...
quarta-feira ,28 fevereiro 2024
Home / Direitos Humanos / Combate ao garimpo de forma permanente é urgente, diz procurador

Combate ao garimpo de forma permanente é urgente, diz procurador

Repro­du­ção: © Fer­nan­do Frazão/Agência Bra­sil

Povo yanomami quer participar mais das decisões sobre a TI


Publi­ca­do em 26/01/2024 — 18:25 Por Ana Gra­zi­e­la Agui­ar — Envi­a­da Espe­ci­al* — Boa Vis­ta

ouvir:

Na por­ta da Casa de Saú­de Indí­ge­na, a Casai, em Rorai­ma, os peque­nos yano­ma­mi se reú­nem e brin­cam com uma man­guei­ra de água. Além de apla­car o calor, tal­vez seja tam­bém uma for­ma de esque­cer a dis­tân­cia que os sepa­ra de casa. Mui­tos yano­ma­mi moram em aldei­as que ficam a uma hora e meia de voo de Boa Vis­ta, como é o caso da região de Suru­cu­cu, por exem­plo.

Em 2023 a Casai che­gou a abri­gar um hos­pi­tal de cam­pa­nha para aten­der casos mais gra­ves de indí­ge­nas que che­ga­vam de vári­as regiões do ter­ri­tó­rio yano­ma­mi.

A Ter­ra Indí­ge­na (TI) Yano­ma­mi é o mai­or ter­ri­tó­rio indí­ge­na do Bra­sil e um dos mai­o­res do mun­do. Segun­do dados do Ins­ti­tu­to Bra­si­lei­ro de Geo­gra­fia e Esta­tís­ti­cas (IBGE), vivem nele cer­ca de 27 mil indí­ge­nas, que se dis­tri­bu­em entre os esta­dos de Rorai­ma e Ama­zo­nas, na fron­tei­ra com a Vene­zu­e­la. Uma área de 9.664.975 hec­ta­res (96.650 km²) de flo­res­ta tro­pi­cal homo­lo­ga­da por um decre­to pre­si­den­ci­al em 25 de maio de 1992.

No ano pas­sa­do, segun­do esti­ma­ti­vas do gover­no fede­ral, mais de 20 mil garim­pei­ros esta­vam na área. E des­de então, a bus­ca é cons­tan­te pela reti­ra­da defi­ni­ti­va des­sas pes­so­as do ter­ri­tó­rio, como expli­ca o pro­cu­ra­dor fede­ral Alis­son Maru­gal, do Minis­té­rio Públi­co Fede­ral em Rorai­ma. “Hou­ve uma que­da de qua­se 80% no garim­po em ter­ri­tó­rio yano­ma­mi. Já é um avan­ço espe­ta­cu­lar, por­que não se via isso no ano pas­sa­do. Até o ano retra­sa­do em 2022. Se nós com­pa­rar­mos os mes­mos meses: janei­ro de 2022 e janei­ro de 2024, a que­da é bas­tan­te sig­ni­fi­ca­ti­va e supe­ra 90%. Então hou­ve um avan­ço con­tun­den­te no com­ba­te ao garim­po”.

Mas ele faz pon­de­ra­ções de que o com­ba­te ao garim­po de for­ma mais per­ma­nen­te é urgen­te. “Esse avan­ço nes­sas ope­ra­ções con­tun­den­tes per­du­ra­ram até agos­to, setem­bro, outu­bro, quan­do nós per­ce­be­mos um enfra­que­ci­men­to, um arre­fe­ci­men­to nas ope­ra­ções de com­ba­te ao garim­po”, afir­ma Maru­gal.

