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Ato em Cubatão lembra 40 anos do incêndio da Vila Socó

Repro­du­ção: © SIND­PE­TRO-LP/­Di­vul­ga­ção

Oficialmente, tragédia deixou 93 mortos


Publi­ca­do em 25/02/2024 — 17:55 Por Eli­a­ne Gon­çal­ves– Repór­ter da Radi­o­a­gên­cia Naci­o­nal — São Pau­lo

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A Comis­são da Ver­da­de da OAB de Cuba­tão (SP) vai pedir para que os nomes das víti­mas do incên­dio da Vila Socó pas­sem a inte­grar a lis­ta de mor­tos e desa­pa­re­ci­dos polí­ti­cos da dita­du­ra mili­tar. O pedi­do vai ser pro­to­co­la­do jun­to à Comis­são Inte­ra­me­ri­ca­na de Direi­tos Huma­nos.

A deci­são foi anun­ci­a­da nes­te domin­go (25) em um Ato Ecu­mê­ni­co no memo­ri­al às víti­mas do incên­dio na Vila São José, como foi reba­ti­za­da a comu­ni­da­de.

Há 40 anos, na madru­ga­da de 25 de feve­rei­ro de 1984, um incên­dio pro­vo­ca­do pelo vaza­men­to de gaso­li­na de um duto da Petro­brás incen­di­ou a fave­la onde mora­vam cer­ca de 6 mil pes­so­as.

Segun­do o rela­to de mora­do­res, o chei­ro de gaso­li­na come­çou a ser nota­do na comu­ni­da­de por vol­ta das 11h da manhã. Mais de doze horas depois, por vol­ta da meia noi­te, acon­te­ceu a pri­mei­ra explo­são que deu iní­cio ao fogo que se alas­trou por toda a fave­la, for­ma­da por bar­ra­cos fin­ca­dos em pala­fi­tas que foram enchar­ca­dos pela gaso­li­na que vazou ao lon­go de horas dos dutos que fica­vam expos­tos no man­gue.

Para  Doji­val Viei­ra dos San­tos, advo­ga­do, ati­vis­ta do Cole­ti­vo Cida­da­nia Antir­ra­cis­mo e Direi­tos Huma­nos e que inte­gra a Comis­são da OAB de Cuba­tão, alguns ele­men­tos jus­ti­fi­cam o reco­nhe­ci­men­to como víti­mas da dita­du­ra mili­tar: o incên­dio acon­te­ceu no final do gover­no do últi­mo pre­si­den­te mili­tar, Joao Bap­tis­ta Figuei­re­do e Cuba­tão era uma cida­de clas­si­fi­ca­da como Área de Segu­ran­ça Naci­o­nal, por­tan­to, admi­nis­tra­da por um pre­fei­to biô­ni­co indi­ca­do pelo gover­no fede­ral.

Para Doji­val, a tra­gé­dia pode­ria ter sido evi­ta­da se a pre­fei­tu­ra tives­se aci­o­na­do a Defe­sa Civil quan­do havia tem­po de eva­cu­ar os mora­do­res da comu­ni­da­de. Além dis­so, segun­do ele, hou­ve uma ope­ra­ção para impe­dir as inves­ti­ga­ções, o que ele cha­ma de Ope­ra­ção Aba­fa:

“Por que que nós fala­mos de ope­ra­ção aba­fa? Pri­mei­ro, redu­ziu-se e mini­mi­zou-se para 93 um núme­ro de mor­tes que o pró­prio Minis­té­rio Públi­co esti­ma­va entre 508 e 700. Segun­do: esta redu­ção do núme­ro de mor­tes tam­bém redu­ziu o impac­to no mer­ca­do para a Petro­brás, tan­to do pon­to de vis­ta naci­o­nal quan­to inter­na­ci­o­nal. Nós esta­mos falan­do de uma esta­tal gigan­te como é a Petro­bras, e obvi­a­men­te isso tem refle­xos para a empre­sa. Depois, a garan­tia da impu­ni­da­de dos res­pon­sá­veis. Nin­guém jamais foi puni­do”.

