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Educadores dizem que novo ensino médio amplia desigualdades

Repro­du­ção: © Fer­nan­do Frazão/Agência Bra­sil

Estudantes prometem ocupar ruas para pedir revogação da reforma


Publi­ca­do em 19/04/2023 — 08:15 Por Elai­ne Patrí­cia Cruz — Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — São Pau­lo

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O novo ensi­no médio, que come­çou a ser implan­ta­do no país no ano pas­sa­do, tem ampli­a­do as desi­gual­da­des e pre­ju­di­ca­do prin­ci­pal­men­te as pes­so­as mais pobres e vul­ne­rá­veis. Para espe­ci­a­lis­tas em edu­ca­ção ouvi­dos pela Agên­cia Bra­sil, a situ­a­ção ten­de a ser mais gra­ve nas esco­las públi­cas.

Não são ape­nas edu­ca­do­res e espe­ci­a­lis­tas que têm recla­ma­do da refor­ma. Nes­ta quar­ta-fei­ra (19), estu­dan­tes de todo o país pro­me­tem ocu­par as ruas para pedir que o Minis­té­rio da Edu­ca­ção (MEC) revo­gue o novo sis­te­ma.

Na sema­na pas­sa­da, duran­te semi­ná­rio rea­li­za­do na Facul­da­de de Edu­ca­ção da Uni­ver­si­da­de de São Pau­lo (USP), uma pro­fes­so­ra subiu ao pal­co para con­tar sua expe­ri­ên­cia com o novo ensi­no médio. For­ma­da em Ciên­ci­as Soci­ais, ela se viu obri­ga­da, após a lei de 2017 que mudou o ensi­no médio no país, a ter que minis­trar oito dife­ren­tes iti­ne­rá­ri­os for­ma­ti­vos (con­jun­to de dis­ci­pli­nas, pro­je­tos, ofi­ci­nas, núcle­os de estu­do que os estu­dan­tes pode­rão esco­lher no ensi­no médio).

“Tenho 28 tur­mas do ensi­no médio e 34 aulas por sema­na. Essa é a rea­li­da­de hoje da refor­ma do ensi­no médio no esta­do de São Pau­lo”, dis­se ela duran­te o even­to. “O que temos obser­va­do é que os alu­nos que estão se for­man­do não foram nem para o mer­ca­do de tra­ba­lho e nem para a uni­ver­si­da­de. Boa par­te deles tem ido tra­ba­lhar como jovens apren­di­zes. Depois dis­so, tive­ram que ir para outra área pro­fis­si­o­nal”, afir­mou.

Ela lem­brou que São Pau­lo, por ser um dos pri­mei­ros esta­dos a come­çar a imple­men­ta­ção do novo ensi­no médio, já tem obser­va­do algu­mas tur­mas se for­man­do nes­sa nova meto­do­lo­gia. O resul­ta­do que ela, como pro­fes­so­ra, tem viven­ci­a­do nas esco­las, é deses­pe­ra­dor. “O que eu vejo é que esses alu­nos estão se dis­tan­ci­an­do cada vez mais das uni­ver­si­da­des públi­cas. O chão de fábri­ca na esco­la públi­ca está mui­to pior do que a gen­te ima­gi­na”.

“Temos uma refor­ma de ensi­no médio em cur­so que aumen­ta a desi­gual­da­de e pro­duz desi­gual­da­des. E isso é uma coi­sa gra­vís­si­ma”, dis­se Fer­nan­do Cás­sio, dou­tor em Ciên­ci­as pela Uni­ver­si­da­de de São Pau­lo (USP) e pro­fes­sor da Uni­ver­si­da­de Fede­ral do ABC (UFABC). Ele tam­bém inte­gra a Rede Esco­la Públi­ca e Uni­ver­si­da­de (Repu) e o comi­tê dire­ti­vo da Cam­pa­nha Naci­o­nal pelo Direi­to à Edu­ca­ção.

