...
sábado ,25 maio 2024
Home / Mulher / Brasileira concorre a prêmio no Festival de Documentário de Amsterdã

Brasileira concorre a prêmio no Festival de Documentário de Amsterdã

Repro­du­ção: © Pau­lo Pinto/Agência Bra­sil

Mariana Luiza criou instalação que questiona projeto de branqueamento


Publi­ca­do em 02/11/2023 — 11:38 Por Elai­ne Patri­cia Cruz – Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — São Pau­lo

ouvir:

Ao final de um labi­rin­to sen­so­ri­al, há duas salas. Na pri­mei­ra delas, toda bran­ca, encon­tra-se o qua­dro A Reden­ção de Cam, uma pin­tu­ra fei­ta pelo espa­nhol Modes­to Bro­cos em 1895, quan­do ele já esta­va radi­ca­do no Bra­sil. Nes­ta sala tam­bém é apre­sen­ta­do um vídeo com ima­gens de arqui­vo mos­tran­do que o país já abri­gou um pro­je­to de euge­nia (teo­ria de que seria pos­sí­vel cri­ar seres huma­nos melho­ra­dos a par­tir do con­tro­le gené­ti­co). Já na segun­da sala, que simu­la uma mata fecha­da, toda escu­ra, um fil­me é pro­je­ta­do entre os refle­xos de um peque­no lago ques­ti­o­nan­do o pro­je­to racis­ta de bran­que­a­men­to da popu­la­ção que este­ve em cur­so no país.

Essa ins­ta­la­ção imer­si­va, poé­ti­ca e crí­ti­ca sobre a his­tó­ria bra­si­lei­ra, cri­a­da pela rotei­ris­ta e docu­men­ta­ris­ta Mari­a­na Lui­za, cha­ma-se Reden­ção e é o úni­co pro­je­to bra­si­lei­ro sele­ci­o­na­do para a cate­go­ria com­pe­ti­ti­va de docu­men­tá­ri­os imer­si­vos do Fes­ti­val Inter­na­ci­o­nal de Docu­men­tá­rio de Ams­ter­dã (IDFA), que é con­si­de­ra­do o mai­or fes­ti­val de docu­men­tá­ri­os do mun­do. Essa expe­ri­ên­cia imer­si­va fica­rá dis­po­ní­vel na gale­ria de arte LNDWS­tu­dio. Nes­te ano, o fes­ti­val está mar­ca­do para o perío­do de 10 a 19 de novem­bro.

Em entre­vis­ta à Agên­cia Bra­sil, Mari­a­na Lui­za con­ta que tem estu­da­do o pro­je­to de bran­que­a­men­to do país e que isso sur­giu por um ques­ti­o­na­men­to fami­li­ar. “Eu sem­pre tra­ba­lhei com iden­ti­da­de e per­ten­ci­men­to por­que eu sem­pre fiquei num lim­bo de não saber, não enten­der direi­to o que eu era, qual era a minha iden­ti­da­de raci­al. Sou uma pes­soa mis­ci­ge­na­da: eu tenho irmão bran­co, um pai bran­co e uma mãe mes­ti­ça que nem eu. Isso foi me levan­do a ques­ti­o­nar por que eu não con­se­guia enten­der quem eu era.”

São Paulo SP 30/10/2023 Mariana Luiza, escritora e roteirista, participa do Festival Internacional de Documentário de Amsterdã (IDFA). Reprodução de fotos da avó de Mariana. Foto Paulo Pinto/Agência Brasil
Reproi­du­ção: Repro­du­ção de fotos da avó de Mari­a­na Lui­za — Pau­lo Pinto/Agência Bra­sil

Esse ques­ti­o­na­men­to se fez mais for­te quan­do a docu­men­ta­ris­ta obser­vou duas fotos de sua avó Divi­na: uma delas, uma foto de épo­ca, ori­gi­nal, em que se nota o cabe­lo cres­po e a pele negra (à direi­ta na ima­gem ao lado). A outra, um retra­to de sua avó que depois ela colo­riu com aqua­re­la e se pin­tou com a pele bran­ca e o cabe­lo ondu­la­do (à esquer­da). “Minha avó se acha­va bran­ca e que­ria que a gen­te fos­se bran­co”, lem­bra. “O que me cha­mou mui­ta aten­ção é que eu vivi com essa foto da minha avó a vida intei­ra e eu nun­ca tinha per­ce­bi­do que ela tinha se pin­ta­do de bran­co. Isso para mim foi o mais cho­can­te”, rela­ta.

