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“Carnaval é o nosso 13º salário”, diz liderança de camelôs

Repro­dução: © Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Apesar do aquecimento nas vendas, ambulantes veem mais concorrência


Pub­li­ca­do em 11/02/2024 — 13:04 Por Bruno de Fre­itas Moura — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

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Em prati­ca­mente todo o Brasil, a tem­po­ra­da é de folia nas ruas. O espíri­to do car­naval atrai foliões para blo­cos e des­files de esco­las de sam­ba. Para mui­ta gente, é sinôn­i­mo de dias segui­dos de diver­são. Mas para uma cat­e­go­ria especí­fi­ca de tra­bal­hadores, é a con­vo­cação para um perío­do com grande ape­lo de fat­u­ra­men­to. O car­naval faz a fes­ta de vende­dores ambu­lantes, quan­do o assun­to é ven­da.

“Car­naval é o nos­so 13º salário”, diz, ressaltan­do a importân­cia da data, a vende­do­ra ambu­lante Maria do Car­mo, con­heci­da como Maria dos Camelôs, fun­dado­ra e coor­de­nado­ra-ger­al do Movi­men­to Unido dos Camelôs (Muca).

“É quan­do a gente con­segue tirar uma grana para pagar IPVA, IPTU, com­prar mate­r­i­al de esco­la das cri­anças e uni­forme, muitas pes­soas fazem mais um puxad­in­ho na casa. Então, o car­naval é o momen­to que a gente vai para a rua para gan­har uma granin­ha a mais”, com­ple­ta a camelô, de 49 anos de idade, que tra­bal­ha des­de os 20 anos em blo­cos no tradi­cional bair­ro de San­ta Tere­sa, região cen­tral do Rio de Janeiro, venden­do caipir­in­ha.

Adereços

Rio de Janeiro (RJ) 09/02/2024 - Personagem vendedora de itens carnaval na zona sul do Rio de Janeiro, Cristina de Oliveira para matéria - Carnaval é o nosso 13º salário”, diz representante de ambulantesFoto: Cristina de Oliveira/Arquivo Pessoal
Repro­dução: Vende­do­ra de itens car­naval na zona sul do Rio de Janeiro Cristi­na de Oliveira para matéria  Foto: Cristi­na de Oliveira/Arquivo Pes­soal

O aque­c­i­men­to que os dias de car­naval causa nas ven­das faz a ambu­lante Cristi­na de Oliveira mudar o foco dos pro­du­tos ofer­e­ci­dos. Ao lon­go do ano, ela tra­bal­ha com arte­sana­to, como cordões, bol­sas e pul­seiras. Quan­do se aprox­i­ma o perío­do de folia, Cristi­na preenche a bar­ra­ca, em Copaca­bana — um dos bair­ros mais turís­ti­cos do Rio -, com itens car­navale­scos, como adereços e partes de fan­tasias.

Com exper­iên­cia de quem já vendeu quase de tudo na bar­raquin­ha por mais de duas décadas, Cristi­na, de 56 anos de idade, não hesi­ta em diz­er qual o mel­hor perío­do para gan­har din­heiro.

“Para mim, a mel­hor data é o car­naval. Já fui camelô de pra­ia, de comi­da, san­duíche nat­ur­al, chur­rasquin­ho, sem­pre lig­a­da a tra­bal­ho de rua. Só não ven­do pirataria”, lista a ambu­lante, que tem orgul­ho em diz­er que con­seguiu pagar esco­la par­tic­u­lar para a fil­ha, hoje com 26 anos de idade.

“Ela vai se for­mar em vet­er­inária este ano. Fac­ul­dade fed­er­al. Mas sem­pre paguei a esco­la par­tic­u­lar”, disse.

Injeção de dinheiro

A Prefeitu­ra do Rio de Janeiro esti­ma que o car­naval deste ano deve movi­men­tar R$ 5 bil­hões na econo­mia car­i­o­ca. Essa injeção de din­heiro vem de diver­sas ativi­dades, de hote­lar­ia à pub­li­ci­dade, pas­san­do, claro, pelas ven­das de ambu­lantes.

Em dia de blo­co, Maria dos Camelôs tra­bal­ha cer­ca de 10 horas por dia nas ladeiras de San­ta Tere­sa. “Mas se estiv­er bom­ban­do, fico até mais tarde”. Ela esti­ma que, em “dias bons”, con­segue fat­u­rar entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil. Desse din­heiro, ain­da pre­cisa deduzir os cus­tos da matéria pri­ma para faz­er o lucro. “Com uma gar­rafa de cachaça você faz várias caipir­in­has, o inves­ti­men­to é muito pouco”, avalia.

“Quem vende comi­da e tem mais estru­tu­ra con­segue vender mais”, com­ple­men­ta.

Desafios

Inde­pen­den­te­mente de quan­to de din­heiro será gas­to pelos foliões durante o car­naval, a rep­re­sen­tante do Muca e a camelô de Copaca­bana enx­ergam um desafio para este ano, a con­cor­rên­cia.

“Tem mui­ta gente na rua dis­putan­do os espaços para tra­bal­har. Então eu acho que o fat­u­ra­men­to indi­vid­ual desse ano não vai ser mel­hor que o do ano pas­sa­do”, esti­ma Maria dos Camelôs.

“A cada ano que pas­sa, é mais gente na rua tra­bal­han­do”, con­cor­da Cristi­na. “A nos­sa expec­ta­ti­va de retorno é menor porque [o din­heiro que cir­cu­la] é divi­di­do”, expli­ca.