Segun­do Cás­sio, um dos ele­men­tos que tor­na essa refor­ma ain­da mais desi­gual diz res­pei­to à apli­ca­ção dos iti­ne­rá­ri­os for­ma­ti­vos. Com pro­ble­mas que vão des­de a má remu­ne­ra­ção dos pro­fes­so­res, pas­san­do por más con­di­ções de tra­ba­lho, fal­ta de con­cur­sos públi­cos, pro­ble­mas de infra­es­tru­tu­ra e fal­ta de inves­ti­men­tos e de for­ma­ção dos docen­tes, as esco­las públi­cas aca­bam sen­do as mais pre­ju­di­ca­das com essa obri­ga­ção de imple­men­ta­ção dos iti­ne­rá­ri­os for­ma­ti­vos. Prin­ci­pal­men­te se essas esco­las estão loca­li­za­das em cida­des meno­res ou em bair­ros peri­fé­ri­cos. “Os mais vul­ne­rá­veis são os mais pre­ju­di­ca­dos, sem­pre. Esco­la indí­ge­na, qui­lom­bo­la, rural, de assen­ta­men­to, EJA [edu­ca­ção de jovens e adul­tos], Fun­da­ção Casa, clas­ses peni­ten­ciá­ri­as, regiões pobres do esta­do e com bai­xo Índi­ce de Desen­vol­vi­men­to Huma­no [IDH]: todas elas são esco­las com menos iti­ne­rá­ri­os for­ma­ti­vos à esco­lha dos alu­nos”, dis­se.

A pro­fes­so­ra de mate­má­ti­ca Ele­ni­ra Vile­la, que tam­bém é coor­de­na­do­ra-geral do Sin­di­ca­to Naci­o­nal dos Ser­vi­do­res Fede­rais da Edu­ca­ção Bási­ca, Pro­fis­si­o­nal e Tec­no­ló­gi­ca (Sina­se­fe), con­cor­da. Para ela, o novo ensi­no médio “apro­fun­da bar­ba­ra­men­te as desi­gual­da­des”.

“Exis­te o mito de que os jovens vão poder esco­lher iti­ne­rá­ri­os for­ma­ti­vos dos quais eles sejam mais pró­xi­mos. Mas, na rea­li­da­de, meta­de dos muni­cí­pi­os do Bra­sil tem uma úni­ca esco­la de ensi­no médio que mal dá con­ta de ofe­re­cer uma for­ma­ção padrão para todo mun­do. Então, essas esco­las não vão con­se­guir ou não estão con­se­guin­do ofe­re­cer os diver­sos iti­ne­rá­ri­os for­ma­ti­vos”.

“Os mais pobres não vão ter aces­so. Quem estu­da em esco­las par­ti­cu­la­res ou fede­rais, ou quem tem famí­lia com mais con­di­ções de aces­sar museus, esco­las e via­gens, vai ter for­ma­ção mais ampla. Os mais pobres, os que vivem nas peri­fe­ri­as e os que estu­dam em esco­las do inte­ri­or terão for­ma­ção mais res­tri­ta e pio­ra­da do que se tinha antes, de conhe­ci­men­to geral. Além dis­so, não vão for­ta­le­cer as pos­si­bi­li­da­des do mun­do do tra­ba­lho como se tem pro­pa­ga­do. Exis­tem luga­res, por exem­plo, em que estão sor­te­an­do qual o iti­ne­rá­rio for­ma­ti­vo que o estu­dan­te vai fazer. Isso não vai cri­ar uma rela­ção melhor dele com o apren­di­za­do”, obser­vou.

A desi­gual­da­de tem se agra­va­do por­que a refor­ma deter­mi­nou um teto máxi­mo de horas para o cha­ma­do ensi­no pro­pe­dêu­ti­co, que visa dar uma for­ma­ção geral e bási­ca para que o alu­no pos­sa ingres­sar em cur­so supe­ri­or. Com isso, horas que pode­ri­am ser des­ti­na­das a dis­ci­pli­nas con­si­de­ra­das essen­ci­ais como mate­má­ti­ca, por­tu­guês, his­tó­ria e geo­gra­fia estão sen­do reti­ra­das para a apli­ca­ção dos iti­ne­rá­ri­os, que podem vari­ar con­for­me a capa­ci­da­de da esco­la.

