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Chico Buarque integra patrimônio da sensibilidade brasileira

Repro­dução: © Ricar­do Stuckert/PR

Professora fala sobre obra do artista, que hoje (19) completa 80 anos


Publicado em 19/06/2024 — 06:58 Por Gilberto Costa — Repórter da Agência Brasil — Brasília

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Cinquen­ta e oito anos de car­reira, 537 canções, 1.302 gravações, 50 dis­cos (próprios ou com par­ceiros, em estú­dio ou ao vivo), qua­tro peças de teatro, uma nov­ela, um livro de con­tos e seis romances – o próx­i­mo, Bam­bi­no a Roma, será pub­li­ca­do em agos­to. Esse é o lega­do do com­pos­i­tor, dra­matur­go e escritor Chico Buar­que de Hol­lan­da, que nes­ta quar­ta-feira (19) comem­o­ra 80 anos jun­to com a família, em Paris.

Adélia Bezerra de Meneses, escritora, professora e crítica literária
Repro­dução: Adélia Bez­er­ra de Mene­ses, escrito­ra, pro­fes­so­ra e críti­ca literária — Arqui­vo pes­soal

A vas­ta obra de Chico é obje­to de mais de uma dezena de livros, alguns lança­dos nes­ta cel­e­bração octo­genária. Entre os autores, se desta­ca Adélia Bez­er­ra de Mene­ses, pro­fes­so­ra de teo­ria literária na Uni­ver­si­dade Estad­ual de Camp­inas (Uni­camp) e na Uni­ver­si­dade de São Paulo (USP). Ela escreveu três livros sobre o artista, o últi­mo Chico, Buar­que ou a Poe­sia Resistente – Ensaios sobre as Letras de Canções Recentes (edi­to­ra Ateliê), está em final­iza­ção grá­fi­ca.

Adélia foi mil­i­tante estu­dan­til na déca­da de 1960, tra­bal­hou com alfa­bet­i­za­ção de adul­tos com o méto­do Paulo Freire em uma vila operária em Osas­co, assis­tiu com “igual paixão” a reuniões da Ação Pop­u­lar (AP) e aos fes­ti­vais da MPB no Teatro Para­mount (TV Record). Fez mestra­do e doutora­do sob a ori­en­tação de Anto­nio Can­di­do, pro­fes­sor no Depar­ta­men­to de Teo­ria Literária e Lit­er­atu­ra Com­para­da da USP. A tese foi pub­li­ca­da em livro Desen­ho Mági­co — Poe­sia e Políti­ca em Chico Buar­que, que gan­hou o Prêmio Jabu­ti de 1982, na cat­e­go­ria Ensaio.

A seguir, os prin­ci­pais tre­chos da entre­vista que Adélia Bez­er­ra de Mene­ses con­cedeu por escrito à Agên­cia Brasil.

Agên­cia Brasil: A sen­ho­ra tem dois livros pub­li­ca­dos [mais um no pre­lo] sobre as com­posições de Chico Buar­que. Por que a canção pop­u­lar merece estu­dos de lit­er­atu­ra?
Adélia Bez­er­ra de Mene­ses: Eu ten­ho na man­ga um argu­men­to de autori­dade. Guar­do comi­go, como uma pre­ciosi­dade, que com­põe a caixa de tesouros que já doei à min­ha neta, um cartãoz­in­ho do [Car­los] Drum­mond [de Andrade], em que, agrade­cen­do o envio do meu primeiro livro sobre o Chico Buar­que, chama a obra dele de “poe­sia”.

A canção pop­u­lar é um extra­ordinário veícu­lo para a poe­sia. Atual­mente, pou­ca gente lê um livro de poe­mas, mas muitos ouvem canção, dec­o­ram as letras, can­tam jun­to. Mas isso – essa junção de melo­dia com letra – não é um fenô­meno da mod­ernidade: des­de a mais remo­ta antigu­idade, a poe­sia vin­ha amal­ga­ma­da com a músi­ca: líri­ca é a poe­sia acom­pan­ha­da ao som da lira.

A per­gun­ta toca num pon­to sen­sív­el, fer­oz­mente polem­iza­do por alguns críti­cos de músi­ca. Por exper­iên­cia própria, pos­so afir­mar que nem toda letra de canção pode ser trata­da como poe­ma, mas as canções de Chico supor­tam essa abor­dagem – que não é nem supe­ri­or, nem infe­ri­or à análise musi­cal: é out­ro o viés bus­ca­do. Impor­ta tam­bém diz­er que há dis­tinções entre os com­pos­i­tores, e Chico – con­forme suas próprias declar­ações – pende mais para a letra do que para a músi­ca.

