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Em cinco anos, Rio teve 417 desaparecimentos forçados

Repro­du­ção: Face­bo­ok do Fórum Gri­ta Bai­xa­da

Na Baixada Fluminense foram registrados 361 no mesmo período


Publi­ca­do em 30/08/2022 — 07:11 Por Ake­mi Nitaha­ra – Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — Rio de Janei­ro

Ouça a maté­ria:

De 2016 e 2020, a região da Bai­xa­da Flu­mi­nen­se teve ao menos 361 casos de desa­pa­re­ci­men­tos for­ça­dos e o muni­cí­pio do Rio somou 417. Os dados são de pes­qui­sa iné­di­ta fei­ta pelo Fórum Gri­ta Bai­xa­da (FGB), em par­ce­ria com a Uni­ver­si­da­de Fede­ral Rural do Rio de Janei­ro (UFRRJ).

Os dados pre­li­mi­na­res foram divul­ga­dos hoje30 de agos­to, para mar­car o Dia Inter­na­ci­o­nal das Víti­mas de Desa­pa­re­ci­men­tos For­ça­dos, ins­ti­tuí­do pela Orga­ni­za­ção das Nações Uni­das (ONU) em 2010.

O coor­de­na­dor exe­cu­ti­vo do Fórum Gri­ta Bai­xa­da, Adri­a­no de Araú­jo, expli­ca que os desa­pa­re­ci­men­tos for­ça­dos estão rela­ci­o­na­dos à vio­lên­cia urba­na e de Esta­do em cir­cuns­tân­ci­as de con­fli­tos soci­o­po­lí­ti­cos ou perío­dos de repres­são, com atos como per­se­gui­ções, pri­sões ou deten­ções ile­gais até seques­tros, exe­cu­ções sumá­ri­as, ocul­ta­ção de cadá­ver e cemi­té­ri­os clan­des­ti­nos.

De acor­do com ele, como no Bra­sil ain­da não exis­te a tipi­fi­ca­ção legal do desa­pa­re­ci­men­to for­ça­do, a pes­qui­sa cru­zou dados do Ins­ti­tu­to de Segu­ran­ça Públi­ca (ISP) e do Dis­que Denún­cia, com rela­tos de fami­li­a­res e de pági­nas nas redes soci­ais que regis­tram casos.

“ISP e Dis­que Denún­cia foram fon­tes impor­tan­tís­si­mas, mas não foram as úni­cas. A gen­te fez mais dois tipos de levan­ta­men­to explo­ra­tó­rio, com gru­pos de mães e fami­li­a­res víti­mas de vio­lên­cia e tam­bém nas redes soci­ais em que há denún­cia de pes­so­as desa­pa­re­ci­das, infor­ma­ções rela­ti­vas à exis­tên­cia de cemi­té­ri­os clan­des­ti­nos ou atu­a­ção de gru­pos mili­ci­a­nos em deter­mi­na­dos ter­ri­tó­ri­os”.

Con­ven­ção Inte­ra­me­ri­ca­na sobre Desa­pa­re­ci­men­to For­ça­do de Pes­so­as defi­ne os casos como “pri­va­ção de liber­da­de de uma pes­soa ou mais, seja de que for­ma for, pra­ti­ca­da por agen­tes do Esta­do ou por pes­so­as ou gru­pos que atu­em com auto­ri­za­ção, apoio ou con­sen­ti­men­to do Esta­do, segui­da de fal­ta de infor­ma­ção ou da recu­sa em reco­nhe­cer a pri­va­ção de liber­da­de ou infor­mar sobre o para­dei­ro da pes­soa, impe­din­do o exer­cí­cio dos recur­sos legais e das garan­ti­as pro­ces­su­ais per­ti­nen­tes.”

Falta de dados

Araú­jo expli­ca que o ISP divul­ga os dados dos desa­pa­re­ci­men­tos, mas que a carac­te­ri­za­ção do desa­pa­re­ci­men­to for­ça­do não entra nas esta­tís­ti­cas. Ele cita o exem­plo de qua­tro jovens de Nova Igua­çu, que desa­pa­re­ce­ram no dia 12 de agos­to após serem abor­da­dos den­tro de um car­ro de apli­ca­ti­vo.

