...
sábado ,15 junho 2024
Home / Direitos Humanos / Casais homoafetivos ainda enfrentam preconceitos para adotar crianças

Casais homoafetivos ainda enfrentam preconceitos para adotar crianças

Repro­du­ção: © Tomaz Silva/Agência Bra­sil

Direitos da população LGBTQI+ são garantidos por decisões do STF


Publicado em 17/05/2024 — 07:36 Por Rafael Cardoso — Repórter da Agência Brasil — Rio de Janeiro

A tera­peu­ta Caro­li­na Rua e a empre­sá­ria Laís Guer­ra, que vão ado­tar uma cri­an­ça jun­tas, dizem que a mater­ni­da­de come­ça no pro­ces­so de pre­pa­ra­ção afe­ti­va para rece­ber o novo inte­gran­te da famí­lia — ges­tar um filho no cora­ção. A fra­se pode soar estra­nha, quan­do exis­te uma ideia fixa e limi­ta­da ao pro­ces­so bio­ló­gi­co.

“Des­de que a deci­são de ter um filho por ado­ção foi toma­da, tudo que faze­mos já con­si­de­ra a exis­tên­cia des­sa pes­soi­nha. Por exem­plo, nos muda­mos recen­te­men­te e a esco­lha do apar­ta­men­to depen­dia de ter um quar­to para nos­so filho”, con­ta Caro­li­na, que tem 39 anos. “Com o tem­po e mui­ta tera­pia, fomos iden­ti­fi­can­do que ges­tar bio­lo­gi­ca­men­te não era um dese­jo nos­so. Nós que­ría­mos ser mães, mas não nos vía­mos grá­vi­das e foi aí que deci­di­mos ges­tar pela ado­ção, ges­tar no cora­ção”.

O cami­nho até a deci­são não foi fácil, mui­to por cau­sa de pres­sões fami­li­a­res e soci­ais, que colo­ca­vam a alter­na­ti­va bio­ló­gi­ca como a úni­ca legí­ti­ma, o que as duas enten­dem ser um tipo de resis­tên­cia mais comum para casais homo­a­fe­ti­vos. No Dia Inter­na­ci­o­nal de Com­ba­te à LGBT­fo­bia, a Agên­cia Bra­sil con­ver­sou com pes­so­as que ain­da enfren­tam pre­con­cei­tos ao ten­tar ado­tar filhos por con­ta da ori­en­ta­ção sexu­al.

Na con­sul­ta fei­ta esta sema­na pela repor­ta­gem ao Sis­te­ma Naci­o­nal de Ado­ção e Aco­lhi­men­to (SNA), admi­nis­tra­do pelo Con­se­lho Naci­o­nal de Jus­ti­ça (CNJ), 4.772 cri­an­ças e ado­les­cen­tes espe­ra­vam por pais ado­ti­vos. O núme­ro de adul­tos pre­ten­den­tes era de 36.318.

De acor­do com o sis­te­ma, 21.292 cri­an­ças e ado­les­cen­tes foram ado­ta­dos des­de 2019. Des­tas ado­ções, 1.353 foram fei­tas por casais homo­a­fe­ti­vos, ou seja, 6,35% do total. O núme­ro vem cres­cen­do a cada ano, e pas­sou de 143 ado­ções em 2019 para 401 em 2023.

Não exis­tem entra­ves legais para que casais homo­a­fe­ti­vos ado­tem cri­an­ças. O Supre­mo Tri­bu­nal Fede­ral (STF) reco­nhe­ceu uniões está­veis do tipo em 2011 e nova deci­são em 2015 refor­çou esse direi­to à ado­ção. O pro­ces­so é o mes­mo para todos: reu­nir docu­men­tos, entre­vis­tas com psi­có­lo­gos e assis­ten­tes soci­ais e visi­tas a abri­gos, até que um juiz dê a apro­va­ção. Ou, seja, hoje o pro­ble­ma é essen­ci­al­men­te soci­al, de men­ta­li­da­de de algu­mas pes­so­as.

“É lamen­tá­vel que ain­da haja quem defen­da um mode­lo res­tri­to de famí­lia, igno­ran­do a diver­si­da­de e a rique­za das rela­ções afe­ti­vas. Temos em men­te que, como mães ado­ti­vas, desa­fi­a­re­mos esses este­reó­ti­pos, mos­tran­do que amor, cui­da­do e capa­ci­da­de de cri­ar um ambi­en­te aco­lhe­dor não têm nada a ver com ori­en­ta­ção sexu­al ou iden­ti­da­de de gêne­ro. Para nós, o que impor­ta é a capa­ci­da­de de cons­truir vín­cu­los, dar amor e cui­dar dos nos­sos filhos”, defen­de Laís, que tem 36 anos.

