...
domingo ,14 dezembro 2025
Home / Cultura / Água, fogo e fumaça marcam desfiles do 1º dia do grupo especial

Água, fogo e fumaça marcam desfiles do 1º dia do grupo especial

Quatro escolas se apresentaram na Sapucaí na noite desse domingo

Mar­i­ana Tokar­nia — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 03/03/2025 — 09:18
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro (RJ), 03/03/2025 – Estação Primeira de Mangueira desfila no primeiro dia de carnaval do grupo Especial na Marquês de Sapucaí, na região central do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: © Tomaz Silva/Agência Brasil

Detal­h­es em neon que bril­havam no escuro, ele­men­tos como água, fogo e fumaça, além de car­ros alegóri­cos com partes móveis foram alguns dos recur­sos usa­dos pelas esco­las de sam­ba que des­fi­la­ram no primeiro dia do Grupo Espe­cial no Sam­bó­dro­mo da Mar­quês de Sapu­caí, no Rio de Janeiro, na noite desse domin­go (2) e madru­ga­da de hoje (3). As religiões de matriz africanas e afro-indí­ge­nas foram o cen­tro das apre­sen­tações.

esco­la que abriu os des­files foi a Unidos de Padre Miguel, a grande vence­do­ra da Série Ouro de 2024 e que retor­na ao Grupo Espe­cial depois de mais de 50 anos, já que a últi­ma par­tic­i­pação foi em 1972.

Rio de Janeiro (RJ), 02/03/2025 – Unidos de Padre Miguel abre os desfiles de carnaval do grupo Especial na Marquês de Sapucaí, na região central do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: Unidos de Padre Miguel abre os des­files de car­naval do grupo Espe­cial na Mar­quês de Sapu­caí — Foto Tomaz Silva/Agência Brasil

A agremi­ação ver­mel­ha e bran­ca entrou na Sapu­caí às 22h, com o enre­do Egbé Iyá Nassô, uma hom­e­nagem a Iyá Nassô, uma das fun­dado­ras do Can­domblé da Bar­ro­quin­ha, na Bahia, que deu origem ao Ter­reiro Casa Bran­ca do Engen­ho Vel­ho, em Sal­vador, o tem­p­lo de religião de matriz africana mais anti­go do país.

Um dos ele­men­tos mais mar­cantes foi o Boi Ver­mel­ho, rubro da mes­ma cor de Xan­gô, de Vila Vin­tém, local­iza­da entre os bair­ros de Realen­go e Padre Miguel, na zona oeste da cap­i­tal flu­mi­nense, berço da esco­la de sam­ba.

O des­file con­tou ain­da com a pre­sença, em um dos car­ros alegóri­cos, dos fil­hos do Ter­reiro Casa Bran­ca do Engen­ho Vel­ho, aque­les que her­daram dos ances­trais os cuida­dos com a fé e com a casa.

“Para nós do Ìyá Nassô foi um even­to mar­avil­hoso, não pode­ria ser mel­hor” diz a Iyálorisá Neuza Cruz, logo após descer do car­ro alegóri­co ao fim do des­file. “Foi um pre­sente, um pre­sente ances­tral que recebe­mos. E esta­mos muito felizes”.

Segun­do a esco­la, o enre­do apre­sen­ta a mul­her negra como for­mado­ra de uma das faces mais mar­cantes da nação, sendo ela, ao mes­mo tem­po, a “Mãe de todos os Ilês [casas ou ter­reiros]” e a ale­go­ria rep­re­sen­ta­ti­va da força de todas as mul­heres negras que tecem a história cotid­i­ana­mente, em espe­cial as do Egbé [comu­nidade] Vila Vintém, o que jus­ti­fi­ca a importância da nar­ra­ti­va da Unidos de Padre Miguel neste car­naval.

Itã de Oxalá

A segun­da esco­la a des­fi­lar foi a Imper­a­triz Leopoldinense, de Ramos, na zona norte da cidade, que tem nove títu­los do grupo de elite, sendo o últi­mo em 2023.

Rio de Janeiro (RJ), 02/03/2025 – Imperatriz Leopoldinense desfila no primeiro dia de carnaval do grupo Especial na Marquês de Sapucaí, na região central do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: Imper­a­triz Leopoldinense des­fi­la no primeiro dia de car­naval do grupo Espe­cial na Mar­quês de Sapu­caí — Foto Tomaz Silva/Agência Brasil

O enre­do da esco­la de cores verde, bran­co e doura­do — Ómi Tútu ao Olú­fon — Água fres­ca para o sen­hor de Ifón — tra­ta da cer­imô­nia das águas de Oxalá, basea­da em uma mitológ­i­ca viagem do orixá, rei de Ifón, ao reino do ami­go Xangô, durante a qual sofreu por ações vinga­ti­vas cometi­das por Exu.

