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Do artesanato à música: Festival de Parintins aquece produção cultural

Repro­dução: © Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Evento movimenta R$ 160 milhões e 120 mil visitantes


Publicado em 01/07/2024 — 09:01 Por Léo Rodrigues — Repórter da Agência Brasil — enviado especial — Parintins

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No cen­tro de Par­intins, no Ama­zonas, a cal­maria de out­ros perío­dos do ano dá lugar a uma inten­sa movi­men­tação. Vende­dores locais e tam­bém prove­nientes de out­ras cidades, alguns com estru­turas fixas e tra­bal­han­do como ambu­lantes, fazem dali um agi­ta­do cen­tro com­er­cial. É pos­sív­el com­prar des­de difer­entes tipos comi­das e bebidas até dis­pos­i­tivos eletrôni­cos. Mas o que salta aos olhos é a cria­ti­va pro­dução cul­tur­al local que envolve arte­sana­to, telas, adereços e roupas.

O artesão Mateus Pereira rela­ta que, nes­sa época, o Fes­ti­val de Par­intins é fun­da­men­tal para impul­sion­ar todo esse tra­bal­ho. Ele desta­ca a importân­cia de ino­var todos os anos para agradar aos torce­dores de cada um dos dois pro­tag­o­nistas: o Boi Capri­choso e o Boi Garan­ti­do. “Não pode repe­tir porque o cliente que vem, vol­ta no ano seguinte. E ele não vai com­prar uma peça que viu no ano ante­ri­or”, diz.

Obser­van­do téc­ni­cas que já eram empre­gadas por sua mãe, Mateus tril­hou um cam­in­ho de artesão auto­di­da­ta a par­tir dos seus 12 anos de idade. Emb­o­ra nasci­do em Man­aus, mudou-se ain­da cri­ança para Par­intins e ali desen­volveu um tra­bal­ho que gan­hou vis­i­bil­i­dade, com destaque para peças em madeira. Ele, no entan­to, tem uma vas­ta pro­dução que envolve telas, escul­turas e arte com mate­r­i­al reci­cláv­el.

“Tudo que eu ten­ho na min­ha vida eu con­segui através da arte. Eu procuro faz­er aqui­lo que mais vende em cada tem­po­ra­da. Mas bus­co sem­pre ofer­e­cer uma pro­dução difer­en­ci­a­da, dan­do uma per­feição às min­has peças, final­izan­do com um bom acaba­men­to e usan­do boa matéria-pri­ma. Tudo isso agre­ga val­or e a gente gan­ha mais respal­do com os clientes. Com isso, ten­ho obras que foram ven­di­das para fora do país. Tem obra na Ale­man­ha, Polô­nia, Itália, França,  Espan­ha, Canadá, Esta­dos Unidos, Méx­i­co, Argenti­na e na Colôm­bia”.

O impul­so que o fes­ti­val dá ao arte­sana­to local é inegáv­el. Mateus con­ta que há muitos pro­du­tores que tra­bal­ham ape­nas na época do even­to. Mas, mes­mo aque­les que pro­duzem o ano inteiro, como ele, con­seguem efe­t­u­ar um maior vol­ume de ven­das quan­do o Boi Garan­ti­do e o Boi Capri­choso atraem mil­hares de tur­is­tas para a cidade.

“Eu tra­bal­ho 365 dias por ano. Eu não ten­ho out­ro meio para me sus­ten­tar. Então, depois do fes­ti­val, eu mudo a temáti­ca e faço peças mais voltadas para o reli­gioso dev­i­do à fes­ta de Nos­sa Sen­ho­ra do Car­mo. Depois chegam os navios de cruzeiro. E eles trazem vis­i­tantes que não estão inter­es­sa­dos em boi. Se você ten­tar vender boi, você pas­sa fome porque eles querem arara, tucano, onça, todo tipo de ani­mal da fau­na e da flo­ra amazôni­ca. Mas o fes­ti­val é sem­pre a época que mais vende. Eu fiz uns bois que movi­men­tam a cabeça e todos foram ven­di­dos rap­i­da­mente”, con­ta.

