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Com programação voltada à diversidade, Masp inaugura 3 novas mostras

Repro­dução: © Ven­tu­ra Profana/Masp/Divulgação

Tema foi escolhido para ser trabalhado pelo museu neste ano


Publicado em 04/07/2024 — 08:02 Por Elaine Patrícia Cruz — Repórter da Agência Brasil — São Paulo

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O Museu de Arte de São Paulo (Masp), na cap­i­tal paulista, abre ao públi­co nes­ta sex­ta-feira (5) três novas exposições que dialogam com o tema Histórias da Diver­si­dade LGBTQIA+, escol­hi­do para ser tra­bal­ha­do pela insti­tu­ição neste ano.

A primeira delas é uma coleção da artista norte-amer­i­cana Cather­ine Opie, um dos prin­ci­pais nomes da fotografia inter­na­cional con­tem­porânea e que fica em car­taz até o dia 27 de out­ubro. Chama­da de Cather­ine Opie: o gênero do retra­to, a exposição apre­sen­ta 63 fotografias de suas séries mais emblemáti­cas e que foram desen­volvi­das ao lon­go de mais de três décadas de tra­bal­ho. A curado­ria é de Adri­ano Pedrosa e Guil­herme Giufri­da.

Opie é pre­cur­so­ra na dis­cussão sobre questões de gênero. “Cather­ine Opie é uma artista que surgiu ali na cena cal­i­for­ni­ana, onde estu­dou nos anos 80. Ela ini­cia com práti­ca muito diver­sa, fazen­do fotografias de arquite­tu­ra e anális­es sobre a sociedade e a cul­tura amer­i­cana. Cather­ine fazia parte de um cole­ti­vo de pes­soas lés­bi­cas, trans, trav­es­tis e gays que estavam viven­do ali a exper­iên­cia de uma vida urbana, notur­na, sobre­tu­do em São Fran­cis­co. Decide então começar uma série de retratos, no sen­ti­do de reg­is­trar mes­mo, de trans­for­mar em imagem essa exper­iên­cia social que esta­va viven­cian­do”, con­tou Giufri­da, em entre­vista à Agên­cia Brasil.

São Paulo (SP) 04/07/2024 - O Museu de Arte de São Paulo (Masp), na capital paulista, abre ao público nesta sexta-feira (5) três novas exposições que dialogam com o tema Histórias da Diversidade LGBTQIA+, escolhido para ser trabalhado pelo museu neste ano de 2024. Foto: Catherine Opie/Masp/Divulgação
Repro­dução: São Paulo — A fotó­grafa Cather­ine Opie apre­sen­ta seus tra­bal­hos no Museu de Arte de São Paulo (Masp) — Foto: Cather­ine Opie/Masp/Divulgação

Em suas fotografias, a artista retra­ta diver­sas expressões e sub­je­tivi­dades de indi­ví­du­os e cole­tivos que se iden­ti­fi­cam com gêneros e ori­en­tações sex­u­ais diver­sas, espe­cial­mente pes­soas queer. “Ela foi pio­neira em perce­ber, reg­is­trar e trans­for­mar essa exper­iên­cia em uma gale­ria, usan­do o sen­ti­do clás­si­co que o retra­to tem na história da arte”, afir­mou o curador.

Por isso, a curado­ria pen­sou em dar nova abor­dagem à apre­sen­tação dessas ima­gens, fazen­do um diál­o­go com o próprio acer­vo artís­ti­co do museu. “Cather­ine esta­va dialo­gan­do com toda a tradição do retra­to, na questão da pose, da cor cha­pa­da ao fun­do, dos obje­tos que apare­cem nas fotografias. E temos aqui no Masp um con­jun­to sig­ni­fica­ti­vo dos maiores retratis­tas da história oci­den­tal. Então, a gente decid­iu mis­tu­rar e justapor alguns retratos dela [feitos por Opie] a retratos aqui da coleção do museu”, expli­cou Giufri­da.

“Procu­ramos esta­b­ele­cer diál­o­gos humora­dos, críti­cos ou algu­mas vezes áci­dos, com 21 obras da nos­sa coleção que tam­bém vão entrar na exposição. Por isso a exposição se chama O Gênero do Retra­to, porque a artista está lidan­do tan­to com essa tradição do moti­vo do retra­to na história da arte, como tam­bém sub­ver­tendo essa tradição trazen­do dis­cussões sobre cor­po, sex­u­al­i­dade e iden­ti­fi­cação de cada um”, disse o curador.

Lia D Castro

A segun­da mostra, que fica em car­taz até o dia 17 de novem­bro, traz os tra­bal­hos da artista e int­elec­tu­al Lia D Cas­tro, que tem sua primeira mostra indi­vid­ual em um museu.

