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Campeão do Festival de Parintins será conhecido nesta segunda

Repro­dução: © Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Cidade se divide entre os bois Garantido e Caprichoso


Publicado em 01/07/2024 — 09:04 Por Léo Rodrigues — Enviado especial — Parintins (AM)

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O campeão do 57º Fes­ti­val de Par­intins, divi­di­do entre o ver­mel­ho do Boi Garan­ti­do e o azul do Capri­choso — será con­heci­do nes­ta segun­da-feira (1º). As apre­sen­tações no Bum­bó­dro­mo começaram na sex­ta-feira (28) à noite e se esten­der­am até esse domin­go.

Vis­i­tantes que chegam pela primeira vez ao Fes­ti­val de Par­intins bus­can­do se apro­fun­dar nos detal­h­es do even­to logo se deparam com um desafio: dom­i­nar o vocab­ulário ger­a­do em torno do even­to. A lista de palavras e ter­mos, parte deles de origem indí­ge­na, envolve des­de os nomes dos per­son­agens até sub­stan­tivos especí­fi­cos para se referir a com­po­nentes e torce­dores de cada um dos bois.

Con­sid­er­a­do patrimônio cul­tur­al do país pelo Insti­tu­to do Patrimônio Históri­co e Artís­ti­co Nacional (Iphan), o even­to está lig­a­do à tradição cul­tur­al do Boi-Bum­bá. A man­i­fes­tação pop­u­lar gira em torno de uma len­da sobre a ressur­reição do boi.

Para con­tar essa história, é pre­ciso rep­re­sen­tar alguns per­son­agens. O Amo do Boi, que rep­re­sen­ta o dono da fazen­da, é o can­tor e com­pos­i­tor que faz ver­sos exal­tan­do sua tor­ci­da e desafian­do o adver­sário. Já a sua fil­ha, a Sin­haz­in­ha, tam­bém tem destaque na ence­nação e acom­pan­ha a evolução do boi.

Out­ra per­son­agem de refer­ên­cia é a cun­hã-poran­ga, a “moça boni­ta” da aldeia e guardiã de seu povo, que expres­sa força pela beleza. No Boi Garan­ti­do, esse papel é desem­pen­hado por Isabelle Nogueira, que par­ticipou recen­te­mente do Big Broth­er Brasil, real­i­ty show pro­duzi­do pela Rede Globo, e con­tribuiu para aumen­tar o inter­esse sobre o Fes­ti­val de Par­intins. No Boi Capri­choso, o pos­to per­tence à Mar­ciele Albu­querque.

Parintins (AM), 29/06/2024 - Apresentação do Boi Caprichoso na segunda noite do 57º Festival Folclórico de Parintins, no Bumbódromo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Par­intins (AM) — Apre­sen­tação do Boi Capri­choso na segun­da noite do 57º Fes­ti­val Fol­clóri­co — Foto Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Há ain­da a vaque­ira­da, com­pos­ta pelos guardiões do boi. Já os tux­auas rep­re­sen­tam os chefes dos povos indí­ge­nas. Nas toadas, pro­duzi­das anual­mente para embalar as apre­sen­tações, notam-se muitas dessas palavras e ter­mos, como tam­bém out­ros são agre­ga­dos. Aque­las canções que se tor­nam hits con­tribuem para estim­u­lar a ampli­ação do vocab­ulário do even­to.

Em 2015, estu­do pro­duzi­do na Uni­ver­si­dade do Esta­do do Ama­zonas (UEA) inves­tigou a pre­sença de palavras indí­ge­nas nas toadas. De acor­do com a pesquisado­ra Dul­cilân­dia Belém da Sil­va, respon­sáv­el pelo tra­bal­ho, esse é um dos ele­men­tos que con­tribuiu para a expan­são do Fes­ti­val de Par­intins pela comu­nidade ama­zo­nense.

Ela lem­bra que a maior val­oriza­ção dos adereços e dos com­po­nentes indí­ge­nas tiver­am iní­cio em 1993, rev­olu­cio­nan­do a tradição do Boi-Bum­bá e fazen­do com que o fes­ti­val gan­has­se mais espaço na mídia. “No ano 2000, as toadas com tema indí­ge­na alcançaram sua con­sol­i­dação no âmbito das toadas de boi e com reg­u­lar­i­dade e incidên­cia expres­si­vas, prin­ci­pal­mente dev­i­do à implan­tação do edi­tal para a seleção das toadas, que esta­b­ele­ceu alguns critérios que balizaram a pro­dução cria­ti­va”, obser­vou.

