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Em três anos de pandemia de covid-19, ciência e vírus evoluíram

Repro­dução: © Reuters/Matthias Rietschel/Direitos Reser­va­dos

OMS contabiliza 759 milhões de casos e 6,8 milhões de mortes


Pub­li­ca­do em 11/03/2023 — 07:30 Por Viní­cius Lis­boa — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

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Des­de que a pan­demia de covid-19 começou, em 11 de março de 2020, o suces­so de novas estraté­gias na con­tenção do coro­n­avírus SARS-CoV­‑2 e as mutações que der­am a ele maior capaci­dade de trans­mis­são moldaram altos e baixos que cri­aram ondas, picos e momen­tos de relax­am­en­to e tran­quil­i­dade.

Nestes três anos, o coro­n­avírus descober­to em Wuhan, na Chi­na, já cau­sou 759 mil­hões de casos de covid-19, que provo­caram 6,8 mil­hões de mortes, segun­do a Orga­ni­za­ção Mundi­al da Saúde (OMS). Cer­ca de 65% da pop­u­lação mundi­al está vaci­na­da com duas dos­es, e 30% rece­ber­am dos­es de reforço. Ess­es per­centu­ais, porém, escon­dem desigual­dades: enquan­to Améri­c­as, Europa e Leste da Ásia estão per­to dessa média ou aci­ma dela, menos de 30% da pop­u­lação da África rece­beu duas dos­es da vaci­nas.

No Brasil, os óbitos se aprox­i­mam dos 700 mil, em um uni­ver­so de 37 mil­hões de casos já diag­nos­ti­ca­dos. Ape­sar de a pan­demia não causar mais o colap­so de unidades de saúde, ela ain­da faz víti­mas: foram 330 na últi­ma sem­ana epi­demi­ológ­i­ca, segun­do dados do Data­SUS, o que mostra que ain­da é necessária atenção à pre­venção, ao diag­nós­ti­co e ao trata­men­to da doença.

No que diz respeito à vaci­nação, o Brasil pos­sui uma cober­tu­ra aci­ma da média do mun­do e das Améri­c­as, com 82% da pop­u­lação com o esque­ma primário com­ple­to e 58% com ao menos uma dose de reforço, segun­do dados do painel Mon­i­to­ra Covid-19, da Fun­dação Oswal­do Cruz (Fiocruz). A maior parte dessas dos­es apli­cadas é de vaci­nas de ter­ceira ger­ação, com as tec­nolo­gias de vetor viral e RNA men­sageiro, uma ino­vação pos­ta em práti­ca em mas­sa pela primeira vez com a pan­demia de covid-19 e acres­cen­ta­da ao arse­nal da ciên­cia con­tra futuras ameaças de saúde públi­ca.

Quais foram os marcos que moldaram a pandemia?

Ao con­tar a história da pan­demia, o pres­i­dente da Sociedade Brasileira de Infec­tolo­gia, Alber­to Chebabo, desta­ca que há muitas for­mas de divi­di-la, e um dos prin­ci­pais mar­cos tem­po­rais que se pode apon­tar é antes e depois da vaci­nação.

“Em 2020, a gente não tin­ha vaci­na, e, em 2021, a gente começou a vaci­nar muito lenta­mente no primeiro semes­tre. Foi o perío­do em que a gente teve o maior número de mortes e a maior deman­da por leitos hos­pi­ta­lares”, lem­bra. “A par­tir do segun­do semes­tre 2021, quan­do a gente con­segue avançar na vaci­nação, há uma mudança de car­ac­terís­ti­ca da doença, que pas­sa a ter uma gravi­dade muito menor do que foi durante esse primeiro perío­do, com uma redução impor­tante de mor­tal­i­dade e no impacto sobre a rede hos­pi­ta­lar.”