Parintins (AM), 29/06/2024 - O artesão Mateus Pereira, fã do Boi Caprichoso, trabalha com comércio de peças regionais e de artesanato alusivo ao Festival Folclórico de Parintins. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: O artesão Mateus Pereira, fã do Boi Capri­choso, tra­bal­ha com comér­cio de peças region­ais e de arte­sana­to alu­si­vo ao Fes­ti­val Fol­clóri­co de Par­intins. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Cidade dividida

O Fes­ti­val de Par­intins, em sua 57ª edição, divide a cidade entre o ver­mel­ho do Boi Garan­ti­do e o azul do Boi Capri­choso. Con­sid­er­a­do patrimônio cul­tur­al do país pelo Insti­tu­to do Patrimônio Históri­co e Artís­ti­co Nacional (Iphan), ele está lig­a­do à tradição cul­tur­al do Boi-Bum­bá, na qual é nar­ra­da uma len­da onde ocorre a ressur­reição do boi. As apre­sen­tações no Bum­bó­dro­mo começaram na noite de sex­ta-feira (28) e ter­mi­naram no domin­go (30). Ao lon­go dos três dias, 10 jura­dos avaliaram 21 que­si­tos. O anún­cio do campeão ocor­rerá nes­ta segun­da-feira (1º).

Rev­e­lando-se torce­dor do Boi Capri­choso, Mateus enal­tece a importân­cia da dis­pu­ta sadia e mostra sua pro­dução que atende a todos os gos­tos. Ele cita um pro­je­to que desen­volveu em 2022 com recur­sos da Lei Aldir Blanc, cri­a­da para apoiar o setor cul­tur­al em meio à pan­demia de covid-19. “Eu fiz per­son­agens e itens do fes­ti­val. Tin­ha uma sin­haz­in­ha e uma cun­hã-poran­ga de cada boi. Fiz uma exposição aqui. E com a vis­i­bil­i­dade e a reper­cussão, um museól­o­go de São Paulo entrou em con­ta­to comi­go e com­prou todas as peças”, lem­bra.

Para Mateus, o impul­so dado pelo fes­ti­val fomen­ta uma grande cadeia de pro­dução. “A gente estru­tu­ra uma rede de colab­o­radores muito grande. Tem o rapaz que tira a matéria-pri­ma lá no inte­ri­or: a raiz, os gal­hos, as fru­tas, as sementes. Há pes­soas que fazem o trans­porta desse mate­r­i­al de lá para cá”, detal­ha.

O arte­sana­to está espal­ha­do por Par­intins, mas há alguns pon­tos de maior con­cen­tração. A Cen­tral de Arte­sana­to Soarte é um deles. Ali, uma grande var­iedade de pro­duções com a temáti­ca do fes­ti­val chama a atenção. Se algu­mas peças são assi­nadas pelos próprios artesões que admin­is­tram suas bar­ra­cas, out­ras chegam prontas para os vende­dores.  É o caso de muitos bois de pano e de pelú­cia e de adereços de cabeça, com penas e detal­h­es ver­mel­hos ou azuis. As múlti­plas ori­gens dos pro­du­tos indicam como o fes­ti­val fomen­ta uma com­plexa cadeia de pro­dução.

Parintins (AM), 29/06/2024 - Comércio de artesanato no Festival Folclórico de Parintins.. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Par­intins (AM), 29/06/2024 — Comér­cio de arte­sana­to no Fes­ti­val Fol­clóri­co de Par­intins.. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

A expec­ta­ti­va do gov­er­no ama­zo­nense é de que o even­to movi­mente R$ 160 mil­hões. A prefeitu­ra de Par­intins esti­ma 120 mil vis­i­tantes, mais do que o número de habi­tantes da cidade. Segun­do o Cen­so Demográ­fi­co 2022, a pop­u­lação local é de 96,3 mil pes­soas.

Os bene­fí­cios econômi­cos no esta­do vão além da cidade de Par­intins, ben­e­fi­cian­do setores como o de trans­porte, ten­do em vista que boa dos tur­is­tas são de Man­aus e de out­ras cidades do próprio Ama­zonas. Na cap­i­tal, o impul­so dado pelo fes­ti­val tam­bém ben­e­fi­cia profis­sion­ais envolvi­dos com a arte e a cul­tura.

É o caso do design­er grá­fi­co Weu­cles San­tos. Nat­ur­al de Ita­coa­t­iara (AM) e morador de Man­aus, ele inte­gra o Movi­men­to Ami­gos do Garan­ti­do (MAG) e é respon­sáv­el por pro­duzir mate­ri­ais artís­ti­cos de divul­gação. Sem ter tido nen­hu­ma influên­cia da família, que não acom­pan­ha o fes­ti­val, ele se apaixo­nou pelo boi ver­mel­ho e bran­co. Para estar pre­sente no even­to, encar­ou uma viagem de 16 horas de bar­co sain­do da cap­i­tal.

