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Batalha da Sé ou “Revoada dos Galinhas Verdes” completa 90 anos

Movimento na capital paulista marcou história do país

Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­da em 07/10/2024 — 11:32
São Paulo
São Paulo (SP), 14-04-2023 - Grades colocadas em volta dos canteiros na praça da Sé. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Repro­dução: © Rove­na Rosa/Agência Brasil

A chama­da “Batal­ha da Sé”, ou “Revoa­da dos Gal­in­has Verdes”, que ocor­reu na cap­i­tal paulista em 7 de out­ubro de 1934, com­ple­ta 90 anos nes­ta segun­da-feira (7), Nes­sa data, um amp­lo con­tin­gente de inte­gral­is­tas, a ver­são local do fas­cis­mo, foi expul­so do cen­tro da cap­i­tal. Ape­sar de pouco con­heci­do, o episó­dio foi mar­cante na história do país, definidor dos rumos da políti­ca, então sob a presidên­cia de Getúlio Var­gas.

Um dos livros mais impor­tantes do his­to­ri­ador marx­ista Eric Hob­s­bawn, inti­t­u­la­do A era dos extremos, tra­ta dos movi­men­tos políti­cos do sécu­lo pas­sa­do — época de exper­i­men­tos políti­cos extremos, por todos seus lados. entre os prin­ci­pais, o naz­i­fas­cis­mo de Hitler e Mus­soli­ni, respec­ti­va­mente na Ale­man­ha e Itália, e o social­is­mo de Stálin, na anti­ga União Soviéti­ca.

As ten­sões entre as lin­has ide­ológ­i­cas tão dis­tin­tas não se resumi­ram aos lim­ites europeus, mas se repro­duzi­ram em out­ros con­ti­nentes. No Brasil não foi difer­ente. A Batal­ha da Sé uniu gru­pos de social­is­tas, anar­cossindi­cal­is­tas, comu­nistas e democ­ratas em ger­al, de várias cor­rentes con­tra cer­ca de 8 mil pes­soas da Ação Inte­gral­ista Brasileira (AIB), de Plínio Sal­ga­do.

A batal­ha ter­mi­nou com um mor­to, o jovem líder comu­nista Décio de Oliveira, além de vários feri­dos, inclu­sive entre as forças poli­ci­ais alin­hadas aos inte­gral­is­tas, que eram chamadas de gal­in­has verdes por causa da cor do uni­forme que usavam em suas mar­chas e comí­cios. Pos­tos a cor­rer, os inte­gral­is­tas fugi­ram pelas ruas de São Paulo, deixan­do um ras­tro de camisas espal­hadas pelas ruas.

Ao relatar o acon­tec­i­men­to, o Jor­nal do Povo, do humorista Barão de Itararé (ou Apparí­cio Torel­li), pub­li­cou em sua capa uma manchete que ficaria famosa: “Um inte­gral­ista não corre: voa”.

Para explicar e con­tex­tu­alizar o movi­men­to da Praça da Sé, a Agên­cia Brasil entre­vis­tou o pro­fes­sor livre-docente da Uni­ver­si­dade de Camp­inas e pesquisador da Uni­ver­si­dade Paris-Cité, o sociól­o­go Fabio Mas­caro Queri­do.

Agên­cia Brasil: em sua opinião, qual a importân­cia do episó­dio para a políti­ca nacional daque­le perío­do pré-ditadu­ra de Var­gas?

Fabio Mas­caro Queri­do: a chama­da Revoa­da dos Gal­in­has Verdes foi, sem dúvi­da, um dos acon­tec­i­men­tos mais emblemáti­cos do antifas­cis­mo brasileiro. Em 7 de out­ubro de 1934, diver­sos gru­pos e cor­rentes políti­cas difer­entes, como o PCB, o PSB, os anar­quis­tas e, com notáv­el destaque, os trot­skistas da Liga Comu­nista Inter­na­cional­ista, se uni­ram no com­bate a um inimi­go comum. E o fiz­er­am por meio da ação dire­ta, colo­can­do lit­eral­mente para cor­rer, em ple­na Praça da Sé, os mil­i­tantes da AIB – os “gal­in­has verdes” — que ali real­izavam um ato.

Na época, a con­tra­man­i­fes­tação foi impor­tante para a políti­ca nacional porque, entre out­ras coisas, con­tribuiu para o enfraque­c­i­men­to da AIB. Ao mostrar a força antifascista dos tra­bal­hadores orga­ni­za­dos, o episó­dio aju­dou a desmo­ti­var a ten­ta­ti­va de Var­gas de se servir da AIB para acel­er­ar o proces­so de instau­ração de um regime autoritário, o que de fato acon­te­ceria a par­tir de 1937, com o Esta­do Novo, mas sem a par­tic­i­pação dos inte­gral­is­tas.