Agên­cia Brasil: Em seu primeiro livro, Desen­ho Mági­co, a sen­ho­ra se propôs “esta­b­ele­cer um para­le­lo” entre a história do Brasil e a obra dele. Que história do Brasil o Chico Buar­que com­pôs?
Adélia Bez­er­ra de Mene­ses: A maneira de eu abor­dar a obra de Chico Buar­que como um todo foi apon­tar que a sua pro­dução assum­iu as modal­i­dades da “poe­sia resistên­cia” des­do­bra­da em liris­mo nostálgico/lirismo amoroso; utopia; críti­ca. Isso não sig­nifi­ca em abso­lu­to uma redução a canções de temáti­ca social explíci­ta.

Como se efe­ti­va essa resistên­cia na obra de Chico Buar­que? No liris­mo nos­tál­gi­co, a recusa do pre­sente opres­sor se dá por uma vol­ta ao pas­sa­do, seja o pas­sa­do indi­vid­ual de cada um, que é a própria infân­cia, como em João e Maria e Man­in­ha; seja o pas­sa­do cole­ti­vo, da sociedade pré-indus­tri­al, em que as relações humanas não eram degradadas pela estandard­iza­ção e mas­si­fi­cação, como em Reale­jo, ou A Ban­da.

Na ver­tente críti­ca, há a recusa do pre­sente adver­so, ferindo‑o através da críti­ca social, seja de for­ma dire­ta, como em Con­struçãoAngéli­ca e O Meu Guri; seja através das ric­as mod­u­lações de que se reveste a iro­nia, como em Mul­heres de Ate­nasBye Bye, BrasilBan­car­ro­ta Blues, etc. Quan­to às canções de protesto, como Ape­sar de VocêCálice e Quan­do o Car­naval Chegar, orig­i­nam-se no vér­tice da críti­ca e da utopia. Assim, Ape­sar de Você, que se tornou uma espé­cie de hino ofi­cial con­tra a ditadu­ra, recusa de um pre­sente de opressão e espera de um “aman­hã” que há de ser um out­ro dia.

Na vari­ante utópi­ca ver­i­fi­ca-se a recusa da real­i­dade opres­so­ra, pro­je­tan­do-se para um tem­po-espaço out­ros, em que não se daria mais o reino da fal­ta da liber­dade, da explo­ração e do sim­u­lacro. São canções que can­tam o “dia que virá”, ou propõem um futuro em que se dará a rec­on­cil­i­ação do homem con­si­go próprio e com o mun­do. Delas, a par­a­dig­máti­ca é O Que Será, visionária e épi­ca, um can­to lib­ertário, eróti­co e políti­co.

Uma obser­vação impor­tante é que, em seu prossegui­men­to, a utopia rareia cada vez mais na pro­dução de Chico Buar­que. De fato, difí­cil utopia essa dos anos que atrav­es­samos, con­tra o pano de fun­do do cap­i­tal­is­mo multi­na­cional e da pas­teur­iza­ção dos pro­je­tos rev­olu­cionários. Que princí­pio esper­ança res­ta para ser afir­ma­do num mun­do que ver­ga ao fim da história” e que o novo perdeu sua força mobi­lizado­ra?

Agên­cia Brasil: A sen­ho­ra escreveu sobre “fig­uras do fem­i­ni­no na canção de Chico Buar­que”. Que mul­heres há nes­sas canções?
Adélia Bez­er­ra de Mene­ses: É uma per­gun­ta com­pli­ca­da de ser respon­di­da, como todas assim genéri­c­as, levan­do-se em con­ta que Chico priv­i­le­gia a mul­her como pro­tag­o­nista, mod­u­lan­do o fem­i­ni­no de diver­sas maneiras. Uma obser­vação ini­cial é que, sendo quase sem­pre no con­tex­to de uma inten­sa relação afe­ti­va que se fla­gra o fun­da­men­tal do fem­i­ni­no, desliza-se inescapavel­mente para o ter­reno dos afe­tos, obri­g­an­do-nos a descorti­nar o poderoso filão da líri­ca amorosa do autor. Em out­ras palavras, falar sobre a líri­ca amorosa de Chico Buar­que quase que se con­funde com falar sobre a mul­her. Pegan­do alguns exem­p­los ao aca­so: Pedaço de Mim ou Olhos nos Olhos: aí se desta­ca a mul­her num momen­to de sep­a­ração afe­ti­va – por sinal, rev­e­lando reações fem­i­ni­nas polares: per­cepção de incom­ple­tude e muti­lação, no primeiro caso; e, no segun­do, ati­tude desafi­ante frente ao anti­go amor que, após uma sep­a­ração desar­raiga­da, vai encon­trá-la “refei­ta”, “até remoçan­do”. Ou tomem­os Mar e Lua, que mostra uma relação homo­eróti­ca no reg­istro fem­i­ni­no, de infini­ta del­i­cadeza e sen­si­bil­i­dade: “Todo mun­do con­ta / que uma anda­va ton­ta / grávi­da de lua / E out­ra anda­va nua / ávi­da de mar.”