O infec­tol­o­gista acres­cen­ta que as mudanças do próprio vírus são out­ra var­iáv­el que moldou essa história. A par­tir de 2021, as vari­antes do coro­n­avírus, espe­cial­mente a Gam­ma e a Delta, troux­er­am um grande aumen­to de casos no Brasil, que se tornou ain­da mais expres­si­vo em 2022, com a chega­da da Ômi­cron. Além de o vírus se dis­sem­i­nar mais rápi­do, os testes se tornaram mais acessíveis, o que tam­bém aju­dou a ele­var o número de diag­nós­ti­cos de covid-19, que antes estavam restri­tos a casos de maior gravi­dade.

“Uma ter­ceira for­ma de dividir é que a gente teve, a par­tir do final de 2022 e iní­cio de 2023, a pos­si­bil­i­dade de ter medica­men­tos incor­po­ra­dos ao SUS para que a gente pos­sa tratar os casos com pior respos­ta à vaci­na”, diz Chebabo. “Ape­sar de a gente quer­er um trata­men­to pre­coce, rápi­do e especí­fi­co para a doença, a gente demor­ou a achar. Pre­cisou ter um desen­volvi­men­to de novas dro­gas antivi­rais e anti-infla­matórias para que a gente pudesse ter a pos­si­bil­i­dade de tratar pre­co­ce­mente a doença. Med­icações que foram advo­gadas como sal­vado­ras, como a cloro­quina e a iver­mecti­na, real­mente não tin­ham nen­hu­ma função.”

Rio de Janeiro (RJ) - Especial 3 anos de pandemia, Impactos da pandemia.Na foto, o presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Alberto Chebabo Foto: SBI/Divulgação
Repro­dução: Alber­to Chebabo diz que novas vari­antes do vírus levaram ao aumen­to dos casos de covid-19 — SBI/Arquivo/Divulgação

O con­hec­i­men­to sobre o vírus, expli­ca o pesquisador, foi out­ro pon­to impor­tante que reduz­iu a mor­tal­i­dade da doença. Ain­da no primeiro ano da pan­demia, a descober­ta de como mane­jar os casos de fal­ta de oxi­ge­nação no sangue per­mi­tiu um trata­men­to clíni­co mais efi­caz nas unidades de ter­apia inten­si­va (UTIs). A própria car­ac­ter­i­za­ção da covid-19 como doença res­pi­ratória mudou ao lon­go do tem­po.

“A gente apren­deu o espec­tro todo da doença. Não é uma doença ape­nas com um quadro res­pi­ratório agu­do, é uma doença com quadros muito mais amp­los, com quadros car­dio­vas­cu­lares, com risco de trom­bose, e com a covid lon­ga. Tam­bém tem impactos a médio e lon­go pra­zo”, expli­ca ele, que cita mudanças neu­rológ­i­cas e tam­bém seque­las pul­monares como condições pós-covid que podem neces­si­tar de trata­men­to espe­cial­iza­do.

A chefe do Lab­o­ratório de Vírus Res­pi­ratórios, Exan­temáti­cos, Enterovírus e Emergên­cias Virais do Insti­tu­to Oswal­do Cruz (IOC/Fiocruz), Mar­il­da Siqueira, desta­ca que a colab­o­ração de cien­tis­tas de difer­entes áreas se deu de for­ma acel­er­a­da durante a pan­demia, e esse foi um fator fun­da­men­tal ao lon­go da emergên­cia san­itária. O lab­o­ratório chefi­a­do pela virol­o­gista foi refer­ên­cia da OMS no con­ti­nente amer­i­cano e tam­bém par­ticipou do desen­volvi­men­to de testes diag­nós­ti­cos em tem­po recorde.

“Assim que a OMS disse que se trata­va de um coro­n­avírus, um lab­o­ratório em Berlim disponi­bi­li­zou o desen­ho de como seria o teste diag­nós­ti­co PCR. Então, Bio-Man­guin­hos con­tac­tou nos­so lab­o­ratório e, em colab­o­ração conosco, pro­duz­iu em menos de um mês um kit diag­nós­ti­co. Com coor­de­nação do Min­istério da Saúde, fize­mos um treina­men­to de todos os lab­o­ratórios cen­trais de Saúde Públi­ca [Lacens], e, em 18 de março, os 27 esta­dos brasileiros já estavam com um profis­sion­al treina­do e com kit para diag­nós­ti­co de SARS-CoV­‑2. Poucos país­es con­seguiram isso, que foi fru­to de inves­ti­men­tos de décadas do Min­istério da Saúde e Ciên­cia e Tec­nolo­gia em Bio-Man­guin­hos”, con­ta ela.