“Foi mar­avil­hoso! Eu acho que a gente cumpriu o que que­ria faz­er. Pas­samos bem, pas­samos no tem­po, pas­samos felizes. Acho que con­seguimos mostrar o que é o Itã [lendas da cul­tura iorubá] de Oxalá. E é isso, ago­ra é esper­ar a Quar­ta-feira de Cin­za”, disse a pres­i­dente do blo­co, Cátia Dru­mond.

A esco­la expli­ca que, em lin­has gerais, Itã é um rela­to da cul­tura ioru­bá que trans­mite con­hec­i­men­to, val­ores e ensi­na­men­tos a par­tir de pas­sagens míticas e biográficas asso­ci­adas aos deuses do panteão africano. Os relatos são res­guarda­dos pela oral­i­dade e tèm o papel de preser­var memórias sagradas e ritualísticas, uma vez que, na cul­tura ioru­bá não exis­tem reg­istros escritos e a palavra é veículo de conexão com o divi­no. A nar­ra­ti­va é, por­tan­to, fru­to da escu­ta.

Malungueiros da Jurema

A ter­ceira esco­la a des­fi­lar foi a atu­al campeã Unidos do Viradouro, esco­la ver­mel­ha e bran­ca de Niterói, no grande Rio, que bus­ca seu quar­to títu­lo com o enre­do Malun­guin­ho: o Men­sageiro de Três Mun­dos.

Rio de Janeiro (RJ), 03/03/2025 – Unidos do Viradouro desfila no primeiro dia de carnaval do grupo Especial na Marquês de Sapucaí, na região central do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: Unidos do Viradouro se apre­sen­ta na Mar­quês de Sapu­caí. Foto Tomaz Silva/Agência Brasil

O enre­do hom­e­nageia o líder quilom­bo­la do Catucá, em Per­nam­bu­co, João Batista, con­heci­do como Malun­guin­ho, persegui­do e mor­to por autori­dades impe­ri­ais em 1835. Na religião Jure­ma, Malun­guin­ho, evo­ca­do no iní­cio das cer­imô­nias, é a úni­ca enti­dade que pode ser chama­da de Mestre, Cabo­clo e Exu.

O des­file con­tou com diver­sos recur­sos como adereços em neon, que bril­havam no escuro, além de car­ros alegóri­cos com água, fogo e fumaça.

Ao encer­rar o des­file, Duda Almei­da, que está grávi­da da primeira fil­ha, não con­teve as lágri­mas. “Espero que a gente con­si­ga alcançar o bicam­pe­ona­to, mere­ce­mos muito. Eu estou muito feliz de ter atrav­es­sa­do essa aveni­da. Grávi­da da min­ha primeira fil­ha, sou a ter­ceira ger­ação da min­ha família que des­fi­la grávi­da. É mui­ta emoção. Estou muito feliz de ter con­segui­do”.

Em um dos ensaios da esco­la, ela pub­li­cou nas redes soci­ais: “Ago­ra, Angela pode diz­er que des­fi­la des­de a bar­ri­ga da mãe dela!”. Duda des­filou na ala Chama de Liber­dade, Fogo da Justiça e Fag­ul­ha Pri­mor­dial, que con­tou com três destaques performáticos rep­re­sen­tan­do o calor da restauração e justiça. Ela rep­re­sen­tou o Fogo de Justiça.

O des­file con­tou com uma ala para hom­e­nagear a nação Jure­ma, a ala Malungueiros da Jure­ma. Entre os hom­e­nagea­d­os esta­va o coor­de­nador da rede Jure­ma de Per­nam­bu­co, Jorge Arru­da.

“Estou encan­ta­do, feliz e grat­i­fi­ca­do, porque é uma resistên­cia quilom­bo­la, é uma resistên­cia negra, de edu­cação antir­racista”, disse. “O des­file foi sur­pre­sa porque nós não sabíamos, nem a roupa nós sabíamos, foi tudo muito secre­to, e eu ain­da estou com as per­nas tremen­do. É grandioso o car­naval, é grandioso ver Malun­guin­ho porque há 25 anos nós começamos esse tra­bal­ho, que hoje a gente vê coroa­do na Sapu­caí”.

