...
terça-feira ,18 junho 2024
Home / Saúde / Diabetes é responsável por mais de 28 amputações por dia, no Brasil

Diabetes é responsável por mais de 28 amputações por dia, no Brasil

Repro­du­ção: © Mar­ce­lo Camargo/Agência Bra­sil

Especialistas fazem alerta no Dia Mundial do Diabetes


Publi­ca­do em 14/11/2023 — 08:31 Por Dani­el­la Almei­da – Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — Bra­sí­lia

ouvir:

O Sis­te­ma Úni­co de Saú­de (SUS) regis­trou, entre janei­ro e agos­to des­te ano, 6.982 ampu­ta­ções de mem­bros infe­ri­o­res (per­nas e pés) cau­sa­das por dia­be­tes, o que equi­va­le à média de mais de 28 ocor­rên­ci­as por dia.

Os casos vêm cres­cen­do ano a ano, con­for­me mos­tram os dados do Minis­té­rio da Saú­de. O núme­ro de ampu­ta­ções em 2022 (10.168) foi 3,9% supe­ri­or ao total de 2021 (9.781), o que repre­sen­tou média de 27,85 cirur­gi­as por dia, no ano pas­sa­do, em uni­da­des públi­cas.

De acor­do com a Soci­e­da­de Bra­si­lei­ra de Dia­be­tes (SBD), a doen­ça já figu­ra como a prin­ci­pal cau­sa de ampu­ta­ção não trau­má­ti­ca em mem­bros infe­ri­o­res, no país. As ampu­ta­ções trau­má­ti­cas são as que ocor­rem, por exem­plo, em aci­den­tes de trân­si­to ou de tra­ba­lho.

“Hoje, nós temos um núme­ro de gran­de de ampu­ta­ções sem ser por aci­den­te. E a prin­ci­pal cau­sa é jus­ta­men­te o dia­be­tes, além do cigar­ro. Então, a gen­te tem que com­ba­ter esses males”, refor­ça o pre­si­den­te da Soci­e­da­de Bra­si­lei­ra de Dia­be­tes, Levi­mar Araú­jo, por­ta­dor de dia­be­tes tipo 1.

A SBD apon­ta tam­bém que 13 milhões pes­so­as com dia­be­tes têm úlce­ras nos pés, os cha­ma­dos pés dia­bé­ti­cos, que podem resul­tar nes­tas ampu­ta­ções.

Pre­o­cu­pa­da com o cená­rio, a Asso­ci­a­ção Bra­si­lei­ra de Medi­ci­na e Cirur­gia do Tor­no­ze­lo e Pé (ABT­Pé) aler­ta para essa com­pli­ca­ção que pode atin­gir tan­to paci­en­tes com dia­be­tes mel­li­tus do tipo 1, como do 2. O pre­si­den­te da ABT­Pé Luiz Car­los Ribei­ro Lara, dimen­si­o­na a situ­a­ção.

“Entre todas as suas com­pli­ca­ções, o pé dia­bé­ti­co é con­si­de­ra­do um pro­ble­ma gra­ve e com con­sequên­ci­as, mui­tas vezes, devas­ta­do­ras em razão das úlce­ras, que podem impli­car em ampu­ta­ção de dedos, pés ou per­nas.”

O aler­ta sobre as com­pli­ca­ções que afe­tam as pes­so­as com a doen­ça ocor­re no Dia Mun­di­al do Dia­be­tes, cele­bra­do nes­te 14 de novem­bro. Em 2023, a Orga­ni­za­ção Mun­di­al de Saú­de (OMS) esco­lheu como tema da cam­pa­nha: Edu­ca­ção para Pro­te­ger o Futu­ro. O obje­ti­vo é des­ta­car a neces­si­da­de de melho­rar o aces­so à edu­ca­ção de qua­li­da­de sobre a doen­ça a pro­fis­si­o­nais de saú­de e pes­so­as com a doen­ça.

Pé diabético

A neu­ro­pa­tia peri­fé­ri­ca pro­vo­ca­da pelo dia­be­tes cau­sa a per­da das fun­ções dos ner­vos do pé. Com isso, ficam pre­ju­di­ca­dos o tato e a sen­si­bi­li­da­de para a dor. Essa redu­ção da sen­si­bi­li­da­de rela­ci­o­na­da ao dia­be­tes difi­cul­ta a per­cep­ção do paci­en­te em notar lesões ou feri­das.

