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Apesar de avanço do Pix, dinheiro físico resiste em 30 anos de real

Repro­dução: © Mar­cel­lo Casal Jr / Agên­cia Brasil

Circulação de cédulas e moedas equivale a pouco mais de 3% do PIB


Publicado em 01/07/2024 — 06:33 Por Wellton Máximo e Mariana Tokarnia – Repórteres da Agência Brasil — Brasília e Rio de Janeiro

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Na feira do Largo do Macha­do, na zona sul do Rio de Janeiro, o paga­men­to eletrôni­co não é una­n­im­i­dade. Com medo de taxas de maquin­in­has de cartão ou sem tem­po para tirar o celu­lar do bol­so e abrir o aplica­ti­vo do Pix, há con­sum­i­dores que ain­da pref­er­em pagar as com­pras com cédu­las e moedas, ape­sar do avanço de meios eletrôni­cos de paga­men­to.

“Ten­ho usa­do muito [cartão de] débito e Pix, mas hoje terei de sacar din­heiro no ban­co. A mul­her botou um real em cima dos limões que com­prei porque o preço aumen­tou R$ 1 por causa da taxa de cartão”, diz a servi­do­ra públi­ca Rena­ta Mor­eira, 47 anos. “Há lugares estratégi­cos em que vou com din­heiro, cédu­la. Às vezes, o Pix dá tra­bal­ho porque tem de tirar o tele­fone da bol­sa [em lugares de risco] e tem de ter aces­so à inter­net”, com­ple­ta.

Segun­do o Ban­co Cen­tral (BC), a cir­cu­lação de papel-moe­da per­siste em 30 anos de cri­ação do real. Na últi­ma sex­ta-feira (28), con­forme as estatís­ti­cas mais atu­al­izadas da autori­dade mon­etária, exis­ti­am R$ 347,331 bil­hões de cédu­las e de moedas em cir­cu­lação na econo­mia, o equiv­a­lente a 3,13% do Pro­du­to Inter­no Bru­to (PIB, soma dos bens e serviços pro­duzi­dos no país).

A pro­porção está dimin­uin­do após a pan­demia de covid-19. Em infor­mações exclu­si­vas repas­sadas à Agên­cia Brasil, o Depar­ta­men­to de Meio Cir­cu­lante do BC infor­ma que o per­centu­al de papel-moe­da em cir­cu­lação subiu de cer­ca de 2% em mea­d­os dos anos 1990 para um val­or ligeira­mente abaixo de 4% em 2007. A pro­porção man­teve-se ao redor desse nív­el até 2019, dis­paran­do para 5% do PIB em 2020, com a cri­ação do auxílio emer­gen­cial durante a pan­demia.

Segun­do o BC, após a pan­demia de covid-19, o val­or de cédu­las e de moedas em cir­cu­lação tem se man­ti­do estáv­el em torno de R$ 345 bil­hões, com a pro­porção em relação ao PIB cain­do. “Ape­sar do surg­i­men­to de novos meios de paga­men­to, como o Pix, para apre­sen­tar impactos sobre os hábitos de uso dos meios de paga­men­to ante­ri­or­mente exis­tentes será necessário algum tem­po, a fim de que a evolução dess­es impactos pos­sa ser clara­mente mapea­da”, infor­mou o Depar­ta­men­to de Meio Cir­cu­lante em nota.

Comparação

Em maio, o Pix movi­men­tou R$ 2,137 tril­hões, o equiv­a­lente a 19,26% do PIB. A quan­tia e o per­centu­al, no entan­to, não podem ser dire­ta­mente com­para­dos com os 3,13% do PIB em cédu­las e em moedas. Isso porque o Ban­co Cen­tral mede o val­or de todas as transações eletrôni­cas, enquan­to o din­heiro físi­co é cal­cu­la­do com base no estoque fora dos ban­cos, sem con­sid­er­ar as movi­men­tações.

Segun­do BC, o sis­tema de trans­fer­ên­cias instan­tâneas, que fun­ciona 24 horas por dia, tem favore­ci­do a inclusão finan­ceira da pop­u­lação. Con­forme dados da Gerên­cia de Gestão e Oper­ação do Pix, ao con­sid­er­ar transações até dezem­bro de 2022, mais de 71,5 mil­hões de pes­soas que não fazi­am trans­fer­ên­cias eletrôni­cas antes do Pix pas­saram a faz­er esse tipo de oper­ação.

