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Aviões ilegais entram diariamente no Território Yanomami

Repro­du­ção: © Poli­cia Federal/divulgação

Informação faz parte de levantamento do setor de inteligência da PF


Publi­ca­do em 21/01/2024 — 13:48 Por Pedro Rafa­el Vile­la – Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — Bra­sí­lia

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Prin­ci­pal apoio logís­ti­co para entra­da de armas e supri­men­tos e para reti­ra­da de ouro e miné­ri­os extraí­dos ile­gal­men­te da Ter­ra Indí­ge­na Yano­ma­mi (TIY), os voos ile­gais con­ti­nu­am ocor­ren­do dia­ri­a­men­te den­tro do ter­ri­tó­rio, mes­mo um ano após o iní­cio de ações de emer­gên­cia para con­ter a cri­se huma­ni­tá­ria vivi­da pelas popu­la­ções indí­ge­nas locais.

A infor­ma­ção foi dada pelo dire­tor de Amazô­nia e Meio Ambi­en­te da Polí­cia Fede­ral (PF), Hum­ber­to Frei­re de Bar­ros, com base em moni­to­ra­men­to e levan­ta­men­tos de inte­li­gên­cia fei­tos pela cor­po­ra­ção.   

Brasília (DF) 19/01/2024 - O diretor de Amazônia da Polícia Federal (PF), Humberto Freire de Barros, concederá entrevista para a Agência Brasil, fala sobre um ano das operações de desintrusão e combate ao garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami. Foto: Jose Cruz/Agência Brasil
Repro­du­ção: O dire­tor de Amazô­nia e Meio Ambi­en­te da Polí­cia Fede­ral, Hum­ber­to Frei­re de Bar­ros — José Cruz/Agência Bra­sil

“Dia­ri­a­men­te, há regis­tro de voos ile­gais. Nós temos fil­ma­gens, e há pes­so­as que pos­tam, inclu­si­ve, aque­le fato que acon­te­ceu, em novem­bro do ano pas­sa­do, de garim­pei­ros que fil­ma­ram uma comu­ni­da­de indí­ge­na sobre­vo­an­do ter­ra yano­ma­mi. Não há dúvi­da de que há esses voos ile­gais acon­te­cen­do”, reve­lou o dire­tor da PF, em entre­vis­ta exclu­si­va à Agên­cia Bra­sil. O caso men­ci­o­na­do por Frei­re de Bar­ros foi divul­ga­do por garim­pei­ros em rede soci­al enquan­to sobre­vo­a­vam uma comu­ni­da­de de indí­ge­nas iso­la­dos Moxihatëtë.

“Nós temos acom­pa­nha­men­tos de inte­li­gên­cia, levan­ta­men­tos de inte­li­gên­cia. E as equi­pes [da PF] que atu­am lá, não rara­men­te, cru­zam com voos em altu­ras dife­ren­tes. Eu, pes­so­al­men­te, em um dos sobre­vo­os que fiz na Ter­ra Indí­ge­na Yano­ma­mi, avis­tei uma aero­na­ve clan­des­ti­na. Eu rei­te­ro: é pre­ci­so ter um con­tro­le efe­ti­vo do espa­ço aéreo sobre o ter­ri­tó­rio”, acres­cen­tou Bar­ros.

con­tro­le do espa­ço aéreo sobre o ter­ri­tó­rio foi inten­si­fi­ca­do no iní­cio do ano pas­sa­do pela For­ça Aérea Bra­si­lei­ra (FAB), para impe­dir a entra­da de aero­na­ves não auto­ri­za­das den­tro do ter­ri­tó­rio. Des­de então, nenhum balan­ço mais amplo das ope­ra­ções foi divul­ga­do, como o núme­ro de aero­na­ves inter­cep­ta­das em voos ile­gais, por exem­plo. Há ain­da cer­ca de 40 pis­tas de pou­so que ser­vem ao garim­po e que não foram desa­ti­va­das. A repor­ta­gem da Agên­cia Bra­sil pro­cu­rou a FAB e o Minis­té­rio da Defe­sa para comen­ta­rem o moni­to­ra­men­to da PF que apon­ta a per­sis­tên­cia na entra­da de aviões ile­gais no ter­ri­tó­rio, mas, até o fecha­men­to des­ta repor­ta­gem, não obte­ve retor­no.

