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Afetados pela Usina de Belo Monte recebem doações em campanha de Natal

Repro­du­ção: © Mark­su­el Medei­ros /Divukgação

Líderes comunitários dizem que população passa dificuldades


Publi­ca­do em 23/12/2023 — 11:22 Por Lety­cia Bond — Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — São Pau­lo

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Líde­res comu­ni­tá­ri­os rea­li­zam nova­men­te, este ano, a cam­pa­nha Natal no Bei­ra­dão, que bus­ca garan­tir melho­res con­di­ções às famí­li­as ribei­ri­nhas atin­gi­das pela cons­tru­ção da Usi­na Hidre­lé­tri­ca de Belo Mon­te, no Rio Xin­gu, no Pará. A cam­pa­nha é orga­ni­za­da pelo Con­se­lho Ribei­ri­nho do Xin­gu e pela Asso­ci­a­ção Ribei­ri­nha da Comu­ni­da­de do Goi­a­ni­nho e con­ta com o apoio do Minis­té­rio Públi­co Fede­ral (MPF).

Qual­quer pes­soa pode con­tri­buir com doa­ções. Vin­cu­la­do à asso­ci­a­ção, Rai­mun­do da Cruz e Sil­va comen­ta que as famí­li­as, que antes da exis­tên­cia da usi­na, tinham “far­tu­ra na pes­ca”, pre­ci­sam até mes­mo de itens fun­da­men­tais, como mate­ri­al esco­lar, rou­pas, cal­ça­dos para as cri­an­ças irem à esco­la, além de ces­tas bási­cas.

Brasília (DF) 22/12/2023 – Moradores afetados pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte recebem doações arrecadadas pela Campanha Natal no BeiradãoFoto: Jandessa de Jesus /Divulgação
Repro­du­ção: Mora­do­res afe­ta­dos pela Usi­na Hidre­lé­tri­ca de Belo Mon­te rece­bem doa­ções arre­ca­da­das pela Cam­pa­nha Natal no Bei­ra­dão  — Jan­des­sa de Jesus /Divulgação

A usi­na é des­ta­ca­da pela Nor­te Ener­gia como “a mai­or hidre­lé­tri­ca 100% bra­si­lei­ra”. Con­tu­do, sem­pre moti­vou dis­cus­sões, por con­ta dos impac­tos soci­o­am­bi­en­tais que cau­sou. No site da com­pa­nhia, a linha do tem­po que reto­ma a his­tó­ria do mega empre­en­di­men­to men­ci­o­na que, em feve­rei­ro de 2010, o Ins­ti­tu­to Bra­si­lei­ro do Meio Ambi­en­te e dos Recur­sos Natu­rais Reno­vá­veis (Iba­ma) con­ce­deu a licen­ça pré­via da obra, impon­do como con­di­ção que a com­pa­nhia fizes­se 40 ajus­tes.

Em junho de 2015, as obras foram ini­ci­a­das e o Ins­ti­tu­to Soci­o­am­bi­en­tal (ISA) publi­cou o rela­tó­rio Dos­siê Belo Mon­te: Não há con­di­ções para a Licen­ça de Ope­ra­ção, deta­lhan­do os efei­tos nas comu­ni­da­des ribei­ri­nhas e indí­ge­nas que vivem na região. Os reser­va­tó­ri­os da usi­na ficam entre os muni­cí­pi­os de Alta­mi­ra, Bra­sil Novo e Vitó­ria do Xin­gu. A área de abran­gên­cia do empre­en­di­men­to tam­bém inclui os muni­cí­pi­os de Sena­dor José Por­fí­rio e Ana­pu, mar­ca­do pelo assas­si­na­to da mis­si­o­ná­ria nor­te-ame­ri­ca­na Dorothy Stang, da Con­gre­ga­ção das Irmãs de Notre Dame de Namur e da Comis­são Pas­to­ral da Ter­ra (CPT).

