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Detecção precoce do autismo ajuda na alfabetização e inclusão escolar

Dia Mundial de Conscientização do Autismo é celebrado nesta quarta

Ana Cristi­na Cam­pos — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 02/04/2025 — 07:28
Rio de Janeiro
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caminhada do autismo
Repro­dução: © 08/04/2018/Tania Rego/Agencia Brasil

Morado­ra de Nova Iguaçu, na Baix­a­da Flu­mi­nense, a neu­ro­ci­en­tista e bio­médi­ca Ema­noele Fre­itas começou a perce­ber que o fil­ho, Eros Micael, tin­ha difi­cul­dades para se comu­nicar quan­do ele tin­ha 2 anos. “Foi, então, que veio o diag­nós­ti­co erra­do de sur­dez pro­fun­da. Só com 5 anos, com novos exam­es, desco­briu-se que, na real­i­dade, ele ouvia bem, só que ele tin­ha out­ra patolo­gia. Fui encam­in­ha­da para a psiquia­tra, e ela me deu o diag­nós­ti­co de autismo. Naque­la época, não se fala­va do assun­to”, diz a mãe do jovem, que hoje tem 21 anos.

Ser de um grau menos autonomo do espec­tro autista, tam­bém chama­do de nív­el 3 de suporte, trouxe muitas difi­cul­dades na vida esco­lar, que Eros fre­quen­tou até o ensi­no fun­da­men­tal, com quase 15 anos. “O Eros ini­ciou na esco­la par­tic­u­lar e, depois, eu o lev­ei para a esco­la públi­ca, que foi onde eu real­mente con­segui ter uma entra­da mel­hor, ter uma aceitação mel­hor e ter profis­sion­ais que estavam inter­es­sa­dos em desen­volver o tra­bal­ho”, acres­cen­ta Ema­noele.

“Ele não con­seguia ficar em sala de aula e desen­volver a parte acadêmi­ca. Ele tem um com­pro­me­ti­men­to cog­ni­ti­vo bem acen­tu­a­do. Naque­le momen­to, vimos que o pri­mor­dial era ele apren­der a ser autônomo. Ele teve medi­ador, o pro­fes­sor que faz sua capac­i­tação em medi­ação esco­lar. Meu fil­ho não tin­ha condições de estar em uma sala de aula reg­u­lar, e ele fica­va em uma sala mul­ti­dis­ci­pli­nar”.

A inclusão esco­lar e a alfa­bet­i­za­ção de cri­anças e ado­les­centes do espec­tro autista estão entre os desafios para a efe­ti­vação de dire­itos dessa pop­u­lação, que tem sua existên­cia cel­e­bra­da nes­ta quar­ta-feira (2), Dia Mundi­al de Con­sci­en­ti­za­ção do Autismo, data cri­a­da pela Orga­ni­za­ção das Nações Unidas (ONU) para difundir infor­mações sobre essa condição do neu­rode­sen­volvi­men­to humano e com­bat­er o pre­con­ceito.

Dire­to­ra-exec­u­ti­va do Insti­tu­to Neu­roSaber, a psi­cope­d­a­goga e psi­co­motricista Luciana Brites expli­ca que o Transtorno do Espec­tro Autista (TEA) é um transtorno de neu­rode­sen­volvi­men­to car­ac­ter­i­za­do por déficits de inter­ação social, prob­le­mas de comu­ni­cação ver­bal e não ver­bal e com­por­ta­men­tos repet­i­tivos, com inter­ess­es restri­tos. Car­ac­terís­ti­cas comuns no autismo são pouco con­ta­to visu­al, pou­ca rec­i­pro­ci­dade, atra­so de aquisição de fala e lin­guagem, desin­ter­esse ou inabil­i­dade de socializar, manias e rit­u­ais, entre out­ros.

“Por vol­ta dos 2 anos, a cri­ança pode apre­sen­tar sinais que indicam autismo. O diag­nós­ti­co pre­coce é fun­da­men­tal para o trata­men­to. Como o transtorno é um espec­tro, algu­mas cri­anças com autismo falam, mas não se comu­ni­cam, ou são pouco flu­entes e até mes­mo não falam nada. Uma cri­ança com autismo não ver­bal se alfa­bet­i­za, mas a difi­cul­dade muitas vezes é maior”, diz Luciana.

