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Enredo da Unidos de Padre Miguel fala sobre o candomblé no Brasil

Escola retorna ao Grupo Especial após cinco décadas

Fran­ciel­ly Bar­bosa*
Pub­li­ca­do em 17/02/2025 — 07:02
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro (RJ), 31/01/2025 - Detalhe de carro alegórico, no barracão da Escola de Samba Unidos de Padre Miguel, na Cidade do Samba, zona portuária. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Repro­dução: © Tânia Rêgo/Agência Brasil

Vence­do­ra da Série Ouro do Car­naval de 2024 no Rio de Janeiro, a Unidos de Padre Miguel vol­ta a des­fi­lar no Grupo Espe­cial após 52 anos. Com o enre­do Egbé Iyá Nassô, a esco­la leva para o Sam­bó­dro­mo da Mar­quês de Sapu­caí a história do Ter­reiro Casa Bran­ca do Engen­ho Vel­ho. Fun­da­do em Sal­vador, na Bahia, pela ialorixá Fran­cis­ca da Sil­va — a Iyá Nassô — o espaço é con­sid­er­a­do o primeiro ter­reiro de can­domblé do Brasil, além de tam­bém ser o primeiro tomba­do pelo Insti­tu­to do Patrimônio Históri­co e Artís­ti­co Nacional (Iphan), em 1984.

“Con­ta­mos a saga de uma mul­her africana, mem­bro da corte do Império de Oyó, que veio para o Brasil na condição de escrav­iza­da e que man­teve a reli­giosi­dade, não se afas­tou da mãe África. Depois de mui­ta luta con­tra pre­con­ceitos e perseguições, ela inau­gu­ra o primeiro ter­reiro de can­domblé do Brasil, a Casa Bran­ca do Engen­ho Vel­ho”, con­ta o car­navale­sco Alexan­dre Louza­da.

Com 40 anos de tra­jetória no Car­naval car­i­o­ca, Louza­da estreia neste ano na Unidos de Padre Miguel.

“Dize­mos que ela plan­tou o primeiro axé aqui no Brasil, que ela fun­dou, na ver­dade, o mod­e­lo de can­domblé ketu no país”, com­ple­men­ta o arquite­to Lucas Mila­to, que con­tin­ua pelo seu segun­do ano como car­navale­sco da esco­la de sam­ba. Respon­sáv­el pelo cul­to a Xangô, um dos prin­ci­pais orixás das religiões afro-brasileiras, no palá­cio do Alafin de Oyó, Iyá Nassô teve a colab­o­ração de out­ras duas ialorixás na con­strução da casa de can­domblé na cap­i­tal baiana: Iyá Ade­tá e Iyá Akalá, tam­bém cel­e­bradas no sam­ba da Unidos de Padre Miguel.

Rio de Janeiro (RJ), 31/01/2025 - Lucas Milato e Alexandre Louzada, carnavalescos da Unidos de Padre Miguel, no barracão da escola, na Cidade do Samba, zona portuária. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Repro­dução: Rio de Janeiro (RJ), 31/01/2025 — Lucas Mila­to e Alexan­dre Louza­da, car­navale­scos da Unidos de Padre Miguel, no bar­racão da esco­la — Tânia Rêgo/Agência Brasil

Iyá Nassô

“A Iyá Nassô era de Oyó e a Iyá Ade­tá de Ketu. Elas trazem com elas todas essas influên­cias africanas dess­es dois reinos extrema­mente impor­tantes para a África, mas que entraram num proces­so de declínio por con­ta de invasões, então elas pre­cis­aram vir para o Brasil, já na condição de escrav­izadas, e aqui pre­cis­aram bus­car for­mas de man­i­fes­tar a sua religião, a sua fé”, expli­ca Lucas em entre­vista à Agên­cia Brasil no bar­racão da Unidos de Padre Miguel, na Cidade do Sam­ba.

Para Alexan­dre, o que aprox­i­ma o assun­to da esco­la de sam­ba nasci­da na Vila Vin­tém, no bair­ro de Padre Miguel, na zona oeste do Rio de Janeiro, e jus­ti­fi­ca a prefer­ên­cia da dire­to­ria da agremi­ação pela história do surg­i­men­to do can­domblé no ter­ritório nacional é que, assim como o Ter­reiro da Casa Bran­ca do Engen­ho Vel­ho, a Unidos de Padre Miguel se tra­ta de um grande “egbé”, palavra em iorubá que sig­nifi­ca “comu­nidade”. “O que escreve­mos é que ‘egbé’ sig­nifi­ca casa, uma grande comu­nidade, e a Unidos de Padre Miguel não é difer­ente. Ela vive e res­pi­ra den­tro de uma grande comu­nidade”, ressalta o car­navale­sco.