“Você pro­põe a cri­a­ção dos iti­ne­rá­ri­os for­ma­ti­vos como uma alter­na­ti­va à ação pro­pe­dêu­ti­ca. Eles cri­am um limi­te para a for­ma­ção geral, o que aca­ba afas­tan­do mais os jovens, prin­ci­pal­men­te os mais pobres, da pos­si­bi­li­da­de de alcan­çar uma uni­ver­si­da­de. E, ao mes­mo tem­po, não ofe­re­ce uma for­ma­ção para o tra­ba­lho que seja efi­caz, de acor­do com as deman­das do mun­do do tra­ba­lho”, dis­se Ele­ni­ra.

Para esses edu­ca­do­res e pro­fes­so­res, o que tem acon­te­ci­do é que as esco­las par­ti­cu­la­res não estão cum­prin­do o limi­te de horas para o ensi­no pro­pe­dêu­ti­co e con­ti­nu­a­ri­am minis­tran­do mais con­teú­dos con­si­de­ra­dos essen­ci­ais do que iti­ne­rá­ri­os for­ma­ti­vos. Com isso, seus alu­nos esta­ri­am mais pre­pa­ra­dos para ves­ti­bu­la­res e o Exa­me Naci­o­nal do Ensi­no Médio (Enem).

Isso tem sido obser­va­do pelo pro­fes­sor Fábio Miguel, 43 anos, que dá aulas tan­to para o ensi­no médio pri­va­do quan­to para a rede públi­ca esta­du­al da cida­de de San­to Antô­nio do Pinhal, no inte­ri­or de São Pau­lo. “Acre­di­to, sim, que [o novo ensi­no médio] vai aumen­tar as desi­gual­da­des. As par­ti­cu­la­res não estão seguin­do exa­ta­men­te essa fór­mu­la que está na rede públi­ca, com essa ques­tão dos iti­ne­rá­ri­os, e que aca­bou reti­ran­do vári­as dis­ci­pli­nas como bio­lo­gia, quí­mi­ca e boa par­te das aulas de mate­má­ti­ca e de lín­gua por­tu­gue­sa”, dis­se ele, em entre­vis­ta à Agên­cia Bra­sil. “Eu, por exem­plo, tra­ba­lho com lín­gua por­tu­gue­sa e lite­ra­tu­ra. Enquan­to antes [da refor­ma do ensi­no médio] eu dava cin­co aulas, ago­ra são somen­te duas. Então, como tra­ba­lhar em duas aulas com con­teú­do que era para cin­co? Isso vai cau­sar desi­gual­da­de não só para quan­do esse alu­no for pres­tar o ves­ti­bu­lar, mas tam­bém em sua vida pro­fis­si­o­nal e, con­se­quen­te­men­te, em sua vida aca­dê­mi­ca”, acres­cen­tou.

“Os estu­dan­tes sabem que, na esco­la pri­va­da, não há nenhu­ma aula de quí­mi­ca a menos. Nin­guém subs­ti­tui a aula de quí­mi­ca para apren­der a fazer bri­ga­dei­ro na esco­la pri­va­da. Uma das fun­ções da esco­la deve­ria ser ofe­re­cer for­ma­ção sóli­da. E isso será a garan­tia da liber­da­de de esco­lha futu­ra”, dis­se Fer­nan­do Cás­sio.

“A pri­mei­ra coi­sa que não fun­ci­o­na [nes­se novo ensi­no médio] é a ideia de fle­xi­bi­li­za­ção cur­ri­cu­lar, com supres­são de dis­ci­pli­nas. Você não melho­ra a qua­li­da­de da esco­la supri­min­do conhe­ci­men­to subs­tan­ti­vo. Isso é uma excres­cên­cia. A esco­la deve ser um lugar onde os estu­dan­tes têm aces­so ao conhe­ci­men­to cien­tí­fi­co, à cul­tu­ra, às ciên­ci­as huma­nas e natu­rais. Tem que ter isso. Não é pos­sí­vel, em pri­mei­ro lugar, você pro­por uma fle­xi­bi­li­za­ção cur­ri­cu­lar que vai subs­ti­tuir o con­teú­do subs­tan­ti­vo da esco­la por quin­qui­lha­ria cur­ri­cu­lar. Isso não fun­ci­o­na, não vai fun­ci­o­nar, não tem como fun­ci­o­nar”, afir­mou.