Lia D Cas­tro: em todo e nen­hum lugar tem curado­ria de Isabel­la Rjeille e de Glaucea Hele­na de Brit­to e apre­sen­ta 36 obras da artista, a maio­r­ia delas pin­turas de caráter fig­u­ra­ti­vo e que explo­ram cenários onde o afe­to, o diál­o­go e a imag­i­nação são impor­tantes fer­ra­men­tas de trans­for­mação social. “A artista tra­bal­ha com pin­tu­ra, insta­lação e fotografia. Tra­bal­ha com diver­sas mídias e tudo isso faz parte de um pro­je­to que ela vem desen­vol­ven­do, no qual se uti­liza da pros­ti­tu­ição, do tra­bal­ho do sexo, para inves­ti­gar questões rela­cionadas à mas­culin­idade, à cis­gener­i­dade e à bran­qui­tude”, disse Isabel­la Rjeille.

São Paulo (SP) 04/07/2024 - O Museu de Arte de São Paulo (Masp), na capital paulista, abre ao público nesta sexta-feira (5) três novas exposições que dialogam com o tema Histórias da Diversidade LGBTQIA+, escolhido para ser trabalhado pelo museu neste ano de 2024. Foto: Lia D Castro_Carlos_Davi/CABREL/Masp/Divulgação
Repro­dução: São Paulo — A escrito­ra e com­pos­i­to­ra Lia D Cas­tro mostra seus tra­bal­hos no Museu de Arte de São Paulo (Masp) — Foto: Lia D Castro/CABREL/Masp/Divulgação

Por meios dess­es encon­tros com home­ns cis­gêneros, em sua maio­r­ia bran­cos e het­eros­sex­u­ais, que pro­duz seus tra­bal­hos. “A maio­r­ia dos tra­bal­hos que a Lia desen­volve e que estão na exposição é fei­ta de for­ma colab­o­ra­ti­va, jun­to com seus clientes que são, majori­tari­a­mente, home­ns bran­cos, autode­clar­a­dos het­eros­sex­u­ais, de classe média e alta e que a procu­ram para o tra­bal­ho do sexo. A Lia vai tra­bal­har com ess­es rapazes na elab­o­ração do tra­bal­ho. A pin­tu­ra não é um fim, mas um meio”, expli­cou a curado­ra.

Os clientes não são ape­nas pin­ta­dos: eles mes­mos par­tic­i­pam de toda a con­cepção do tra­bal­ho, sug­erindo como gostari­am de ser retrata­dos e até assi­nan­do as obras feitas em con­jun­to com a artista. “Ela fala que não quer rep­re­sen­tá-los, mas apre­sen­tá-los de uma maneira em que eles tam­bém ten­ham  voz ati­va”.

Em entre­vista à Agên­cia Brasil, a artista con­tou que, antes do retra­to, ela cos­tu­ma per­gun­tar a seus clientes questões que geral­mente são dire­cionadas a pes­soas LGBT+ ou negras: “Quan­do você se perce­beu bran­co? E quan­do se desco­briu cis­gênero ou het­eros­sex­u­al?”. Com isso, ela sub­verte questões sobre raça, gênero e sex­u­al­i­dade.

“No meu proces­so ini­cial de pesquisa, vou usar da pros­ti­tu­ição como meio de comu­ni­cação e de ponte até chegarem ess­es meni­nos. No ter­ceiro ou quar­to encon­tro, a gente começa a escr­ev­er sobre o tra­bal­ho que está por trás ou além da pros­ti­tu­ição. Quero saber quem são eles, o que fazem. E aí vou fazen­do algu­mas per­gun­tas tam­bém mais rela­cionadas à bran­qui­tude, quan­do eles desco­bri­ram que são bran­cos e o que é ser bran­co em relação a out­ros povos não bran­cos den­tro do Brasil. Meu foco é falar sobre a bran­qui­tude do homem brasileiro. O tra­bal­ho pas­sa por esse proces­so de práti­ca de sexo, pela entre­vista e depois vou per­gun­tar a eles se eles têm inter­esse em ir para museus”, expli­cou.

Durante esse proces­so, Lia con­tou que tam­bém foi se “autode­s­col­o­nizan­do”. “Fui enten­den­do o quan­to meu cor­po era objeti­fi­ca­do. Fomos edu­cadas para ver o mun­do com os olhos de um homem bran­co e odi­ar como pes­soas bran­cas. Chamo isso de reti­na colo­nial. Uma das funções da reti­na é cap­tar a imagem e trans­for­má-la de acor­do com a memória que ela tem sobre essa imagem. Fomos edu­cadas a ver o mun­do com os olhos de um homem bran­co. E como podemos tirar ess­es véus, essas camadas? Durante esse proces­so, fui tiran­do todas essas esca­mas da bran­qui­tude e as memórias da mas­culin­idade bran­ca, porque isso é com­pul­sório”.

