muni­cí­pi­os da Bolí­via, 13 da Colôm­bia e cin­co do Para­guai, com um total de 234 mil pes­so­as ava­li­a­das.

“Nós uti­li­za­re­mos sem­pre a comu­ni­ca­ção como via de mudan­ça soci­al e de com­por­ta­men­to, então o envol­vi­men­to da comu­ni­da­de é fun­da­men­tal, para que a gen­te tenha ações de infor­ma­ção, edu­ca­ção e comu­ni­ca­ção que pos­sam ser apli­ca­das em pro­fis­si­o­nais da aten­ção pri­má­ria à saú­de e mater­ni­da­de, para que a gen­te crie pro­ces­so de diag­nós­ti­co e tra­ta­men­to mais efi­ci­en­tes e efe­ti­vos”.

Sil­ves­tre des­ta­ca que, como doen­ça negli­gen­ci­a­da, menos de 10% das pes­so­as com a con­di­ção crô­ni­ca da doen­ça de Cha­gas são diag­nos­ti­ca­das e menos de 1% con­se­guem ser efe­ti­va­men­te tra­ta­das.

Guia de cuidados

Inte­gran­te do Gru­po de Tra­ba­lho da Secre­ta­ria de Vigi­lân­cia Sani­tá­ria do Minis­té­rio da Saú­de da Saú­de, Swamy Lima Pal­mei­ra, expli­cou que a pro­pos­ta do Guia de Linhas de Cui­da­do tem como obje­ti­vo geral pro­mo­ver a redu­ção da mor­ta­li­da­de pela doen­ça, pro­mo­ven­do o acom­pa­nha­men­to do paci­en­te inde­pen­den­te do ciclo da vida e da for­ma da doen­ça.

“Como obje­ti­vos espe­cí­fi­cos a gen­te quer iden­ti­fi­car os gru­pos popu­la­ci­o­nais em situ­a­ção de vul­ne­ra­bi­li­da­de e as áre­as pri­o­ri­tá­ri­as do pon­to de vis­ta epi­de­mi­o­ló­gi­co da doen­ça; ori­en­tar e ampli­ar a ofer­ta do diag­nós­ti­co labo­ra­to­ri­al em muni­cí­pi­os pri­o­ri­tá­ri­os; garan­tir o tra­ta­men­to espe­cí­fi­co; dis­po­ni­bi­li­zar meca­nis­mos de inte­gra­ção entre os dife­ren­tes níveis de gover­no; moni­to­rar indi­ca­do­res rela­ci­o­na­dos à vigi­lân­cia; e inte­grar a aten­ção pri­má­ria ao desen­vol­vi­men­to de ações de pre­ven­ção e con­tro­le da doen­ça de Cha­gas”.

De acor­do com ela, outra linha impor­tan­te é ofe­re­cer às famí­li­as o conhe­ci­men­to neces­sá­rio para que sai­bam onde bus­car assis­tên­cia espe­cí­fi­ca para diag­nós­ti­co e tra­ta­men­to, como lis­ta de exa­mes que devem ser rea­li­za­dos e a peri­o­di­ci­da­de deles.

Doença negligenciada

A doen­ça de Cha­gas foi des­co­ber­ta em 1909 pelo pes­qui­sa­dor bra­si­lei­ro Car­los Cha­gas. Ela resul­ta da infec­ção pelo pro­to­zoá­rio Try­pa­no­so­ma cru­zi, ten­do como vetor diver­sas espé­ci­es do inse­to Tri­a­to­ma, conhe­ci­dos bar­bei­ros, chu­pões ou chu­pan­ças. A doen­ça é endê­mi­ca na Amé­ri­ca Lati­na e se enqua­dra no rol das doen­ças tro­pi­cais negli­gen­ci­a­das. A inci­dên­cia é alta em popu­la­ções soci­al­men­te excluí­das, como em bol­sões de pobre­za, habi­ta­ções rurais em locais sem infra­es­tru­tu­ra e com sis­te­mas de saú­de ine­fi­ci­en­tes.

Repre­sen­tan­te da Asso­ci­a­ção dos Paci­en­tes Por­ta­do­res de Doen­ça de Cha­gas de Per­nam­bu­co, Joan­da Gomes afir­ma que a doen­ça é negli­gen­ci­a­da por­que “é uma doen­ça de pobre”.

“Não é uma doen­ça que seja lem­bra­da, ela é negli­gen­ci­a­da por­que é uma doen­ça da pobre­za. O pobre con­ti­nua lá, na sua casi­nha de pau-a-pique sem poder fazer uma alve­na­ria, um bom rebo­co, e outros sem ter nem o que comer. A asso­ci­a­ção tem mais de 30 anos, onde a gen­te fala com os outros e pode con­ver­sar com o médi­co dire­ta­men­te. Sou tra­ta­da como gen­te, de cor­po e alma, sou tra­ta­da como pes­soa, como Joan­da, e não como uma doen­ça”.

No Sim­pó­sio tam­bém foram apre­sen­ta­das expe­ri­ên­ci­as de suces­so no cui­da­do da doen­ça, como a noti­fi­ca­ção com­pul­só­ria da doen­ça de Cha­gas na fase crô­ni­ca em Goiás; o ambu­la­tó­rio Casa de Cha­gas do Pron­to-Socor­ro Car­di­o­ló­gi­co Uni­ver­si­tá­rio de Per­nam­bu­co; e o Labo­ra­tó­rio de Pes­qui­sa Clí­ni­ca em doen­ça de Cha­gas do INI/Fiocruz.

A coor­de­na­do­ra téc­ni­ca do guia para cui­da­do crô­ni­co para doen­ças infec­ci­o­sas negli­gen­ci­a­das da Orga­ni­za­ção Pana­me­ri­ca­na da Saú­de (Opas), Lin­da Leh­man, apre­sen­tou o guia Chro­nic Care for Neglec­ted Infec­ti­ous Dise­a­ses: Leprosy/Hansen’s Dise­a­se, Lympha­tic Fila­ri­a­sis, Tra­cho­ma, and Cha­gas Dise­a­se (Cui­da­do crô­ni­co para doen­ças infec­ci­o­sas negli­gen­ci­a­das: han­se­nía­se, fila­ri­o­se lin­fá­ti­ca, tra­co­ma e doen­ça de Cha­gas, em por­tu­guês), dis­po­ní­vel ape­nas em inglês. Os par­ti­ci­pan­tes do even­to pedi­ram que o docu­men­to seja tra­du­zi­do para por­tu­guês e espa­nhol.

A doen­ça de Cha­gas ocor­re nas for­mas agu­da, que pode ser assin­to­má­ti­ca; crô­ni­ca, que apa­re­ce com sin­to­mas anos ou déca­das após a infec­ção; e con­gê­ni­ta, quan­do a infec­ção pas­sa da mãe para o filho ou filha duran­te a ges­ta­ção. Ela exis­te na for­ma car­día­ca, que se carac­te­ri­za por car­di­o­mi­o­pa­tia dila­ta­da asso­ci­a­da com mio­car­di­te, fibro­se e dis­fun­ção car­día­ca; ou a for­ma gas­tro-intes­ti­nal, que pode resul­tar em mega-cólon e/ou mega-esô­fa­go. Há tam­bém a for­ma mis­ta da doen­ça, com sin­to­mas das duas for­mas asso­ci­a­dos.

Edi­ção: Valé­ria Agui­ar

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Dengue: GO e DF já receberam doses para crianças de 10 e 11 anos

Repro­du­ção: © Takeda/Divulgação À medida que novos lotes forem chegando, faixa etária será ampliada Publi­ca­do …