O pre­si­den­te da Fede­ra­ção Naci­o­nal das Esco­las Par­ti­cu­la­res (Fenep), Bru­no Eize­rik, não con­cor­da com a afir­ma­ção de que o novo ensi­no médio está ampli­an­do as desi­gual­da­des no país. Para ele, as difi­cul­da­des encon­tra­das pelas esco­las públi­cas na sua imple­men­ta­ção dizem mais res­pei­to à fal­ta de ges­tão. “Nós temos um pro­ble­ma de ges­tão na rede públi­ca. Se nos­so alu­no da esco­la pri­va­da cus­ta menos e con­se­gui­mos fazer mais, é por­que algu­ma coi­sa está erra­da e isso diz res­pei­to à ges­tão”. “O que acho é que deve­mos melho­rar as con­di­ções físi­cas da esco­la e imple­men­tar o novo ensi­no médio. Não são coi­sas exclu­den­tes. Acho tam­bém que alguns esta­dos estão exa­ge­ran­do no núme­ro de iti­ne­rá­ri­os. E, às vezes, pin­çam o exem­plo de uma esco­la esta­du­al que está ensi­nan­do a fazer bri­ga­dei­ro. Mas, ao mes­mo tem­po, temos esta­dos que estão pro­pon­do no máxi­mo qua­tro iti­ne­rá­ri­os. E isso dá para fazer. O que eu acho erra­do é usar a des­cul­pa de que a esco­la públi­ca não está pron­ta [para o novo ensi­no médio]: ela não está pron­ta nem para o anti­go ensi­no médio”, afir­mou.

Segun­do Eize­rik, o novo ensi­no médio está fun­ci­o­nan­do nas esco­las pri­va­das por­que elas têm bus­ca­do ofe­re­cer pou­cos iti­ne­rá­ri­os. “O novo ensi­no médio é divi­di­do em duas par­tes: a pri­mei­ra é a base naci­o­nal cur­ri­cu­lar comum, que todos os alu­nos fazem. Aqui temos 1,8 mil horas, com qua­tro dis­ci­pli­nas que são obri­ga­tó­ri­as: por­tu­guês, mate­má­ti­ca, lín­gua ingle­sa e artes”, expli­cou. “Temos 1,2 mil horas de iti­ne­rá­ri­os for­ma­ti­vos, e a rede pri­va­da tem tra­ba­lha­do com basi­ca­men­te qua­tro iti­ne­rá­ri­os: um para aque­les alu­nos que que­rem entrar na área da ciên­cia, outro para os que que­rem huma­nas, outro para a área da mate­má­ti­ca e enge­nha­ri­as, e o últi­mo para lin­gua­gens e letras. Há um quin­to cami­nho para quem quer fazer um cur­so téc­ni­co”.

Teoria e prática

Para Fer­nan­do Cás­sio, o fato de o novo ensi­no médio ter sido apro­va­do a toque de cai­xa, sem ter sido dis­cu­ti­do com a soci­e­da­de e, prin­ci­pal­men­te, com os ato­res da edu­ca­ção, fez com que ele fun­ci­o­nas­se ape­nas em teo­ria. “No fim das con­tas, o que vemos hoje no deba­te públi­co é uma ten­ta­ti­va de defen­der os valo­res da refor­ma, de dizer que essa refor­ma é boa, que a ideia de fle­xi­bi­li­zar o cur­rí­cu­lo e dar liber­da­de é boa. O pro­ble­ma é que essas pes­so­as estão falan­do em tese, em teo­ria. Mas essa refor­ma, com essa fle­xi­bi­li­za­ção, não está pro­du­zin­do nenhum bene­fí­cio para os estu­dan­tes. Pelo con­trá­rio: a fle­xi­bi­li­za­ção des­truiu a esco­la. Não adi­an­ta a gen­te defen­der os valo­res abs­tra­tos de uma refor­ma que está obje­ti­va e con­cre­ta­men­te pro­du­zin­do tra­gé­dia”, dis­se