“A dinâ­mi­ca des­se cri­me já indi­ca­va se tra­tar de desa­pa­re­ci­men­tos for­ça­dos, ou seja, eles não sumi­ram por con­ta pró­pria, não se embe­be­da­ram e foram parar em outra cida­de, nem tinham um pro­ble­ma men­tal ou bri­ga com a famí­lia. Eles foram sub­traí­dos do seu local e, pro­va­vel­men­te, teri­am sido exe­cu­ta­dos. Foram abor­da­dos por homens for­te­men­te arma­dos, enca­pu­za­dos, em área de ocu­pa­ção da milí­cia”.

A coor­de­na­do­ra da pes­qui­sa, pro­fes­so­ra Nalay­ne Pin­to, da UFRRJ, expli­ca que as infor­ma­ções do Dis­que Denún­cia são mui­to ricas em deta­lhes, indi­can­do locais e pes­so­as com quem o desa­pa­re­ci­do foi vis­to, locais usa­dos como cemi­té­ri­os clan­des­ti­nos e de deso­va de cor­pos. Porém, segun­do ela, não se sabe se a inves­ti­ga­ção poli­ci­al apro­vei­ta esses rela­tos anô­ni­mos.

“As variá­veis que o Dis­que Denún­cia cole­ta têm des­cri­ção inte­res­san­te dos cida­dãos que ligam. Ago­ra, o dado tam­bém não é real, por­que a gen­te não sabe quan­tas des­sas denún­ci­as foram veri­fi­ca­das de fato. A polí­cia não diz, quan­do ela rece­be essas infor­ma­ções, se veri­fi­ca ou não, por­que o Dis­que Denún­cia entre­ga à polí­cia, mas não sabe­mos se a polí­cia veri­fi­ca isso”.

Nalay­ne des­ta­ca tam­bém o depoi­men­to das mães dos desa­pa­re­ci­dos, que rela­tam fal­ta de inves­ti­ga­ção.

“O que as mães dizem é que há um des­ca­so da polí­cia, que não inves­ti­ga por­que supõe o tal do envol­vi­men­to com o trá­fi­co, né? ‘O seu filho era usuá­rio ou era envol­vi­do com dro­gas’. É uma supo­si­ção de envol­vi­men­to que faz com que a polí­cia não dê o devi­do reco­nhe­ci­men­to e aten­ção ao caso. Então, essas mães sen­tem um des­me­re­ci­men­to por serem pobres, humil­des, pre­tas e par­das e por asso­ci­a­rem seus filhos a ati­vi­da­des cri­mi­no­sas, o que nem sem­pre é ver­da­de”.

O resul­ta­do final do Mape­a­men­to explo­ra­tó­rio sobre desa­pa­re­ci­dos e desa­pa­re­ci­men­tos for­ça­dos em muni­cí­pi­os da Bai­xa­da Flu­mi­nen­se e do Rio de Janei­ro será divul­ga­do no fim do ano, jun­to com o docu­men­tá­rio Deso­va, pro­du­zi­do pela Qui­pro­có Fil­mes. Os pes­qui­sa­do­res farão uma live às 16h de hoje para dis­cu­tir o assun­to. A trans­mis­são será pelo Face­bo­ok do Fórum Gri­ta Bai­xa­da.

Polícia

Pro­cu­ra­do pela repor­ta­gem, o ISP infor­mou que não rece­be as infor­ma­ções deta­lha­das dos regis­tros da Polí­cia Civil, não sen­do pos­sí­vel sepa­rar os casos de desa­pa­re­ci­men­tos for­ça­dos dos demais.

Agên­cia Bra­sil entrou em con­ta­to com a Polí­cia Civil e aguar­da retor­no.

Edi­ção: Gra­ça Adju­to

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