...
domingo ,16 junho 2024
Home / Noticias / Detalhes sobre tentativa de golpe de Estado expõem Bolsonaro e aliados

Detalhes sobre tentativa de golpe de Estado expõem Bolsonaro e aliados

Repro­du­ção: © Caro­li­na Antu­nes / PR

Ex-presidente e seu entorno são investigados pela Polícia Federal


Publi­ca­do em 08/02/2024 — 23:20 Por Caro­li­na Pimen­tel — Repór­ter da Agên­cia Bra­sil* — Bra­sí­lia

ouvir:

O dia 8 de feve­rei­ro foi o dia esco­lhi­do para a defla­gra­ção de uma ope­ra­ção da Polí­cia Fede­ral (PF) que teve como alvo o ex-pre­si­den­te Jair Bol­so­na­ro e inte­gran­tes de seu gover­no, incluin­do minis­tros de Esta­do e mili­ta­res. Eles são inves­ti­ga­dos por for­ma­rem uma supos­ta orga­ni­za­ção cri­mi­no­sa para atu­ar na ten­ta­ti­va de gol­pe de Esta­do. A ope­ra­ção foi bati­za­da de Tem­pus Veri­ta­tis ou Hora da Ver­da­de, em tra­du­ção livre.

A ope­ra­ção foi defla­gra­da nes­ta quin­ta-fei­ra (8) após o ex-aju­dan­te de ordens de Bol­so­na­ro, Mau­ro Cid, ter fecha­do acor­do de cola­bo­ra­ção pre­mi­a­da com inves­ti­ga­do­res da PF. O acor­do foi envi­a­do à Pro­cu­ra­do­ria-Geral da Repú­bli­ca (PGR) e já rece­beu a homo­lo­ga­ção do STF.

As inves­ti­ga­ções apon­ta­ram que o gru­po for­mu­lou uma minu­ta, com a par­ti­ci­pa­ção de Bol­so­na­ro, que pre­via uma série de medi­das con­tra o Poder Judi­ciá­rio, incluin­do a pri­são de minis­tros da Supre­ma Cor­te. Esse gru­po tam­bém pro­mo­veu reu­niões para impul­si­o­nar a divul­ga­ção de notí­ci­as fal­sas con­tra o sis­te­ma elei­to­ral bra­si­lei­ro e moni­to­rou o minis­tro do Supre­mo Tri­bu­nal Fede­ral (STF), Ale­xan­dre de Mora­es, res­pon­sá­vel por auto­ri­zar a ope­ra­ção de hoje.

Alvos e presos

A Polí­cia Fede­ral cum­priu 33 man­da­dos de bus­ca e apre­en­são e qua­tro man­da­dos de pri­são pre­ven­ti­va. Por deter­mi­na­ção de Mora­es, os inves­ti­ga­dos estão proi­bi­dos de man­ter con­ta­to e de dei­xa­rem o país. Tam­bém pre­ci­sam entre­gar os pas­sa­por­tes em 24 horas e estão sus­pen­sos do exer­cí­cio das fun­ções públi­cas.

Todas as medi­das tive­ram o aval do pro­cu­ra­dor-geral da Repú­bli­ca (PGR), Pau­lo Gonet.

Entre elas, esta­va a entre­ga do pas­sa­por­te do ex-pre­si­den­te Jair Bol­so­na­ro às auto­ri­da­des.

Entre os alvos de bus­ca e apre­en­são esta­vam o ex-che­fe do Gabi­ne­te de Segu­ran­ça Ins­ti­tu­ci­o­nal (GSI) gene­ral Augus­to Hele­no Ribei­ro Perei­ra, o ex-minis­tro da Casa Civil Wal­ter Sou­za Bra­ga Net­to, o ex-minis­tro da Defe­sa Pau­lo Sér­gio Noguei­ra de Oli­vei­ra e o ex-minis­tro da Jus­ti­ça Ander­son Tor­res.

Foram pre­sos Feli­pe Mar­tins e o coro­nel do Exér­ci­to Mar­ce­lo Cos­ta Câma­ra, ambos ex-asses­so­res espe­ci­ais de Bol­so­na­ro, e o major Rafa­el Mar­tins de Oli­vei­ra.

O pre­si­den­te naci­o­nal do PL, Val­de­mar Cos­ta Neto, aca­bou sen­do pre­so por por­te ile­gal de arma, em Bra­sí­lia, no momen­to que os agen­tes cum­pri­am o man­da­do de bus­ca e apre­en­são con­tra ele.