No iní­cio do ano, o Minis­té­rio Públi­co Fede­ral ajui­zou ação cobran­do o gover­no fede­ral uma atu­a­ção mais pere­ne na TI Yano­ma­mi.  “No iní­cio do ano, nós fize­mos um acor­do com a União e os demais órgãos de com­ba­te ao garim­po, para ela­bo­ra­ção de um pla­no de desin­tru­são. Esse pla­no de desin­tru­são tinha um pra­zo de seis meses. Esse pra­zo de seis meses fin­dou, o gover­no não con­se­guiu rea­li­zar efe­ti­va­men­te a desin­tru­são do ter­ri­tó­rio e tam­pou­co asse­gu­rar que esses garim­pei­ros não retor­nas­sem”, obser­vou o pro­cu­ra­dor.

Os  yano­ma­mi, segun­do o pro­cu­ra­dor, cobram tam­bém fazer par­te das deci­sões sobre pla­ne­ja­men­to de segu­ran­ça, sobre o com­ba­te ao garim­po ile­gal e tam­bém a res­pei­to das for­mas per­ma­nen­tes de aten­di­men­to de saú­de nas comu­ni­da­des.

Surucucu (RR), 09/02/2023 - Homens yanomami em Surucucu, na Terra Indígena Yanomami. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­du­ção: Homens yano­ma­mi em Suru­cu­cu, na Ter­ra Indí­ge­na Yano­ma­mi — Fer­nan­do Frazão/Agência Bra­sil

Operação

Em nota, o Minis­té­rio dos Povos Indí­ge­nas (MPI) des­ta­cou a deci­são do pre­si­den­te Luiz Iná­cio Lula da Sil­va, de abrir cré­di­to extra­or­di­ná­rio, no valor de R$1,2 bilhão, que será des­ti­na­do à nova eta­pa da ope­ra­ção de reti­ra­da de inva­so­res da Ter­ra Indí­ge­na Yano­ma­mi, foca­da na cri­a­ção de solu­ções per­ma­nen­tes para a cri­se. “Have­rá a aber­tu­ra de mais três bases locais na ter­ra indí­ge­na, cons­tru­ção de novas uni­da­des de saú­de indí­ge­na e con­ti­nui­da­de das ope­ra­ções de com­ba­te ao garim­po ile­gal”, dis­se a pas­ta. O gover­no reco­nhe­ce que o pro­ble­ma per­sis­te, mas res­sal­ta que é bem menor do que a situ­a­ção her­da­da no fim de 2022. “Des­ta­ca­mos que a cri­se na região yano­ma­mi, embo­ra não tenha sido total­men­te solu­ci­o­na­da, rece­beu esfor­ços emer­gen­ci­ais sig­ni­fi­ca­ti­vos em diver­sas fren­tes de atu­a­ção. Além dis­so, é pre­ci­so des­ta­car que o MPI con­ti­nua pla­ne­jan­do e imple­men­tan­do mais ações, tra­ba­lhan­do de for­ma arti­cu­la­da com outros minis­té­ri­os res­pon­sá­veis por atu­ar no ter­ri­tó­rio indí­ge­na”.

Desnutrição

Segun­do levan­ta­men­to do Minis­té­rio Públi­co Fede­ral,  de julho de 2020 a dezem­bro de 2022, 18 deci­sões judi­ci­ais deter­mi­na­ram a reti­ra­da de garim­pei­ros ou a ins­ta­la­ção de bases de segu­ran­ça na TI Yano­ma­mi. Todas foram par­ci­al ou total­men­te des­cum­pri­das. “Nós, yano­ma­mi, ain­da esta­mos enfren­tan­do malá­ria mui­to gran­de, todas as comu­ni­da­des. Por isso está ten­do tam­bém mui­ta des­nu­tri­ção nas comu­ni­da­des, onde tam­bém ain­da está ten­do mui­ta inva­são de garim­pei­ro”, diz Júni­or Yano­ma­mi, pre­si­den­te da Urihi, Asso­ci­a­ção Yano­ma­mi.

