...
terça-feira ,18 junho 2024
Home / Noticias do Mundo / Entenda o que foi a Nakba, a catástrofe do povo palestino

Entenda o que foi a Nakba, a catástrofe do povo palestino

Repro­du­ção: © Reuters/Majdi Fathl

Palestinos tiveram de viver como refugiados com criação de Israel


Publi­ca­do em 04/11/2023 — 10:11 Por Lucas Por­deus León — Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — Bra­sí­lia

ouvir:

O con­fli­to no Ori­en­te Médio envol­ven­do pales­ti­nos e isra­e­len­ses tem entre suas raí­zes a cri­a­ção do Esta­do de Isra­el que — para os pales­ti­nos – cau­sou o que eles cha­mam de Nak­ba, que em ára­be sig­ni­fi­ca “catás­tro­fe” ou “desas­tre”. Por isso, para com­pre­en­der a guer­ra tra­va­da na região é pre­ci­so enten­der esse epi­só­dio que segue vivo na memó­ria do povo pales­ti­no.  

A Nak­ba é lem­bra­da todo 15 de maio, dia seguin­te ao da Inde­pen­dên­cia de Isra­el. O Esta­do de Isra­el foi decla­ra­do em 1948, a par­tir da Reso­lu­ção 181 das Nações Uni­das, que reco­men­dou a par­ti­lha da Pales­ti­na entre ára­bes e judeus.

Em con­sequên­cia, eclo­diu o que ficou conhe­ci­da como a 1ª guer­ra “ára­be-isra­e­len­se”, quan­do Síria, Jor­dâ­nia, Egi­to, Líba­no e Ira­que ini­ci­a­ram uma ofen­si­va con­tra o novo país. Como resul­ta­do des­se con­fli­to, esti­ma-se que de 700 mil a 800 mil pales­ti­nos foram expul­sos de suas ter­ras e entre 400 e 500 vilas pales­ti­nas foram des­truí­das, êxo­do for­ça­do que pas­sou a ser conhe­ci­do como Nak­ba.

Por isso, seis meses depois, em dezem­bro de 1948, a Assem­bleia-Geral da ONU apro­vou a Reso­lu­ção 194, dan­do direi­to aos pales­ti­nos refu­gi­a­dos vol­ta­rem paras suas ter­ras se assim dese­jas­sem. Porém, essa reso­lu­ção nun­ca foi cum­pri­da.

Segun­do a rela­to­ra espe­ci­al das Nações Uni­das para a Pales­ti­na Ocu­pa­da, Fran­ces­ca Alba­ne­se, cer­ca de 40% dos pales­ti­nos da Cis­jor­dâ­nia são refu­gi­a­dos des­de 1948 “que fugi­ram da vio­lên­cia que acom­pa­nhou a cri­a­ção do Esta­do de Isra­el”. Além dis­so, a mai­o­ria dos resi­den­tes da Fai­xa de Gaza é de refu­gi­a­dos ou des­cen­den­tes de refu­gi­a­dos, segun­do a espe­ci­a­lis­ta da ONU.

Des­de 1998, o pre­si­den­te da Auto­ri­da­de Naci­o­nal Pales­ti­na, Yas­ser Ara­fat, tor­nou o Nak­ba uma data ofi­ci­al no calen­dá­rio pales­ti­no. Em 2011, o Par­la­men­to isra­e­len­se apro­vou uma lei que per­mi­te a sus­pen­são de recur­sos para ins­ti­tui­ções que cele­bram o Nak­ba.

Para enten­der como o povo pales­ti­no enxer­ga a cri­a­ção do Esta­do de Isra­el, a Agên­cia Bra­sil entre­vis­tou dois espe­ci­a­lis­tas sobre o tema.

