...
sexta-feira ,14 junho 2024
Home / Noticias do Mundo / Adesão de europeus à Palestina aumenta isolamento de Israel e EUA

Adesão de europeus à Palestina aumenta isolamento de Israel e EUA

Repro­du­ção: © Gabri­e­la Hipólito/Divulgação

Avaliação é de especialistas ouvidos pela Agência Brasil


Publicado em 25/05/2024 — 09:10 Por Lucas Pordeus León — Repórter da Agência Brasil — Brasília

O anún­cio de três paí­ses euro­peus — Espa­nha, Irlan­da e Noru­e­ga — de que reco­nhe­ce­rão um Esta­do pales­ti­no na pró­xi­ma ter­ça-fei­ra (28) aumen­ta o iso­la­men­to inter­na­ci­o­nal de Isra­el e dos Esta­dos Uni­dos e, ape­sar de ser um ges­to sim­bó­li­co, tem efei­tos prá­ti­cos, na ava­li­a­ção de espe­ci­a­lis­tas em rela­ções inter­na­ci­o­nais con­sul­ta­dos pela Agên­cia Bra­sil.

A gran­de mai­o­ria dos paí­ses da Amé­ri­ca Lati­na, Áfri­ca e Ásia já reco­nhe­cem o direi­to a um Esta­do para os pales­ti­nos. O Bra­sil fez o reco­nhe­ci­men­to em 2010. Ao todo, mais de 140 paí­ses dos 193 da Orga­ni­za­ção das Nações Uni­das (ONU) já reco­nhe­ce­ram o direi­to dos pales­ti­nos a um Esta­do.

Porém, entre os paí­ses da Euro­pa Oci­den­tal, ape­nas a Sué­cia e a Islân­dia havi­am decla­ra­do esse reco­nhe­ci­men­to. Além dis­so, nenhum dos paí­ses do G7 reco­nhe­cem esse direi­to pales­ti­no. O G7 é o gru­po dos sete paí­ses mais indus­tri­a­li­za­dos do mun­do: Fran­ça, Esta­dos Uni­dos, Rei­no Uni­do, Cana­dá, Itá­lia, Ale­ma­nha e Japão. Aus­trá­lia e Coreia do Sul tam­bém são paí­ses que não reco­nhe­cem o Esta­do pales­ti­no.

O pro­fes­sor de Rela­ções Inter­na­ci­o­nais da Uni­ver­si­da­de de São Pau­lo (USP) Pedro Dal­la­ri ava­lia que a ade­são des­ses paí­ses euro­peus é um refle­xo dos ques­ti­o­na­men­tos da comu­ni­da­de inter­na­ci­o­nal às ações de Isra­el na Fai­xa de Gaza, rever­ten­do o apoio que Tel Aviv con­quis­tou logo após o ata­que do Hamas, em 7 de outu­bro.

Brasília (DF) 24/05/2024 - Professor Pedro Bohomoletz de Abreu Dallari é professor titular do Instituto de Relações Internacionais (IRI). Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Repro­du­ção: Pro­fes­sor Pedro Dal­la­ri, do Ins­ti­tu­to de Rela­ções Inter­na­ci­o­nais, diz que iso­la­men­to de Isra­el foi levan­do a comu­ni­da­de inter­na­ci­o­nal a ques­ti­o­nar sua con­du­ta em Gaza — Foto: Mar­cos Santos/USP Ima­gens

“Esse iso­la­men­to de Isra­el foi levan­do a comu­ni­da­de inter­na­ci­o­nal a ques­ti­o­nar essa con­du­ta, e a soci­e­da­de civil inter­na­ci­o­nal come­çou a rea­gir, mui­tas mani­fes­ta­ções de estu­dan­tes pelo mun­do todo, de artis­tas, de orga­ni­za­ções soci­ais, e isso impac­tou os gover­nos”, des­ta­cou o pro­fes­sor.

A asses­so­ra do Ins­ti­tu­to Bra­sil-Isra­el Kari­na Stan­ge Cala­drin, pes­qui­sa­do­ra do Ins­ti­tu­to de Rela­ções Inter­na­ci­o­nais da Uni­ver­si­da­de de São Pau­lo (USP), ana­li­sou que as deci­sões dos paí­ses euro­peus reve­lam que a nar­ra­ti­va do gover­no isra­e­len­se não está con­ven­cen­do.