O pre­si­den­te da Fenep con­tes­ta. Segun­do ele, a refor­ma do ensi­no médio não acon­te­ceu de uma hora para outra: ela vinha sen­do dis­cu­ti­da no país des­de a déca­da de 90. “O úni­co país que tem uma esco­la úni­ca do ensi­no médio é o Bra­sil, onde todo mun­do estu­da a mes­ma coi­sa. E isso come­çou quan­do tive­mos um regi­me de exce­ção não demo­crá­ti­co. Se for­mos para a Argen­ti­na, o Chi­le, Uru­guai, os Esta­dos Uni­dos, o Cana­dá, a Euro­pa e Ásia, todos esses con­ti­nen­tes e paí­ses, temos um ensi­no médio mui­to pare­ci­do com o que temos ago­ra, com uma base geral e iti­ne­rá­ri­os para os alu­nos esco­lhe­rem”.

Além de ter fal­ta­do trans­pa­rên­cia duran­te as dis­cus­sões que pre­ce­de­ram o novo ensi­no médio, fal­tou tam­bém infor­ma­ção após ele ter sido apro­va­do e se tor­na­do lei, dis­se o pro­fes­sor Fábio Miguel. Ele recla­ma que os pais, alu­nos e o res­tan­te da comu­ni­da­de não foram infor­ma­dos sobre como ele fun­ci­o­na­ria. “Não foi pas­sa­do cla­ra­men­te o que seria esse novo ensi­no médio”.

Revogação

Para Fer­nan­do Cás­sio, a úni­ca solu­ção pos­sí­vel para o novo ensi­no médio é a sua revo­ga­ção ime­di­a­ta. “Não acre­di­to que a refor­ma do ensi­no médio seja refor­má­vel”.

Ele­ni­ra tam­bém é a favor da revo­ga­ção da refor­ma. “A gen­te pre­ci­sa revo­gar tudo o que estru­tu­ral­men­te foi colo­ca­do por essa refor­ma, que é o teto máxi­mo do ensi­no pro­pe­dêu­ti­co e a obri­ga­to­ri­e­da­de dos iti­ne­rá­ri­os for­ma­ti­vos”, dis­se. “É óbvio que é pre­ci­so um pro­ces­so de tran­si­ção para quem foi víti­ma des­sa implan­ta­ção. Há redes, como San­ta Cata­ri­na e São Pau­lo, que já esta­vam fazen­do antes. Então, as víti­mas des­se pro­ces­so têm que ser repa­ra­das e ver como se recu­pe­ra esse apren­di­za­do. Daqui para a fren­te, temos que con­ser­tar esse erro gra­vís­si­mo”.

O pro­fes­sor Fábio Miguel apon­ta falhas na refor­ma. Mas ele não tem cer­te­za se a revo­ga­ção seria o melhor cami­nho. “Não acre­di­to que ela pre­ci­sa­ria ser total­men­te revo­ga­da. A ideia é boa. Só que pre­ci­sa, tal­vez, deba­tê-la mais, dis­cu­ti-la mais. Essas mani­fes­ta­ções [que pedem a revo­ga­ção] são váli­das por­que mos­tram que as pes­so­as não estão mui­to con­ten­tes com a ideia. O que eu sin­to é que boa par­te dos alu­nos não está gos­tan­do”.

Para ele, uma das ques­tões que pre­ci­sa­ria ser pro­pos­ta é uma con­sul­ta pre­li­mi­nar aos alu­nos para que se conhe­ça suas neces­si­da­des, que iti­ne­rá­ri­os pode­ri­am ser mais úteis a eles. “A ideia da mudan­ça do novo ensi­no médio não é ruim. Ela é boa. Porém, o que se deve­ria ser fei­to é uma con­sul­ta aos alu­nos para saber, antes de abrir os iti­ne­rá­ri­os, qual seria a opção deles, o que mais dese­ja­vam apren­der. E só depois mon­tar esse iti­ne­rá­rio”, dis­se.