Verde e rosa

Foi a verde e rosa Estação Primeira de Mangueira que encer­rou os des­files do primeiro dia do Grupo Espe­cial. A esco­la, que é dona de 20 títu­los, quer lev­an­tar a taça nova­mente, depois de seis anos.

O enre­do À Flor da Ter­ra — No Rio da Negri­tude Entre Dores e Paixões fala da per­sistên­cia, no Rio de Janeiro, da cul­tura ban­tu, comum a diver­sos povos da África sub­saar­i­ana, como habi­tantes do Con­go, de Ango­la e Moçam­bique. A ideia do enre­do é exal­tar essa cul­tura, que cos­tu­ma ser rel­e­ga­da, ape­sar de grande parte dos escravos que apor­taram no Brasil ser ban­tu

O des­file começa com a água, rep­re­sen­tan­do o oceano que conec­ta os dois con­ti­nentes, África e Améri­ca, em uma história de dor e trans­for­mação. E segue até os dias atu­ais, em um futuro ances­tral, molda­do pela memória dos antepas­sa­dos, em bus­ca da construção de uma sociedade com justiça social.

Um dos car­ros alegóri­cos trouxe diver­sas caixas de som empil­hadas, reme­tendo aos sons e danças que hoje ecoam nas ruas, como o pass­in­ho, o sam­ba e o funk.

Rio de Janeiro (RJ), 03/03/2025 – Estação Primeira de Mangueira desfila no primeiro dia de carnaval do grupo Especial na Marquês de Sapucaí, na região central do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: Rio de Janeiro (RJ), 03/03/2025 – Estação Primeira de Mangueira des­fi­la no primeiro dia de car­naval do grupo Espe­cial na Mar­quês de Sapu­caí, na região cen­tral do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil — Tomaz Silva/Agência Brasil

Ayla, foi uma das cri­anças que des­filou na ala infan­til, chama­da É Pre­ciso um Quilom­bo para Cri­ar um Moleque. Ela está no segun­do des­file, ao lado da tia, Janaí­na Mar­ques, que está no 22º des­file como pas­sista. Para a tia, o enre­do deste ano é muito impor­tante. “É um tema muito impor­tante, que traz a nos­sa vivên­cia. A história do povo mis­ci­ge­na­do do Brasil e que con­ta nos­sa história”, diz a tia.

Para quem assis­tiu o des­file e tam­bém para quem não pode ver, Ayla deixa um reca­do: “Torçam para a gente gan­har”.

Requisitos

Todas as esco­las cumpri­ram o tem­po deter­mi­na­do para os des­files, que é de, no máx­i­mo, 80 min­u­tos. A Mangueira ter­mi­nou o des­file com o tem­po crava­do em 79 min­u­tos. Ao menos três pes­soas pre­cis­aram ser socor­ri­das na dis­per­são por terem pas­sa­do mal por causa do calor ou mes­mo do peso dos fig­uri­nos.

Neste domin­go foi a estreia do novo mod­e­lo de qua­tro des­files por noite, durante três dias de apre­sen­tação do Grupo Espe­cial. Até o ano pas­sa­do, eram seis esco­las por noite em dois dias, domin­go e segun­da-feira. Os des­files começaram às 22h e ter­mi­naram por vol­ta das 4h des­ta segun­da.

As esco­las são avali­adas em nove que­si­tos: bate­ria, sam­ba-enre­do, har­mo­nia, evolução, enre­do, ale­go­rias e adereços, fan­tasias, comis­são de frente e mestre-sala e por­ta-ban­deira.

O resul­ta­do será divul­ga­do na quar­ta-feira (5), quan­do será con­heci­da a esco­la campeã.

Os des­files seguem na noite de hoje, com Unidos da Tiju­ca, Bei­ja-Flor de Nilópo­lis, Acadêmi­cos do Salgueiro e Unidos de Vila Isabel. Nes­ta terça se apre­sen­tam Moci­dade Inde­pen­dente de Padre Miguel, Paraí­so do Tuiu­ti, Acadêmi­cos do Grande Rio e Portela.

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Hoje é Dia: Olavo Bilac e Nuno Roland são destaques da semana

Confira as principais efemérides da semana entre 14 e 20 de dezembro Edgard Mat­su­ki — …

3b2c09210a068c0947d7d917357ae19d