Em nota, a FAB ape­nas infor­mou ter ati­va­do uma nova ope­ra­ção de apoio logís­ti­co na dis­tri­bui­ção de ces­tas de ali­men­tos, no perío­do de 17 de janei­ro e 31 de mar­ço de 2024. A pre­vi­são é que cer­ca de 15 mil ces­tas sejam dis­tri­buí­das nas pró­xi­mas sema­nas.

“Embo­ra boa par­te dos garim­pei­ros tenha saí­do depois des­sas ações do gover­no no pri­mei­ro semes­tre do ano pas­sa­do, uma par­te deles, em uma esca­la menor, tem vol­ta­do des­de o segun­do semes­tre, com o enfra­que­ci­men­to das ações do con­tro­le do espa­ço aéreo”, dis­se à Agên­cia Bra­sil o geó­gra­fo e ana­lis­ta do Ins­ti­tu­to Soci­o­am­bi­en­tal (ISA) Este­vão Sen­ra. “Exis­te difi­cul­da­de de enten­der o que eles [FAB] fize­ram, e por que o que eles fize­ram não deu cer­to. Eles não deta­lham qual é a estra­té­gia, nem nada, e ale­gam que isso é tec­ni­ca­men­te impos­sí­vel, fazer o con­tro­le do espa­ço aéreo de uma área tão gran­de”, afir­mou Sen­ra.

Com qua­se 10 milhões de hec­ta­res, mai­or do que Por­tu­gal, a Ter­ra Indí­ge­na Yano­ma­mi é a mais exten­sa do país, e tem popu­la­ção esti­ma­da em cer­ca de 27 mil pes­so­as, de acor­do com dados do Cen­so 2022 do Ins­ti­tu­to Bra­si­lei­ro de Geo­gra­fia e Esta­tís­ti­ca (IBGE).

No auge da atu­a­ção garim­pei­ra recen­te den­tro do ter­ri­tó­rio, espe­ci­al­men­te entre 2018 e 2022, duran­te o gover­no de Jair Bol­so­na­ro, havia ain­da uma popu­la­ção extra esti­ma­da de 20 mil pes­so­as, entre garim­pei­ros e pes­so­as liga­das às ati­vi­da­des ile­gais. Por ser região de fron­tei­ra com a Vene­zu­e­la, cabe às For­ças Arma­das a defe­sa do ter­ri­tó­rio em uma fai­xa que se esten­de por até 100 quilô­me­tros. Há dois pelo­tões de fron­tei­ra das For­ças Arma­das den­tro do Ter­ri­tó­rio Yano­ma­mi, um no polo base de Suru­cu­cu, e outro no de Aua­ris.

Em julho do ano pas­sa­do, um rela­tó­rio lan­ça­do por três asso­ci­a­ções indí­ge­nas – Hutu­ka­ra Asso­ci­a­ção Yano­ma­mi (HAY), Asso­ci­a­ção Wanas­se­du­u­me Ye’kwana (SEDUUME) e Urihi Asso­ci­a­ção Yano­ma­mi – denun­ci­a­va a vol­ta do garim­pei­ros ao ter­ri­tó­rio, ape­sar dos aler­tas fei­tos por um sis­te­ma de saté­li­tes da Polí­cia Fede­ral ter indi­ca­do redu­ção de 85% nes­sa ati­vi­da­de.