O Man­u­al Diag­nós­ti­co e Estatís­ti­co de Transtornos Men­tais (DSM, na sigla em inglês) esta­b­elece atual­mente que as nomen­clat­uras mais ade­quadas para iden­ti­ficar as difer­entes apre­sen­tações do TEA são nív­el 1 de suporte, nív­el 2 de suporte e nív­el 3 de suporte, sendo maior o suporte necessário quan­to maior for o nív­el.

Aprendizado

A psi­cope­d­a­goga ressalta que os desafios que surgem no proces­so de alfa­bet­i­za­ção no autismo não impe­dem que ele ocor­ra na maio­r­ia das vezes. “É pos­sív­el a inserção do autista no ensi­no reg­u­lar. A questão da inclusão é um grande desafio para qual­quer esco­la, porque esta­mos falan­do de uma qual­i­fi­cação maior para os nos­sos pro­fes­sores”.

Segun­do Luciana, o mais impor­tante é con­sid­er­ar a indi­vid­u­al­i­dade de cada aluno no plane­ja­men­to pedagógi­co, fazen­do as adap­tações necessárias.

“Ativi­dades que podem estim­u­lar a con­sciên­cia fonológ­i­ca de cri­anças com autismo são, por exem­p­lo, com sílabas, em que você escol­he uma palavra e estim­u­la a repetição das sílabas que com­põem a palavra. Out­ra dica são os fone­mas, dire­cio­nan­do a atenção da cri­ança aos sons que com­põem cada palavra, sinal­izan­do padrões e difer­enças entre eles. Já nas rimas, leia uma história con­heci­da e repi­ta as palavras que rimem”.

A psi­cope­d­a­goga acres­cen­ta que as cri­anças autis­tas podem ter facil­i­dade na iden­ti­fi­cação dire­ta das palavras, ou seja, con­seguem dec­o­rar facil­mente, mas têm difi­cul­dade nas habil­i­dades fonológ­i­cas mais com­plexas, como perce­ber o seu con­tex­to.

“A inclusão é pos­sív­el, mas a real­i­dade, hoje, do pro­fes­sor, é que muitas vezes ele não dá con­ta do aluno típi­co, quem dirá dos atípi­cos. Tra­bal­har a detecção pre­coce é muito impor­tante para se con­seguir faz­er a inserção de uma for­ma mais efe­ti­va. É muito impor­tante o sis­tema de saúde, jun­to com o sis­tema de edu­cação, olhar para essa primeira infân­cia para faz­er essa detecção do atra­so na cog­nição social. Por isso, é muito impor­tante o tra­bal­ho da esco­la com o pos­to de saúde”, afir­ma Luciana.

A espe­cial­ista desta­ca que a inclusão é um tripé e depende de famílias, esco­las e profis­sion­ais de saúde. “Pro­fes­sor, soz­in­ho, não faz inclusão. Tudo começa na capac­i­tação do pro­fes­sor e do profis­sion­al de saúde. É na esco­la que, muitas vezes, são descober­tos os alunos com algum transtorno e encam­in­hados para equipes mul­ti­dis­ci­pli­nares do municí­pio”.

Mãe em tempo integral

Ilha do Governador (RJ), 01/04/2025 - A dona de casa Isabele Ferreira da Silva Andrade, mãe de dois filhos autistas, Pérola, de 7 anos, e Ângelo, de 3 anos. Foto: Isabele Ferreira/Arquivo Pessoal
Repro­dução: A dona de casa Isabele Fer­reira da Sil­va Andrade, mãe de dois fil­hos autis­tas, Péro­la, de 7 anos, e Ânge­lo, de 3 anos. Isabele Ferreira/Arquivo Pes­soal

Morado­ra da Ilha do Gov­er­nador, na zona norte do Rio de Janeiro, a dona de casa Isabele Fer­reira da Sil­va Andrade é mãe de duas cri­anças do espec­tro autista, Péro­la, de 7 anos, e Ânge­lo, de 3 anos. Ela expli­ca que o meni­no tem “autismo mod­er­a­do”, ou nív­el 2 de suporte com atra­sos cog­ni­tivos e hiper­a­tivi­dade. Já a fil­ha, mais vel­ha, tem “autismo leve”, nív­el 1 de suporte, e epilep­sia.

