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Devastada pela água, Roca Sales vive entre migração e reconstrução

Repro­dução: © Bruno Peres/Agência Brasil

Moradores estão procurando moradia e emprego em outras cidades


Publicado em 23/06/2024 — 13:55 Por Lucas Pordeus León — Enviado especial da Agência Brasil — Roca Sales (RS)

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O municí­pio de Roca Sales (RS) ten­ta se recon­stru­ir em meio a uma onda de migração de quem não acred­i­ta mais na via­bil­i­dade da cidade, que fica às mar­gens do Rio Taquari. O Vale do Taquari – região que abrange 36 municí­pios gaú­chos — foi talvez a região mais afe­ta­da pelas enchentes que dev­as­taram o esta­do em maio.

Agên­cia Brasil vis­i­tou o municí­pio pouco mais de 50 dias após a maior catástrofe climáti­ca do esta­do e viu casarões com­ple­ta­mente aban­don­a­dos por moradores que temem em voltar a inve­stir nas residên­cias. O municí­pio já havia sofri­do com uma grande enchente em setem­bro de 2023 e soma qua­tro enchentes no inter­va­lo de 10 meses.

O poli­cial civ­il Glau­co Kum­mer, de 45 anos, lava­va a moto no ter­raço de uma casa que perdeu boa parte do tel­ha­do. Ele con­tou que a água subiu 1 metro aci­ma da residên­cia que tem um andar, com cer­ca de 350 m² em cada piso.

“A out­ra [enchente] já tin­ha tapa­do o tel­ha­do, mas essa foi maior e arran­cou todo o tel­ha­do fora, então o pre­juí­zo é muito maior. Limpamos a casa, mas a expec­ta­ti­va de meu pai voltar é mín­i­ma. Aqui na frente mora meu tio, que não vai mais mex­er na casa e já saiu da cidade. Está todo mun­do muito abal­a­do”, con­tou.

Roca Sales (RS), 22/06/2024 - Glauco Kummer em frente a sua casa, após enchente que atingiu toda a região. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
Repro­dução: A água cobriu toda a casa de Glau­co Kum­mer. Par­entes estão deixan­do a cidade. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Glau­co disse que a família tem a casa há 42 anos e, antes de setem­bro do ano pas­sa­do, nun­ca havia tido uma enchente que invadisse a residên­cia.

Preços elevados

Out­ro prob­le­ma enfrenta­do pelos moradores é o aumen­to dos preços dos ter­renos, das casas e dos aluguéis após as enchentes. Segun­do rela­to de moradores, o val­or dos imóveis subiu entre 50% e 80%. De acor­do com a prefeitu­ra, 400 famílias seguem sem mora­dia.

A vende­do­ra Júlia Almei­da, de 20 anos, pen­sa em deixar Roca Sales.

“Não tem onde morar. Con­stru­ir casa que está mais difí­cil ago­ra porque você não acha locais onde não pega água. Além dis­so, o val­or ficou mais caro. Meus pais moram de aluguel e nos­sa casa está sendo colo­ca­da a ven­da, vamos ter que sair”, rela­tou.

Em Roca Sales, quase toda a área urbana ficou embaixo d’água e a prefeitu­ra defende trans­ferir todo o cen­tro, onde vivem cer­ca de 40% dos 10 mil habi­tantes da cidade, para um local mais alto.

O aces­so à cidade, vin­do de Por­to Ale­gre, ain­da está difí­cil por causa do desaba­men­to de uma ponte. Nos­sa reportagem enfren­tou engar­rafa­men­to de cer­ca de uma hora para atrav­es­sar uma ponte metáli­ca onde só pas­sa um car­ro por vez.

Reconstrução

Enquan­to alguns querem migrar, out­ros moradores vão ten­tar recon­stru­ir a cidade. A com­er­ciante Raquel Lima, de 48 anos, esta­va limpan­do a loja para ten­tar reabri-la na próx­i­ma sem­ana. Antes da enchente de setem­bro, a loja era de biju­te­ria, depois virou uma loja de sorvete, açaí e lanch­es.

“Esta­va começan­do a me reer­guer, esta­va mel­ho­ran­do. Daí veio de novo essa enchente. Vamos ver ago­ra porque foi bas­tante gente emb­o­ra da cidade. Eu não vou desi­s­tir. Eu espero que mel­hore. Eu estou com bas­tante esper­ança que vai dar cer­to, que nós vamos con­seguir se reer­guer”, afir­mou.