Rio de Janeiro (RJ) - Especial 3 anos de pandemia, Impactos da pandemia.Marilda Siqueira, Chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios, Exantemáticos, Enterovírus e Emergências Virais do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) Foto: Josué Damacena/Fiocruz/Divulgação
Repro­dução: Mar­il­da Siqueira desta­ca importân­cia da colab­o­ração para o enfrenta­men­to da pan­demia — Josué Damacena/Fiocruz/Divulgação

Da mes­ma for­ma que os testes, a pesquisado­ra expli­ca que as vaci­nas tam­bém foram fru­to de inves­ti­men­tos e esforços cumu­la­tivos, o que desmon­ta a falá­cia de que foram pro­duzi­das “rápi­do demais”. “Isso acon­te­ceu em um cur­to espaço de tem­po porque já vín­hamos com exper­iên­cias e con­hec­i­men­to cien­tí­fi­co acu­mu­la­do de décadas. Imag­i­na se a intro­dução do coro­n­avírus tivesse sido há um sécu­lo, como acon­te­ceu com a gripe espan­ho­la. Teria sido arrasador, porque as fer­ra­men­tas não estavam naque­le momen­to prontas como estavam neste momen­to, em 2020. O uso dessas fer­ra­men­tas que a humanidade vem desen­vol­ven­do foram pon­tos cru­ci­ais para diminuir o impacto da pan­demia em um ano.”

Maior colapso sanitário e hospitalar

Manaus (AM) - Especial 3 anos de pandemia, Impactos da pandemia. Funcionário do Cemitério Tarumã na cidade de Manaus, abre uma cova para mais uma vitima do covid-19 . Foto: Altemar Alcantara/Semcom/Prefeitura de Manaus
Repro­dução: Man­aus (AM) — Fun­cionário do Cemitério Tarumã na cidade de Man­aus, abre uma cova para mais uma viti­ma do covid-19 . Foto: Altemar Alcantara/Semcom/Prefeitura de Man­aus

O virol­o­gista da Fiocruz Amazô­nia Felipe Nave­ca con­ta que, assim como a agili­dade e artic­u­lação dos pesquisadores, a capaci­dade de trans­mis­são do coro­n­avírus foi cru­cial para deter­mi­nar as difer­entes fas­es da pan­demia. Des­de sua descober­ta, no fim de 2019, o vírus impres­sio­nou pesquisadores com seu poten­cial de dis­sem­i­nação, chegan­do a todos os con­ti­nentes em poucos meses. Con­forme o número de infec­ta­dos cresceu, aumen­tou tam­bém a pressão sele­ti­va sobre o vírus, que sofreu mutações para escapar do sis­tema imunológi­co das pes­soas já infec­tadas e con­tin­uar se mul­ti­pli­can­do.

“As vari­antes que tiver­am maior suces­so e suas lin­hagens, ou eram mais trans­mis­síveis, ou escapavam mais do sis­tema imunológi­co, ou as duas coisas”, define Nave­ca, que lid­er­ou o grupo respon­sáv­el pelo sequen­ci­a­men­to da vari­ante Gam­ma, no Ama­zonas, cau­sado­ra do pior momen­to da pan­demia no Brasil.

Foi a vari­ante Gam­ma que cau­sou as infecções durante o colap­so hos­pi­ta­lar no Ama­zonas em janeiro e se espal­hou no país nos meses seguintes a pon­to de lotar hos­pi­tais em todas as regiões ao mes­mo tem­po. Menos de 15% da pop­u­lação esta­va vaci­na­da com a primeira dose naque­le momen­to, e o Brasil chegou a ter mais de 3 mil mortes por dia entre março e abril de 2021, quan­do enfren­tou o maior colap­so san­itário e hos­pi­ta­lar de sua história, segun­do o Obser­vatório Covid-19, da Fun­dação Oswal­do Cruz.