As inves­ti­ga­ções apon­tam que a orga­ni­za­ção se divi­diu em seis núcle­os para atu­ar na ten­ta­ti­va de gol­pe de Esta­do e de ata­que ao Esta­do Demo­crá­ti­co de Direi­to: o de desin­for­ma­ção e ata­ques ao sis­te­ma elei­to­ral; o de inci­ta­ção ao gol­pe entre mili­ta­res; o de atu­a­ção jurí­di­ca; o de coor­de­na­ção de ações de apoio ope­ra­ci­o­nal; o de inte­li­gên­cia para­le­la, e o de ofi­ci­ais de alta paten­te que legi­ti­ma­vam todas as ações.

Veja quem foi alvo da ope­ra­ção:

- Augus­to Hele­no Ribei­ro Perei­ra, ex-che­fe do Gabi­ne­te de Segu­ran­ça Ins­ti­tu­ci­o­nal (GSI);
— Wal­ter Sou­za Bra­ga Net­to, ex-minis­tro da Casa Civil e da Defe­sa;
— Gene­ral Pau­lo Sér­gio Noguei­ra de Oli­vei­ra, ex-minis­tro da Defe­sa;
— Ânge­lo Mar­tins Deni­co­li, major da reser­va;
— Aíl­ton Gon­çal­ves Mora­es Bar­ros, coro­nel refor­ma­do do Exér­ci­to;
— Coro­nel Gui­lher­me Mar­ques Almei­da;
— Tenen­te-coro­nel Hélio Fer­rei­ra Lima;
— Tenen­te-coro­nel Sér­gio Ricar­do Cava­li­e­re de Medei­ros;
— Almi­ran­te Almir Gar­ni­er San­tos, ex-coman­dan­te-geral da Mari­nha;
— Gene­ral Mário Fer­nan­des;
— Gene­ral Este­vam Cals The­ophi­lo Gas­par de Oli­vei­ra, ex-che­fe do Coman­do de Ope­ra­ções Ter­res­tres do Exér­ci­to;
— Laér­cio Ver­gí­lio, gene­ral de Bri­ga­da refor­ma­do;
— Pau­lo Rena­to de Oli­vei­ra Figuei­re­do Filho;
— Ander­son Tor­res, ex-minis­tro da Jus­ti­ça;
— Val­de­mar Cos­ta Neto, pre­si­den­te naci­o­nal do PL;
— Feli­pe Mar­tins, ex-asses­sor espe­ci­al de Jair Bol­so­na­ro;
— Coro­nel Ber­nar­do Romão Cor­rea Neto;
— Mar­ce­lo Cos­ta Câma­ra, coro­nel da reser­va;
— Major Rafa­el Mar­tins de Oli­vei­ra.

As medi­das foram cum­pri­das nos seguin­tes esta­dos: Ama­zo­nas, Rio de Janei­ro, São Pau­lo, Minas Gerais, Mato Gros­so do Sul, Cea­rá, Espí­ri­to San­to, Para­ná e Goiás, além do Dis­tri­to Fede­ral. O Exér­ci­to acom­pa­nhou o cum­pri­men­to de alguns man­da­dos.

Minuta de golpe

De acor­do com a Polí­cia Fede­ral, o gru­po ela­bo­rou uma minu­ta de decre­to que tinha como obje­ti­vo exe­cu­tar um gol­pe de Esta­do.

O tex­to foi entre­gue ao ex-pre­si­den­te em 2022 por Fili­pe Mar­tins, então asses­sor da Pre­si­dên­cia para Assun­tos Inter­na­ci­o­nais, e pelo advo­ga­do Amau­ri Feres Saad, apon­ta­do como men­tor inte­lec­tu­al do docu­men­to.

O docu­men­to pre­via as pri­sões dos minis­tros do Supre­mo Ale­xan­dre de Mora­es e Gil­mar Men­des, e tam­bém do pre­si­den­te do Sena­do, Rodri­go Pache­co (PSD-MG), além da rea­li­za­ção de novas elei­ções.

Após rece­ber o tex­to, Bol­so­na­ro soli­ci­tou mudan­ças e a reti­ra­da das pri­sões de Men­des e Pache­co do tex­to. Na nova ver­são, per­ma­ne­ce­ram a pri­são de Mora­es e a con­vo­ca­ção de novas elei­ções.