Roca Sales (RS), 22/06/2024 - Raquel Lima em frente a sua loja, após enchente que atingiu toda a região. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
Repro­dução: Raquel Lima preparan­do sua loja para reaber­tu­ra. “Não vou desi­s­tir”. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Os moradores que con­ver­saram com a Agên­cia Brasil elo­gia­ram a econo­mia da cidade, dizen­do que ela tem emprego e opor­tu­nidades. O municí­pio é sede de indús­trias como a gigante de frig­orí­fi­cos JBS, a de calça­dos Beira Rio e a de couros Bom Retiro.

O pres­i­dente da Câmara de Indús­tria, Comér­cio e Serviços de Roca Sales, Cléber Fer­nan­do dos San­tos, expli­cou que as indús­trias de médio e grande porte con­seguiram retomar as ativi­dades, ain­da que par­cial­mente, uns 25 dias após a enchente. Porém, as peque­nas e micro indús­trias, comér­cios e serviços ain­da encon­tram difi­cul­dades.

“Algu­mas até ago­ra não con­seguiram retomar porque muitos tomaram emprés­ti­mos ou usaram aque­la econo­mia que tin­ham guarda­do e inve­sti­ram após a enchente de setem­bro. Eles imag­i­naram que nun­ca mais iria acon­te­cer algo dessa mag­ni­tude”, afir­mou.

Cléber diz que ess­es com­er­ciantes pre­cisam de recur­sos a fun­do per­di­do porque não con­seguem tomar crédi­to por estarem endi­vi­da­dos. “A gente está ten­do um êxo­do muito grande aqui. Out­ros municí­pios que não foram atingi­dos, eles acabam con­seguin­do atrair o pes­soal ofer­e­cen­do casa e tra­bal­ho para o pes­soal daqui”, expli­cou.

Prefeitura

A Prefeitu­ra de Roca Sales esti­ma uma per­da de recei­ta de 40% neste ano por con­ta da enchente. O prefeito Amil­ton Fontana diz que a situ­ação ain­da está bem precária, em espe­cial, o aces­so às comu­nidades da zona rur­al do municí­pio, onde ficam os negó­cios agrí­co­las e pecuários, que rep­re­sen­tam cer­ca de 45% da econo­mia local.

“A agri­cul­tura não con­seguiu col­her, gran­jas foram total­mente destruí­das. A gente tem uma per­da muito grande de pro­dução”, disse.

Out­ra difi­cul­dade é para con­seguir elab­o­rar os pro­je­tos para solic­i­tar recur­sos para recon­strução.

“Esta­mos receben­do recur­sos, mas a recon­strução pre­cisa de pro­je­tos. Temos uma equipe mín­i­ma para faz­er os pro­je­tos. Não temos estru­tu­ra para entre­gar tudo pron­to em 50 dias”, acres­cen­tou o prefeito.

Para Amil­ton Fontana, a pri­or­i­dade é a habitação. “Não adi­anta tu quer­er arru­mar uma rua e tu não ter a casa para as pes­soas morarem. O que vai segu­rar as pes­soas na cidade é a habitação. Então nós ped­i­mos menos buro­c­ra­cia para lib­er­ar esse recur­so”, con­tou.

Roca Sales (RS), 22/06/2024 - Casas destruídas após enchente que atingiu toda a região. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
Repro­dução: Roca Sales foi uma das cidades mais atingi­das pela enchente que dev­as­tou o Rio Grande do Sul. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Ministério das Cidades

O Min­istério das Cidades pub­li­cou na últi­ma sem­ana as regras para a con­strução de 2 mil unidades habita­cionais em áreas rurais atingi­das pelas enchentes no Rio Grande do Sul. Estão pre­vis­tas ain­da out­ras 10 mil unidades para áreas urbanas.

» Veja aqui a cober­tu­ra com­ple­ta da tragé­dia no RS

As mora­dias, den­tro do pro­gra­ma Min­ha Casa, Min­ha Vida, serão con­struí­das em municí­pios em situ­ação de emergên­cia ou esta­do de calami­dade públi­ca, for­mal­mente recon­heci­dos pelo gov­er­no fed­er­al.

Cada casa em área rur­al terá um sub­sí­dio de até R$ 86 mil, poden­do chegar a R$ 200 mil em áreas urbanas.

Edição: Car­oli­na Pimentel

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