“O que o nos­so moni­to­ra­men­to indi­ca, com­bi­nan­do rela­tos de área com inter­pre­ta­ção de ima­gens de saté­li­te, é que, ape­sar de haver uma redu­ção sig­ni­fi­ca­ti­va da ati­vi­da­de garim­pei­ra na TIY nes­te pri­mei­ro semes­tre, há ain­da a per­sis­tên­cia de alguns núcle­os de explo­ra­ção que resis­tem à ação das for­ças de segu­ran­ça, além do retor­no de alguns gru­pos de garim­pei­ros que logra­ram escon­der os seus equi­pa­men­tos duran­te as ope­ra­ções”, diz tre­cho do rela­tó­rio.

Redução do garimpo

Hum­ber­to Frei­re de Bar­ros reco­nhe­ce que há uma per­sis­tên­cia da ati­vi­da­de garim­pei­ra na área em tor­no de 15% do que se tinha no fim de 2022, mas cita os avan­ços das ope­ra­ções rea­li­za­das. “Uma coi­sa que pre­ci­sa ficar cla­ra é que a Ope­ra­ção Liber­ta­ção nun­ca parou e não vai parar.”

O dire­tor de Amazô­nia e Meio Ambi­en­te da Polí­cia Fede­ral lem­brou que foram rea­li­za­das 13 gran­des ope­ra­ções que resul­ta­ram em qua­se R$ 600 milhões em apre­en­sões. “Nes­sas ope­ra­ções, hou­ve ordens de blo­queio que che­gam a mais de R$ 1 bilhão, R$ 1,5 bilhão. Isso foi fei­to, e efe­ti­va­men­te nós avan­ça­mos”, afir­mou. Segun­do Frei­re de Bar­ros, um dos focos da PF ago­ra é atin­gir ao máxi­mo o capi­tal que sus­ten­ta o garim­po, o que inclui não ape­nas a des­trui­ção de equi­pa­men­tos, mas inves­ti­ga­ções que iden­ti­fi­quem, pro­ces­sem e punam finan­ci­a­do­res do garim­po ile­gal.

Em balan­ço da sema­na pas­sa­da, o Ins­ti­tu­to Bra­si­lei­ro do Meio Ambi­en­te e dos Recur­sos Natu­rais Reno­vá­veis (Iba­ma) infor­mou ter rea­li­za­do 205 vis­to­ri­as em pis­tas de pou­so na ter­ra indí­ge­na e entor­no. Com isso, 31 pis­tas foram embar­ga­das e 209 moni­to­ra­das. A for­ça-tare­fa envol­veu tam­bém a PF, a Fun­da­ção Naci­o­nal dos Povos Indí­ge­nas (Funai), a For­ça Naci­o­nal de Segu­ran­ça Públi­ca e outros órgãos de gover­no.

Entre apre­en­são e des­trui­ção de bens, os fis­cais inter­di­ta­ram 34 aero­na­ves, 362 acam­pa­men­tos, 310 moto­res, 87 gera­do­res de ener­gia, 32 bal­sas, 48 mil litros de com­bus­tí­vel, 172 equi­pa­men­tos de comu­ni­ca­ção e mais de 150 estru­tu­ras logís­ti­cas e por­tos de apoio. Hou­ve ain­da apre­en­são de 37 tone­la­das de cas­si­te­ri­ta, o prin­ci­pal miné­rio extraí­do da região, 6,3 qui­los de mer­cú­rio e peque­nas por­ções de ouro.

Há dez dias, o gover­no fede­ral anun­ci­ou a cons­tru­ção de uma estru­tu­ra per­ma­nen­te na Ter­ra Indí­ge­na Yano­ma­mi, envol­ven­do diver­sos órgãos. Há pre­vi­são de cons­tru­ção de três novas bases logís­ti­cas na região.