Foi des­se pro­ces­so pes­so­al, quan­do teve a per­cep­ção de que sua avó era negra, mas não se via como tal, que ela come­çou a pes­qui­sar sobre qual era o papel do Esta­do bra­si­lei­ro na cri­a­ção da iden­ti­da­de naci­o­nal. “Exis­tia, de fato, um pro­je­to para bran­que­ar o Bra­sil e isso acon­te­ceu des­de a Inde­pen­dên­cia. Vinha-se atrain­do colo­nos ale­mães ou euro­peus para bran­que­ar o Bra­sil des­de a Inde­pen­dên­cia. Mas a par­tir do final do sécu­lo 19 e iní­cio do sécu­lo 20 é que isso teve uma explo­são mai­or no Bra­sil. Nes­sa épo­ca tam­bém esta­vam sur­gin­do as pseu­do­ci­ên­ci­as de euge­nia, que foi cul­mi­nar no nazis­mo na Ale­ma­nha, por exem­plo. No Bra­sil, isso apa­re­ceu de uma for­ma dife­ren­te por­que o país já era mui­to mis­ci­ge­na­do. Não fun­ci­o­na­ria para a nação sim­ples­men­te apar­tar bran­cos e negros, por­que não dava: a mai­o­ria da popu­la­ção já era mes­ti­ça. Então, a ‘solu­ção’ encon­tra­da pelos euge­nis­tas para resol­ver esse pro­ble­ma seria bran­que­ar gra­da­ti­va­men­te [a popu­la­ção].”

Redenção

Esse pro­je­to de bran­que­a­men­to gra­da­ti­vo ou de exter­mí­nio da raça negra é o que se vê na pin­tu­ra A Reden­ção de Cam, de Modes­to Bro­cos. A tela mos­tra uma avó negra, uma mãe mes­ti­ça e um pai bran­co olhan­do para seu bebê, de pele cla­ra.

Essa pin­tu­ra, que faz par­te do acer­vo do Museu de Belas Artes (MNBA), no Rio de Janei­ro, foi apre­sen­ta­da em 1911 no Con­gres­so Uni­ver­sal das Raças, em Lon­dres, como um sím­bo­lo da ide­o­lo­gia de bran­que­a­men­to raci­al no Bra­sil. Nes­se con­gres­so, o médi­co João Batis­ta de Lacer­da (1846–1915) defen­deu seu pro­je­to de exter­mí­nio dos negros. “O negro pas­san­do a bran­co, na ter­cei­ra gera­ção, por efei­to do cru­za­men­to de raças”, dis­se ele, na oca­sião.

Para mos­trar ao mun­do que o Bra­sil já teve um pro­je­to de exter­mí­nio de par­te de sua popu­la­ção, a bra­si­lei­ra vai apre­sen­tar um labi­rin­to sen­so­ri­al em Ams­ter­dã para redis­cu­tir e apro­fun­dar refle­xões sobre a pin­tu­ra euge­nis­ta de Bro­cos.

“Nes­sa pri­mei­ra sala [do labi­rin­to], que é toda bran­ca, você vai ver o qua­dro que a gen­te fil­mou fazen­do um pas­seio nos deta­lhes”, des­cre­ve a docu­men­ta­ris­ta. “Depois tem um vídeo de mate­ri­al de arqui­vo que expli­ca o que foi esse pro­je­to de nação. Então, a gen­te vai con­tan­do com docu­men­tos e com ima­gens como foi que o Bra­sil foi cons­truin­do esse ide­al de um país, de uma Euro­pa dos tró­pi­cos”, com­ple­ta.

Ela tam­bém pre­ten­de mos­trar que esse pro­je­to foi ven­ci­do por uma resis­tên­cia que sem­pre ficou escon­di­da na his­tó­ria ofi­ci­al, mas se fez pre­sen­te pela for­ça do movi­men­to negro.

“Quan­do você ter­mi­na o labi­rin­to, have­rá uma sala toda escu­ra, com um lago e chei­ro de mata. O que eu que­ria fazer era a mata como um ide­al civi­li­za­tó­rio, um pro­je­to de civi­li­za­ção con­tra esse ‘pro­gres­so’ que não deu cer­to por­que não é um pro­gres­so, não é um desen­vol­vi­men­to. O fil­me se espe­lha na água para for­çar as pes­so­as a olha­rem para o espe­lho d’água e, em vez de verem sua pró­pria ima­gem, elas verão ima­gens de pes­so­as negras que estão resis­tin­do a esse pro­je­to”, con­ta.

Em seu vídeo pro­je­ta­do na água, uma répli­ca de A Reden­ção de Cam será quei­ma­da. “Quei­mar um qua­dro é tam­bém cri­ar um novo sím­bo­lo”, des­ta­ca. “Que­ría­mos pen­sar o fogo como esse ele­men­to pri­mor­di­al da cri­a­ção, mas tam­bém como um ele­men­to de des­trui­ção para o renas­ci­men­to. Então, o que a gen­te está que­ren­do ali, sim­bo­li­ca­men­te, é des­truir esse pro­je­to de nação para que a gen­te tenha um pro­je­to de per­ten­ci­men­to para todo mun­do.”

Nes­se labi­rin­to de som­bras e luzes, água e fogo, chei­ros e ima­gens, Mari­a­na Lui­za quer ins­ti­gar dis­cus­sões. Entre elas, se cabe­ria reden­ção a um país que já dese­jou exter­mi­nar seu povo. “Acho que não dá para redi­mir [o país], acho que é pos­sí­vel nego­ci­ar. Não vamos con­se­guir des­truir essa nação, mas nego­ci­ar um pro­je­to de nação que seja per­ten­cen­te para todas as pes­so­as”, obser­va.

Edi­ção: Juli­a­na Andra­de

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Formação em Cultura Digital estão abertas

Repro­du­ção: docs.google.com/forms/ Ação é uma iniciativa do Ministério da Cultura e da UFRJ Publicado em 19/05/2024 …