Out­ra insat­is­fação do Movi­men­to Unido dos Camelôs é a for­ma com que são sele­ciona­dos pela prefeitu­ra os camelôs habil­i­ta­dos para tra­bal­har nos blo­cos de rua. Na opinião de Maria do Car­mo, não há uma prefer­ên­cia para ambu­lantes que tra­bal­ham nas ruas durante todo o ano, que pas­sam a ter a con­cor­rên­cia de vende­dores sazon­ais, ou seja, gente que só tra­bal­ha como camelô no perío­do do car­naval.

“A gente que já tra­bal­ha na rua não dev­e­ria ter que ser sortea­do. A gente já é patrimônio cul­tur­al da cidade do Rio de Janeiro. A gente já tra­bal­ha todos os dias, enfrentan­do sol, chu­va, ven­to e enfrentan­do a fis­cal­iza­ção, poden­do perder nos­sa mer­cado­ria, car­regan­do o peso”, defende a coor­de­nado­ra-ger­al do Muca.

Rio de Janeiro (RJ), 27/04/2023 - O Movimento Unidos dos Camelôs (MUCA) e o movimento nacional Trabalhadores Sem Direitos protestam em frente a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, na Cinelândia, centro da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Repro­dução: O Movi­men­to Unidos dos Camelôs (MUCA) e o movi­men­to nacional Tra­bal­hadores Sem Dire­itos protes­tam em frente a Câmara Munic­i­pal do Rio de Janeiro, na Cinelân­dia, cen­tro da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Garçons da festa

Na cidade que tem mais de 450 blo­cos, alguns deles com capaci­dade de atrair uma mul­ti­dão maior que a pop­u­lação de muitas cidades do país, Maria do Car­mo criou uma espé­cie de apeli­do para os camelôs, os “garçons da fes­ta”.

“Imag­ine um blo­co como Bola Pre­ta, que colo­ca mil­hões de pes­soas na rua, se os bares vão atrás para vender cerve­ja? Não, quem está ali são os camelôs, servin­do bebidas geladas. Somos os garçons da fes­ta. Ten­ho certeza de que não existe blo­co sem camelô, e não existe camelô sem blo­co”, diz.

Mas a ambu­lante vê um con­trapon­to neg­a­ti­vo. “A gente não gan­ha os 10%. Somos aque­le garçom que não tem 13º salário, não tem carteira assi­na­da, nem seguro-desem­prego”.

Cartilha

Por falar em megablo­co, o Muca pub­li­cou no Insta­gram uma car­til­ha com ori­en­tações para que os “garçons” aju­dem na har­mo­nia dos des­files. Entre as dicas, estão recomen­dações de acom­pan­har os corte­jos pelas lat­erais; evi­tar gar­rafas de vidro; levar sacos de lixo; tro­co; e não esque­cer da própria pro­teção, com hidratação e pro­te­tor solar.

Ordem pública

Rio de Janeiro (RJ) 10/02/2024 – Vendedores ambulantes no blocos de carnaval no centro da cidade. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Vende­dores ambu­lantes no blo­cos de car­naval no cen­tro da cidade. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

A Rio­tur, empre­sa da prefeitu­ra do Rio de Janeiro, que pro­move o tur­is­mo na cidade, expli­cou à Agên­cia Brasil que todo o proces­so de cadas­tra­men­to e seleção dos vende­dores autônomos que atu­am no car­naval de rua é feito por meio da empre­sa Dream Fac­to­ry, gan­hado­ra da lic­i­tação para a real­iza­ção do even­to.

Em 2024, o número de cre­den­ci­a­dos chegou a 15 mil. Os cre­den­ci­a­dos recebem um kit com colete, cre­den­cial com foto, cordão e iso­por com capaci­dade para 44 litros.

Há tam­bém treina­men­to seg­men­ta­do, no qual os sortea­d­os pas­sam por palestras obri­gatórias sobre noções de pos­turas munic­i­pais, leg­is­lação bási­ca, for­ma de atu­ação da fis­cal­iza­ção e sobre as vedações e obri­gações dos pro­mo­tores de ven­das.

Sobre a deman­da do Muca para que ambu­lantes recor­rentes ten­ham pri­or­i­dade e não pre­cisem par­tic­i­par de sorteio, a Rio­tur infor­mou que não efe­t­ua cadas­tro de tra­bal­ho per­ma­nente.

A Sec­re­taria de Ordem Públi­ca (Seop) divul­gou que abriu 250 vagas para ambu­lantes tra­bal­harem em pon­tos fixos no entorno do sam­bó­dro­mo, sendo 70 para reg­u­lares e 180 para o cadas­tro reser­va.

A Seop infor­mou ain­da que realizará oper­ação de fis­cal­iza­ção a ambu­lantes legal­iza­dos e ile­gais no entorno do Sam­bó­dro­mo e nos blo­cos. Durante a inspeção, os agentes ver­i­fi­cam a ven­da ile­gal de bebidas em gar­rafas de vidro, orde­na­men­to e coíbem out­ras irreg­u­lar­i­dades quan­do flagradas.

Rio de Janeiro (RJ) 10/02/2024 – Vendedores ambulantes no blocos de carnaval no centro da cidade. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Vende­dor ambu­lante nos blo­cos de car­naval no cen­tro da cidade. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasi

Edição: Fer­nan­do Fra­ga

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