...
quarta-feira ,28 fevereiro 2024
Home / Entretenimento / Ensaios técnicos levam emoção do público às escolas de samba do Rio

Ensaios técnicos levam emoção do público às escolas de samba do Rio

Repro­du­ção: © Ale­xan­dre Macieira/Riotur

Grandes nomes das agremiações destacam envolvimento das comunidades


Publi­ca­do em 20/01/2024 — 10:57 Por Cris­ti­na Indio do Bra­sil – Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — Rio de Janei­ro

ouvir:

O sen­ti­men­to do públi­co nos ensai­os téc­ni­cos das esco­las do Gru­po Espe­ci­al do Rio de Janei­ro tem rela­ção dire­ta com seu envol­vi­men­to em cada agre­mi­a­ção que se apre­sen­ta no Sam­bó­dro­mo na pre­pa­ra­ção para os des­fi­les ofi­ci­ais duran­te o car­na­val. Este ano, a pri­mei­ra a com­pro­var isso foi a Uni­dos do Por­to da Pedra, que teve a res­pon­sa­bi­li­da­de de abrir no domin­go (7) os ensai­os téc­ni­cos de 2024 e levou para as arqui­ban­ca­das o seu públi­co fiel.

Como cam­peã em 2023 do gru­po da Série Ouro, a esco­la de São Gon­ça­lo, região metro­po­li­ta­na do Rio, con­quis­tou o direi­to de vol­tar ao pal­co da Sapu­caí nos des­fi­les da eli­te do car­na­val cari­o­ca.

Para o car­na­va­les­co Mau­ro Quin­ta­es, que está à fren­te do enre­do O Luná­rio Per­pé­tuo: A Pro­fé­ti­ca do Saber Popu­lar, da ver­me­lho e bran­co para 2024, o apron­to da Por­to da Pedra nes­te ano agra­dou e mos­trou o envol­vi­men­to da comu­ni­da­de de São Gon­ça­lo.

“O des­fi­le da Por­to da Pedra foi mui­to gra­ti­fi­can­te por­que trou­xe a visão de que real­men­te esco­lhe­mos o sam­ba cer­to. Trou­xe a visão de que real­men­te a comu­ni­da­de de São Gon­ça­lo está com o sam­ba na pon­ta da lín­gua e can­ta com mui­ta pai­xão. O resul­ta­do foi mui­to posi­ti­vo nos que­si­tos téc­ni­cos e o ensaio, satis­fa­tó­rio não só para mim, como artis­ta e car­na­va­les­co, mas tam­bém para toda a dire­ção da esco­la”, dis­se Quin­ta­es à Agên­cia Bra­sil.

Segun­do o car­na­va­les­co, o ensaio téc­ni­co repre­sen­ta trei­no, coor­de­na­ção, acer­to de erros, sur­pre­sas e ser­ve para que a dire­ção da esco­la e os com­po­nen­tes tenham uma peque­na noção do que vai ser fei­to na ave­ni­da, prin­ci­pal­men­te em ter­mos de cro­no­me­tra­gem, e as apre­sen­ta­ções da comis­são de fren­te e casal de mes­tre-sala e por­ta-ban­dei­ra, além da bate­ria.

Quin­ta­es dis­se que é fã do ensaio téc­ni­co, que con­si­de­ra mui­to neces­sá­rio. Para ele, seria melhor haver mais ensai­os téc­ni­cos duran­te o ano. “O ide­al seria mais de um, mas, na impos­si­bi­li­da­de, este nos­so ensaio úni­co foi mara­vi­lho­so. A Por­to da Pedra está pre­pa­ra­dís­si­ma. Peço que olhem e cur­tam o des­fi­le da Por­to da Pedra com o enre­do O Luná­rio Per­pé­tuo: A Pro­fé­ti­ca do Saber Popu­lar”, reco­men­dou ani­ma­do.

Em 1992, Sel­mi­nha Sor­ri­so for­mou com Clau­di­nho o casal de mes­tre-sala e por­ta-ban­dei­ra Está­cio de Sá. E foram cam­peões logo na estreia. Em 1996 trans­fe­ri­ram-se para a Bei­ja-Flor, onde estão até hoje e com nove cam­pe­o­na­tos da azul e bran­co de Niló­po­lis. Embo­ra veja um aumen­to de rigi­dez na estru­tu­ra dos ensai­os téc­ni­cos com o pas­sar dos anos, Sel­mi­nha afir­mou que o envol­vi­men­to do públi­co per­ma­ne­ce.