Rio de Janeiro (RJ), 14/05/2024 – A terapeuta Carolina Rua e a empresária Lais Guerra recebem auxílio do grupo Cores da Adoção que apoia famílias LGBTQIA+ no processo de adoção, posam para foto, em sua residência, no Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­du­ção: Rio de Janei­ro — A tera­peu­ta Caro­li­na Rua e a empre­sá­ria Lais Guer­ra rece­bem auxí­lio do gru­po Cores da Ado­ção que apoia famí­li­as LGBTQIA+ no pro­ces­so de ado­ção — Foto Tomaz Silva/Agência Bra­sil

O casal está jun­to há 12 anos e vai apre­sen­tar em bre­ve a docu­men­ta­ção exi­gi­da para se habi­li­tar à ado­ção. Elas esco­lhe­ram uma cri­an­ça de 0 a 5 anos, sem pre­fe­rên­cia de gêne­ro e etnia, e não colo­cam res­tri­ções caso tenha doen­ças infec­to­con­ta­gi­o­sas. O pro­ces­so todo pode durar até cin­co anos, mas elas já estão ansi­o­sas e não des­car­tam uma segun­da ado­ção depois, de uma cri­an­ça aci­ma dos 7 anos.

Nes­se pro­ces­so de pre­pa­ra­ção, Caro­li­na cri­ou até um jogo para aju­dar pais aspi­ran­tes à ado­ção a enfren­tar tabus comuns, rela­ci­o­na­dos ao gêne­ro, etnia e ida­de das cri­an­ças. O tema é base­a­do no Har­ry Pot­ter, per­so­na­gem da fic­ção que tam­bém foi ado­ta­do tar­di­a­men­te.

“Digo que nos­so filho, filha ou filhe já trans­for­mou de mil for­mas nos­sas vidas, nos abriu mun­dos novos e têm nos tor­na­do pes­so­as melho­res mes­mo antes de che­gar”, diz Caro­li­na. “Se você entrar no site do sis­te­ma naci­o­nal de ado­ção vai per­ce­ber que a mai­o­ria das cri­an­ças é da etnia negra (pre­tas e par­das) e isso foi cru­ci­al para o nos­so movi­men­to de raci­a­li­za­ção (somos bran­cas) e pela bus­ca de uma edu­ca­ção antir­ra­cis­ta. Esta­mos envol­vi­das em rodas de con­ver­sa com esse con­teú­do, já como pre­pa­ra­ção para uma famí­lia inter­ra­ci­al”.

Cores da Adoção

Para que a Caro­li­na e a Laís ganhas­sem mais con­fi­an­ça, foi essen­ci­al o tra­ba­lho do Cores da Ado­ção, um cole­ti­vo de volun­tá­ri­os que com­par­ti­lha expe­ri­ên­ci­as e infor­ma­ções téc­ni­cas sobre o pro­ces­so de ado­ção e as buro­cra­ci­as envol­vi­das. O gru­po foi fun­da­do em 4 de agos­to de 2017. É for­ma­do por pais e mães de filhos ado­ti­vos, que fazem um tra­ba­lho volun­tá­rio para aju­dar outras famí­li­as a seguir o mes­mo cami­nho. O nome e o sím­bo­lo do gru­po (com cores do arco-íris) repre­sen­tam a diver­si­da­de das famí­li­as aten­di­das, de todas as ori­en­ta­ções sexu­ais e gêne­ros, inclu­si­ve hete­ros­se­xu­ais.

Eles afir­mam que uma das mis­sões é per­mi­tir que as famí­li­as “com­par­ti­lhem da melhor for­ma pos­sí­vel suas expe­ri­ên­ci­as, angús­ti­as e pre­o­cu­pa­ções”, além de esti­mu­lar na soci­e­da­de uma “ati­tu­de ado­ti­va que cele­bre toda a for­ma de amor e valo­ri­ze todas as famí­li­as e tipos de laços de afe­to”.

Eles têm uma sede para os encon­tros men­sais em Var­gem Peque­na e vão inau­gu­rar uma novo local no Sesc de Copa­ca­ba­na na pró­xi­ma sema­na, dia 21 de maio. As reu­niões são gra­tui­tas e aber­tas a todos os que pre­ten­dem ado­tar uma cri­an­ça. O Cores da Ado­ção tem o apoio das qua­tro Varas da Infân­cia, da Juven­tu­de e do Ido­so da Comar­ca da capi­tal flu­mi­nen­se.