Agên­cia Brasil: o inte­gral­is­mo era uma força políti­ca con­sid­eráv­el na época, seguin­do os rumos do nazis­mo na Ale­man­ha e do fas­cis­mo ital­iano. O que o sen­hor con­sid­era ser a prin­ci­pal difer­ença no mod­e­lo extrem­ista de dire­i­ta no Brasil e de seus equiv­a­lentes europeus (se é que existe tal difer­ença)?

Fabio Mas­caro: o inte­gral­is­mo era uma ver­são “nacional­iza­da” do fas­cis­mo europeu. De cer­ta for­ma, ele teve o méri­to de trans­for­mar o fas­cis­mo numa ide­olo­gia efe­ti­va­mente brasileira. Os inte­gral­is­tas, em espe­cial Plínio Sal­ga­do, con­struíram uma nar­ra­ti­va mais ou menos coer­ente do que era (e do que dev­e­ria ser) o Brasil. Pode-se diz­er que o inte­gral­is­mo era o fas­cis­mo na per­ife­ria do cap­i­tal­is­mo. Ao seu modo, ele se inse­ria no dis­cur­so mod­ern­izante que, na época, era com­par­til­ha­do por quase todo mun­do, inclu­sive pela esquer­da. O fas­cis­mo europeu, por sua vez, é, antes, uma expressão dos para­dox­os da mod­ernidade, do pro­gres­so que se trans­for­mou em bar­bárie, não no sen­ti­do de uma sim­ples regressão, mas sim no de uma bar­bárie mod­er­na, que indus­tri­al­i­zou a própria morte. Em comum, todas essas ver­sões do fas­cis­mo, no Brasil ou na Europa, se apre­sen­tam como últi­mo recur­so de um sis­tema para o qual a democ­ra­cia lib­er­al se tornou inca­paz de garan­tir sem sobres­saltos a sua repro­dução.

Agên­cia Brasil: é pos­sív­el esta­b­ele­cer algum para­le­lo entre a ascen­são do extrem­is­mo de dire­i­ta da primeira metade do sécu­lo pas­sa­do e do ver­i­fi­ca­do hoje, nes­tas primeiras décadas do sécu­lo 21?

Fabio Mas­caro: há alguns para­le­los, mas tam­bém impor­tantes difer­enças. O fas­cis­mo históri­co, vamos diz­er assim, na Itália ou na Ale­man­ha, tin­ha um pro­je­to de sub­ver­são rad­i­cal do sta­tus quo, a fim de impor novo poder insti­tu­idor. Daí a mobi­liza­ção (e a vio­lên­cia) per­ma­nente, assim como a iden­ti­fi­cação de inimi­gos inter­nos: os judeus, os comu­nistas, os ciganos etc.

Muito dis­so está pre­sente na extrema-dire­i­ta con­tem­porânea, mas com alguns matizes. Em ger­al, a extrema-dire­i­ta de hoje (ao menos aque­la com pre­ten­são hegemôni­ca) joga nos lim­ites das regras democráti­cas, forçan­do ao máx­i­mo as suas mar­gens, mas sem, por enquan­to, con­sid­er­ar a pos­si­bil­i­dade de con­strução de um novo sis­tema social. Vale lem­brar, em todo caso, que mes­mo o nazis­mo, nos seus primeiros anos, apre­sen­tou uma facha­da insti­tu­cional antes de assumir a sua incli­nação golpista e total­itária. Fica como um avi­so – ou um alarme de incên­dio, para diz­er como Wal­ter Ben­jamin — para a luta con­tra a extrema-dire­i­ta atu­al: nós sabe­mos como começa, mas não como ter­mi­na.

Agên­cia Brasil: qual seria o grau de pre­ocu­pação que os defen­sores dos regimes democráti­cos devem ter com a nova onda rea­cionária atu­al? Ou tra­ta-se de algo pas­sageiro?

Fabio Mas­caro: a pre­ocu­pação deve ser total, mas sem recair no cat­a­strofis­mo. A ameaça é real e já se faz sen­tir em vários país­es, inclu­sive no Brasil. Infe­liz­mente, o prob­le­ma está longe de ser pas­sageiro. A extrema-dire­i­ta se ali­men­ta de uma crise social que é real e cujas causas são estru­tu­rais. Mas a saí­da que apre­sen­ta não ape­nas não resolve os prob­le­mas iden­ti­fi­ca­dos, como os rad­i­cal­iza, situ­ação em face da qual a vio­lên­cia políti­ca e social se mostra necessária. Procla­man­do-se con­tra o “sis­tema”, a extrema-dire­i­ta rep­re­sen­ta, na ver­dade, a garan­tia de que o sis­tema (o cap­i­tal­is­mo) vai con­tin­uar fun­cio­nan­do, custe o que cus­tar.

