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Brasília, 63: novos candangos madrugam e sonham no centro comercial

Repro­dução: © Joéd­son Alves/Agência Brasil

Pub­li­ca­do em 21/04/2023 — 09:02 Por Luiz Clau­dio Fer­reira — Repórter da Agên­cia Brasil — Brasília


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- Vamos com­er, vamos com­er. Já é meio-dia. Bora, Brasília.

A chama­da é um gri­to no meio da mul­ti­dão, que não são todos que podem obe­de­cer. Não é por fal­ta de fome. No cen­tro com­er­cial da cap­i­tal, na Asa Sul, tra­bal­hadores acor­daram bem cedo, antes do céu se acen­der. Por uns son­hos, por uns reais, por todas as real­i­dade que os cer­cam. O horário é o de menos. Não dá para parar. O cliente chegou. Os novos can­dan­gos estão no “corre”.

Que o diga o brasiliense João Welling­ton Batista, de 42 anos, moto­ci­clista de aplica­ti­vo, na ansiedade do próx­i­mo som do celu­lar, que avisa qual será a próx­i­ma entre­ga. Nem o dedo enfaix­a­do que ele lesio­nou, lavan­do a “bicha” (a com­pan­heira moto) com o motor lig­a­do, faz com que ele dê um tem­po do “tram­po”.  “Nem pen­sar dá pra parar. Ten­ho um fil­ho de 13 anos para cuidar”. Na roti­na, sai de Samam­ba­ia, a 30 km dali, antes das 6h da mati­na. Só vol­ta para casa depois da meia-noite o fil­ho de pais de Uber­a­ba (MG) e Goiâ­nia (GO).

Brasília (DF) 21/04/2023 - Especial 63 anos de Brasília, os candangos da cidade. O motoboy Joāo Wellington posa para fotografia em sua moto. Foto: Joédson Alves/ Agência Brasil
Repro­dução: Nem o dedo machu­ca­do faz com que o moto­ci­clista Joāo Welling­ton pare de tra­bal­har- Foto: Joéd­son Alves/Agência Brasil

Ele já pas­sou por out­ros aper­tos. Joel­ho arran­hado, bacia machu­ca­da. “Foram três aci­dentes ness­es últi­mos tem­pos. O trân­si­to dá medo mes­mo”. Mas não teve mui­ta opção, des­de que, em 2015, perdeu o emprego de porteiro, o últi­mo com carteira assi­na­da. Ao lado de sua moto, out­ras acel­er­am ao primeiro som do celu­lar. Os novos can­dan­gos estão em meio a uma mis­tu­ra de barul­hos.

Mis­tu­ra tam­bém de cheiros e gos­tos. “Olha o chur­rasquin­ho. Quentin­ho. Vamos almoçar”. Mas ain­da não é pro bico de Nathan San­ti­a­go, de 23 anos, que só vai poder mon­tar a mar­mi­ta depois das 14h30. Ago­ra, tem que servir os out­ros. A fumaça que sai das chur­rasqueiras sobe para o nar­iz e para os olhos, embal­a­da pelo cli­ma seco da cap­i­tal.

Brasília (DF) 21/04/2023 - Especial 63 anos de Brasília, os candangos da cidade. Natan Santos posa para fotografia na barraca em que trabalha servido almoço. Foto: Joédson Alves/ Agência Brasil
Repro­dução: Enquan­to esquen­ta os chur­rasquin­hos, Nathan San­ti­a­go son­ha faz­er um cur­so supe­ri­or. Foto: Joéd­son Alves/ Agên­cia Brasil

Nathan sai ced­in­ho de Planalti­na, a quase 60 km do cen­tro. Tudo vale a pena. Son­ha faz­er um cur­so supe­ri­or em gestão de pes­soas. Jun­to com ele, está no caixa do chur­rasquin­ho Sávio Sil­va, de 20, tam­bém planalti­nense. “É uma cor­re­ria difí­cil”. Menos difí­cil, segun­do ele, do que a aven­tu­ra por qual pas­sou o pai carpin­teiro, que saiu de Flo­ri­ano (PI) para ten­tar a vida na cap­i­tal. Hoje dese­ja mes­mo faz­er fac­ul­dade de admin­is­tração. Enquan­to pen­sam no futuro, ambos de más­cara, só tiram do ros­to para tomar água em uma gar­rafa que já foi de refrig­er­ante.