“Con­for­me des­cri­to, os ele­men­tos infor­ma­ti­vos colhi­dos reve­la­ram que Jair Bol­so­na­ro rece­beu uma minu­ta de decre­to apre­sen­ta­do por Fili­pe Mar­tins e Amau­ri Feres Saad para exe­cu­tar um gol­pe de Esta­do, deta­lhan­do supos­tas inter­fe­rên­ci­as do Poder Judi­ciá­rio no Poder Exe­cu­ti­vo e, ao final, decre­ta­va a pri­são de diver­sas auto­ri­da­des, entre as quais os minis­tros do Supre­mo Tri­bu­nal Fede­ral, Ale­xan­dre de Mora­es e Gil­mar Men­des, além do pre­si­den­te do Sena­do, Rodri­go Pache­co e, por fim, deter­mi­na­va a rea­li­za­ção de novas elei­ções. Pos­te­ri­or­men­te, foram rea­li­za­das alte­ra­ções a pedi­do do então pre­si­den­te, per­ma­ne­cen­do a deter­mi­na­ção de pri­são do minis­tro Ale­xan­dre de Mora­es e a rea­li­za­ção de novas elei­ções”, diz tre­cho da deci­são de Mora­es que auto­ri­zou a ope­ra­ção.

Após ter con­cor­da­do com o novo tex­to, Bol­so­na­ro con­vo­cou uma reu­nião com os coman­dan­tes das For­ças Arma­das – almi­ran­te Almir Gar­ni­er San­tos (Mari­nha), gene­ral Mar­co Anto­nio Frei­re Gomes (Exér­ci­to) e bri­ga­dei­ro Car­los de Almei­da Batis­ta Júni­or (Aero­náu­ti­ca) – para pres­si­o­ná-los a ade­rir ao gol­pe.

Reunião da “dinâmica golpista”

Outro even­to reve­la­do pelas inves­ti­ga­ções foi uma reu­nião con­vo­ca­da por Bol­so­na­ro com a alta cúpu­la do gover­no fede­ral, em 5 de julho de 2022. No encon­tro, o então pre­si­den­te cobrou aos pre­sen­tes que usas­sem os car­gos para dis­se­mi­nar infor­ma­ções fal­sas sobre supos­tas frau­des nas elei­ções. Um vídeo com a gra­va­ção da reu­nião foi encon­tra­do em um dos com­pu­ta­do­res do ex-aju­dan­te de ordens Mau­ro Cid.

“Daqui pra fren­te que­ro que todo minis­tro fale o que eu vou falar aqui, e vou mos­trar. Se o minis­tro não qui­ser falar ele vai vir falar para mim por­que que ele não quer falar”, dis­se Bol­so­na­ro, con­for­me trans­cri­ção fei­ta pela PF,

No mes­mo encon­tro, o gene­ral Augus­to Hele­no, então minis­tro-che­fe do Gabi­ne­te de Segu­ran­ça Ins­ti­tu­ci­o­nal (GSI), defen­deu que era pre­ci­so agir antes das elei­ções pre­si­den­ci­ais de outu­bro daque­le ano para garan­tir a per­ma­nên­cia de Bol­so­na­ro no coman­do do país. E usou uma refe­rên­cia espor­ti­va – o assis­ten­te de vídeo, recur­so usa­do para cor­ri­gir erros de arbi­tra­gem no cam­po de jogo – para afir­mar que uma vez rea­li­za­da, a elei­ção não pode­ria ser con­tes­ta­da.

“Não vai ter revi­são do VAR. Então, o que tiver que ser fei­to tem que ser fei­to antes das elei­ções. Se tiver que dar soco na mesa é antes das elei­ções. Se tiver que virar a mesa é antes das elei­ções”, afir­mou.

Hele­no che­gou a pro­por que ser­vi­do­res da Agên­cia Bra­si­lei­ra de Inte­li­gên­cia (Abin) fos­sem infil­tra­dos em cam­pa­nhas elei­to­rais. Bol­so­na­ro inter­rom­peu a fala do gene­ral e ori­en­tou que con­ver­sas­sem sobre o tema pos­te­ri­or­men­te, em par­ti­cu­lar.

