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Brasileiros centenários: envelhecimento acelerado desafia o país

Repro­du­ção: © Rafa Neddermeyer/Agência Bra­sil

Avaliação é de especialistas ouvidos pela Agência Brasil


Publi­ca­do em 28/11/2023 — 07:22 Por Gil­ber­to Cos­ta — Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — Bra­sí­lia

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A sexa­ge­ná­ria Bra­sí­lia tem exa­tos 300 habi­tan­tes com 100 anos ou mais, segun­do o Cen­so Popu­la­ci­o­nal de 2022, do Ins­ti­tu­to Bra­si­lei­ro de Geo­gra­fia e Esta­tís­ti­ca (IBGE). Com 103 anos, um des­ses cen­te­ná­ri­os é Erman­do Arme­lin­do Pive­ta, mili­tar refor­ma­do da For­ça Expe­di­ci­o­ná­ria Bra­si­lei­ra (FEB) e pio­nei­ro na capi­tal fede­ral.

Nas­ci­do em Laran­jal Pau­lis­ta (SP) em 1920 – mes­mo ano de nas­ci­men­to do poe­ta João Cabral de Melo Neto, da escri­to­ra Cla­ri­ce Lis­pec­tor, do cra­que Hele­no de Frei­tas e do ator Ansel­mo Duar­te –, Pive­ta viveu ao menos duas gran­des aven­tu­ras bra­si­lei­ras do sécu­lo 20: a par­ti­ci­pa­ção na Segun­da Guer­ra Mun­di­al con­tra as for­ças do Eixo (Ale­ma­nha, Itá­lia e Japão), e a cons­tru­ção da nova capi­tal fede­ral.

Ermando Piveta diante de Igreja em Fernando de Noronha quando serviu o Exército na 2a Guerra Mundial. Foto: Arquivo Pessoal
Repro­du­ção Erman­do Pive­ta dian­te de Igre­ja em Fer­nan­do de Noro­nha, por Arqui­vo pes­so­al

Em setem­bro de 1942, um mês depois de o Bra­sil entrar na guer­ra, Erma­no Pive­ta foi cha­ma­do para pres­tar ser­vi­ço mili­tar no 4º Regi­men­to de Arti­lha­ria Mon­ta­da do Exér­ci­to, base­a­do em Itu (SP). “Naque­le tem­po não tinha sor­te­a­men­to. Era con­vo­ca­do”, lem­bra, em vídeo gra­va­do por sua filha Vivi­an Pive­ta e envi­a­do à Agên­cia Bra­sil.

No ano seguin­te, o expe­di­ci­o­ná­rio embar­cou no navio de pas­sa­gei­ro e car­ga Almi­ran­te Ale­xan­dri­no, que nave­gou do Rio de Janei­ro até Dakar (Sene­gal), para fazer trei­na­men­to no con­ti­nen­te afri­ca­no. Ele atu­ou na guar­da do lito­ral bra­si­lei­ro em Fer­nan­do de Noro­nha, Pon­tal do Curu­ri­pe (Ala­go­as), Natal e no Reci­fe.

Já refor­ma­do como segun­do-tenen­te do Exér­ci­to, Pive­ta tra­ba­lhou em 1958 na cons­tru­ção de Bra­sí­lia fazen­do trans­por­te de areia e cas­ca­lho. “Todo mun­do fala­va: ‘Bra­sí­lia, capi­tal da espe­ran­ça’. Botei aqui­lo na cabe­ça e vim.” Em 1968, ele vol­tou para morar defi­ni­ti­va­men­te na cida­de.

Em abril de 2020, o expe­di­ci­o­ná­rio e pio­nei­ro can­dan­go, então com 99 anos, ganhou as pri­mei­ras pági­nas dos jor­nais após rece­ber alta de uma inter­na­ção de oito dias no Hos­pi­tal das For­ças Arma­das (HFA) por cau­sa da covid-19. A recei­ta dele para a boa saú­de e lon­ge­vi­da­de é sim­ples:

“Não beber e não fumar. [Con­su­mir] ali­men­to bom e sadio. [Ter] boa ami­za­de com todo mun­do e ganhar a ale­gria de todos.”

o senhor Ermando Piveta, de 99 anos, ex-integrante da Força Expedicionária Brasileira (FEB), recebeu alta da COVID-19 no Hospital das Forças Armadas (HFA)
Repro­du­ção: Erman­do Pive­ta rece­be alta do Hos­pi­tal das For­ças Arma­das (HFA) após tra­ta­men­to de covid-19 — Cb Estevam/Arquivo/CCOMSEx

Longevidade

Cen­te­ná­ri­os como Erma­no Pive­ta repre­sen­tam 0,018% da popu­la­ção bra­si­lei­ra, ou 37.814 pes­so­as (27.244 mulhe­res e 10.570 homens) que cru­za­ram a linha de um sécu­lo de vida. Os núme­ros na casa do milhar pare­cem modes­tos dian­te do total de 203.080.756 habi­tan­tes, mas, com­pa­ran­do as somas do Cen­so de 2010 e a con­ta­gem do Cen­so de 2022, o núme­ro de “supe­ri­do­sos” cres­ceu 66,7% (15.138 pes­so­as a mais). O dado é indi­ca­dor da lon­ge­vi­da­de ascen­den­te da popu­la­ção.