Em balan­ço das ações emer­gen­ci­ais na ter­ra indí­ge­na, o gover­no fede­ral citou a des­trui­ção, ao lon­go do ano pas­sa­do, de mais de 340 acam­pa­men­tos de garim­pei­ros, redu­ção de 85% das áre­as para mine­ra­ção ile­gal na TIY de feve­rei­ro a dezem­bro de 2023, em rela­ção ao mes­mo perío­do do ano ante­ri­or, segun­do dados do Ins­ti­tu­to Bra­si­lei­ro do Meio Ambi­en­te dos Recur­sos Natu­rais Reno­vá­veis (Iba­ma), além de que­da de 50% do des­ma­ta­men­to da Amazô­nia, segun­do dados do sis­te­ma Deter‑B, do Ins­ti­tu­to Naci­o­nal de Pes­qui­sas Espa­ci­ais (Inpe).

As ações serão con­ti­nu­a­das com a Casa de Gover­no em Rorai­ma, estru­tu­ra que coor­de­na­rá a atu­a­ção trans­ver­sal de diver­sos órgãos fede­rais na TI Yano­ma­mi, com atu­a­ção per­ma­nen­te. Funai, Iba­ma, Polí­cia Fede­ral, Polí­cia Rodo­viá­ria Fede­ral, Agên­cia Bra­si­lei­ra de Inte­li­gên­cia (Abin) e os minis­té­ri­os do Meio Ambi­en­te e Mudan­ça do Cli­ma, dos Povos Indí­ge­nas, da Edu­ca­ção, da Saú­de e dos Direi­tos Huma­nos esta­rão entre os par­ti­ci­pan­tes.

O Minis­té­rio da Saú­de infor­mou que inves­tiu mais de R$ 220 milhões para rees­tru­tu­rar o aces­so à saú­de dos indí­ge­nas da região em 2023, um valor 122% mais alto que o do ano ante­ri­or. Duran­te o mes­mo perío­do, sete polos-base, que esta­vam fecha­dos por ações cri­mi­no­sas de garim­pei­ros, foram rea­ber­tos.

“Nes­tas loca­li­da­des, onde é pos­sí­vel pres­tar assis­tên­cia e aju­da huma­ni­tá­ria, 307 cri­an­ças diag­nos­ti­ca­das com des­nu­tri­ção gra­ve ou mode­ra­da foram recu­pe­ra­das. Com a rea­ber­tu­ra dos sete polos-base, que esta­vam fecha­dos por ações cri­mi­no­sas, atu­al­men­te há 68 esta­be­le­ci­men­tos de saú­de com aten­di­men­to em ter­ra Yano­ma­mi. Nos locais onde a assis­tên­cia médi­ca con­se­gue aces­sar com segu­ran­ça, é pos­sí­vel pres­tar os aten­di­men­tos neces­sá­ri­os de emer­gên­cia e de acom­pa­nha­men­to de saú­de dos indí­ge­nas. Para garan­tir o aces­so nos locais onde não há segu­ran­ça, o Minis­té­rio da Saú­de segue tra­ba­lhan­do de for­ma con­jun­ta com as For­ças de Segu­ran­ça Públi­ca”.

*Cola­bo­rou Pedro Rafa­el Vilel­la

Edi­ção: Ali­ne Leal

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Rio de Janeiro – Para a religião cristã, as pessoas foram criadas à imagem e semelhança de Deus. Foi no palco, no entanto, que Renata Carvalho percebeu que isso não valeria se se tratasse de uma travesti. O espetáculo que protagonizou, Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, foi censurado diversas vezes e chegou a ser suspenso por medidas judiciais. Nele, a atriz interpreta Jesus Cristo, o que incomodou uma parcela dos espectadores e também gente que nem mesmo assistiu à peça. Foto: Naiara Demarco/Divulgação

Presença de trans nas artes reduz preconceito, afirma Renata Carvalho

Repro­du­ção: © Mar­cus Leoni/Divulgação Renata Carvalho diz que foram muitas as lutas em 23 anos …