Além dis­so, assim como o iní­cio da religião afro-brasileira no Brasil, a esco­la é lid­er­a­da prin­ci­pal­mente por mul­heres. Como traz Lucas, muitos pilares da Unidos de Padre Miguel são fem­i­ni­nos, enquan­to a Casa Bran­ca do Engen­ho Vel­ho é um ter­reiro de can­domblé con­duzi­do, cri­a­do e fun­da­do por mul­heres. “Até hoje ela se sus­ten­ta por essa força fem­i­ni­na, então esse enre­do con­quis­tou o coração da nos­sa dire­to­ria por isso, porque é um enre­do que val­oriza muito a figu­ra fem­i­ni­na, não só nas religiões de matriz africana, mas tam­bém na comu­nidade como um todo”.

“É uma história que a nos­sa história ofi­cial não con­ta”, reflete Alexan­dre, ao lado de Lucas. “Traze­mos à tona per­son­agens esque­ci­dos pela história, porque na época colo­nial hou­ve esse apaga­men­to cul­tur­al, não só dos que vier­am da África para o Brasil, como da própria África, então hoje existe um movi­men­to muito forte de res­gate dessa cul­tura africana, porque somos um país de maio­r­ia com descendên­cia africana”, acres­cen­ta. Segun­do o Cen­so Demográ­fi­co de 2022, do Insti­tu­to Brasileiro de Geografia e Estatís­ti­ca (IBGE), 55,51% da pop­u­lação nacional se iden­ti­fi­ca como negra, sendo 45,34% como par­da e 10,17% como pre­ta.

Da Vila Vintém à Sapucaí

“A Unidos de Padre Miguel é uma esco­la muito esper­a­da pelo grande públi­co, porque ela teve o seu reina­do, vamos diz­er assim, na Série Ouro por vários anos. É difer­ente de muitas esco­las que ascen­dem ao grupo espe­cial, porque ela já tem uma tor­ci­da própria”, comen­ta Alexan­dre. “Ela sem­pre foi tão esper­a­da a ser vence­do­ra e várias vezes bateu na trave. Ago­ra, isso se tor­na real­i­dade, então ela é uma esco­la que chega ao grupo espe­cial gozan­do de uma sim­pa­tia maior do que em out­ros casos que já acon­te­ce­r­am de esco­las que ascen­der­am ao grupo espe­cial”.

No car­naval de 2023, a esco­la encer­rou em segun­do lugar na Série Ouro. O mes­mo resul­ta­do se repetiu nos des­files de 2020, 2018, 2016 e 2015. Ape­sar de a Unidos de Padre Miguel já ter des­fi­la­do antes na primeira divisão do car­naval do Rio de Janeiro, con­sideran­do o for­ma­to atu­al da Liga Inde­pen­dente das Esco­las de Sam­ba do Rio de Janeiro (Liesa), essa é a primeira vez que a agremi­ação dis­pu­ta no Grupo Espe­cial.

A expec­ta­ti­va ago­ra é “ser campeã, botar todas elas para trás”, diz Alexan­dre. “Esse tem que ser o pen­sa­men­to cer­to de um car­navale­sco. Sabe­mos da difi­cul­dade, sabe­mos que estrear no Grupo Espe­cial é uma coisa muito difí­cil, porque vamos enfrentar grandes feras do car­naval, mas a gente vai com fé, porque nos foi dado condições de faz­er um car­naval para dis­putar de igual para igual”.

“Geral­mente, cria-se um par­a­dig­ma de que a esco­la que subiu tem que brigar para não descer. Na ver­dade, não quer­e­mos ter esse pen­sa­men­to. Quer­e­mos brigar para ser campeões, para con­quis­tar um lugar no G6, o grupo das seis esco­las que retor­nam para o Des­file das Campeãs”, con­tin­ua Lucas. “Esse des­file cri­amos com uma expec­ta­ti­va muito grande, porque obvi­a­mente mar­ca esse grande retorno da esco­la ao grupo espe­cial, mas, aci­ma de tudo, acho que é um grande pre­sente que esta­mos dan­do para a comu­nidade da Vila Vin­tém, que esteve conosco todos ess­es anos”.

*Estag­iária sob super­visão de Viní­cius Lis­boa

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