Em sua obra, Lia apre­sen­ta um proces­so cria­ti­vo mar­ca­do por escol­has que são sem­pre cole­ti­vas: da pale­ta de cores à assi­natu­ra das obras. Nos tra­bal­hos, a artista tam­bém se retra­ta: enquan­to os home­ns estão nus, ela encon­tra-se vesti­da, ten­do seu cor­po cober­to por esparadra­pos, na con­tramão da tradição históri­ca da pin­tu­ra oci­den­tal, em que a grande maio­r­ia dos nus é fem­i­ni­na.

“Meu tra­bal­ho é orga­ni­zar os dese­jos dessas pes­soas. Então, eles vão escol­her suas pos­es, a pale­ta de cores e vão tam­bém assi­nar. Eu não os rep­re­sen­to, eu os apre­sen­to. Eles estão na assi­natu­ra, estão em suas escol­has afe­ti­vas. Quan­do falo do Davi, não falo dele como obje­to. O Davi existe, ele está ali pela assi­natu­ra, pelo seu DNA e por sua memória afe­ti­va de escol­ha”, disse.

Afe­to, aliás, é uma das palavras-chave para enten­der o tra­bal­ho da artista. “Muitas vezes, ela aparece na série jun­to com eles. Out­ras vezes eles estão soz­in­hos, no sofá. Ou, às vezes apare­cem com a cabeça sobre o colo dela, ela lendo um livro. O livro é algo muito recor­rente na obra da Lia”, lem­brou a curado­ra. “Tem essa con­strução que a Lia cria, esse lugar de vul­ner­a­bil­i­dade e intim­i­dade. Ambos ali estão numa situ­ação de vul­ner­a­bil­i­dade, nesse lugar de intim­i­dade, mas tam­bém tem esse espaço pos­sív­el para abor­dar as questões de maneira muito afe­tu­osa e trans­for­mado­ra”, acres­cen­tou.

Além das pin­turas, a exposição vai apre­sen­tar fotografias de reg­istro do proces­so uti­liza­do por Lia. Há tam­bém um cader­no de desen­hos com ano­tações mais teóri­c­as e desen­hos feitos pela artista, com téc­ni­cas preparatórias para pin­tu­ra.

Ventura Profana

A últi­ma mostra, que pode ser vista até o dia 18 de agos­to, será apre­sen­ta­da na sala de vídeo do museu e se ded­i­ca aos tra­bal­hos da artista visu­al, pas­to­ra, can­to­ra, escrito­ra e com­pos­i­to­ra Ven­tu­ra Pro­fana. A curado­ria é de David Ribeiro.

“Ven­tu­ra Pro­fana tra­bal­ha com muitas lin­gua­gens como audio­vi­su­al, músi­ca, inter­venções artís­ti­cas. Ela tem uma lin­guagem bas­tante múlti­pla. Esse tra­bal­ho artís­ti­co é imbuí­do de um sen­ti­do mis­sionário, reli­gioso, espir­i­tu­al. Antes de se inti­t­u­lar como artista, escrito­ra, can­to­ra e com­pos­i­to­ra, Ven­tu­ra cos­tu­ma se colo­car em primeiro lugar como pas­to­ra mis­sionária, ou seja, ela é uma pes­soa que está nesse dese­jo, nesse inter­esse, de comu­nicar uma palavra de fé e de trans­for­mação e que está bus­can­do con­stru­ir ou apre­sen­tar muitas pos­si­bil­i­dades de vida, espe­cial­mente para cor­pos dis­si­dentes, pes­soas trans, trav­es­tis, racial­izadas”, disse o curador.

Assim como em um tra­bal­ho mis­sionário, a artista bus­ca ressig­nificar os sím­bo­los e val­ores da dout­ri­na cristã, com­bat­en­do a visão opres­so­ra e fetichista que repro­duz a explo­ração de cor­pos negros e trav­es­tis. “Isso é o que Ven­tu­ra chama de teolo­gia da trans­mu­tação, um pen­sa­men­to espir­i­tu­al, filosó­fi­co ou moral em que a artista pas­to­ra divul­ga e trans­for­ma todas as vio­lên­cias e sen­ti­men­tos de despre­zo na base de con­strução de uma nova vida”, expli­cou Ribeiro.

Nes­sa mostra serão apre­sen­ta­dos qua­tro vídeos inédi­tos: A maior obra de sanea­men­to, O poder da tra­va que ora, Pro­cure vir antes do inver­no e Para ver as meni­nas e nada mais nos braços. “Eles rep­re­sen­tam, com bas­tante vig­or, esse pen­sa­men­to espir­i­tu­al, reli­gioso e filosó­fi­co da artista pas­to­ra”, resum­iu o curador. Além dos vídeos, o Masp vai pro­mover, no dia 17 de jul­ho, às 19h, em seu canal no YouTube, um bate-papo com a artista e o curador.

Mais infor­mações sobre as três exposições podem ser obti­das no site do museu, que tem entra­da gra­tui­ta todas as terças-feiras e tam­bém na primeira quin­ta-feira do mês.

Edição: Graça Adju­to

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