O pre­si­den­te da Fenep, por sua vez, é con­tra a revo­ga­ção. “Exis­tem 13 ins­ti­tui­ções que têm defen­di­do que a imple­men­ta­ção do ensi­no médio não deve parar. Pri­mei­ro, a Fenep. Em segun­do, o cole­gi­a­do de secre­tá­ri­os esta­du­ais de Edu­ca­ção, que res­pon­dem pelas esco­las públi­cas. É impor­tan­te que não pare­ça que, para a esco­la pri­va­da, está tudo bem e para a esco­la públi­ca não está tudo bem. Os secre­tá­ri­os esta­du­ais de Edu­ca­ção e os con­se­lhos esta­du­ais de Edu­ca­ção, que tra­tam das esco­las públi­cas, tam­bém enten­dem que o novo ensi­no médio deve con­ti­nu­ar a ser imple­men­ta­do”.

“Não acha­mos que o novo ensi­no médio fun­ci­o­ne às mil mara­vi­lhas ou que está per­fei­to. Nós ain­da esta­mos apren­den­do com essa imple­men­ta­ção. E isso é um pro­ces­so. A gen­te pre­ci­sa dar con­ti­nui­da­de a esse pro­ces­so e ver quais são os resul­ta­dos”, pon­de­rou.

Para Eize­rik, o que pode­ria ser pro­pos­to para melho­rar a refor­ma é uma regu­la­men­ta­ção dos iti­ne­rá­ri­os. “É mui­to com­pli­ca­do a gen­te pen­sar em suges­tões antes de ter­mi­nar a pró­pria imple­men­ta­ção. Mas a cri­a­ção de pou­cos iti­ne­rá­ri­os aju­da. E aí temos a ques­tão que tem sido levan­ta­da: como ficam aque­las esco­las do inte­ri­or e que são úni­cas? Pode­mos ter o que a gen­te cha­ma de tri­lhas inte­gra­das, iti­ne­rá­ri­os inte­gra­dos, onde o alu­no vai estu­dar um pou­co de cada um. É pos­sí­vel fazer vári­as cons­tru­ções. E se a rede pri­va­da for cha­ma­do a opi­nar, esta­mos dis­pos­tos a sen­tar à mesa”.

Com mui­tas recla­ma­ções dire­ci­o­na­das ao novo ensi­no médio, o Minis­té­rio da Edu­ca­ção deci­diu sus­pen­der o calen­dá­rio de implan­ta­ção e pro­por a rea­li­za­ção de uma con­sul­ta públi­ca para deba­ter cami­nhos com a soci­e­da­de.

Para o pre­si­den­te da Fenep, essas audi­ên­ci­as públi­cas podem ser pro­du­ti­vas se todos os ato­res pude­rem par­ti­ci­par. “Em pri­mei­ro lugar, pre­ci­so fazer uma crí­ti­ca. O ensi­no pri­va­do, que res­pon­de por 9 milhões de alu­nos na edu­ca­ção bási­ca e 20% do total de alu­nos do país, não foi cha­ma­do para o gru­po que vai estu­dar as modi­fi­ca­ções que o gover­no pre­ten­de fazer”. Quan­do o gover­no cria um gru­po de tra­ba­lho e não cha­ma a esco­la pri­va­da, esse gru­po já come­ça erra­do”, obser­vou.