A pri­mei­ra é Soraya Mis­leh, filha de um sobre­vi­ven­te e refu­gi­a­do do Nak­ba, a jor­na­lis­ta pales­ti­no-bra­si­lei­ra é mes­tre e dou­to­ra em estu­dos ára­bes e dire­to­ra do Ins­ti­tu­to da Cul­tu­ra Ára­be. O pai de Mis­leh, Abder Raouf, tinha ape­nas 13 anos quan­do foi expul­so jun­to com toda a famí­lia da aldeia Qaqun, na Pales­ti­na.

O segun­do entre­vis­ta­do é o pro­fes­sor de His­tó­ria da Uni­ver­si­da­de Fede­ral Flu­mi­nen­se (UFF), Ber­nar­do Kocher, espe­ci­a­lis­ta em his­tó­ria con­tem­po­râ­nea.

» Veja as entre­vis­tas abai­xo:

 

Agên­cia Bra­sil: O que foi a Nak­ba?

Soraya Mis­leh: A pedra fun­da­men­tal da Nak­ba é a for­ma­ção do Esta­do de Isra­el medi­an­te lim­pe­za étni­ca pla­ne­ja­da. A cons­tru­ção des­sa Nak­ba é um pro­je­to colo­ni­al que come­çou no fim do sécu­lo 19 com o sur­gi­men­to do sio­nis­mo polí­ti­co moder­no e que visa­va a con­quis­ta da ter­ra e do tra­ba­lho na Pales­ti­na his­tó­ri­ca, via o que eles cha­ma­vam de trans­fe­rên­cia popu­la­ci­o­nal. Afi­nal, no  final do sécu­lo 19, tinha só 6% de judeus na Pales­ti­na.

 

Jornalista palestino-brasileira Soraya Misleh
Repro­du­ção; Jor­na­lis­ta pales­ti­no-bra­si­lei­ra Soraya Mis­leh — Rove­na Rosa/Agência Bra­sil

O que acon­te­cia? Cada vez que eles che­ga­vam lá cons­ti­tuíam um colo­na­to, um assen­ta­men­to, expul­san­do os pales­ti­nos nati­vos. Além dis­so, cada vez que se esta­be­le­cia uma fábri­ca ou um ser­vi­ço, o tra­ba­lho era exclu­si­vo para judeus. Teve vári­as revol­tas con­tra isso. Em 1947, a ONU reco­men­dou a par­ti­lha da Pales­ti­na.

A reso­lu­ção [181 da ONU] foi o sinal ver­de para que aque­les pla­nos de lim­pe­za étni­ca fos­sem exe­cu­ta­dos. Em segui­da, come­çou a fase mais agres­si­va da expul­são dos pales­ti­nos. Teve vári­os geno­cí­di­os.

O caso clás­si­co era o que acon­te­ceu com a aldeia da minha famí­lia, que tinha 2 mil habi­tan­tes e vivia de agri­cul­tu­ra de sub­sis­tên­cia. Eles cer­ca­vam as aldei­as por três lados e dei­xan­do uma úni­ca saí­da para as pes­so­as irem embo­ra. Em segui­da, bom­bar­de­a­vam o cen­tro da aldeia — que era a pra­ça onde esta­va a esco­la, a Mes­qui­ta, a vida comu­ni­tá­ria — mata­vam algu­mas pes­so­as, tam­bém teve casos de estu­pros. Em con­sequên­cia, foram 800 mil pales­ti­nos expul­sos e mais de 500 aldei­as des­truí­das. Des­de então, a soci­e­da­de está intei­ra­men­te frag­men­ta­da e se ini­ci­ou o pro­ble­ma dos refu­gi­a­dos.

» Enten­da o que é o sio­nis­mo, movi­men­to que dá ori­gem ao Esta­do de Isra­el

Ber­nar­do Kocher: É um con­tra­pon­to à feli­ci­da­de que os isra­e­len­ses demons­tra­ram ao cri­ar seu Esta­do naci­o­nal. Com a par­ti­lha da ONU em maio de 1947, foi decla­ra­da a inde­pen­dên­cia de Isra­el e as ter­ras que os isra­e­len­ses rece­be­ram tinham 50% de ára­bes. Com isso, os pales­ti­nos e o mun­do ára­be ques­ti­o­na­ram, como é que pode um Esta­do judeu cri­a­do com a meta­de da popu­la­ção de não judeus?