“Eu a lev­ei no pedi­atra porque ela já tin­ha 2 anos e esta­va com o desen­volvi­men­to atrasa­do, não fala­va muito. Ela fala­va uma lín­gua que ninguém enten­dia. Vivia num mun­do só dela, não brin­ca­va, não ria. Come­cei a descon­fi­ar. O pedi­atra me expli­cou o que era autismo e disse que ela pre­cisa­va de acom­pan­hamen­to. Eu a lev­ei para o neu­rol­o­gista, para psicól­o­go, fonoaudiólo­ga. Fiz alguns exam­es que der­am alter­ação”, lem­bra Isabele.

“Já meu fil­ho foi muito bem até 1 ano de idade. Depois de1 ano, começou a regredir. Parou de com­er, parou de brin­car, não que­ria mais andar. Chora­va muito. Come­cei a achar estran­ho. Ele foi encam­in­hado ao Cen­tro de Atenção Psi­cos­so­cial (Caps) da prefeitu­ra. Fiz­er­am a avali­ação dele lá, por uma equipe mul­ti­dis­ci­pli­nar. Ten­tei con­tin­uar tra­bal­han­do, mas com as deman­das da Péro­la e do Ânge­lo, tive que parar de tra­bal­har para levar para as ter­apias. O cuida­do é inte­gral. Parei min­ha vida. Eu era caixa de lotéri­ca”, con­ta a dona de casa.

O fil­ho menor está matric­u­la­do em uma creche munic­i­pal que tem cin­co cri­anças autis­tas. No momen­to em que a pro­fes­so­ra percebe que o Ânge­lo pre­cisa de mais atenção, ela se con­cen­tra nele, diz Isabele.

Já a fil­ha mais vel­ha está em uma tur­ma reg­u­lar em esco­la munic­i­pal, e, na classe, há out­ro aluno com grau mais severo de autismo. “Eles têm medi­adores na esco­la que se con­cen­tram mais nas cri­anças com autismo severo. As pro­fes­so­ras dos dois são psi­cope­d­a­gogas, têm entendi­men­to e sabem lidar”.

A dona de casa con­ta que, depois que saiu o diag­nós­ti­co de sua fil­ha mais vel­ha, seu pai tam­bém decid­iu inves­ti­gar e desco­briu, com mais de 50 anos, que tam­bém era autista. “Ele teve mui­ta depressão ao lon­go de toda a vida dele”.

Política Nacional

O Min­istério da Edu­cação (MEC) tem a Políti­ca Nacional de Edu­cação Espe­cial na Per­spec­ti­va da Edu­cação Inclu­si­va des­de 2008. Segun­do a pas­ta, ela reafir­ma o com­pro­mis­so expres­so na Con­venção sobre os Dire­itos das Pes­soas com Defi­ciên­cia, de 2006, de que a edu­cação esco­lar se faz na con­vivên­cia entre todas as pes­soas, em salas de aulas comuns, recon­hecen­do e respei­tan­do as difer­entes for­mas de comu­nicar, perce­ber, rela­cionar-se, sen­tir, pen­sar.

“Iden­ti­ficar as bar­reiras que prej­u­dicam a esco­lar­iza­ção e con­stru­ir um plano de enfrenta­men­to são funções de toda a equipe esco­lar, con­tan­do sem­pre com o Atendi­men­to Edu­ca­cional Espe­cial­iza­do (AEE). Isso pode ocor­rer por meio de salas de recur­sos mul­ti­fun­cionais (SRM), ativi­dades colab­o­ra­ti­vas e out­ras ini­cia­ti­vas inclu­si­vas, a fim de que o aces­so ao cur­rícu­lo seja ple­na­mente garan­ti­do”, diz o MEC.

Segun­do a pas­ta 36% das esco­las con­tam com salas de recur­sos mul­ti­fun­cionais. Além dis­so, em 2022, de acor­do com dados do Cen­so Escolar/Instituto Nacional de Estu­dos e Pesquisas Edu­ca­cionais Aní­sio Teix­eira (Inep), o Brasil tin­ha:

  • 1.372.000 estu­dantes públi­co-alvo da edu­cação espe­cial matric­u­la­dos em class­es comuns.
  • 89,9% das matrícu­las do públi­co-alvo da edu­cação espe­cial em class­es comuns.
  • 129 mil matrícu­las do públi­co-alvo da edu­cação espe­cial des­de a edu­cação infan­til.
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