09/10/2023, A assessora do Instituto Brasil-Israel Karina Stange Caladrin, que também é pesquisadora do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), lembrou que o Hamas tem como objetivo último o fim do Estado de Israel e que, por isso, tem atacado os acordos árabe-israelenses dos últimos anos. Foto: Arquivo Pessoal
Repro­du­ção: Asses­so­ra do Ins­ti­tu­to Bra­sil-Isra­el Kari­na Cala­drin diz que pres­são tem aumen­ta­do sobre o gover­no isra­e­len­se — Foto: Arqui­vo Pes­so­al

“A pres­são tem aumen­ta­do sobre o gover­no isra­e­len­se, ape­sar da nar­ra­ti­va dis­se­mi­na­da de que Isra­el esta­ria ape­nas se defen­den­do, que pos­sui a jus­ti­ça moral em suas ações e que o obje­ti­vo úni­co e exclu­si­vo é o exter­mí­nio do Hamas. Essa nar­ra­ti­va não está con­ven­cen­do o públi­co exter­no e inter­no”, pon­tu­ou.

Para o pro­fes­sor de Rela­ções Inter­na­ci­o­nais do Ins­ti­tu­to Bra­si­lei­ro de Ensi­no, Desen­vol­vi­men­to e Pes­qui­sa (IDP) Rob­son Val­dez, o iso­la­men­to de Isra­el se refle­te tam­bém no iso­la­men­to do seu mai­or ali­a­do.

“À medi­da que você tem outros paí­ses que, em tese, desa­fi­am essa lide­ran­ça dos Esta­dos Uni­dos e deci­dem, por si mes­mo, reco­nhe­cer o Esta­do da Pales­ti­na, mos­tra uma debi­li­da­de dos Esta­dos Uni­dos na sua capa­ci­da­de de lide­rar”, dis­se Val­dez.

O pro­fes­sor do IDP acres­cen­tou que as deci­sões recen­tes do pro­mo­tor do Tri­bu­nal Penal Inter­na­ci­o­nal (TPI), de pedir a pri­são do pri­mei­ro-minis­tro de Isra­el, Ben­ja­min Netanyahu, e da Cor­te Inter­na­ci­o­nal de Jus­ti­ça (CIJ) de exi­gir o fim das ope­ra­ções em Gaza, refle­tem esse declí­nio do poder rela­ti­vo dos Esta­dos Uni­dos no mun­do.

09/10/2023, O doutor em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) Robson Valdez acrescentou que, assim como os Acordos de Abraão, os acordos da China no Oriente Médio por meio dos investimentos da chamada Rota da Seda pressionam para uma maior estabilidade política na região, o que o ataque do Hamas acaba por desestabilizar. Foto: Arquivo Pessoal
Repro­du­ção: Dou­tor em Estu­dos Estra­té­gi­cos Inter­na­ci­o­nais da Uni­ver­si­da­de Fede­ral do Rio Gran­de do Sul Rob­son Val­dez diz que iso­la­men­to de Isra­el se refle­te tam­bém no iso­la­men­to do seu mai­or ali­a­do — Foto: Arqui­vo Pes­so­al

Efeitos práticos

Val­dez ava­lia que, ape­sar da deci­são dos paí­ses euro­peus ser sim­bó­li­ca, ela tem efei­tos prá­ti­cos. “For­ta­le­ce a deman­da dos pales­ti­nos de ter um Esta­do sobe­ra­no, e isso enfra­que­ce a posi­ção dos Esta­dos Uni­dos e seus ali­a­dos, dei­xan­do-os numa situ­a­ção mui­to des­con­for­tá­vel fren­te ao sis­te­ma inter­na­ci­o­nal”, dis­se.

A pes­qui­sa­do­ra Kari­na Cala­drin argu­men­tou que as deci­sões da Espa­nha, Noru­e­ga e Irlan­da são sim­bó­li­cas, com pou­co efei­to prá­ti­co, uma vez que “o gover­no isra­e­len­se, e Netanyahu, em par­ti­cu­lar, têm pou­ca pre­o­cu­pa­ção com a posi­ção de Isra­el no cená­rio inter­na­ci­o­nal, seu prin­ci­pal inte­res­se é indi­vi­du­al”.

Ain­da assim, Cala­drin enten­de que a deci­são dos paí­ses euro­peus terá algu­mas con­sequên­ci­as. “Isra­el está cada vez mais iso­la­do e terá que arcar com as con­sequên­ci­as nega­ti­vas do seu iso­la­men­to”, dis­se.

