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Campanha alerta sociedade sobre alergia alimentar

Repro­dução: © Arquivo/Agência Brasil

Leite de vaca pode ser trocado por leites de soja ou de aveia


Publicado em 25/06/2024 — 08:55 Por Alana Gandra — Repórter da Agência Brasil — Rio de Janeiro

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Com o tema Superan­do os Obstácu­los em Aler­gia Ali­men­tar, a Orga­ni­za­ção Mundi­al de Aler­gias (WAO — World Aller­gy Orga­ni­za­tion) pro­move a Sem­ana Mundi­al da Aler­gia até o próx­i­mo dia 29, chaman­do a atenção para a con­sci­en­ti­za­ção da sociedade sobre aler­gias.

O pres­i­dente do Insti­tu­to de Metab­o­lis­mo e Nutrição (IMEN), nutról­o­go e car­di­ol­o­gista Daniel Magnoni, disse à Agên­cia Brasil que, no pas­sa­do, a aler­gia ali­men­tar e suas con­se­quên­cias, prin­ci­pal­mente no tra­to gas­troin­testi­nal, pas­savam des­perce­bidas pelo pouco con­hec­i­men­to que se tin­ha.

“Hoje em dia, esta­mos nos habit­uan­do a tratar e iden­ti­ficar”, garan­tiu. A aler­gia ali­men­tar com­pro­m­ete todas as faixas etárias, prin­ci­pal­mente cri­anças e idosos. “São pes­soas mais propen­sas a aler­gias e, por out­ro lado, mais propen­sas às com­pli­cações da aler­gia, dan­do, às vezes, prob­le­mas de saúde muito graves”, detal­hou.

Segun­do Magnoni, é con­ver­san­do com o paciente que o espe­cial­ista pode saber se ele tem ou não aler­gia ali­men­tar. “E iden­ti­f­i­can­do out­ros tipos de sin­tomas semel­hantes na própria família e, com o paciente, iden­ti­f­i­can­do alter­ações no tra­to gas­troin­testi­nal, como diar­reia, dis­ten­são abdom­i­nal, cóli­cas, reações adver­sas na pele, levan­do a quadros que mostram que a pes­soa está com algum tipo de aler­gia. Tam­bém iden­ti­f­i­can­do o nexo causal: se está rela­ciona­do dire­ta­mente com o com­er algum tipo de ali­men­to, seja em algu­mas horas e, até alguns dias antes”, afir­mou.

As aler­gias ali­menta­res podem ser fatais. Magnoni expli­cou que o con­sumo con­tin­u­a­do de ali­men­tos que dão aler­gia pode provo­car casos de desnu­trição ou má nutrição, cau­san­do defi­ciên­cia de alguns tipos de min­erais e pro­teí­nas.

Ele citou que a aler­gia ao leite de vaca, por exem­p­lo, é um prob­le­ma muito sério. Mas, hoje em dia, esse pro­du­to pode ser tro­ca­do por leites veg­e­tais de soja ou de aveia, por exem­p­lo. E, assim, suprir as pes­soas das defi­ciên­cias de pro­teí­nas e min­erais. Ele sug­eriu que se façam tro­cas com edu­cação nutri­cional, iden­ti­f­i­can­do as pos­si­bil­i­dades das tro­cas e, com isso, não ter os sin­tomas, nem desnu­trição.

Aler­gia ali­men­tar não é a mes­ma coisa que intol­erân­cia ali­men­tar. Essa é uma defi­ciên­cia enz­imáti­ca do tra­to gas­troin­testi­nal que a pes­soa ou tem como doença genéti­ca ou adquire secun­dari­a­mente a out­ros tipos de doença, como desnu­trição, câncer e diar­reias crôni­cas. Os sin­tomas, muitas vezes, são bem pare­ci­dos e uma con­sul­ta ao profis­sion­al vai iden­ti­ficar o diag­nós­ti­co e tratar da for­ma mais cor­re­ta.

Magnoni expli­cou que, na med­i­c­i­na, as profis­sões que podem faz­er o diag­nós­ti­co de aler­gia ali­men­tar são os gas­troen­terol­o­gis­tas, nutról­o­gos, aler­gis­tas e imu­nol­o­gis­tas. E, para cri­anças, os pedi­atras.