Em relação às faixas de ren­da, o sis­tema é usa­do por pes­soas de todos os estratos finan­ceiros. Con­forme a edição mais recente do Relatório de Gestão do Pix, pos­suem pelo menos uma chave Pix 71% das pes­soas com um salário mín­i­mo, 85% entre um e dois salários mín­i­mos, 86% das pes­soas de dois a cin­co salários mín­i­mos, 90% entre cin­co e dez salários mín­i­mos e 89% a par­tir de dez salários mín­i­mos.

Idade

O prin­ci­pal fator de resistên­cia ao Pix e de prefer­ên­cia pelo papel-moe­da e pelo cartão de plás­ti­co, no entan­to, é a idade. Segun­do o mes­mo relatório, 93% das pes­soas de 20 a 29 anos pos­suem uma chave. A pro­porção per­manece em níveis semel­hantes nas demais faixas etárias: 91% de 30 a 39 anos e 92% de 40 a 49 anos. Nas faixas seguintes, o per­centu­al cai: 79% de 50 a 59 anos e ape­nas 55% na faixa aci­ma de 60 anos.

Fre­quen­ta­do­ra da feira do Largo do Macha­do, a aposen­ta­da Mari­na de Souza, 80 anos, per­son­ifi­ca a ret­icên­cia com o Pix, preferindo cartões e din­heiro físi­co. “Não pago com Pix. Não gos­to. Pago mais com cartão de débito, menos na feira, onde só uso din­heiro porque eles ano­tam uma coisa, a gente se dis­trai, e eles cobram out­ra. Então ten­ho sem­pre aque­le din­heir­in­ho saca­do, que fica reser­va­do para a feira. As out­ras com­pras, só com cartão”, jus­ti­fi­ca.

“Ain­da estou na fase do din­heiro e do cartão. Não sou muito de Pix ain­da não. Ten­ho [uma chave], mas não aderi muito. Estou sem­pre com o din­heir­in­ho para pagar as con­tas”, diz a dona de casa Hil­da Pereira, 65 anos, tam­bém con­sum­i­do­ra da feira do Largo do Macha­do.

Segun­do o BC, parte da decisão de cri­ar as modal­i­dades de Pix saque e de Pix tro­co, onde o con­sum­i­dor trans­fere um val­or por Pix a um comér­cio e saca a difer­ença em espé­cie, deve-se à predileção pelo papel-moe­da por parte da pop­u­lação. Con­forme a autori­dade mon­etária, a prefer­ên­cia é maior em municí­pios do inte­ri­or com pou­ca cober­tu­ra bancária.

“A pos­si­bil­i­dade de sacar din­heiro usan­do o Pix teve como obje­ti­vo prop­i­ciar mel­hores condições de ofer­ta do serviço à sociedade, prin­ci­pal­mente em regiões em que a cober­tu­ra da rede bancária é insu­fi­ciente. Parte da pop­u­lação brasileira ain­da tem hábito de uso do din­heiro em espé­cie e care­cia de uma rede ade­qua­da”, expli­cou o Ban­co Cen­tral em nota à Agên­cia Brasil.

Endividamento

Pro­fes­so­ra de econo­mia da Fun­dação Getulio Var­gas (FGV), Virene Matesco diz que a prefer­ên­cia pelo papel-moe­da é desigual con­forme a região do país. “Temos um país extrema­mente het­erogê­neo. Quero saber se nesse inte­ri­orzão do país alguém fala de Pix. Porque mui­ta gente não tem celu­lar mod­er­no”, con­sta­ta. Segun­do ela, o maior avanço de trans­fer­ên­cias eletrôni­cas como o Pix, e futu­ra­mente o Drex (ver­são dig­i­tal do real), está na redução de cus­tos de transação e no aumen­to da veloci­dade de cir­cu­lação da moe­da.

Virene, no entan­to, admite que o avanço dos sis­temas eletrôni­cos de paga­men­to tem um risco asso­ci­a­do: a ampli­ação da tendên­cia de o cidadão endi­vi­dar-se. “A veloci­dade da cir­cu­lação aumen­ta vio­len­ta­mente, assim como a capaci­dade de o cor­ren­tista entrar no ver­mel­ho. O prob­le­ma pio­ra com as apos­tas vir­tu­ais de jogu­in­hos online. A tec­nolo­gia ben­e­fi­cia mui­ta gente, mas tam­bém traz peri­gos”, adverte.

Edição: Graça Adju­to

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