Para Doji­val, o incên­dio da Vila Soco em Cuba­tão foi uma espé­cie de retra­to do mode­lo econô­mi­co implan­ta­do pela dita­du­ra mili­tar:

“Cuba­tão era e con­ti­nua sen­do uma área estra­té­gi­ca. Fica a 12 quilô­me­tros do mai­or por­to de expor­ta­ção da Amé­ri­ca Lati­na e a 60 quilô­me­tros do mai­or polo finan­cei­ro que é São Pau­lo. Ago­ra, é pos­sí­vel ins­ta­lar um par­que indus­tri­al com­ple­xo, como esse debai­xo de uma ser­ra, que é a Ser­ra do Mar, em uma área pan­ta­no­sa, é pos­sí­vel? Para eles foi pos­sí­vel, sabe por quê? Por­que o obje­ti­vo deles era só lucro. E a Vila Socó pro­va isso”.

Entre as pou­cas pes­so­as inde­ni­za­das pelo aci­den­te, está Nei­gi­la Apa­re­ci­da Soa­res da Sil­va. Ela Tinha 4 anos e sobre­vi­veu por­que na noi­te do incên­dio esta­va na casa da avó. Ela e a irmã per­de­ram a mãe, o pai e o tio. Rece­be­ram uma inde­ni­za­ção, em 1985, de 19 mil cru­za­dos. Em valo­res atu­ais, segun­do cál­cu­los apre­sen­ta­dos por Doji­val, o equi­va­len­te a cer­da de R$ 7 mil.  Para Nei­gi­la, a jus­ti­ça ain­da não che­gou:

“A gen­te ficou saben­do que a gen­te teria direi­to a uma pen­são vita­lí­cia. A gen­te nun­ca rece­beu nenhum tipo de aju­da. Nenhum tipo de res­pal­do. Nun­ca rece­be­mos nenhum tipo de pen­são. Nem do gover­no, nem da pre­fei­tu­ra, nem de nin­guém. Nun­ca fomos pro­cu­ra­dos por nada. Paga­ram a inde­ni­za­ção e acham que tá tudo ok. Eu acho que ain­da há uma jus­ti­ça a ser fei­ta. Mes­mo pas­sa­dos 40 anos, eu acho que a jus­ti­ça ain­da vai che­gar.”

Abandono

O ato que cele­brou a memó­ria das víti­mas foi orga­ni­za­do pela OAB de Cuba­tão e a Asso­ci­a­ção de Mora­do­res da Vila São Jose. César da Sil­va Nas­ci­men­to, Secre­tá­rio de Gover­no da Pre­fei­tu­ra, par­ti­ci­pou da cerimô­nia. Ques­ti­o­na­do por­que a ges­tão muni­ci­pal não apoi­ou a home­na­gem, dis­se que a deci­são foi dei­xar a tare­fa para a soci­e­da­de civil.

Na sema­na pas­sa­da, a pre­fei­tu­ra fez a manu­ten­ção do peque­no memo­ri­al ins­ta­la­do na comu­ni­da­de para lem­brar o incên­dio que é um dos mai­o­res da his­tó­ria do país. Mas nem mes­mo a pla­ca com os nomes das 93 víti­mas iden­ti­fi­ca­das per­ma­ne­ce no local.

“Havia uma pla­ca de bron­ze foi fur­ta­da. Colo­ca­mos uma pla­ca de plás­ti­co. Mas tam­bém foi van­da­li­za­da. Tan­to que hoje o pen­sa­men­to do muni­cí­pio é tirar esse monu­men­to daqui e levar para a pra­ça, lá para fren­te. Para fazer um monu­men­to mais hon­ro­so que fique a vis­ta de todos” expli­cou César

O monu­men­to fica em um ter­re­no bal­dio entre a Rodo­via Anchi­e­ta e a linha de trem. A Petro­brás não par­ti­ci­pou da cerimô­nia. Ques­ti­o­na­da sobre a res­pon­sa­bi­li­da­de da empre­sa pela tra­gé­dia da Vila Socó, não hou­ve retor­no.

Edi­ção: Deni­se Gri­e­sin­ger

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