Em entre­vis­ta à Agên­cia Bra­sil, a dire­to­ra da ABT­Pé, a orto­pe­dis­ta, cirur­giã do pé e tor­no­ze­lo, Jor­dan­na Maria Perei­ra Ber­ga­mas­co, rela­ci­o­na a sen­si­bi­li­da­de dos pés com um fator de pro­te­ção à pes­soa com dia­be­tes.

“Esse pé não tem a sen­si­bi­li­da­de pro­te­to­ra, então, sem per­ce­ber ocor­rem feri­das e infec­ci­o­nam. O paci­en­te não con­se­gue resol­ver e estas aca­bam em ampu­ta­ções meno­res ou mai­o­res, ou seja, des­de uma pon­ti­nha de dedo até uma per­na. Tudo por cau­sa das feri­das. E o núme­ro de ocor­rên­ci­as é gran­de.”

Jor­dan­na con­fir­ma tam­bém ser ine­vi­tá­vel que, em até dez anos após o desen­vol­vi­men­to do dia­be­tes, come­cem a sur­gir os sin­to­mas da neu­ro­pa­tia peri­fé­ri­ca, mes­mo com a doen­ça con­tro­la­da, esses paci­en­tes vão ter algum grau de neu­ro­pa­tia. Porém, segun­do ela, a saí­da é o con­tro­le da gli­co­se no san­gue, que pode adi­ar as alte­ra­ções neu­ro­ló­gi­cas, prin­ci­pal­men­te, dos mem­bros infe­ri­o­res, e con­se­quen­te­men­te, evi­tar muti­la­ções.

“A doen­ça leva à neu­ro­pa­tia, a gen­te não con­se­gue evi­tar. O úni­co jei­to de con­se­guir pos­ter­gar isso é com con­tro­le gli­cê­mi­co. E para evi­tar as ampu­ta­ções é com cui­da­do”, con­ta a endó­cri­no.

Na família

A pro­fes­so­ra de uma esco­la públi­ca do ensi­no fun­da­men­tal do Dis­tri­to Fede­ral, Aman­da Perei­ra, conhe­ce bem vári­as das roti­nas de pre­ven­ção às com­pli­ca­ções do dia­be­tes. Em dezem­bro de 2021, ela per­deu a mãe Mari­le­na Perei­ra, aos 64 anos, devi­do a uma infec­ção gene­ra­li­za­da que come­çou com uma feri­da no pé e che­gou a atin­gir o osso.

Aman­da con­tou à Agên­cia Bra­sil que a mãe ficou dia­bé­ti­ca em 2007, aos 40 anos, e se revol­tou com as res­tri­ções na ali­men­ta­ção impos­tas pela doen­ça. Mari­le­na seguiu fazen­do uso de bebi­das alcoó­li­cas, cigar­ros e refri­ge­ran­tes. Con­ti­nu­ou a inge­rir doces des­re­gra­da­men­te e se recur­sou a fazer ati­vi­da­des físi­cas.

Até que, em 2015, a doen­ça não per­do­ou as extra­va­gân­ci­as de Mari­le­na que per­deu a visão do lado esquer­do e par­te do lado direi­to. A con­sequên­cia con­tri­buiu para que a mãe de Aman­da desen­vol­ves­se depres­são e não qui­ses­se mais ir às con­sul­tas médi­cas.

Em 2019, após fra­tu­rar o fêmur, em uma que­da no banhei­ro, Mari­le­na ain­da per­deu a auto­no­mia para se des­lo­car e, na sequên­cia, teve uma trom­bo­se. “Tenho a impres­são que minha mãe enve­lhe­ceu 30 anos em seis. Ela desis­tiu de viver,” lamen­tou Aman­da.

Ape­sar dos cui­da­dos dos fami­li­a­res, o sim­ples atri­to dos pés da mãe no len­çol da cama ren­deu à Mari­le­na a feri­da der­ra­dei­ra no pé, que não cica­tri­zou e a levou a óbi­to. Hoje, aos 44 anos, Aman­da vol­tou a sen­tir os assom­bros das con­sequên­ci­as do dia­be­tes: ela con­vi­ve com o sogro e um alu­no com aco­me­ti­dos pela doen­ça. O sogro já está, gra­da­ti­va­men­te, per­den­do a visão.