“O que leva uma cri­an­ça para ado­ção não é uma his­tó­ria boni­ta. Elas geral­men­te são arran­ca­das de lares dis­fun­ci­o­nais, por terem sofri­do abu­so, aban­do­no, negli­gên­cia ou vio­lên­cia. E como fazer com que essa apro­xi­ma­ção com a nova famí­lia seja exi­to­sa? Que não gere na cri­an­ça um segun­do trau­ma? O Cores aju­da pes­so­as que que­rem ado­tar a refle­tir sobre temas que as tiram do sen­so comum. A qua­li­fi­ca­ção da ges­ta­ção ado­ti­va só vem real­men­te pelo esfor­ço da soci­e­da­de civil enga­ja­da”, diz o advo­ga­do Sau­lo Amo­rim, um dos fun­da­do­res e coor­de­na­do­res do Cores da Ado­ção.

Ape­sar de não ser vol­ta­do exclu­si­va­men­te para a popu­la­ção LGBT+, o cole­ti­vo tem cum­pri­do papel impor­tan­te de aju­dar esses gru­pos, his­to­ri­ca­men­te mar­gi­na­li­za­dos no pro­ces­so de ado­ção.

“O fato de não terem direi­to no pas­sa­do, não quer dizer que pes­so­as LGBTQI+ não tenham sido pais e mães. Quan­tas mulhe­res vive­ram jun­tas como se fos­sem pri­mas ou ami­gas e cri­a­ram filhos? Eram casais lés­bi­cos. Quan­tos homens cri­a­ram filhos de suas irmãs e eram homos­se­xu­ais, mas escon­di­dos por­que a soci­e­da­de não os per­mi­ti­am viver isso publi­ca­men­te? As famí­li­as LGBTQI+ não são con­tem­po­râ­ne­as. Sem­pre exis­ti­ram. Mas antes vivi­am em silên­cio, nos gue­tos, apar­ta­das dos direi­tos que eram exclu­si­vos de hete­ros­se­xu­ais”, diz Sau­lo.

Henrique e Ryan

O enge­nhei­ro Hen­ri­que dos San­tos Poley, de 27 anos, e o assis­ten­te de con­ta­bi­li­da­de Ryan Poley dos San­tos, de 22 anos, estão jun­to des­de 2021. No ano seguin­te se casa­ram e ten­ta­ram dar iní­cio à habi­li­ta­ção para ado­tar uma cri­an­ça. Mas, aca­ba­ram esbar­ran­do na fal­ta de conhe­ci­men­to e o pro­ces­so não foi para a fren­te. Em dezem­bro de 2023, com a aju­da do Gru­po Cores da Ado­ção, con­se­gui­ram dar entra­da ofi­ci­al­men­te no pro­ces­so. Esta sema­na, tive­ram a apro­va­ção do Minis­té­rio Públi­co e estão na expec­ta­ti­va para avan­çar mais um está­gio, quan­do o juiz libe­ra o aces­so do casal ao SNA.

Casais homoafetivos ainda enfrentam preconceitos para adotar crianças. - Engenheiro Henrique dos Santos Poley, de 27 anos, e o assistente de contabilidade Ryan Poley dos Santos, de 22 anos. Foto: Arquivo Pessoal
Repro­du­ção: Rio de Janei­ro — Casais homo­a­fe­ti­vos ain­da enfren­tam pre­con­cei­tos para ado­tar cri­an­ças. O enge­nhei­ro Hen­ri­que dos San­tos Poley, de 27 anos, e o assis­ten­te de con­ta­bi­li­da­de Ryan Poley dos San­tos, de 22 —  Foto Arqui­vo pes­so­al

Eles sem­pre sonha­ram em ser pais, antes mes­mo de se conhe­ce­rem. Che­ga­ram a con­si­de­rar inse­mi­na­ção arti­fi­ci­al, mas deci­di­ram pela ado­ção. Ain­da não defi­ni­ram pre­fe­rên­cia de sexo das cri­an­ças, mas con­si­de­ram ado­tar até dois irmãos de uma vez.

“O cora­ção não cabe den­tro do pei­to. Temos esse dese­jo mui­to gran­de de ser­mos pais. No últi­mo Natal, pre­pa­ra­mos o ter­re­no na famí­lia. Infor­ma­mos que está­va­mos nes­se pro­ces­so de ado­ção. Foi uma fes­ta geral nas duas famí­li­as. Somos mui­to uni­dos, todos acei­ta­ram, enten­de­ram o nos­so sonho e embar­ca­ram jun­tos”, con­ta Hen­ri­que.

Eles ain­da não tive­ram nenhu­ma expe­ri­ên­cia hos­til por ser um casal homo­a­fe­ti­vo em bus­ca da ado­ção, mas já tive­ram de ouvir ques­tões pre­con­cei­tu­o­sas de alguns cole­gas com quem con­vi­vem.

