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Criatividade humana e tecnologia podem conviver no jornalismo

Repro­du­ção: © Mar­cel­lo Casal Jr / Agên­cia Bra­sil

Mesmo com avanços, a sensibilidade não é substituída pelo robô


Publi­ca­do em 07/04/2023 — 11:25 Por Luiz Clau­dio Fer­rei­ra — Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — Bra­sí­lia

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ChatGPT, robo­ti­za­ção, inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al são pala­vras que podem ter assus­ta­do quem tra­ba­lha com jor­na­lis­mo e tam­bém quem con­so­me infor­ma­ção pro­du­zi­da por pro­fis­si­o­nais. As novi­da­des no cam­po da tec­no­lo­gia pode­ri­am colo­car um pon­to final na for­ma com que se pro­duz notí­cia? Pes­qui­sa­do­ras ouvi­das pela Agên­cia Bra­sil indi­cam que a dis­cus­são não é tão sim­ples. Auto­ma­ção, sen­si­bi­li­da­de e apro­fun­da­men­to podem caber na mes­ma fra­se e com­põem solu­ções pos­sí­veis e reais, na ava­li­a­ção das entre­vis­ta­das.

Espe­ci­a­lis­tas no assun­to enten­dem que a qua­li­da­de e a sen­si­bi­li­da­de huma­na para a pro­du­ção de con­teú­dos não são subs­ti­tuí­das por robôs. De toda for­ma, o tema sem­pre requer aten­ção e vigi­lân­cia em vis­ta da fun­ção soci­al da ati­vi­da­de.

A pro­fes­so­ra Síl­via Dal­ben, pes­qui­sa­do­ra de dou­to­ra­do na Uni­ver­si­da­de do Texas, em Aus­tin (Esta­dos Uni­dos), estu­da o jor­na­lis­mo auto­ma­ti­za­do e o uso da inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al nos con­teú­dos noti­ci­o­sos com o foco prin­ci­pal nas reda­ções de veí­cu­los de comu­ni­ca­ção da Amé­ri­ca Lati­na. “A ame­a­ça do jor­na­lis­mo não é a inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al”, garan­te.

Ela con­tex­tu­a­li­za que a  pro­fis­são sem­pre foi mol­da­da pela tec­no­lo­gia. “Se não tives­se exis­ti­do a pren­sa de Gutem­berg, a gen­te não teria nenhu­ma publi­ca­ção impres­sa. Como seria o jor­na­lis­mo sem a inven­ção do rádio, da tele­vi­são, dos com­pu­ta­do­res e depois da inter­net? Ago­ra, a gen­te está viven­do esse momen­to em que a inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al está cha­man­do mui­ta aten­ção”.

Ela enten­de que há uma mudan­ça do mode­lo de negó­ci­os do jor­na­lis­mo e essa muta­ção gera des­con­fi­an­ças. Os con­glo­me­ra­dos midiá­ti­cos estão em trans­for­ma­ção. “Já hou­ve um tem­po em que acha­vam que nin­guém iria se acos­tu­mar a ler notí­ci­as pela tela do com­pu­ta­dor”, exem­pli­fi­ca. As pla­ta­for­mas estão em cons­tan­te muta­ção e isso pode se cons­ti­tuir em novas opor­tu­ni­da­des de tra­ba­lho e via­bi­li­da­de de exis­tên­cia.

Outros jornalismos

Para a pes­qui­sa­do­ra, o jor­na­lis­mo fac­tu­al, na reda­ção, vai con­ti­nu­ar exis­tin­do. “Vai pre­ci­sar pas­sar por ajus­tes por­que as novas tec­no­lo­gi­as estão sur­gin­do”.

Ela iden­ti­fi­ca, entre­tan­to, que as tec­no­lo­gi­as estão apoi­an­do repor­ta­gens inves­ti­ga­ti­vas e novas pau­tas no cam­po de jor­na­lis­mo de dados. “Não seri­am pos­sí­veis sem a inter­net”

Reportagem como saída

A pro­fes­so­ra de jor­na­lis­mo Fabi­a­na Mora­es, da Uni­ver­si­da­de Fede­ral de Per­nam­bu­co (UFPE), res­sal­ta que os robôs são uti­li­za­dos há mui­to mais tem­po para pro­du­ção de notí­ci­as.

A pro­fis­si­o­nal, antes da docên­cia, fez da car­rei­ra uma aula de sen­si­bi­li­da­de dian­te dos dra­mas soci­ais que trans­for­mou em pau­tas no lito­ral, agres­te e ser­tão. A par­tir des­se olhar, se tor­nou uma das pro­fis­si­o­nais mais reco­nhe­ci­das do Bra­sil pelos for­ma­tos nar­ra­ti­vos livres, chei­os de denún­ci­as e his­tó­ri­as de vida.