“É um povo que inte­ra­ge mais. São pes­so­as que, na mai­o­ria, não têm opor­tu­ni­da­de de ir ao des­fi­le ofi­ci­al e que ficam espe­ran­do os ensai­os para ter um entre­te­ni­men­to, uma ale­gria, um momen­to de pas­se­ar. É gra­tui­to e tem segu­ran­ça, tem amor. Quem gos­ta de sam­ba mes­mo, gos­ta mui­to de ir ao ensaio téc­ni­co. As comu­ni­da­des vão em peso. Quem é do mor­ro des­ce o mor­ro, quem é da Bai­xa­da vai para o cen­tro [onde se loca­li­za o Sam­bó­dro­mo]. É uma coi­sa mui­to mági­ca”, dis­se à Agên­cia Bra­sil.

Foi o envol­vi­men­to do públi­co que deu for­ça à expe­ri­en­te por­ta-ban­dei­ra em um momen­to de difi­cul­da­de que pas­sou em 2015. “Já tive a situ­a­ção do ensaio téc­ni­co mudar a minha his­tó­ria. O públi­co gri­tar e ova­ci­o­nar a Sel­mi­nha em um momen­to em que eu pre­ci­sa­va mes­mo de cari­nho. Acho que a dan­ça con­ta­gi­ou e eles dizi­am: ‘esta é a Sel­mi­nha’, gri­ta­vam o meu nome. É mara­vi­lho­so, eu me emo­ci­o­no sem­pre. Foi mui­to impor­tan­te. Aque­le momen­to fez mui­ta dife­ren­ça na minha car­rei­ra“, lem­brou Sel­mi­nha. “O ensaio téc­ni­co é um momen­to de con­gra­ça­men­to das pes­so­as sim­ples de comu­ni­da­des que vão ali reve­ren­ci­ar os seus ído­los.”

Bateria

Mocidade Independente de Padre Miguel- Ensaio Técnico - Foto: Alexandre Macieira/Riotur
Repro­du­ção: Bate­ria da Moci­da­de Inde­pen­den­te de Padre Miguel faz ensaio téc­ni­co para o car­na­val — Ale­xan­dre Macieira/Riotur

A rigi­dez da orga­ni­za­ção dos ensai­os con­tras­ta com a des­con­tra­ção do públi­co des­per­ta­da pela bate­ria das esco­las. A entra­da dos rit­mis­tas na ave­ni­da sem­pre pro­vo­ca empol­ga­ção nas arqui­ban­ca­das. A inte­ra­ção do públi­co com os rit­mis­tas é evi­den­te. “A sen­sa­ção é de que você pode cola­bo­rar para a ale­gria do povo. Isso é mui­to baca­na. Eu gos­to mui­to, por­que ali está o ver­da­dei­ro sam­ba. Aque­le públi­co que está ali não vai ao des­fi­le ofi­ci­al e se emo­ci­o­na com a gen­te”, res­sal­tou Mes­tre Ciça, dire­tor de bate­ria da Vira­dou­ro, em entre­vis­ta à Agên­cia Bra­sil.

Para o jor­na­lis­ta Fábio Faba­to, his­to­ri­a­dor e autor da sinop­se do enre­do Pede Caju que Dou… Pé de Caju que Dá!, da Moci­da­de Inde­pen­den­te de Padre Miguel em 2024, o envol­vi­men­to ocor­re por­que tem a pre­sen­ça do públi­co de fato das esco­las de sam­ba, que vive as agre­mi­a­ções o ano intei­ro e não tem dinhei­ro para pagar o ingres­so dos des­fi­les ofi­ci­ais.

“É um espe­tá­cu­lo mui­to mais quen­te e vol­ta­do às esco­las de sam­ba no ano intei­ro. O públi­co que vai para o Sam­bó­dro­mo, que tem dinhei­ro para pagar, não é o públi­co das esco­las de sam­ba. Por isso, temos uma cer­ta dife­ren­ça de com­por­ta­men­to no ensaio téc­ni­co e no des­fi­le ofi­ci­al. O públi­co do ensaio téc­ni­co can­ta o sam­ba saben­do a letra, fica mui­to mais envol­vi­do, por­que há uma ques­tão pas­si­o­nal mes­mo. Ele está ali por­que ama esco­la de sam­ba. É uma sen­sa­ção com­ple­ta­men­te dife­ren­te, é úni­ca e mági­ca por­que con­se­gue uma acla­ma­ção popu­lar natu­ral”, dis­se Faba­to em entre­vis­ta à repor­ta­gem.

Segun­do Faba­to, o públi­co can­ta até sem sis­te­ma de som. “O públi­co levou no gogó o sam­ba da Moci­da­de, ou seja, era o públi­co dela e apai­xo­na­do por ela, que con­so­me as suas infor­ma­ções o ano intei­ro”, con­cluiu.