Des­de 2022, entre­tan­to, as descen­dentes da vari­ante Ômi­cron dom­i­nam o cenário epi­demi­ológi­co. “Do vírus ances­tral à Ômi­cron foi um salto muito grande. Inclu­sive, algu­mas teo­rias sug­erem que esse vírus ficou evoluin­do de uma maneira silen­ciosa em alguns país­es com menor vig­ilân­cia. Pode ser que ela ten­ha cir­cu­la­do de maneira silen­ciosa no con­ti­nente africano, e quan­do se detec­ta a Ômi­cron, ela já era muito difer­ente de todas as que a gente con­hecia.”

Rio de Janeiro (RJ) - Especial 3 anos de pandemia, Impactos da pandemia.Na foto o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Renato Kfouri. Foto: Sarah Daltri/SBIm/Divulgação
Repro­dução: Para Rena­to Kfouri, hou­ve con­tapro­pa­gan­da de vaci­nas no gov­er­no Bol­sonaro — Sarah Daltri/SBIm/Divulgação

O suces­so da vari­ante Ômi­cron em escapar da imu­nidade faz dela um mar­co na pan­demia, na visão do vice-pres­i­dente da Sociedade Brasileira de Imu­niza­ções, Rena­to Kfouri, que con­cor­da que o out­ro grande mar­co é a pro­teção cole­ti­va obti­da com as vaci­nas, a par­tir de 2021.

“A gente tem três momen­tos na pan­demia. Um momen­to sem vaci­na; um momen­to com vaci­na antes da Ômi­cron, em que a pro­teção era mais ele­va­da, inclu­sive con­tra as for­mas leves da doença; e um momen­to pós-Ômi­cron, em que a per­da da pro­teção con­tra as for­mas leves acon­te­ceu, mas foi con­ser­va­da a pro­teção con­tra as for­mas graves da doença. Hoje, os vaci­na­dos con­tin­u­am muito bem pro­te­gi­dos dos des­fe­chos mais graves, mas não con­seguem estar pro­te­gi­dos con­tra a infecção.”

O que poderia ter sido diferente?

O Brasil é o segun­do país do mun­do que con­tabi­liza mais víti­mas da covid-19, ape­sar de ter a quin­ta maior pop­u­lação mundi­al. A mor­tal­i­dade da doença, medi­da em óbitos por 100 mil habi­tantes pela Orga­ni­za­ção Mundi­al da Saúde, tam­bém atinge no país uma média despro­por­cional: quase qua­tro vezes maior que a média mundi­al.

Para o epi­demi­ol­o­gista e pro­fes­sor da Uni­ver­si­dade de Illi­nois Urbana-Cham­paign, nos Esta­dos Unidos, Pedro Hal­lal, com­parar a mor­tal­i­dade no Brasil com a média mundi­al requer uma série de pon­der­ações – e elas podem ser ain­da mais des­fa­voráveis para o país. O cien­tista é coor­de­nador-ger­al da pesquisa Epi­covid-19, que bus­ca medir a prevalên­cia do coro­n­avírus e avaliar a veloci­dade de expan­são da covid-19 no país.

Hal­lal expli­ca que a pop­u­lação brasileira é, em média, mais jovem que a mundi­al, o que faz com que haja um per­centu­al menor de pes­soas no grupo de risco da covid-19. Além dis­so, o Brasil é um país de ren­da média que tem um pro­gra­ma nacional de vaci­nação muito supe­ri­or ao da maio­r­ia dos país­es, e um sis­tema de saúde públi­co e uni­ver­sal com capaci­dade de realizar atendi­men­tos de alta com­plex­i­dade, como os casos graves de covid-19. Em relação às sub­no­ti­fi­cações de out­ros país­es que pos­sam puxar a média mundi­al para baixo, o epi­demi­ol­o­gista argu­men­ta que a lit­er­atu­ra já con­struí­da sobre a covid-19 mostra que as mortes são muito menos sub­no­ti­fi­cadas do que os casos.