Saúde indígena

Quan­to à saú­de indí­ge­na, a atu­a­ção fede­ral no ter­ri­tó­rio evi­tou uma tra­gé­dia sem pre­ce­den­tes, dis­se Júni­or Heku­ra­ri Yano­a­mi, líder indí­ge­na no polo de Suru­cu­cu . “Mui­tas cri­an­ças foram sal­vas pela for­ça aérea de saú­de do gover­no, volun­tá­ri­os vie­ram a Suru­cu­cu, Aua­ris, Mis­são Catr­mi­na­ni, para sal­var o povo Yano­ma­mi”, reco­nhe­ceu o líder indí­ge­na. Em entre­vis­ta à Agên­cia Bra­sil, Júni­or Heku­ra­ri afir­mou que a assis­tên­cia foi reto­ma­da em boa par­te do ter­ri­tó­rio, mas res­sal­tou que ain­da há deze­nas de loca­li­da­des que não estão assis­ti­das, mui­tas delas pela fal­ta de segu­ran­ça no aces­so, já que são áre­as con­tro­la­das pelo garim­po.

Brasileira (FAB), por meio do Comando de Operações Aeroespaciais (COMAE) está apoiando as ações de distribuição de cestas de alimentos na Terra Indígena Yanomami. Foto FAB.
Repro­du­ção: For­ça Aérea Bra­si­lei­ra apoia ações de dis­tri­bui­ção de ces­tas de ali­men­tos na Ter­ra Indí­ge­na Yano­ma­mi — Divul­ga­ção FAB

“Quan­do che­gou a emer­gên­cia Yano­ma­mi, tinha mais de 300 comu­ni­da­des não assis­ti­das pela saú­de indí­ge­na. Eu pen­sei que meu povo ia mor­rer mui­to. Ali­men­ta­ção e ces­tas bási­cas foram dis­tri­buí­das pela Funai e pelo Exér­ci­to duran­te seis meses, mas ain­da há cer­ca de 50 comu­ni­da­des onde a saú­de não con­se­guiu che­gar, por cau­sa do garim­po.” Segun­do o indí­ge­na, o caso mais pre­o­cu­pan­te é o polo base Cai­a­naú, que está fecha­do. “As cri­an­ças e os ido­sos, prin­ci­pal­men­te, ain­da estão pagan­do um pre­ço alto.”

Em nota, o Minis­té­rio da Saú­de infor­ma que ter inves­tiu mais de R$ 220 milhões para rees­tru­tu­rar o aces­so à saú­de dos indí­ge­nas da região, um valor 122% mais alto que o do ano ante­ri­or.

“Em 2023, hou­ve uma ampli­a­ção do núme­ro de pro­fis­si­o­nais em atu­a­ção no ter­ri­tó­rio (+40%, pas­san­do de 690 pro­fis­si­o­nais para 960 entre 2022 e 2023).  Tam­bém foram rea­ber­tos sete polos-base e uni­da­des bási­cas de saú­de indí­ge­na, que esta­vam fecha­dos por ações cri­mi­no­sas, tota­li­zan­do 68 esta­be­le­ci­men­tos de saú­de com aten­di­men­to em ter­ra Yano­ma­mi. Nes­tas loca­li­da­des, onde é pos­sí­vel pres­tar assis­tên­cia e aju­da huma­ni­tá­ria, 307 cri­an­ças diag­nos­ti­ca­das com des­nu­tri­ção gra­ve ou mode­ra­da foram recu­pe­ra­das. Além dis­so, o gover­no fede­ral, atra­vés do Pro­gra­ma Mais Médi­cos, per­mi­tiu um sal­to de 9 para 28 no núme­ro de médi­cos para o aten­di­men­to aos yano­ma­mis em 2023. Três vezes mais médi­cos em atu­a­ção”, diz a pas­ta.

Em rela­ção à mor­te de indí­ge­nas, o ano de 2023 ain­da regis­trou 308 óbi­tos, um núme­ro menor, mas não mui­to dis­tan­te das 343 víti­mas regis­tra­das em 2022.

Em trans­mis­são nas redes soci­ais na últi­ma sema­na, a minis­tra dos Povos Indí­ge­nas, Sonia Gua­ja­ja­ra, admi­tiu que a cri­se huma­ni­tá­ria dos yano­ma­mi não será resol­vi­da tão cedo, ape­sar dos esfor­ços do gover­no fede­ral.

Edi­ção: Nádia Fran­co

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