De acor­do com o demó­gra­fo Mar­cio Mina­mi­gu­chi, do IBGE, esses núme­ros podem pare­cer “curi­o­si­da­des esta­tís­ti­cas”, uma vez que “a pro­ba­bi­li­da­de de che­gar nes­sas ida­des extre­mas é peque­na”. Mas, na sua ava­li­a­ção, o que é mais inte­res­san­te é que “o fato de ter mais cen­te­ná­ri­os está asso­ci­a­do à pos­si­bi­li­da­de de ter um núme­ro mai­or de pes­so­as com seus 60, 70, 80 e 90 anos”.

Raci­o­cí­nio seme­lhan­te faz o secre­tá­rio naci­o­nal dos Direi­tos da Pes­soa Ido­sa, do Minis­té­rio dos Direi­tos Huma­nos e da Cida­da­nia, Ale­xan­dre da Sil­va.

“A gen­te deve come­mo­rar é que nós temos mais pes­so­as che­gan­do aos 100 anos. Isso quer dizer, indi­re­ta­men­te, que tem mais pes­so­as che­gan­do aos 95, aos 90, aos 85, aos 80. Ou seja, a lon­ge­vi­da­de cada vez mais é uma cons­ta­ta­ção mais pre­sen­te no nos­so coti­di­a­no.”

Para a pes­qui­sa­do­ra Dani­el­la Jin­kings, mes­tre pela Lon­don Scho­ol of Eco­no­mics and Poli­ti­cal Sci­en­ce (LSE) com dis­ser­ta­ção sobre o cui­da­do dos ido­sos pelas famí­li­as, os dados reve­la­dos são posi­ti­vos, mas “não esta­mos pre­pa­ra­dos para o enve­lhe­ci­men­to. Nem a soci­e­da­de bra­si­lei­ra, nem o Esta­do”, pon­de­ra em entre­vis­ta à Agên­cia Bra­sil.

“Ain­da cul­tu­a­mos mui­to a juven­tu­de. As pes­so­as se recu­sam a enve­lhe­cer, ou tra­tam o ido­sos de for­ma pejo­ra­ti­va, colo­cam o ido­so de escan­teio como se a par­tir dos 60 anos fos­se uma pes­soa com­ple­ta­men­te inú­til. Temos que ven­cer essa ques­tão cul­tu­ral, temos que ven­cer o desa­fio de inte­gra­ção, temos que reco­nhe­cer os ido­sos como sujei­tos de direi­to, como pes­so­as que têm con­di­ções de deci­dir sobre a sua pró­pria vida. As pes­so­as não que­rem enve­lhe­cer por­que têm medo de se tor­na­rem inú­teis, serem pes­so­as depen­den­tes.”

Ainda no papel

Quan­to à atu­a­ção do Esta­do e às polí­ti­cas públi­cas, o país avan­çou no reco­nhe­ci­men­to legal de direi­tos, reco­nhe­ce Dani­el­la Jin­kings. No entan­to, ela assi­na­la que “vári­os ser­vi­ços que estão na Polí­ti­ca Naci­o­nal da Pes­soa Ido­sa, rei­te­ra­dos no Esta­tu­to da Pes­soa Ido­sa, ain­da não saí­ram do papel”. “Não temos ser­vi­ços de cui­da­do domi­ci­li­ar, temos uma rede mui­to peque­na de cen­tros dia para pes­so­as ido­sas ou de ins­ti­tui­ções de lon­ga per­ma­nên­cia. A inte­gra­ção entre as polí­ti­cas inter­se­to­ri­al­men­te ain­da é difí­cil”, ava­lia.

A pes­qui­sa­do­ra tam­bém des­ta­ca que o enve­lhe­ci­men­to popu­la­ci­o­nal no Bra­sil é “bas­tan­te desi­gual”.

“As pes­so­as com mais poder aqui­si­ti­vo têm expec­ta­ti­va de vida mai­or do que as pes­so­as em situ­a­ção de vul­ne­ra­bi­li­da­de”, diz Dani­el­la Jin­kings.

O livro A Pes­soa Ido­sa na Cida­de de São Pau­lo: Sub­sí­di­os para a Defe­sa de Direi­tos e Con­tro­le Soci­al apon­ta que, na mai­or cida­de do país, por exem­plo, “obser­va-se que quan­to mais pre­cá­ria a con­di­ção soci­o­ter­ri­to­ri­al menor a pro­por­ção de ido­sos com ida­de aci­ma de 75 anos.” A publi­ca­ção acres­cen­ta que “quan­to mais vul­ne­rá­vel a popu­la­ção, mai­or sua con­cen­tra­ção em ter­ri­tó­ri­os cujas con­di­ções são mais pre­cá­ri­as”. Publi­ca­do com apoio da Pon­ti­fí­cia Uni­ver­si­da­de Cató­li­ca de São Pau­lo (PUC-SP), o livro está dis­po­ní­vel na inter­net.