Rio de Janeiro (RJ) - Especial 3 anos de pandemia, Impactos da pandemia.Na foto, o professor da Universidade de Illinois Urbana Champaign, Pedro Hallal. Foto: Divulgaçāo
Repro­dução: Pro­fes­sor Pedro Hal­lal diz que erros do Brasil no enfrenta­men­to à covid-19 vier­am des­de o começo da pan­demia — Divul­gaçāo

“Eu acho jus­to, por con­ta de todas essas expli­cações, diz­er que o Brasil tem, no mín­i­mo, qua­tro vezes mais mortes do que dev­e­ria ter”, diz Hal­lal, que envi­ou um estu­do com essa metodolo­gia no for­ma­to de car­ta ao edi­tor para a revista The Lancet, um dos mais impor­tantes per­iódi­cos cien­tí­fi­cos do mun­do, e tam­bém apre­sen­tou o mes­mo lev­an­ta­men­to na Comis­são Par­la­men­tar de Inquéri­to da Pan­demia, no Sena­do Fed­er­al. “Não estou com­para­n­do se o Brasil fos­se o exem­p­lo do mel­hor enfrenta­men­to. Se o Brasil tivesse sido ape­nas medi­ano, ele teria 184 mil mortes, e não 699 mil.”

O espe­cial­ista desta­ca que os erros do Brasil no enfrenta­men­to à covid-19 vier­am des­de o começo da pan­demia. Os inves­ti­men­tos em testagem e ras­trea­men­to de con­tatos foram insu­fi­cientes, apon­ta. Além dis­so, o gov­er­no Jair Bol­sonaro apos­tou em uma estraté­gia de imu­nidade de reban­ho por infecção, na qual havia a expec­ta­ti­va de que um número grande de infec­ta­dos blo­quearia a cir­cu­lação do vírus em algum momen­to. “Um erro gravís­si­mo de quem fez uma leitu­ra equiv­o­ca­da des­de o primeiro dia sobre o que que era essa pan­demia”, clas­si­fi­ca. Ele argu­men­ta que hou­ve uma con­fusão sobre como dev­e­ri­am ser imple­men­tadas as políti­cas de dis­tan­ci­a­men­to social, por parte do gov­er­no fed­er­al, esta­dos e municí­pios.

Comércio fechado na região central, durante a fase vermelha da epidemia de covid-19 na capital.
Repro­dução: Comér­cio fecha­do na região cen­tral da cap­i­tal paulista, durante a Fase Ver­mel­ha da epi­demia de covid-19 — Rove­na Rosa/Arquivo/Agência Brasil

“O Brasil nun­ca fez um lock­down. O Brasil fez fechamen­tos sele­tivos de longuís­si­ma duração, que destruíram não só a saúde públi­ca, porque não con­seguiram impedir a cir­cu­lação do vírus, como tam­bém destruíram a econo­mia do país”, diz. “A ciên­cia mostra que, nos momen­tos mais agu­dos, é útil faz­er um lock­down extrema­mente rig­oroso e cur­to. A maio­r­ia dos lugares do mun­do usa três sem­anas como refer­ên­cia.”

O pres­i­dente da Sociedade Brasileira de Infec­tolo­gia, Alber­to Chebabo, é cauteloso em relação a com­para­ções da mor­tal­i­dade no Brasil com a média mundi­al, pelo risco de sub­no­ti­fi­cações ou con­fi­a­bil­i­dade dos dados de todos os país­es. Ape­sar dis­so, ele não tem dúvi­das de que hou­ve um exces­so de mor­tal­i­dade por covid-19 no Brasil.

“Cer­ta­mente, a gente foi um dos país­es mais afe­ta­dos. E a gente errou muito na pan­demia, prin­ci­pal­mente nos primeiros dois anos. O Min­istério da Saúde não teve uma atu­ação coor­de­na­da, deixan­do a car­go de cada municí­pio e de cada esta­do a imple­men­tação de medi­das, com uma poli­ti­za­ção e polar­iza­ção infun­dadas que levaram a um número muito grande de casos e de óbitos rela­ciona­dos à não imple­men­tação ade­qua­da a medi­das de con­t­role, prin­ci­pal­mente as não far­ma­cológ­i­cas [como dis­tan­ci­a­men­to e más­caras], que eram as que gente tin­ha para ofer­e­cer no iní­cio”, avalia Chebabo. “Isso frag­ili­zou muito o con­t­role da doença no país, aumen­tan­do de for­ma acen­tu­a­da o número de óbitos.”