Agên­cia Brasil: Out­ros com­pos­i­tores ante­ri­ores e con­tem­porâ­neos do Chico Buar­que escrever­am canções com o eu líri­co fem­i­ni­no. Por que ele é o mais lem­bra­do por com­por assim?
Adélia Bez­er­ra de Mene­ses: Quero crer que esse “mais lem­bra­do” seja o índice de um con­sen­so do públi­co, por­tan­to uma con­sagração pop­u­lar, não? Sem se faz­er nen­hu­ma estatís­ti­ca, tem-se a impressão de que tan­to quan­ti­ta­ti­va quan­to qual­i­ta­ti­va­mente, Chico, den­tre os com­pos­i­tores mais con­heci­dos, sobres­sai com­pon­do no fem­i­ni­no, com uma com­petên­cia úni­ca.

Por quê? Porque ele é poeta. Com efeito, o poeta é aque­le ser a quem é dado, mais do que aos out­ros, o poder de man­i­fes­tar a vida dos afe­tos; é como se ele tivesse uma maior pos­si­bil­i­dade de con­ta­to com o incon­sciente, pes­soal e filo­genéti­co [genealógi­co], e a poe­sia é um espaço em que se per­mite ao incon­sciente aflo­rar. É assim que nas canções de Chico Buar­que emerge a fala da mul­her, de uma per­spec­ti­va, por vezes, espan­tosa­mente fem­i­ni­na. Diante de algu­mas de suas com­posições, eu já me pil­hei pen­san­do: como é que ele sabe?

Agên­cia Brasil: Chico Buar­que escreveu qua­tro peças de teatro, uma nov­ela, um livro de con­tos e seis romances. Essa lit­er­atu­ra tem a mes­ma importân­cia e qual­i­dades estéti­cas das canções?
Adélia Bez­er­ra de Mene­ses: Chico Buar­que é um dess­es casos de artista com ver­dadeiro com­pro­me­ti­men­to com a palavra nas suas várias modal­i­dades, com a mes­ma eficá­cia estéti­ca: é o romancista lau­rea­do, de pen­e­tração inter­na­cional, é o dra­matur­go de peças que mar­caram o teatro brasileiro, é o con­tista ras­cante que nos leva para os anos de chum­bo. No entan­to, para a imen­sa maio­r­ia dos nos­sos con­ter­râ­neos, Chico é o compositor/poeta, autor de canções que pas­saram a inte­grar o patrimônio da sen­si­bil­i­dade brasileira. Não por aca­so, gan­hou o Prêmio Camões, a mais alta hon­raria atribuí­da a autores da lín­gua por­tugue­sa, pelo con­jun­to da obra. Mas uma coisa inter­es­san­tís­si­ma é que em seu dis­cur­so em Por­tu­gal, por ocasião do rece­bi­men­to do prêmio, no Palá­cio de Queluz, e con­fes­sa, com sur­preen­dente sim­pli­ci­dade: “Mas por mais que eu leia e fale de lit­er­atu­ra, por mais que eu publique romances e con­tos, por mais que eu rece­ba prêmios literários, faço gos­to em ser recon­heci­do no Brasil como com­pos­i­tor pop­u­lar…”

Temos aqui, como se vê, um caso em que a avali­ação do públi­co e a autoavali­ação do artista con­vergem. E, um pouco antes, no mes­mo dis­cur­so, ele tin­ha cita­do Vini­cius de Moraes, ami­go de sua família, para quem a palavra can­ta­da talvez fos­se “sim­ples­mente um jeito mais sen­su­al de falar a nos­sa lín­gua.” Talvez este­ja aqui a expli­cação para a pen­e­tração da canção pop­u­lar, que vai mais fun­do que o tex­to escrito fic­cional: a canção, palavra can­ta­da, nos pega sen­so­rial­mente.