Almoçar tam­bém não é a pri­or­i­dade do goiano Fábio Araújo, de 40 anos, que está no out­ro lado da rua. Aliás, o com­er­ciante admin­is­tra dois negó­cios ao mes­mo tem­po: os docin­hos em cima de uma mesa de plás­ti­co e a cadeira de engrax­ate. Foi lus­tran­do os sap­atos alheios que ele começou essa aven­tu­ra de comér­cio de rua há 16 anos. Para com­ple­men­tar ren­da, resolveu jun­tar paço­cas, balas e banana­da para ter mais moed­in­has no final do dia. Qual vale mais a pena? “Os dois. Impor­ta que eu leve din­heiro para casa”.

Brasília (DF) 21/04/2023 - Especial 63 anos de Brasília, os candangos da cidade. Fábio de Araújo posa para fotografia em sua mesa com doces no setor comercial. Foto: Joédson Alves/ Agência Brasil
Repro­dução: Fábio Araújo vende doces, mas tam­bém atua como engrax­ate. Foto: Joéd­son Alves/Agência Brasil

A casa fica em Luz­iâ­nia, a 60 km dali, o que faz com que ele des­perte todos os dias às 4h da man­hã para chegar ao cen­tro de Brasília, às 7h. Afi­nal, a pri­or­i­dade, nesse momen­to, é o trata­men­to do fil­ho mais vel­ho, de 18 anos, que foi diag­nos­ti­ca­do com lúpus. Além dele, tem mais três fil­hos que pre­cisam da atenção do pai. Todos na casa son­ham um dia ter uma casa própria. “E saúde, para eu con­tin­uar tra­bal­han­do”. A esposa tam­bém madru­ga. Faz dindim caseiro para vender em Luz­iâ­nia.

Entre as clientes dos docin­hos de Fábio, a per­nam­bu­cana Aline dos San­tos, de 22 anos, que tra­bal­ha como aux­il­iar de serviços gerais em uma empre­sa do cen­tro, comem­o­ra ter reg­istro em carteira.

Brasília (DF) 21/04/2023 - Especial 63 anos de Brasília, os candangos da cidade. Aline Mayane possa para fotografia em seu horário de almoço no setor comercial. Foto: Joédson Alves/ Agência Brasil
Repro­dução: A arcover­dense Aline quer prestar con­cur­so públi­co em Brasília. Joéd­son Alves/Agência Brasil

Tal e qual son­haram os pais, um pin­tor e uma empre­ga­da domés­ti­ca, des­de quan­do saíram de Arcoverde (PE) para se insta­lar em Ceilân­dia, a maior região admin­is­tra­ti­va do Dis­tri­to Fed­er­al e que tem 60% da pop­u­lação,  cer­ca de 140 mil pes­soas nasci­das no Nordeste. Out­ros 130 mil são descen­dentes dire­tos de pais daque­la região.

Aline entra no serviço às 7h, o que faz com que madrugue no ônibus. “Son­ho estu­dar mais e pas­sar em um con­cur­so da polí­cia”. Mas ain­da pre­cisa recu­per­ar o tem­po pas­sa­do e ter­mi­nar o ensi­no médio.

História de exclusão

Son­hos legí­ti­mos, apaga­men­tos da história de tra­bal­hadores da cap­i­tal, reações soci­ais…. Para o his­to­ri­ador Guil­herme Lemos, a Brasília do ano de 2023 guar­da cam­in­hos de seg­re­gação e racis­mo, como ocor­reram des­de a sua con­strução.

Brasília (DF) - Especial 63 anos de Brasília, os candangos da cidade. Guilherme Lemos em uma palestra. Foto: Arquivo Pessoal/Divulgaçāo
Repro­dução: Guil­herme Lemos estu­dou o apaga­men­to dos “Dois Can­dan­gos”. Foto: Arqui­vo Pessoal/Divulgaçāo

Ele cita um episó­dio ocor­ri­do em abril de 1962, quan­do os tra­bal­hadores Gilde­mar Mar­ques, de 19 anos, nasci­do em Bom Jesus (PI), e Expe­d­i­to Xavier Gomes, de 27, de Ipu (CE) mor­reram em um can­teiro de obras da Uni­ver­si­dade de Brasília. O fato foi tam­bém obje­to de pesquisa de doutora­do de Guil­herme Lemos na tese No dilac­er­ar do con­cre­to (leia aqui). Sai­ba tam­bém sobre as providên­cia da Justiça do DF para reparação das famílias das víti­mas.