Out­ro pon­to que o infec­tol­o­gista desta­ca é que hou­ve atra­so no iní­cio da vaci­nação con­tra a covid-19 no momen­to em que a dis­sem­i­nação da vari­ante Gam­ma causa­va a fase mais letal da pan­demia, com até 3 mil mortes em um úni­co dia.

“A vaci­nação con­tra a covid foi muito lenta e se arras­tou durante quase todo o primeiro semes­tre de 2021, só gan­han­do força mes­mo no segun­do semes­tre”, afir­ma, lem­bran­do que o país demor­ou a fechar a com­pra das vaci­nas de RNA men­sageiro, expor­tadas pela Pfiz­er. “O Brasil tem capaci­dade de vaci­nar até 1,5 mil­hão de pes­soas por dia, e vaci­na­va 10 mil, 20 mil, ou 100 mil, no máx­i­mo. A gente talvez tivesse sal­va­do mais vidas.”

Vacinação contra covid-19 aos profissionais da saúde do Hospital das Clínicas, no Centro de Convenções Rebouças.
Repro­dução: Para espe­cial­is­tas, demo­ra na vaci­nação difi­cul­tou com­bate à covid-19 no Brasil — Rove­na Rosa/Agência Brasil

Para o vice-pres­i­dente da Sociedade Brasileira de Imu­niza­ções, Rena­to Kfouri, além da demo­ra, hou­ve fal­ta de empen­ho em cam­pan­has de estí­mu­lo à vaci­nação e até con­trapro­pa­gan­da por parte do gov­er­no à época. Ele con­sid­era que uma mor­tal­i­dade por covid-19 aci­ma dos país­es desen­volvi­dos já era esper­a­da para o Brasil, porque isso tam­bém ocorre com out­ras doenças, mas acred­i­ta que fatores como os prob­le­mas na vaci­nação agravaram essa difer­ença.

“Essa pode­ria ter sido a grande ban­deira do gov­er­no, que infe­liz­mente tra­bal­hou des­fa­vo­rav­el­mente ao uso das vaci­nas. Atra­sou, con­traindi­cou, criou brigas políti­cas com pro­du­tores e questões xenó­fobas, só difi­cul­tan­do o proces­so.”

Kfouri desta­ca que, ape­sar dis­so, o Brasil alcançou uma alta cober­tu­ra nas duas primeiras dos­es, mas não con­seguiu repe­tir o feito nas dos­es de reforço, que são con­sid­er­adas indis­pen­sáveis para a pro­teção con­tra as cepas Ômi­cron. O médi­co avalia que a pan­demia foi o pon­to de par­ti­da do for­t­alec­i­men­to de movi­men­tos anti­vaci­na no Brasil, e que as cri­anças foram as maiores afe­tadas.

“Pela primeira vez, a gente vê pais vaci­na­dos com até qua­tro dos­es que não vaci­naram seus fil­hos. Em ger­al, a gente pro­tege os fil­hos e depois pen­sa na nos­sa pro­teção. De uma maneira ger­al, isso impactou bas­tante na pedi­a­tria. Ape­sar de ser algo que é mais sele­ti­vo, con­tra as vaci­nas covid, aca­ba resp­in­gan­do nas out­ras vaci­nas”, afir­ma. “A pan­demia trouxe à luz os gru­pos con­trários à vaci­nação, que aproveitaram das vaci­nas con­tra a covid-19 para dis­sem­i­nar con­ceitos equiv­o­ca­dos e a inse­gu­rança na vaci­nação. Os anti­vacin­istas são muito poucos no Brasil e não pros­per­avam aqui porque não havia um cam­po fér­til. A covid-19 criou essas condições.”

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Edição: Juliana Andrade

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