...
sexta-feira ,1 março 2024
Home / Educação / Educação indígena mantém conhecimentos ancestrais, diz professor

Educação indígena mantém conhecimentos ancestrais, diz professor

Repro­du­ção: © Ale­xan­dre Souza/ TV Bra­sil

Cerca de 3,5 mil escolas de educação básica ficam em terra indígena


Publi­ca­do em 31/01/2024 — 08:00 Por Ana Gra­zi­e­la Agui­ar — Envi­a­da espe­ci­al — Boa Vis­ta

ouvir:

Na fron­tei­ra do Bra­sil com a Vene­zu­e­la, em uma área de cer­ca de 9,6 milhões de hec­ta­res e perí­me­tro de 3.370 quilô­me­tros, a Ter­ra Indí­ge­na (TI) Yano­ma­mi tam­bém abri­ga uma outra etnia, os ye’kwana.

Há mui­tos anos, esses povos vivem em uma área que inclui os rios Mede­ewa­a­di (Cua­ra), Fada­awa (Para­gua), Dinha­ku (Ori­no­co) e Fadi­i­me (Ura­ri­co­e­ra). Na Vene­zu­e­la são cer­ca de 5 mil indí­ge­nas. Já do lado bra­si­lei­ro, segun­do dados da Secre­ta­ria de Saú­de Indí­ge­na (Siasi/Sesai, 2019), são 760 pes­so­as viven­do em três aldei­as prin­ci­pais: Fudu­uwa­a­dun­nha e Kuda­a­tan­nha, na região de Aua­ris, e Wachan­nha, às mar­gens do Rio Ura­ri­co­e­ra.

Além de luta­rem hoje con­tra o garim­po que atin­ge prin­ci­pal­men­te a comu­ni­da­de Wachan­nha e o Rio Ura­ri­co­e­ra, os ye’kwana apren­de­ram que a manu­ten­ção do ter­ri­tó­rio pas­sa tam­bém pela edu­ca­ção. Uma edu­ca­ção indí­ge­na pen­sa­da e desen­vol­vi­da tam­bém por eles.

O indí­ge­na ye’kwana Rei­nal­do Wadeyu­na Rocha apren­deu cedo a ler. “Come­cei a ser alfa­be­ti­za­do jun­to com a pro­fes­so­ra Jan­di­ra, que era mis­si­o­ná­ria”, con­ta. E nun­ca mais parou de estu­dar. Mas sem­pre se ques­ti­o­nou como podia adap­tar a edu­ca­ção dos homens bran­cos à edu­ca­ção indí­ge­na. “Eu vi os pro­fes­so­res e alguns cole­gas que tam­bém esta­vam tra­ba­lhan­do como volun­tá­rio. E eu me inte­res­sei tam­bém. Por que que eu não faço isso aí?“.

Rei­nal­do resol­veu então ser pro­fes­sor. Fez magis­té­rio e anos depois ingres­sou na Uni­ver­si­da­de Fede­ral de Rorai­ma, que há 30 anos ofe­re­ce, no Ins­ti­tu­to Insi­ki­ran de For­ma­ção Supe­ri­or Indí­ge­na, os  cur­sos de licen­ci­a­tu­ra cul­tu­ral indí­ge­na, ges­tão ter­ri­to­ri­al Indí­ge­na e Saú­de Cole­ti­va Indí­ge­na.

Ele vol­tou para sua aldeia e hoje é pro­fes­sor da esco­la local. Segun­do ele, 80% dos indí­ge­nas ye’kwana estão alfa­be­ti­za­dos. “Não é somen­te os pro­fes­so­res. Con­jun­to, a comu­ni­da­de intei­ra. Tem que ter envol­vi­do nis­so aí pra ter resul­ta­do. E isso que nós cons­truí­mos tam­bém. Qua­se nós leva­mos cin­co, sete anos para ter esse pro­je­to polí­ti­co-peda­gó­gi­co.”

De acor­do com dados do Cen­so Indí­ge­na 2022, o Bra­sil tem hoje 178,3 mil esco­las de ensi­no bási­co. Segun­do as infor­ma­ções, um per­cen­tu­al de 1,9% (3.541) fica em ter­ra indí­ge­na e 2% (3.597) ofe­re­cem edu­ca­ção indí­ge­na por meio das redes de ensi­no.