Aumento

A coor­de­nado­ra do Depar­ta­men­to Cien­tí­fi­co de Aler­gia Ali­men­tar da Asso­ci­ação Brasileira de Aler­gia e Imunolo­gia (Asbai), Lucila Camar­go, con­fir­mou que está haven­do um aumen­to das aler­gias ali­menta­res ver­dadeiras no Brasil. “As aler­gias estão aumen­tan­do mes­mo, mas o Brasil sofre com erro de diag­nós­ti­co. Mui­ta gente se acred­i­ta alér­gi­co ali­men­tar, mas não tem aler­gia ali­men­tar”, obser­vou.

Para faz­er a difer­en­ci­ação entre aler­gia ali­men­tar ou out­ra doença, uma avali­ação por um espe­cial­ista é impor­tante. Ele faz uma anam­nese ou inves­ti­gação min­u­ciosa, para cor­rela­cionar a ingestão de ali­men­tos com a man­i­fes­tação dos sin­tomas. Depois, neces­si­tan­do, o profis­sion­al pode lançar mão de testes aux­il­iares diag­nós­ti­cos para con­fir­mar ou afas­tar essa pos­si­bil­i­dade.

“Haven­do dúvi­das, a gente pode pro­ced­er com teste de provo­cação oral (TPS). Esse pro­ced­i­men­to traz um cer­to risco para o paciente porque dá o ali­men­to de maneira con­tro­la­da, em dos­es cres­centes, em ambi­ente que per­mite con­tro­lar uma even­tu­al man­i­fes­tação alér­gi­ca grave. Só que esse pro­ced­i­men­to é pouco disponi­bi­liza­do tan­to no Sis­tema Úni­co de Saúde (SUS) como no sis­tema de saúde pri­va­do. Esse tam­bém é um dos gar­ga­los que a gente tem para o diag­nós­ti­co, porque se é um pro­ced­i­men­to con­sid­er­a­do padrão ouro para checar o esta­do dos alér­gi­cos, quer seja para o diag­nós­ti­co, quer seja para avaliar se aque­le indi­ví­duo tem intol­erân­cia ao ali­men­to nat­u­ral­mente, esse pro­ced­i­men­to ain­da é pouco recon­heci­do para ser real­iza­do no SUS e no sis­tema par­tic­u­lar”, acen­tu­ou.

Lucila infor­mou, tam­bém, que o TPO foi lib­er­a­do para ser exe­cu­ta­do para cri­anças alér­gi­cas a leite de vaca até 24 meses de idade e incluí­do no rol da Agên­cia Nacional de Saúde Suple­men­tar (ANS) com essas mes­mas final­i­dades e faixa etária.

“Mas a gente tem out­ras aler­gias ali­menta­res nas diver­sas idades. O resto não fica con­tem­pla­do”, desta­cou a coor­de­nado­ra do Depar­ta­men­to Cien­tí­fi­co de Aler­gia Ali­men­tar da Asbai. Frisou que poucos hos­pi­tais real­izam o pro­ced­i­men­to pelo SUS, mas não recebem do sis­tema públi­co. Da mes­ma for­ma, os pacientes pri­va­dos não con­seguem ter o gas­to ressar­ci­do pelos planos de saúde.

Testes em farmácia

Out­ro prob­le­ma em relação ao diag­nós­ti­co é que os testes alér­gi­cos disponíveis podem dar pos­i­ti­vo e o indi­ví­duo não ser alér­gi­co. Por isso, ela apon­tou que na visão de espe­cial­is­tas, a disponi­bi­liza­ção de testes em far­má­cia “é pés­si­mo. O paciente pode achar que é alér­gi­co e, na ver­dade, ele não é”. Para os pacientes que têm aler­gia ali­men­tar, a con­dução é tirar o ali­men­to. Daí que há pes­soas que estão em dieta de restrição com risco nutri­cional e pre­juí­zo na qual­i­dade de vida por pos­i­tivi­dade em testes alér­gi­cos que não se con­fir­mam na real­i­dade.

“Por isso, a gente briga que não dá para ter testes alér­gi­cos nas far­má­cias. Tem que ser indi­ca­do pelo espe­cial­ista e con­tex­tu­al­iza­do den­tro de uma história clíni­ca con­dizente, porque, senão, a pes­soa fica achan­do que tem aler­gia ali­men­tar e não tem. Esse é out­ro prob­le­ma que faz a gente ter um erro diag­nós­ti­co para mais”, rev­el­ou.