Weu­cles man­i­fes­ta a sat­is­fação de tra­bal­har com algo que des­per­ta sua paixão. “Nós somos a vit­rine em Man­aus. Faze­mos os even­tos e lançamos a cam­pan­ha para o fes­ti­val. É muito legal par­tic­i­par do proces­so, se envolver e saber o que vai acon­te­cer é muito legal”,  opina.

Parintins (AM), 29/06/2024 - O designer gráfico Weucles Santos, do Movimento Garantido, dorme em rede no barco em que navegou até Parintis para torcer pelo Boi Garantido no 57º Festival Folclórico de Parintins. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: O design­er grá­fi­co Weu­cles San­tos, do Movi­men­to Garan­ti­do, dorme em rede no bar­co em que nave­g­ou até Par­in­tis para torcer pelo Boi Garan­ti­do no 57º Fes­ti­val Fol­clóri­co de Par­intins. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Características próprias

Os fig­uri­nos e os demais ele­men­tos cêni­cos das apre­sen­tações tam­bém envolvem amp­lo con­jun­to de profis­sion­ais, alguns dos quais tra­bal­ham no car­naval car­i­o­ca. Não é por aca­so que os dois even­tos pop­u­lares foram evoluin­do ao lon­go do tem­po e adotan­do ale­go­rias cada vez mais grandiosas. Agostin­ho Rodrigues, coor­de­nador de fig­uri­nos do Boi Garan­ti­do, desta­ca, porém, que há difer­enças e que o Fes­ti­val de Par­intins tem suas car­ac­terís­ti­cas próprias.

“A gente nun­ca trouxe o car­naval para cá. Mas fomos lá estu­dar sobre mate­ri­ais mel­hores que a gente pode aproveitar. Hoje, a parte de fig­uri­no do nos­so boi foi toda con­struí­da den­tro do próprio galpão. Até nos­sas penas foram feitas aqui den­tro. A gente impor­ta­va, com­pra­va muito mate­r­i­al de fora, do eixo Rio-São Paulo”, pon­dera.

Ele con­ta que, alin­hado com men­sagem trans­mi­ti­da pelo fes­ti­val, a sus­tentabil­i­dade é uma dire­triz da pro­dução. “Se você obser­var as penas, parece que é de ver­dade, das aves. Mas é tudo plota­do, feito na cidade. Nós quer­e­mos um fes­ti­val que não agri­da a natureza. E a natureza nos dá muito mate­r­i­al sem que seja necessário agre­di-la. A gente tra­bal­ha por exem­p­lo com pal­ha seca e com fol­ha de cas­tan­heira seca”.

Agostin­ho Rodrigues con­ta que os envolvi­dos no tra­bal­ho são, assim como o artesão Mateus Pereira, auto­di­datas. “Tudo começou como uma brin­cadeira lá atrás. A gente saía na rua com o Boi Garan­ti­do, mas nun­ca imag­i­na­va que ia gan­har essa evolução toda. E hoje a gente já tem 35 anos nes­sa estra­da tra­bal­han­do com o Boi Garan­ti­do. Des­de lá no iní­cio quan­do ain­da não era o fenô­meno atu­al. O nos­so boi evoluiu através da nos­sa cul­tura. Os nos­sos artis­tas já vêm de berço. Aqui não tem ninguém que fez fac­ul­dade de arte. A gente apren­deu a faz­er arte sem faz­er fac­ul­dade”, obser­va.

Ele desta­ca a importân­cia da ren­o­vação. “Lá atrás, eu apren­di mui­ta coisa. Então, tudo é uma questão de adquirir con­hec­i­men­to e pas­sar para as pes­soas. Chega um momen­to que é pre­ciso ter um grupo prepara­do para assumir no nos­so lugar e preser­var a cul­tura. E é viven­cian­do a pro­dução que os jovens adquirem um con­hec­i­men­to difer­en­ci­a­do”.

O proces­so de pro­dução envolve diver­sas eta­pas. A comis­são de arte do Boi Garan­ti­do começa a pen­sar a apre­sen­tação em setem­bro do ano ante­ri­or, fornecen­do os sub­sí­dios para a cri­ação dos fig­uri­nos.

“Na entra­da do ano, a gente já está com todo o pro­je­to pron­to para tirar do papel. São 22 artis­tas só no setor trib­al. Na ale­go­ria, há mais 15 artis­tas. A gente ter­mi­na com umas 120 pes­soas. Inclui as cos­tureiras e o pes­soal que prepara as penas. Inclui tam­bém os sol­dadores que são muito impor­tantes. Eles fazem o tra­bal­ho ini­cial, a estru­tu­ra. E, em cima dela, a gente vai dan­do for­ma”, afir­ma Agostin­ho.