Isso não sig­nifi­ca, porém, que a ascen­são da extrema-dire­i­ta seja inevitáv­el. Tra­ta-se de um fenô­meno políti­co que, como tal, pode ser der­ro­ta­do, o que depende da capaci­dade das forças que se dizem democ­ratas de apre­sen­tar uma out­ra saí­da — estru­tur­al – para a crise civ­i­liza­tória que vive­mos.

Agên­cia Brasil: por que a esquer­da não con­segue mais seduzir boa parcela da pop­u­lação, prin­ci­pal­mente os jovens, difer­ente­mente das recentes décadas pas­sadas?

Fabio Mas­caro: aqui está boa parte da expli­cação da ascen­são da extrema-dire­i­ta: o declínio da capaci­dade das esquer­das, social e políti­ca em ger­al, de dialog­ar com setores da sociedade que out­ro­ra com­pun­ham suas bases soci­ais. Há vários aspec­tos que expli­cam esse proces­so: ascen­são do neolib­er­al­is­mo, mudanças no mun­do do tra­bal­ho, encur­ta­men­to do hor­i­zonte de expec­ta­ti­vas etc. Nesse cenário, as esquer­das – sub­meti­das a pressões de diver­sas ordens – ten­der­am a se aco­modar numa posição defen­si­va, muitas vezes focan­do em questões soci­etais ou iden­titárias. Questões fun­da­men­tais, sem dúvi­da, mas cujo pro­tag­o­nis­mo diante das lutas soci­ais e econômi­cas mais amplas deixou as esquer­das órfãs de um pro­je­to alter­na­ti­vo de sociedade. É por isso que hoje, para­doxal­mente, é a extrema-dire­i­ta que se apre­sen­ta, para mui­ta gente, como a ver­dadeira alter­na­ti­va a “tudo o que está aí”.

Agên­cia Brasil: o ressurg­i­men­to do extrem­is­mo rea­cionário rev­ela um esgo­ta­men­to do atu­al mod­e­lo políti­co-par­tidário? Do modo de faz­er políti­ca?

Fabio Mas­caro: sem dúvi­da. No Brasil e em vários out­ros país­es do mun­do, as últi­mas décadas demon­straram um alhea­men­to do sis­tema políti­co em relação àque­les que, em tese, ele dev­e­ria rep­re­sen­tar. Na Europa e nos Esta­dos Unidos, o fato de que, nas últi­mas duas ou três décadas, os prin­ci­pais par­tidos (da esquer­da e da dire­i­ta tradi­cionais) ten­ham lev­a­do a cabo a mes­ma políti­ca econômi­ca (neolib­er­al) for­t­ale­ceu a sen­sação, em parce­las expres­si­vas da sociedade, inclu­sive no âmbito das class­es pop­u­lares, de que os políti­cos são todos iguais, de que a políti­ca é um engo­do, e assim por diante. No Brasil a situ­ação é rel­a­ti­va­mente sin­gu­lar, sobre­tu­do em função dos primeiros gov­er­nos Lula que, mes­mo sem romper com o neolib­er­al­is­mo, for­t­ale­ceu a atenção aos mais pobres. É isso o que expli­ca por que, ao con­trário da europeia, por exem­p­lo, a extrema-dire­i­ta brasileira reivin­di­ca, sem com­plex­os, um neolib­er­al­is­mo puro e duro.

Agên­cia Brasil: como no pas­sa­do, os meios de comu­ni­cação tiver­am papel impor­tante, senão fun­da­men­tal, na ascen­são e cresci­men­to do fas­cis­mo. É pos­sív­el respon­s­abi­lizar as novas for­mas de comu­ni­cação, prin­ci­pal­mente as redes soci­ais dig­i­tais, pelo ressurg­i­men­to do extrem­is­mo de dire­i­ta no mun­do?

Fabio Mas­caro: a prin­ci­pal respon­s­abil­i­dade dos meios de comu­ni­cação está no modo como eles “nor­mal­izam” questões lev­an­tadas pela extrema-dire­i­ta. Esse mecan­is­mo é ampli­fi­ca­do nas chamadas redes soci­ais con­tem­porâneas, em cuja caco­fo­nia a extrema-dire­i­ta nada de braça­da. Mas, tão impor­tante quan­to anal­is­ar a respon­s­abil­i­dade dos meios de comu­ni­cação é enten­der o que faz com que as pes­soas se dispon­ham a encam­par as ideias apre­sen­tadas. Há uma pos­tu­ra ati­va aí, que é difer­ente da mera ignorân­cia. Para com­bat­er essas ideias, é pre­ciso, por­tan­to, com­preen­der a insat­is­fação que a poten­cial­iza, a fim de apre­sen­tar uma alter­na­ti­va credív­el con­tra o “salve-se quem pud­er”, com o qual a extrema-dire­i­ta joga com o prob­le­ma, sem resolvê-lo.

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