Depois da gra­du­a­ção, Rei­nal­do seguiu os estu­dos e con­cluiu o mes­tra­do pela Uni­ver­si­da­de Fede­ral de Minas Gerais. Hoje desen­vol­ve um pro­je­to, jun­to com o soció­lo­go e pro­fes­sor da Uni­ver­si­da­de Fede­ral de Rorai­ma Dani­el Bam­pi, para ampli­ar a edu­ca­ção indí­ge­na para outros povos a par­tir da expe­ri­ên­cia ye’kwana. “Eles têm um his­tó­ri­co já bas­tan­te anti­go de edu­ca­ção, de edu­ca­ção esco­lar mui­to avan­ça­da, um índi­ce de esco­la­ri­za­ção altís­si­mo, já com pro­fes­so­res for­ma­dos em licen­ci­a­tu­ra. Eles mes­mos pro­cu­ra­ram o pro­ces­so de for­ma­ção com a expe­ri­ên­cia que eles tinham na Vene­zu­e­la”, con­ta Dani­el Bam­pi.

Bam­pi con­ta que a uni­ver­si­da­de desen­vol­ve há 11 anos um pro­je­to de edu­ca­ção com os ye’kwana e que ago­ra o pro­gra­ma será ampli­a­do com os sanö­ma, um sub­gru­po da etnia Yano­ma­mi. “Tra­ta da ges­tão ter­ri­to­ri­al indí­ge­na toman­do como base para o desen­vol­vi­men­to de ações nes­se cam­po a for­ma­ção esco­lar dos jovens. A esco­la é uma ins­ti­tui­ção de fron­tei­ra e na atu­a­li­da­de ganhou mui­to espa­ço na for­ma­ção dos indí­ge­nas, jun­ta­men­te com suas for­mas tra­di­ci­o­nais de edu­ca­ção. Nes­te sen­ti­do tem gran­de poten­ci­al para tra­tar das ques­tões que impli­cam na vida atu­al das popu­la­ções indí­ge­nas em seus ter­ri­tó­ri­os, for­man­do a novas gera­ções, por isso pre­ci­sa ser pro­fun­da­men­te ter­ri­to­ri­a­li­za­da.”

Ele expli­ca que o pro­je­to não é ape­nas para o ensi­no bási­co. “Para os ye’kwana que já estão com as esco­las con­so­li­da­das, a pro­pos­ta é cons­truir uma for­ma­ção em nível médio con­co­mi­tan­te com um téc­ni­co na ges­tão do ter­ri­tó­rio. Os sanö­ma con­tam com um pro­ces­so de esco­la­ri­za­ção bas­tan­te ini­ci­al, então o foco será arti­cu­lar as neces­si­da­des ter­ri­to­ri­ais com o ensi­no fun­da­men­tal.”

Para Rei­nal­do, é mais do que edu­ca­ção indí­ge­na. É uma for­ma de man­ter os conhe­ci­men­tos dos sábi­os, os acchu­di edha­a­mo na lín­gua ye’kwana, vivos para as novas gera­ções. “Nos­sa ances­tra­li­da­de dei­xou só na memó­ria. É isso que alguns pro­fes­so­res pes­qui­sa­do­res ye’kuana fize­ram. Colo­ca­ram ano­ta­ções. Fal­ta só divul­gar, assim, desen­vol­ver mais. Mate­ri­al didá­ti­co, falan­do nos­sas cul­tu­ras, nos­so ter­ri­tó­rio. Sem­pre man­ten­do a nos­sa lin­gua­gem, nos­sas cul­tu­ras, e nos­sos ritos, conhe­ci­men­tos tra­di­ci­o­nais. Tem que ser man­ti­do. Para ter esse exem­plo para outros povos tam­bém”, con­clui.

Edi­ção: Juli­a­na Andra­de

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Saldos remanescentes do Brasil Alfabetizado vão para jovens e adultos

Repro­du­ção: © Mar­cel­lo Casal Jr./Arquivo/Agência Bra­sil Regras para aplicação dos recursos foram publicadas no DOU …