“Aca­ba­mos de pas­sar pelo Dia das Mães. E nos per­gun­ta­ram quem repre­sen­ta­ria a mãe em uma data como essa, por­que deve­ria ter uma figu­ra femi­ni­na na famí­lia. Sen­do que o meu mari­do cres­ceu sem uma figu­ra mas­cu­li­na na vida dele, por­que não teve con­ta­to com o pai dele. E eu não cres­ci com a minha mãe, só com o meu pai. Então, as pes­so­as aca­bam tra­zen­do algu­mas situ­a­ções pre­con­cei­tu­o­sas para algo que nem é con­cre­to ain­da. Os filhos nem che­ga­ram ain­da, mas já ante­ci­pam esses cená­ri­os”, diz Hen­ri­que.

O futu­ro pai refor­ça que, quan­do se tra­tam de cri­an­ças e ado­les­cen­tes à espe­ra de um novo lar, o que está em jogo é a pos­si­bi­li­da­de de ofe­re­cer o aco­lhi­men­to neces­sá­rio para o desen­vol­vi­men­to delas.

“As pes­so­as pre­ci­sam enten­der que reli­gião, ori­en­ta­ção sexu­al e iden­ti­da­de de gêne­ro não são parâ­me­tros para dizer quem pode pro­ver afe­to para uma cri­an­ça. Um ambi­en­te sau­dá­vel para cri­an­ças e ado­les­cen­te inde­pen­de des­sas ques­tões”, afir­ma Hen­ri­que. “O mais impor­tan­te é garan­tir um ambi­en­te que seja lugar de amor e de afe­to, apren­di­za­do, de cres­ci­men­to sau­dá­vel. Uma famí­lia que tenha diá­lo­go, tro­ca, com­pre­en­são, escu­ta. Para a cri­an­ça, inde­pen­den­te­men­te da com­po­si­ção fami­li­ar em que ela este­ja. Aci­ma de tudo um lugar onde pos­sa rece­ber afe­to”.

O coor­de­na­dor do Cores da Ado­ção endos­sa o dis­cur­so e reba­te os argu­men­tos de gru­pos con­ser­va­do­res con­trá­ri­os à ado­ção por pes­so­as LGBTQI+.

“Qual é a rela­ção da ori­en­ta­ção sexu­al ou da con­for­ma­ção dos cor­pos dos pais no desen­vol­vi­men­to do cará­ter ou da moral das cri­an­ças? De nada me influ­en­ci­ou a ori­en­ta­ção sexu­al do meu pai ou o cor­po dele para me defi­nir como pes­soa. As pes­so­as de matriz con­ser­va­do­ra que se assus­tam com a pers­pec­ti­va de uma cri­an­ça ser cri­a­da por dois pais ou por duas mães estão mui­to mais pre­o­cu­pa­dos com aspec­tos sexu­ais do que pro­pri­a­men­te com os inte­res­ses da infân­cia. Se essa rela­ção fos­se deter­mi­nan­te para cons­truir a sexu­a­li­da­de da cri­an­ça, não have­ria pes­so­as LGBTQI+, por­que a mai­o­ria de nós nas­ceu em famí­li­as hete­ro­nor­ma­ti­vas”, diz Sau­lo Amo­rim, coor­de­na­dor do Cores da Ado­ção.

“Exis­te tam­bém um dis­cur­so mui­to deso­nes­to, que fren­tes reli­gi­o­sas cos­tu­mam falar mui­to, que é ‘Deus cri­ou o homem e a mulher, então esse deve ser o padrão’. Isso é pre­o­cu­pan­te na pers­pec­ti­va da demo­cra­cia (e não somos uma teo­cra­cia), quan­do vozes se levan­tam para dizer que deter­mi­na­da inter­pre­ta­ção den­tro do uni­ver­so cris­tão é o mode­lo que deve ser apli­ca­do para toda uma nação. Que pode até ter uma mai­o­ria cris­tã, mas não exclu­si­va­men­te. Exis­tem vári­as outras prá­ti­cas de fé. E mui­tas delas diver­gem de con­cei­tos defen­di­dos por quem acre­di­ta que exis­te Deus, que cri­ou algu­ma coi­sa e que deter­mi­nou isso em dois gêne­ros”, com­ple­men­ta Sau­lo.

Edi­ção: Gra­ça Adju­to

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Rio de Janeiro (RJ) 11/05/2024 - Priscila e seu filho Kayque em foto tirada após terem alta do hospital - Tragédias da mineração: perdas impulsionam mães em luta por justiçaFoto: Priscila Izabel/Arquivo Pessoal

Mães lutam por justiça aos filhos soterrados pela mineração

Repro­du­ção: © Pris­ci­la Izabel/Arquivo Pes­so­al Tragédias em Mariana e Brumadinho ainda tramitam em tribunais Publicado …