A pesquisa con­tabi­li­zou 1.014 toadas no perío­do entre 1986 e 2013, das quais 466 têm como tema o com­po­nente indí­ge­na. Entre essas, encon­traram-se 2.327 palavras indí­ge­nas. O estu­do mostra ain­da que, em 2015, esta­va ocor­ren­do o uso mais recor­rente de palavras de tron­cos lin­guís­ti­cos além do tupi.

Parintins (AM), 29/06/2024 - Apresentação do Boi Garantido na segunda noite do 57º Festival Folclórico de Parintins, no Bumbódromo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Par­intins (AM) — Apre­sen­tação do Boi Garan­ti­do na segun­da noite do 57º Fes­ti­val Fol­clóri­co — Foto Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Dul­cilân­dia tam­bém lem­brou que a cul­tura local já era recep­ti­va ao vocab­ulário indí­ge­na. Antes mes­mo do cresci­men­to do fes­ti­val, eram uti­liza­dos ter­mos como curu­mim e cun­hatã. Out­ras palavras, no entan­to, como cun­hã-poran­ga se pop­u­larizaram por meio das toadas.

Galeras e currais

Enquan­to há um vocab­ulário comum para os per­son­agens, há sub­stan­tivos especí­fi­cos usa­dos para se referir às galeras de cada um, como são chamadas as tor­ci­das. Os adep­tos do Boi Garan­ti­do são os encar­na­dos, em alusão à cor ver­mel­ha, ou per­rechés, ter­mo ado­ta­da como vari­ante do adje­ti­vo pejo­ra­ti­vo ‘pé racha­do’ dis­sem­i­na­do pelos adver­sários no pas­sa­do. Já os maru­jeiros man­i­fes­tam sua paixão pelo Boi Capri­choso. Muitos se tor­nam torce­dores por influên­cia de suas famílias, o que faz do fes­ti­val um even­to que ali­men­ta a tradição que se ren­o­va a cada ger­ação.

Morador de Man­aus, o per­reché Raimun­do Medeiros, que tra­bal­ha com trans­porte marí­ti­mo, encar­ou uma viagem de 16 horas de bar­co des­de a cap­i­tal ama­zo­nense até Par­intins. Todos os anos, ele encara a mes­ma jor­na­da para estar pre­sente no fes­ti­val. A embar­cação em que ele esta­va, reple­ta de redes para des­can­so, reu­nia mais de 200 encar­na­dos.

“Isso vem des­de o ven­tre da min­ha mãe. A min­ha família toda é torce­do­ra do Boi Garan­ti­do. A viagem é lon­ga, mas não é cansati­va, porque durante todo o tem­po a gente vem brin­can­do e se divertin­do. Des­cansa na rede. E a gente sabe que vai chegar aqui para torcer para o Garan­ti­do. É mui­ta emoção. Quan­do ele entra na are­na, parece sem­pre que esta­mos viven­do aque­le momen­to pela primeira vez”, con­ta.

Parintins (AM), 29/06/2024 - O designer gráfico Weucles Santos, do Movimento Garantido, dorme em rede no barco em que navegou até Parintis para torcer pelo Boi Garantido no 57º Festival Folclórico de Parintins. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Par­intins (AM) — O design­er grá­fi­co Weu­cles San­tos, do Movi­men­to Garan­ti­do, dorme em rede no bar­co em que nave­g­ou até Par­in­tis — Foto Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Do out­ro lado, a maru­jeira Ste­fany Rocha se mostra con­fi­ante no títu­lo. Estu­dante de pub­li­ci­dade, ela tam­bém saiu de Man­aus. Chegou a Par­intins para acom­pan­har o fes­ti­val pela segun­da vez. A paixão pelo Boi Capri­choso tam­bém foi her­da­da da mãe. “É uma emoção, uma feli­ci­dade. Só quem está aqui sabe o se que pas­sa no coração e na cabeça na hora da apre­sen­tação. É muito grat­i­f­i­cante, muito lin­do ver a nos­sa cul­tura”.

As bate­rias tam­bém têm des­ig­nações difer­en­ci­adas. No Garan­ti­do, é a batu­ca­da, e no Capri­choso, a maru­ja­da. Se em boa parte da cidade, o ver­mel­ho e o azul se mis­tu­ram, há tam­bém áreas mais delim­i­tadas onde o pre­domínio é claro. Isso ocorre no entorno dos cur­rais, local onde fun­cionam os ensaios de cada boi. O do Boi Garan­ti­do fica na Baixa do São José e o do Boi Capri­choso está local­iza­do no cen­tro da cidade.

Edição: Graça Adju­to

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