Ele se van­glo­ria de tudo ser feito de for­ma arte­sanal, sem recur­sos eletrôni­cos ou hidráuli­cos. “É tudo man­u­al com cor­da e cabo de aço. São as mãos das pes­soas que movi­men­tam as ale­go­rias. Às vezes há 50 pes­soas movi­men­tan­do uma úni­ca ale­go­ria. É o que eu sem­pre digo: esse fes­ti­val é uma vit­rine. Ele está venden­do a nos­sa imagem, mostran­do o con­hec­i­men­to do artista par­in­ti­nense. E esse artista é muito bem val­oriza­do. Há pes­soas que hoje estão fazen­do muito tra­bal­ho fora daqui. E é por con­ta do fes­ti­val”.

Parintins (AM), 29/06/2024 - O coordenador de Fantasias do Boi Garantido no Curral, a sede onde são produzidas, em Parintins. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: O coor­de­nador de Fan­tasias do Boi Garan­ti­do, Agostin­ho Rodrigues, no Cur­ral, em Par­intins. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Produção musical

Os orga­ni­zadores esti­mam que 10 mil pes­soas sejam envolvi­das de algu­ma for­ma na real­iza­ção das apre­sen­tações. Cada boi escol­he anual­mente um tema para con­duzir a apre­sen­tação. Serve tam­bém de norte para a pro­dução das fan­tasias e ale­go­rias. Neste ano, a ence­nação do Capri­choso se dá sob o mote “Cul­tura – O Tri­un­fo do Povo”. Já a apre­sen­tação do Garan­ti­do abor­da os “Seg­re­dos do Coração”.

É tam­bém com base ness­es temas que são lança­dos álbuns com cer­ca de 20 novas toadas usadas para guiar o espetácu­lo. Os bois tam­bém podem exe­cu­tar músi­cas dos anos ante­ri­ores. As com­posições ficam tam­bém disponíveis nas platafor­mas dig­i­tais. As duas mais repro­duzi­das reg­istradas pelo Spo­ti­fy até esse domin­go (30) eram Málúù Dúdú, do Capri­choso, com 609 mil repro­duções e Per­reché da Pura­ca, do Garan­ti­do, com 528 mil.

Ess­es tra­bal­hos muitas vezes estru­tu­ram toda uma car­reira artís­ti­ca. É o caso do com­pos­i­tor Tadeu Gar­cia que, em um vídeo divul­ga­do pelo fes­ti­val, lem­brou sua ded­i­cação de décadas ao Boi Garan­ti­do e fala sobre o desafio de escr­ev­er uma letra que inten­si­fique as emoções durante as apre­sen­tações. “O Garan­ti­do des­per­ta em cada um de nós uma hipersen­si­bil­i­dade, que vai muito além de algo que pos­sa ser expli­ca­do. A gente faz a toa­da para que cada um dos torce­dores sin­ta como se a toa­da fos­se sua”, obser­va.

Além de fomen­tar a pro­dução de toadas dos álbuns ofi­ci­ais de cada boi, o fes­ti­val bus­ca estim­u­lar out­ros gêneros da cena musi­cal local. Na quin­ta-feira (27), ocor­reu a Fes­ta dos Vis­i­tantes, momen­to em que artis­tas da cidade se uni­ram a nomes nacionais como Belo e Thi­aguin­ho numa espé­cie de boas-vin­das aos tur­is­tas.

Ao ser anun­ci­a­da como uma das atrações do even­to, a can­to­ra Már­cia Novo cele­brou a real­iza­ção de um son­ho. “Todo o ano que vin­ha cur­tir a fes­ta, pen­sa­va: um dia vou can­tar aí! E ago­ra que esse dia chegou. Te prepara que vou espu­car a mal­hadeira! Esse ano estou comem­o­ran­do 20 anos de car­reira e pre­parei um grande baile de beira­da de rio rec­hea­do de Beiradão, Bre­ga, Boi Bum­bá”, escreveu ela em suas redes soci­ais.

Parintins (AM), 29/06/2024 - Comércio de artesanato no Festival Folclórico de Parintins.. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: Comér­cio de arte­sana­to no Fes­ti­val Fol­clóri­co de Par­intins.. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil

Edição: Kle­ber Sam­paio

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