As expe­ri­ên­ci­as nega­ti­vas, no entan­to, tam­bém lhe ensi­na­ram sobre a doen­ça. “O impor­tan­te do dia­be­tes é estar se cui­dan­do, por­que, com o tem­po, vai con­su­min­do o orga­nis­mo da pes­soa. A doen­ça é silen­ci­o­sa. Ela não avi­sa. Quan­do che­ga, já vem estra­gan­do tudo. Mas, se a pes­soa vai cui­dan­do, é mais difí­cil de acon­te­cer algo, prin­ci­pal­men­te se ela é acom­pa­nha­da por médi­cos, se tem uma ali­men­ta­ção sau­dá­vel e pra­ti­ca uma ati­vi­da­de físi­ca regu­lar. A dia­be­tes, para mim, é uma doen­ça ter­rí­vel”, con­clui a pro­fes­so­ra.

Cuidados

Jor­dan­na expli­ca que os pés de pes­so­as com dia­be­tes exi­gem cui­da­dos espe­ci­ais:

  • Exa­me visu­al perió­di­co dos pés pela pró­pria pes­soa, fami­li­ar ou pro­fis­si­o­nal de saú­de;
  • ves­tir mei­as bran­cas ou de cor cla­ra, prin­ci­pal­men­te de algo­dão, para obser­var pos­sí­veis man­chas de san­gue no teci­do;
  • em situ­a­ções de bai­xa mobi­li­da­de ou sobre­pe­so, usar um espe­lho para veri­fi­car a sola dos pés;
  • evi­tar cal­ça­dos aper­ta­dos, duros, de plás­ti­co, de cou­ro sin­té­ti­co, com bicos finos, sal­tos altos e san­dá­li­as que dei­xam os pés des­pro­te­gi­dos;
  • esco­lher sapa­tos con­for­tá­veis;
  • não usar cal­ça­dos novos, por mais de uma hora por dia, até que este­jam maci­os;
  • evi­tar andar des­cal­ço para não se machu­car em bati­das e topa­das;
  • cor­tar as unhas dos pés com um pro­fis­si­o­nal e não reti­rar calos ou cutí­cu­las;
  • man­ter os pés sem­pre aque­ci­dos;
  • veri­fi­car a tem­pe­ra­tu­ra da água com o coto­ve­lo antes de colo­car os pés;
  • não usar bol­sas de água quen­te;
  • hidra­tar os pés para evi­tar racha­du­ras que podem ser­vir de aces­so a infec­ções opor­tu­nis­ta;
  • enxu­gar a umi­da­de entre os dedos para evi­tar fri­ei­ras;
  • não andar des­cal­ço no chão quen­te para evi­tar quei­ma­du­ras; e
  • em caso de lesões, pro­cu­rar um médi­co.

Em nota, o Minis­té­rio da Saú­de afir­mou à Agên­cia Bra­sil que desen­vol­ve estra­té­gi­as para pro­mo­ver a saú­de e pre­ve­nir as con­di­ções crô­ni­cas que decor­rem do dia­be­tes. Entre as ações lis­ta­das estão o acom­pa­nha­men­to nutri­ci­o­nal e ali­men­tar, estí­mu­lo à ado­ção de hábi­tos sau­dá­veis, além dos gui­as ali­men­ta­res para a popu­la­ção bra­si­lei­ra:

“A pas­ta tam­bém cre­den­ci­ou novos polos da Aca­de­mia da Saú­de, espa­ços pró­pri­os para a prá­ti­ca de ati­vi­da­de físi­ca, essen­ci­al para um esti­lo de vida mais sau­dá­vel”

O Minis­té­rio da Saú­de infor­mou ain­da que, em 2023, inves­tiu mais de R$ 870 milhões no cus­teio de equi­pes mul­ti­pro­fis­si­o­nais, com­pos­tas por espe­ci­a­lis­tas de dife­ren­tes áre­as da saú­de – entre elas nutri­ção e edu­ca­ção físi­ca, para atu­ar na Aten­ção Pri­má­ria à Saú­de, con­si­de­ra­da a por­ta de entra­da da saú­de públi­ca no Bra­sil.

Edi­ção: Deni­se Gri­e­sin­ger

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

IBGE: quase 94% da população brasileira se vacinou contra covid-19

Repro­du­ção: © Rove­na Rosa/Agência Brasil/Arquivo PNAD Contínua Covid-19 mostra que mulheres se vacinaram mais Publicado …