Fer­nan­do Cás­sio, no entan­to, acha as audi­ên­ci­as públi­cas não vão adi­an­tar. Para ele, o ide­al seria a rea­li­za­ção de con­fe­rên­ci­as de edu­ca­ção que pro­po­nham novo mode­lo de ensi­no. “O que defen­do é uma esco­la públi­ca que ofe­re­ça for­ma­ção sóli­da para os estu­dan­tes como ideia geral. Acho que isso pode ser cons­truí­do. Não vejo a revo­ga­ção da refor­ma do ensi­no médio como últi­mo pas­so, vejo como pas­so ini­ci­al. Ela pre­ci­sa ser revo­ga­da ime­di­a­ta­men­te por­que pre­ci­sa­mos dis­pa­rar um pro­ces­so naci­o­nal de cons­tru­ção de uma polí­ti­ca edu­ca­ci­o­nal para o ensi­no médio que tenha o míni­mo de con­sen­so. Pre­ci­sa­mos, por exem­plo, fazer uma Con­fe­rên­cia Naci­o­nal de Edu­ca­ção para dis­cu­tir o ensi­no médio. Aí sim, as posi­ções em dis­pu­ta vão entrar na are­na e vamos ter uma polí­ti­ca públi­ca que vai refle­tir ansei­os, expec­ta­ti­vas e con­cep­ções de edu­ca­ção de uma soci­e­da­de mais ampla — e não de meia duzia de ato­res pri­va­dos, como vem acon­te­cen­do”, dis­se.

“A ques­tão de ser uma con­fe­rên­cia é por­que semi­ná­rio não é um pro­ces­so deli­be­ra­ti­vo. Semi­ná­rio a gen­te sen­ta, con­ver­sa, cada um fala o que pen­sa e não tem fór­mu­la de sis­te­ma­ti­za­ção. Con­fe­rên­cia você tem for­mas deli­be­ra­ti­vas e che­ga ao final com um docu­men­to ela­bo­ra­do pela soci­e­da­de bra­si­lei­ra, dizen­do o que quer para o ensi­no médio. O que a gen­te quer é um espa­ço deli­be­ra­ti­vo, não só con­sul­ti­vo”, acres­cen­tou Ele­ni­ra.

Para ela, um dos mode­los que fun­ci­o­nam no país e que pode­ria ser leva­do em con­ta na cons­tru­ção de um novo ensi­no médio seria o ado­ta­do pelos ins­ti­tu­tos fede­rais. “Na rede em que atuo, que é a dos ins­ti­tu­tos fede­rais, faze­mos um ensi­no médio téc­ni­co inte­gran­do mui­to bem o que cha­ma­mos de conhe­ci­men­to pro­pe­dêu­ti­co com o mun­do do tra­ba­lho, com for­ma­ção pro­fis­si­o­nal que real­men­te habi­li­ta o estu­dan­te para o tra­ba­lho, além de desen­vol­ver capa­ci­da­de crí­ti­ca na rela­ção com a cul­tu­ra e a soci­e­da­de”.

“A prin­ci­pal crí­ti­ca a esse mode­lo é que ele seria mui­to mais caro, então, não pode­ria ser a refe­rên­cia. De fato, é um mode­lo mais caro por­que temos pro­fes­so­res e tra­ba­lha­do­ras da edu­ca­ção em geral mui­to mais for­ma­dos, com salá­ri­os bons, com con­di­ções de tra­ba­lho e que fazem pes­qui­sa e exten­são de manei­ra arti­cu­la­da. Mas aí há coi­sas que temos que nos ques­ti­o­nar como país: a gen­te quer um país que tenha edu­ca­ção de pon­ta e que real­men­te pos­sa impul­si­o­nar o desen­vol­vi­men­to dos nos­sos jovens e o desen­vol­vi­men­to téc­ni­co e cien­tí­fi­co bra­si­lei­ro? Se que­re­mos, pre­ci­sa­mos fazer um bru­tal inves­ti­men­to em edu­ca­ção”.

Pro­cu­ra­do pela Agên­cia Bra­sil, o MEC infor­mou que não vai emi­tir opi­nião sobre as mani­fes­ta­ções que pedem ou não a revo­ga­ção do novo ensi­no médio. A pas­ta dis­se que “todos os ato­res do Minis­té­rio da Edu­ca­ção e enti­da­des que con­du­zem a con­sul­ta públi­ca estão tra­ba­lhan­do cole­ti­va­men­te na cons­tru­ção des­sa agen­da”.

Segun­do o minis­té­rio, “os deta­lha­men­tos dos ins­tru­men­tos serão tor­na­dos públi­cos assim que con­cluí­dos”.

Edi­ção: Gra­ça Adju­to

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