Já o pro­fes­sor da USP Pedro Dal­la­ri obser­va que tais deci­sões influ­en­ci­am a cons­tru­ção da solu­ção de dois esta­dos, um isra­e­len­se e outro pales­ti­no, mas que esses efei­tos não são ime­di­a­tos. “Fica cla­ro, inclu­si­ve para a par­ce­la cres­cen­te da soci­e­da­de isra­e­len­se, que a for­ma como Netanyahu está con­du­zin­do essa situ­a­ção é extre­ma­men­te dano­sa ao Esta­do de Isra­el”.

“Não sei daqui a quan­to tem­po, mas com a pro­vá­vel que­da do gover­no Netanyahu, pode pre­va­le­cer em Isra­el um gover­no com apoio da soci­e­da­de que, per­ce­ben­do a invi­a­bi­li­da­de des­sa situ­a­ção atu­al, evo­lua para a via­bi­li­za­ção da fór­mu­la dos dois esta­dos”, enten­de.

Reconhecimento

O reco­nhe­ci­men­to da Pales­ti­na como Esta­do come­çou em 1988 quan­do as lide­ran­ças da Orga­ni­za­ção Pela Liber­ta­ção da Pales­ti­na (OLP) decla­ra­ram a inde­pen­dên­cia no exí­lio na Argé­lia. No pri­mei­ro momen­to, Cuba, Chi­na, Argé­lia e outros paí­ses logo reco­nhe­ce­ram o direi­to a auto­de­ter­mi­na­ção do povo pales­ti­no.

Nos anos 2000 e 2001, após a 2º inti­fa­da — gran­de revol­ta dos pales­ti­nos con­tra a ocu­pa­ção isra­e­len­ses em seus ter­ri­tó­ri­os — foi aumen­tan­do a ade­são dos paí­ses ao reco­nhe­ci­men­to da inde­pen­dên­cia e do Esta­do da Pales­ti­na, segun­do expli­cou o pro­fes­sor do IDP Rob­son Val­dez.

O espe­ci­a­lis­ta enten­de que o não reco­nhe­ci­men­to da Pales­ti­na pelos paí­ses mais pode­ro­sos, como os do G7, tem rela­ção com a posi­ção que os Esta­dos Uni­dos exer­cem no mun­do, o que difi­cul­ta que seus prin­ci­pais ali­a­dos tomem deci­sões à reve­lia de Washing­ton.

“As nego­ci­a­ções bila­te­rais entre os Esta­dos Uni­dos e seus ali­a­dos podem ter um ele­men­to de coer­ção, ou de con­ven­ci­men­to, que faz com que eles não se posi­ci­o­nem aber­ta­men­te favo­rá­veis a um Esta­do pales­ti­no livre, autô­no­mo e inde­pen­den­te. Os inte­res­ses intrin­ca­dos dos Esta­dos Uni­dos com seus ali­a­dos pode ser a gran­de fon­te des­sa difi­cul­da­de des­ses ali­a­dos em se posi­ci­o­na­rem em favor da Pales­ti­na”, argu­men­tou Val­dez.

Ao mes­mo tem­po que defen­de a solu­ção de dois esta­dos, os Esta­dos Uni­dos argu­men­tam que essa solu­ção deve ser cons­truí­da por meio de um acor­do entre Isra­el e a Auto­ri­da­de Pales­ti­na. Já o gover­no de Isra­el tem nega­do essa solu­ção. O pri­mei­ro-minis­tro Ben­ja­mim Netanyahu tem argu­men­ta­do que a auto­ri­za­ção para cri­ar um Esta­do pales­ti­no seria uma recom­pen­sa pelo 7 de outu­bro e colo­ca­ria a segu­ran­ça de Isra­el em ris­co.

Para a Pales­ti­na ser reco­nhe­ci­da ofi­ci­al­men­te como Esta­do, é pre­ci­so apro­var a medi­da no Con­se­lho de Segu­ran­ça da ONU, medi­da que vem sen­do veta­da pelos Esta­dos Uni­dos.

Des­de 2012, a Auto­ri­da­de Pales­ti­na atua como “obser­va­dor” nas Nações Uni­das, o que não lhe dá direi­to a voto.

Edi­ção: Fer­nan­do Fra­ga

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Milei corta verba de províncias e abre crise política na Argentina

Repro­du­ção: © REUTERS/Agustin Mar­car­lan Fundo de Fortalecimento Fiscal de Buenos Aires é cancelado Publi­ca­do em …