A par­tir des­sa reu­nião, a PF apon­ta que foi rea­li­za­da uma sequên­cia de even­tos para o pla­ne­ja­men­to do gol­pe, a par­tir de men­sa­gens extraí­das de celu­la­res de Mau­ro Cid e nas quais o aju­dan­te de ordens assu­me a tare­fa de coor­de­na­ção na dis­se­mi­na­ção de ata­ques à Jus­ti­ça Elei­to­ral.

“A des­cri­ção da reu­nião de 5 de julho de 2022, niti­da­men­te, reve­la o arran­jo de dinâ­mi­ca gol­pis­ta, no âmbi­to da alta cúpu­la do gover­no, mani­fes­tan­do-se todos os inves­ti­ga­dos que dela toma­ram par­te no sen­ti­do de vali­dar e ampli­fi­car a mas­si­va desin­for­ma­ção e as nar­ra­ti­vas frau­du­len­tas sobre as elei­ções e a Jus­ti­ça elei­to­ral”, des­cre­ve a PF.

Monitoramento de Moraes

Os poli­ci­ais fede­rais iden­ti­fi­ca­ram ain­da que o gru­po moni­to­rou des­lo­ca­men­tos do minis­tro Ale­xan­dre de Mora­es entre Bra­sí­lia e São Pau­lo, em diver­sas datas de dezem­bro de 2022.

O moni­to­ra­men­to foi des­co­ber­to nas men­sa­gens tro­ca­das entre Mau­ro Cid e o coro­nel do Exér­ci­to, Mar­ce­lo Câma­ra, que atu­ou como asses­sor espe­ci­al da Pre­si­dên­cia da Repú­bli­ca e foi pre­so pre­ven­ti­va­men­te nes­ta quin­ta-fei­ra. Nas men­sa­gens, Mau­ro Cid se refe­ria ao minis­tro do Supre­mo como “pro­fes­so­ra”.

“A inves­ti­ga­ção cons­ta­tou que os des­lo­ca­men­tos entre Bra­sí­lia e São Pau­lo do minis­tro Ale­xan­dre de Mora­es são coin­ci­den­tes com os da pes­soa que esta­va sen­do moni­to­ra­da e acom­pa­nha­da pelo gru­po. Assim, o ter­mo ‘pro­fes­so­ra’ uti­li­za­do por Mau­ro Cid e Mar­ce­lo Câma­ra seria um codi­no­me para a ação que tinha o Minis­tro Ale­xan­dre de Mora­es, do Supre­mo Tri­bu­nal Fede­ral, e pre­si­den­te do Tri­bu­nal Supe­ri­or Elei­to­ral (TSE) como alvo”, infor­mou a Polí­cia Fede­ral

Ataques de 8 de janeiro

A Polí­cia Fede­ral apon­ta que inte­gran­tes do gru­po tro­ca­ram men­sa­gens sobre a orga­ni­za­ção dos atos anti­de­mo­crá­ti­cos de 8 de janei­ro de 2023, que resul­ta­ram em ata­ques e depre­da­ção das sedes dos Três Pode­res, em Bra­sí­lia.

Mau­ro Cid e o major do Exér­ci­to, Rafa­el Mar­tins de Oli­vei­ra, con­ver­sa­ram sobre a ida de uma cara­va­na do Rio de Janei­ro para os atos. Cid pediu ao major que fizes­se esti­ma­ti­va de cus­to com hotel, ali­men­ta­ção e demais des­pe­sas. Oli­vei­ra esti­mou gas­tos em tor­no de R$ 100 mil.

Segun­do a PF, o diá­lo­go traz for­tes indí­ci­os de que Rafa­el de Oli­vei­ra “atu­ou dire­ta­men­te, dire­ci­o­nan­do os mani­fes­tan­tes para os alvos de inte­res­se dos inves­ti­ga­dos, como STF e Con­gres­so Naci­o­nal, além de rea­li­zar a coor­de­na­ção finan­cei­ra e ope­ra­ci­o­nal para dar supor­te aos atos anti­de­mo­crá­ti­cos” sob a ori­en­ta­ção de Cid, res­pon­sá­vel pelo arran­jo de finan­ci­a­men­tos dos atos.

* Cola­bo­rou Pedro Peduz­zi, Feli­pe Pon­tes e TV Bra­sil

Edi­ção: Mar­ce­lo Bran­dão

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Sobe para 175 o número de mortos no RS após enchentes

Repro­du­ção: © Rafa Neddermeyer/Agência Bra­sil Dois corpos foram encontrados em Teutônia e Agudo Publicado em …