No livro, a aná­li­se sobre as desi­gual­da­des ter­ri­to­ri­ais apre­sen­ta as gran­des dife­ren­ças de con­di­ção de vida entre os ido­sos que resi­dem em dis­tri­tos cen­trais, como Moe­ma e Jar­dim Pau­lis­ta, “bem mais pro­vi­dos de infra­es­tru­tu­ra urba­na e ser­vi­ços”, e os que habi­tam a peri­fe­ria, como Bra­si­lân­dia e Capão Redon­do, “de urba­ni­za­ção mais pre­cá­ria.”

População menor

A média da expec­ta­ti­va de vida pro­je­ta­da em 2021 era de 77 anos – de 80,5 anos para mulhe­res e 73,6 anos para homens. Esses resul­ta­dos serão atu­a­li­za­dos com as esta­tís­ti­cas do Cen­so 2022, que deve­rão con­fir­mar a ten­dên­cia de enve­lhe­ci­men­to, nota­da nas últi­mas déca­das quan­do além do aumen­to da lon­ge­vi­da­de ain­da se obser­vou a dimi­nui­ção do nas­ci­men­to de bebês. A taxa de fecun­di­da­de (tam­bém em 2021) era de 1,76 filho por mulher.

A pre­vi­são é que no futu­ro o Bra­sil terá mais velhos do que cri­an­ças. Pro­je­ção publi­ca­da pelo Minis­té­rio da Fazen­da — fei­ta pela ana­lis­ta téc­ni­ca de polí­ti­cas soci­ais Ave­li­na Alves Lima Neta – cal­cu­la que, em 2060, “para cada 100 pes­so­as entre 0 e 14 anos tere­mos 206,2 ido­sos aci­ma de 65 anos, ou seja, dois ido­sos nes­sa fai­xa etá­ria para cada uma cri­an­ça ou ado­les­cen­te (0–14).”

Bem antes dis­so, a popu­la­ção bra­si­lei­ra come­ça­rá a dimi­nuir de tama­nho por cau­sa da redu­ção da fecun­di­da­de. Um estu­do do Ins­ti­tu­to de Pes­qui­sa Econô­mi­ca Apli­ca­da (Ipea), assi­na­do pela téc­ni­ca de pla­ne­ja­men­to e pes­qui­sa Ana Amé­lia Cama­ra­no, pre­vê que a popu­la­ção bra­si­lei­ra cres­ce­rá até 2030, quan­do atin­gi­rá seu máxi­mo em “apro­xi­ma­da­men­te 215 milhões.” A par­tir daí, o dese­nho da cur­va se inver­te, dei­xa de ser de cres­ci­men­to popu­la­ci­o­nal, pois o núme­ro de bra­si­lei­ros come­ça a dimi­nuir e em 2040 che­ga­rá a cer­ca de 209 milhões, 6 milhões a menos do que na déca­da ante­ri­or.

O mer­ca­do de tra­ba­lho e a Pre­vi­dên­cia Soci­al serão bas­tan­te impac­ta­dos pelo enve­lhe­ci­men­to e pela dimi­nui­ção da popu­la­ção duran­te a for­ma­ção des­ses cená­ri­os. É pos­sí­vel que as pes­so­as per­ma­ne­çam tra­ba­lhan­do por mais tem­po e que tenham que se tor­nar mais pro­du­ti­vas – gerar mais valor naqui­lo que fazem, com menos recur­so e/ou em menos tem­po.

A aná­li­se do Ipea aler­ta que “aumen­tar a pro­du­ti­vi­da­de do tra­ba­lho é con­di­ção fun­da­men­tal para dimi­nuir os efei­tos da redu­ção popu­la­ci­o­nal na com­pe­ti­ti­vi­da­de da indús­tria e, por isso, ela deve­ria ser um dos obje­ti­vos cen­trais das polí­ti­cas que visem a aumen­tar a com­pe­ti­ti­vi­da­de e cri­ar empre­gos”. “O aumen­to da pro­du­ti­vi­da­de pode­ria, tam­bém, mini­mi­zar a redu­ção da mas­sa sala­ri­al, que é resul­ta­do da dimi­nui­ção da for­ça de tra­ba­lho, e melho­rar a rela­ção contribuinte/beneficiário e as con­di­ções atu­a­ri­ais atu­ais do sis­te­ma pre­vi­den­ciá­rio”, acres­cen­ta.

O estu­do evi­den­cia que cui­dar dos ido­sos vai além da assis­tên­cia soci­al: “A manu­ten­ção do tra­ba­lha­dor na ati­vi­da­de econô­mi­ca por mais tem­po requer polí­ti­cas de inclu­são digi­tal, capa­ci­ta­ção con­ti­nu­a­da, saú­de ocu­pa­ci­o­nal, adap­ta­ções no local de tra­ba­lho, como car­gos e horá­ri­os fle­xí­veis, redu­ção de pre­con­cei­tos com rela­ção ao tra­ba­lho do ido­so, melho­ria no trans­por­te públi­co, entre outras.”

Edi­ção: Juli­a­na Andra­de

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