Sua per­gun­ta tam­bém dá opor­tu­nidade para uma últi­ma obser­vação: é de se notar, na dra­matur­gia de Chico Buar­que, a importân­cia das canções, muitas vezes estru­tu­ran­do o enre­do das suas peças. E algu­mas se auton­o­mizaram, descolan­do-se da ação dramáti­ca onde se orig­i­naram: é o caso de Pedaço de Mim (da Ópera do Malan­dro), de Cala a Boca, Bár­bara (da peça Cal­abar), de Gota d´Água e de Roda Viva (das peças de, respec­ti­va­mente, mes­mo nome). Elas gan­haram tal força que são can­tadas sem que se faça refer­ên­cia ao tex­to dramáti­co de onde provier­am.

Agên­cia Brasil: Sua tese que resul­tou no livro Desen­ho Mági­co foi ori­en­ta­da pelo pro­fes­sor e críti­co literário Anto­nio Can­di­do, ami­go dos pais de Chico Buar­que – Maria Amélia e Sér­gio Buar­que de Hol­lan­da. Eles ler­am os orig­i­nais do seu tra­bal­ho. O escritor Hum­ber­to Wer­neck con­ta que o próprio Chico Buar­que ligou para a sen­ho­ra após sua aprovação no doutora­do. Como foi a relação com o seu obje­to de estu­do? Chico leu seus livros sobre ele?
Adélia Bez­er­ra de Mene­ses: De fato, o pro­fes­sor Anto­nio Can­di­do me apre­sen­tou ao pro­fes­sor Sér­gio e à dona Maria Amélia, pes­soas de uma extra­ordinária riqueza afe­ti­va. Eles ler­am o meu tra­bal­ho e logo prov­i­den­cia­ram para que um exem­plar chegasse às mãos do Chico – e o por­ta­dor foi ninguém mais nem menos que o Dar­cy Ribeiro. E eu pude con­ver­sar com o Chico ain­da antes da pub­li­cação do livro, resol­ven­do alguns prob­le­mas – em ger­al, de esta­b­elec­i­men­to de tex­to.

Quan­to à sua per­gun­ta sobre a relação com o “obje­to de estu­do”, criou-se na [min­ha] família um ane­dotário cer­can­do as comu­ni­cações com o Chico, já famosís­si­mo. No dia do doutora­do, na fes­tin­ha de comem­o­ração, em que estavam pre­sentes o pro­fes­sor Sér­gio e dona Maria Amélia, tocou o tele­fone e quan­do a pes­soa que aten­deu a lig­ação do Rio de Janeiro per­gun­tou quem que­ria falar com a Adélia, a respos­ta foi: “é a tese”. As brin­cadeiras con­tin­u­avam: pos­te­ri­or­mente à pub­li­cação, quan­do o livro gan­hou o Prêmio Jabu­ti, seu tele­fone­ma cumpri­men­ta­va pelo “rece­bi­men­to da tar­taru­ga.”

Agên­cia Brasil: Qual a canção de Chico Buar­que de que a sen­ho­ra mais gos­ta? Por quê?
Adélia Bez­er­ra de Mene­ses: Que per­gun­ta difí­cil… Eu seria abso­lu­ta­mente inca­paz de escol­her uma úni­ca. E o prob­le­ma é que, com o pas­sar dos anos, a respos­ta fica cada vez mais difí­cil porque, ao elen­co que eu pos­sa ter elegi­do, deve-se acres­cen­tar algo novo que terá surgi­do, de alta qual­i­dade, como uma estrela nova a alter­ar a con­ste­lação tão cus­tosa­mente for­ma­da. Quan­do em 2017 o jor­nal Fol­ha de S.Paulo fez uma enquete, per­gun­tan­do quais as três canções preferi­das a um grupo de críti­cos, eu fiz uma listin­ha de qua­tro. Mas, ago­ra, pas­sa­dos alguns anos, mais uma veio, nec­es­sari­a­mente, se agre­gar ao elen­co. São cin­co: Cala a Boca, Bar­baraO Que SeráTodo Sen­ti­men­toCon­strução; e As Car­a­vanas.

Edição: Juliana Andrade

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