No mes­mo dia do ensaio téc­ni­co da Por­to da Pedra, a Moci­da­de enfren­tou falhas no car­ro de som usa­do pela orga­ni­za­ção. Depois de recla­ma­ção da esco­la, em reu­nião ple­ná­ria, a Liga das Esco­las de Sam­ba do Rio de Janei­ro (Lie­sa) deter­mi­nou que have­ria outra data para a esco­la fazer seu ensaio téc­ni­co. A apre­sen­ta­ção será nes­te domin­go (21) às 18h30, ante­ce­den­do os ensai­os da Paraí­so do Tuiu­ti, às 20h30; e do Sal­guei­ro, às 22h. Pelo menos, é o que está pre­vis­to, caso os ensai­os não sejam sus­pen­sos por cau­sa da chu­va, o que já ocor­reu no fim de sema­na ante­ri­or.

Mudanças

No tem­po que tem de ave­ni­da, Sel­mi­nha pôde per­ce­ber as alte­ra­ções que ocor­re­ram nos ensai­os téc­ni­cos. “Nós podía­mos ir e vol­tar, parar para cor­ri­gir, con­ver­sar. Hoje, não. A cobran­ça é mai­or até pela rede soci­al. Com um tele­fo­ne à mão, todo mun­do é jura­do e jor­na­lis­ta e quer dar o seu pita­co. Tinha um tem­po em que você podia fazer cor­re­ções e tes­tar o que ensai­a­va o ano intei­ro para, no dia, fazer o melhor pos­sí­vel. Ago­ra os ensai­os têm uma cer­ta cobran­ça e pare­ce até que vira­ram uma dis­pu­ta, e na ver­da­de era para se pre­pa­rar um pou­co mais”, enfa­ti­zou.

Expe­ri­en­te no car­na­val, Mes­tre Ciça apon­tou tam­bém o espí­ri­to de com­pe­ti­ção que exis­te atu­al­men­te no for­ma­to dos ensai­os téc­ni­cos. “Hoje em dia, o ensaio téc­ni­co do car­na­val virou uma com­pe­ti­ção – esta é minha opi­nião. Hoje não pode nem errar no ensaio téc­ni­co por­que as pes­so­as se batem pela inter­net e pelas redes soci­ais. Na rea­li­da­de, esta­mos fazen­do um des­fi­le em que só fal­tam ale­go­ria e fan­ta­sia. A cobran­ça é mui­to gran­de, e as pes­so­as rotu­lam como ensaio téc­ni­co”, dis­se o mes­tre pre­mi­a­do, que já coman­dou tam­bém bate­ri­as na Está­cio de Sá, Uni­dos da Tiju­ca, Gran­de Rio, União da Ilha.

Para o pre­si­den­te da Lie­sa, Jor­ge Per­lin­gei­ro, as trans­for­ma­ções ocor­ri­das repre­sen­tam um avan­ço nos ensai­os téc­ni­cos. “Até uns seis, sete anos atrás, os com­po­nen­tes do ensaio téc­ni­co iam até des­cal­ços, com um cal­ção de cada cor. Hoje o ensaio téc­ni­co vem com fan­ta­si­as, cami­se­tas alu­si­vas ao enre­do. No lugar das ale­go­ri­as, colo­cam cami­nhões gran­des com pai­néis de led falan­do sobre o enre­do, enfim, com todo um apa­ra­to. O ensaio téc­ni­co hoje é um belís­si­mo espe­tá­cu­lo”, afir­mou Per­lin­gei­ro em entre­vis­ta à Agên­cia Bra­sil.

Ele adi­an­tou que está estu­dan­do uma for­ma de patro­cí­nio para cobrir par­te dos gas­tos com o des­lo­ca­men­to dos com­po­nen­tes das esco­las para o Sam­bó­dro­mo e para ban­car o cus­to dos car­ros de som usa­dos nos ensai­os téc­ni­cos. “Já há um pro­je­to para que a gen­te faça o nos­so car­ro de som”, reve­lou Per­lin­gei­ro, lem­bran­do que atu­al­men­te o ser­vi­ço é pres­ta­do por uma das três melho­res empre­sas do mun­do em sono­ri­za­ção, com um cus­to mui­to ele­va­do. Ele não reve­lou, porém, o valor.

Edi­ção: Nádia Fran­co

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Temporal no estado do Rio deixou pelo menos nove mortos

Repro­du­ção: © Fer­nan­do Frazão/Agência Bra­sil Secretários discutiram com prefeitos medidas para reduzir impactos Publi­ca­do em …