No caso de o indi­ví­duo ser real­mente alér­gi­co, por exem­p­lo, ao leite de vaca e ao ovo, o ali­men­to deve ser reti­ra­do da dieta. “Ele não vai poder com­er”,  lem­brou.

Para cri­anças menores de um ano alér­gi­cas a leite de vaca, a recomen­dação é o aleita­men­to mater­no. Quan­do esse não é sufi­ciente, entra-se com fór­mu­la espe­cial infan­til para alér­gi­cos. Isso já é disponi­bi­liza­do no SUS na maio­r­ia dos esta­dos.

Para cri­anças maiores, a infor­mação da aler­gia ali­men­tar deve ser lev­a­da para as esco­las e dita em restau­rantes para que não ten­ham con­ta­to sem quer­er com o ali­men­to. “Às vezes, uma peque­na quan­ti­dade pode ser sufi­ciente para defla­grar reações alér­gi­cas graves”, adver­tiu a médi­ca.

Lucila aler­tou, ain­da, que, às vezes, em um restau­rante, o con­ta­to cruza­do de uma mes­ma col­her usa­da para mex­er um pra­to com camarão, que a pes­soa tem aler­gia, e um pra­to com out­ro tipo de crustáceo que ela pode com­er, isso pode defla­grar reações alér­gi­cas.

Para os pacientes com restrição de ali­men­tos é feito um trata­men­to mul­ti­dis­ci­pli­nar com nutri­cionista para man­ter uma dieta bal­ancea­da mes­mo sem aque­les ali­men­tos que dão aler­gia, e se esta­b­elece para as famílias um plano de ação por escrito.

Alguns pacientes recebem indi­cação de car­regar uma med­icação que é a adren­a­li­na autoin­jetáv­el para casos de reações alér­gi­cas graves e poten­cial­mente fatais, que é a anafi­lax­ia. Essa med­icação é efe­t­u­a­da e, em segui­da, deve-se levar o paciente a um pron­to-socor­ro, visan­do revert­er os sinais de maneira ráp­i­da.

O prob­le­ma é que, no Brasil, só existe a adren­a­li­na autoin­jetáv­el den­tro dos hos­pi­tais. De modo ger­al, não há o dis­pos­i­ti­vo que o próprio paciente ou o cuidador pos­sa aplicar para dar tem­po de chegar no hos­pi­tal. Essa med­icação é impor­ta­da e cara, o que difi­cul­ta muito o aces­so, em espe­cial de pacientes do SUS. Em ger­al, a ori­en­tação dos espe­cial­is­tas é que a pes­soa ten­ha duas cane­tas de adren­a­li­na autoin­jetáv­el, que têm de ser ren­o­vadas à medi­da que fin­da a val­i­dade. “Aca­ba sendo muito caro”, opina.

Saúde pública

Na avali­ação de Lucila Camar­go, a aler­gia ali­men­tar é um prob­le­ma de saúde públi­ca no mun­do inteiro. No Brasil, ela disse que ain­da há poucos lev­an­ta­men­tos que mostrem a prevalên­cia real do prob­le­ma. “Mas ele está crescen­do e se agra­van­do. Os ver­dadeiros alér­gi­cos tam­bém estão aumen­tan­do”. Na Aus­trália, por exem­p­lo, a aler­gia ali­men­tar atinge 10% das cri­anças. Nos Esta­dos Unidos, os adul­tos são mais atingi­dos. Já na África, há poucos relatos.

As cri­anças são as mais acometi­das. Os prin­ci­pais ali­men­tos que provo­cam aler­gia são leite, ovo, soja, tri­go, peix­es, fru­tos do mar, amen­doim, cas­tan­has e, em alguns país­es, o gerge­lim. Há vari­ações de país para país. No Brasil, atual­mente, out­ro ali­men­to que entrou no rol dos alér­gi­cos é a banana [dada a cri­anças]. Lucila insis­tiu que esse é um fenô­meno que está aumen­tan­do.

“Se antiga­mente a maio­r­ia dos alér­gi­cos a leite e ovo fica­va intol­er­ante ain­da na fase esco­lar, hoje em dia a gente tem vis­to cri­anças que arras­tam isso para a fase ado­les­cente e adul­ta. Os quadros estão fican­do mais fre­quentes para mais ali­men­tos, e fican­do mais graves e per­sis­tentes”, final­i­zou a médi­ca.

Edição: Kle­ber Sam­paio

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