A Nor­te Ener­gia e o gover­no fede­ral sabi­am dos efei­tos sobre a popu­la­ção local e fize­ram estu­dos de reas­sen­ta­men­tos de pelo menos 9 mil pes­so­as.

De acor­do com o MPF, há oito anos essas famí­li­as ribei­ri­nhas foram expul­sas do Rio Xin­gu para o enchi­men­to do reser­va­tó­rio da usi­na e ain­da não retor­na­ram ao ter­ri­tó­rio de ori­gem. “Essas famí­li­as tive­ram suas vidas sus­pen­sas e sobre­vi­vem com difi­cul­da­de em um rio trans­for­ma­do”, apon­ta o órgão. Enquan­to algu­mas famí­li­as reo­cu­pa­ram os anti­gos locais, outras aguar­dam na peri­fe­ria de Alta­mi­ra pela pos­si­bi­li­da­de do retor­no.

Jose­fa Cama­ra, que repre­sen­ta o Con­se­lho Ribei­ri­nho do Xin­gu, cons­ti­tuí­do em 2016, men­ci­o­na que famí­li­as rece­be­ram inde­ni­za­ções com valo­res que vari­a­ram bas­tan­te e que, ao todo, eram 16 comu­ni­da­des que vivi­am nas ilhas afe­ta­das no seu modo de vida tra­di­ci­o­nal. “Por exem­plo, a empre­sa não con­si­de­ra­va que uma casa de palha deve­ria ser bem inde­ni­za­da, mas uma casa de alve­na­ria, sim”, expli­ca ela sobre um dos cri­té­ri­os ado­ta­dos para se fixar o valor pago, ao se refe­rir às famí­li­as em tor­no de Alta­mi­ra.

Segun­do Rai­mun­do da Cruz e Sil­va, par­ce­la sig­ni­fi­ca­ti­va dos ribei­ri­nhos ain­da depen­de de bene­fí­ci­os do gover­no para sus­ten­tar suas casas. “Belo Mon­te não trou­xe nenhum bene­fí­cio”, diz ele, mora­dor de Ana­pu, que, na sua ava­li­a­ção, “foi sub­me­ti­da à entra­da de mui­ta gen­te, como Alta­mi­ra” e, como con­sequên­cia, a “uma onda de vio­lên­cia”.

“Em vez de tra­zer desen­vol­vi­men­to, trou­xe vio­lên­cia. Esse foi o lega­do de Belo Mon­te”, resu­me, sali­en­tan­do que até quem tinha um peque­no negó­cio que­brou.

Ele pon­tua ain­da que, ape­sar de cola­bo­rar com a mobi­li­za­ção em tor­no da cam­pa­nha, sabe que as doa­ções são ape­nas uma aju­da pon­tu­al dian­te da penú­ria das famí­li­as. “O ano tem 365 dias e a cam­pa­nha é no Natal. É mui­to tem­po para quem tem fome”, decla­ra Cruz e Sil­va.

Um estu­do ela­bo­ra­do por pes­qui­sa­do­res bra­si­lei­ros e divul­ga­do na revis­ta Sci­en­ce Advan­ces reve­lou que a cons­tru­ção da usi­na tri­pli­cou as emis­sões de gases de efei­to estu­fa no entor­no do reser­va­tó­rio que a abas­te­ce. Os resul­ta­dos da pes­qui­sa foram divul­ga­dos em 2021.

“Hoje a vio­lên­cia mai­or é o que acon­te­ce no rio, a vio­lên­cia da escas­sez de ali­men­tos, de ficar sem for­ma de sobre­vi­vên­cia”, fina­li­za o repre­sen­tan­te da asso­ci­a­ção, quan­do per­gun­ta­do sobre quais as for­mas que a vio­lên­cia tem assu­mi­do na região, mais recen­te­men­te.

Agên­cia Bra­sil pro­cu­rou a Nor­te Ener­gia para comen­tar a situ­a­ção dos ribei­ri­nhos e aguar­da retor­no.

Edi­ção: Ali­ne Leal

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