Em “hom­e­nagem” às víti­mas, o auditório da uni­ver­si­dade gan­hou o nome de “Dois Can­dan­gos”, e não o nome deles.”A min­ha questão era jus­ta­mente como que esse nome can­dan­gos acabou apa­gan­do essa história do Brasil”, expli­cou.

O pesquisador chama atenção que se tra­ta da história de uma segun­da ger­ação de tra­bal­hadores de um Brasil pós-abolição. O con­cre­to da obra serviu, então, con­forme o pesquisador, com a mon­u­men­tal­iza­ção que é Brasília, para ocul­tar esse pas­sa­do do Brasil escrav­ista. Um Brasil teori­ca­mente dis­pos­to a não tratar do pas­sa­do e até a escondê-lo.

“Essa mon­u­men­tal­iza­ção gera um apaga­men­to da memória dess­es home­ns. Um pas­sa­do que é de vio­lên­cia e roman­ti­za­ção na ten­ta­ti­va de esquec­i­men­to”.

 

“Vim como mucama”

No pre­sente da cap­i­tal, o cen­tro com­er­cial traz histórias de recomeço. Como é o caso da ambu­lante Sil­vana Alves, de 43 anos, que vende roupas em uma bar­ra­ca. Ela, que é da cidade de Piracu­ru­ca (PI), mudou soz­in­ha para Brasília há cer­ca de 25 anos. “Vim para cá com menos de 18 anos de idade como muca­ma para faz­er serviços domés­ti­cos. Não deu para estu­dar. Des­de cri­ança, vivia na roça. Hoje, con­si­go aju­dar min­ha mãe que con­tin­ua lá. Vou a São Paulo peri­odica­mente para com­prar os vesti­dos, blusas e casacos para gan­har algu­ma coisa”.

Na Feira do Pedre­gal, no Novo Gama, ela con­heceu o mari­do Rubens Mar­tins, de 31 anos, que ven­dia biju­te­rias, e nasceu em Niquelân­dia (GO).  Resolver­am jun­tar as esper­anças e os varais de pro­du­tos. “Somos dois can­dan­gos”, diz ela.

Brasília (DF) 21/04/2023 - Especial 63 anos de Brasília, os candangos da cidade. O casal Rubens Martins e Silvana Alves posa para fotografia em sua barraca de roupas no setor comercial. Foto: Joédson Alves/ Agência Brasil
Repro­dução: O casal Sil­vana Alves e Rubens Mar­tins se con­hece­r­am em uma feira e resolver­am jun­tar os varais. Joéd­son Alves/Agência Brasil

De frente à bar­ra­ca de roupas, três pes­soas estão em vol­ta de uma caixa de iso­por com mar­mi­tas: Thay­nara Alves, de 34, o mari­do Wen­der Soares, de 49, que tam­bém é taxista, e a fil­ha de cin­co meses. “Ela é a úni­ca que não pode ficar sem com­er. A gente con­segue”, diz Thay­nara, que son­ha mes­mo ser profis­sion­al de saúde.

 

Brasília (DF) 21/04/2023 - Especial 63 anos de Brasília, os candangos da cidade. O casal Wender Soares e Thaynara Alves e sua filha, Ana Júlia posam para foto em sua barraca de vender comida no setor comercial. Foto: Joédson Alves/ Agência Brasil
Repro­dução: Na hora do almoço, só quem tem o horário respeita­do é a fil­ha de cin­co meses. Joéd­son Alves/Agência Brasil

Hoje, ela cur­sa enfer­magem à noite, per­to de onde mora, em Luz­iâ­nia (GO). Procu­ra voltar rápi­do para casa de for­ma que o mari­do pos­sa des­cansar. Afi­nal, atende os clientes a par­tir das 3h da man­hã. “O meu fil­ho mais vel­ho me jurou que vai faz­er fac­ul­dade para realizar meu son­ho. Quer­e­mos o mes­mo para a nos­sa bebê, que ela goste de viv­er aqui”, expli­cou.

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