Com sua for­ma de escre­ver, rece­beu, por exem­plo, três prê­mi­os Esso. Nas repor­ta­gens dela, as vidas dos mais humil­des, humi­lha­dos e vul­ne­rá­veis situ­am-se no pro­ta­go­nis­mo das cenas reais. Repor­ta­gens impos­sí­veis de serem simu­la­das por robôs.

“A gen­te apon­ta para a repor­ta­gem como um des­ses espa­ços de infle­xão que, mui­tas vezes, não vão ser pos­sí­veis por mais que a tec­no­lo­gia seja depu­ra­da”.

Ela crê que o olhar huma­no sobre pro­ble­mas exis­ten­tes no mun­do pode até ser simu­la­do, mas não será efi­ci­en­te. Pode ser fic­ção, mas não jor­na­lis­mo que mexa com lei­to­res. “Eu acho mui­to difí­cil que isso seja tra­zi­do ape­nas pela tec­no­lo­gia”.

Para sobreviver

As pes­qui­sa­do­ras defen­dem que é neces­sá­rio o reco­nhe­ci­men­to do papel do jor­na­lis­mo para a soci­e­da­de. Elas enten­dem que a soci­e­da­de tem veri­fi­ca­do pro­du­ções que cir­cu­lam pau­ta­das pela desin­for­ma­ção, e que não con­tri­bu­em com dra­mas soci­ais, como o racis­mo, a homo­fo­bia ou miso­gi­nia.

“A gen­te tem uma ame­a­ça: inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al e a dis­se­mi­na­ção de con­teú­dos não che­ca­dos. É neces­sá­rio ter um cui­da­do mui­to gran­de com a apu­ra­ção, com a che­ca­gem de fato. Esse é o dife­ren­ci­al e que vai gerar valor ao con­teú­do jor­na­lís­ti­co”, diz Síl­via Dal­ben.

Fabi­a­na Mora­es, sob óti­ca seme­lhan­te, elen­ca um cená­rio de pre­ca­ri­za­ção da ati­vi­da­de e ame­a­ças à infor­ma­ção éti­ca com a dis­se­mi­na­ção de desin­for­ma­ção via robôs. Segun­do ela, a pre­o­cu­pa­ção está liga­da à defe­sa da demo­cra­cia e a neces­si­da­de de evi­tar danos à soci­e­da­de

Para Sil­via Dal­ben, o jor­na­lis­mo que só bus­ca atrair audi­ên­cia, que é raso e super­fi­ci­al, pode ser fei­to por por robôs, por inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al.

“É uma ame­a­ça [real] por­que cria essa visão da soci­e­da­de de que isso seria o jor­na­lis­mo e outras pes­so­as acham que tam­bém podem ser jor­na­lis­tas”, ava­lia. Esse, entre­tan­to, seria um tipo de jor­na­lis­mo que cau­sa dis­tor­ções e que não aju­da a soci­e­da­de.

“O que o jor­na­lis­ta pre­ci­sa é pen­sar no jor­na­lis­mo de qua­li­da­de com apu­ra­ção, com a che­ca­gem de fato. O que gera valor ao con­teú­do e dife­ren­cia o que a gen­te escre­ve do que qual­quer outra pes­soa escre­ve, inclu­si­ve robô, é o apro­fun­da­men­to”, apon­ta Síl­via. Pro­ce­di­men­to que, ava­li­am as pro­fes­so­ras, cola­bo­ram com uma visão crí­ti­ca e útil para a soci­e­da­de.

Revolução

A visão de que a tec­no­lo­gia vai trans­for­mar tudo no futu­ro é equi­vo­ca­da, apon­tam as espe­ci­a­lis­tas. “A gen­te tem que enten­der que a revo­lu­ção não come­ça ago­ra e não está foca­da no futu­ro. A gen­te já está nes­sa revo­lu­ção”, diz a pes­qui­sa­do­ra bra­si­lei­ra resi­den­te nos Esta­dos Uni­dos.

Segun­do as pes­qui­sa­do­ras, a inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al deve ser vis­ta, no dia a dia do jor­na­lis­mo, como uma fun­ção híbri­da e que pode ser útil para os pro­fis­si­o­nais da impren­sa, para a soci­e­da­de e para a demo­cra­cia.

O jor­na­lis­mo, entre­tan­to, é uma ati­vi­da­de que deve defen­der a cida­da­nia e a liber­da­de — pala­vras que são melhor enten­di­das por quem é de car­ne e osso.

Edi­ção: Líli­an Beral­do

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