A reso­lu­ção da par­ti­lha, da qual o Bra­sil pre­si­diu com o minis­tro Oswal­do Ara­nha, foi um equí­vo­co bru­tal. Ela deu as melho­res ter­ras aos isra­e­len­ses e, a par­tir de 1947, os isra­e­len­ses, que já vinham fazen­do isso len­ta­men­te, ace­le­ra­ram o pro­ces­so de expul­são de pales­ti­nos e de inva­são de aldei­as com mas­sa­cres e ações ter­ro­ris­tas. Por­tan­to, isra­e­len­ses apre­sen­tam isso como um fei­to e os pales­ti­nos, que foram expul­sos, come­ça­ram a cha­mar a Inde­pen­dên­cia de Isra­el como Nak­ba.

É uma for­ma de man­ter essa memó­ria por­que mui­tas matan­ças foram fei­tas, aldei­as intei­ras foram dizi­ma­das. Um dos exem­plos mais conhe­ci­dos foi o mas­sa­cre da aldeia de Deyr Yas­sin por gru­pos ter­ro­ris­tas. Vári­os des­ses gru­pos ter­ro­ris­tas depois foram incor­po­ra­dos ao Exér­ci­to de Isra­el. A Nak­ba é a for­ma dos pales­ti­nos cha­ma­rem o iní­cio de sua diás­po­ra.

 

Agên­cia Bra­sil: E a comu­ni­da­de inter­na­ci­o­nal como rea­giu a esses fatos?

Soraya Mis­leh: Infe­liz­men­te, o mun­do sau­dou a colo­ni­za­ção que resul­tou na catás­tro­fe pales­ti­na. O mun­do havia aca­ba­do de sair das atro­ci­da­des do nazis­mo na Euro­pa e me pare­ce que os euro­peus, para expi­ar sua pró­pria cul­pa pelo que acon­te­ceu no Holo­caus­to, deci­di­ram que as vidas pales­ti­nas não impor­ta­vam.

Foi uma deci­são que não levou em con­ta a vida dos pales­ti­nos. Infe­liz­men­te, a cum­pli­ci­da­de inter­na­ci­o­nal em rela­ção ao que acon­te­ce com os pales­ti­nos é his­tó­ri­ca, des­de antes de 1948, e con­ti­nua até hoje.

03/10/2023, Professor de Relações Internacionais Bernardo Kocher comenta ataque em Nice. Foto: Frame/ TV Brasil
Repro­du­ção: pro­fes­sor de Rela­ções Inter­na­ci­o­nais Ber­nar­do Kocher. Foto: Frame/ TV Bra­sil

Kocher: Se não faz nada hoje, você acha que em 1948 que não havia mei­os de comu­ni­ca­ção faria? O silên­cio foi ain­da mai­or, por­que Isra­el teve o apoio inclu­si­ve da União Sovié­ti­ca, que enxer­ga­va o Esta­do de Isra­el como uma opo­si­ção ao impe­ri­a­lis­mo inglês.

Os Esta­dos Uni­dos apoi­a­vam, mas não tinham o poder que têm hoje. A Euro­pa, por cau­sa do pro­ble­ma de cons­ci­ên­cia do Holo­caus­to, tam­bém apoi­a­va; o Bra­sil apoi­ou, a Amé­ri­ca Lati­na apoi­ou.

Naque­la épo­ca, pare­cia uma coi­sa pro­gres­sis­ta. Então, a ques­tão Pales­ti­na foi invi­si­bi­li­za­da e aca­bou tra­ta­da por paí­ses como Egi­to, a Jor­dâ­nia e a Síria, que eram os mai­o­res ini­mi­gos de Isra­el. Mas, com o tem­po, eles foram neu­tra­li­za­dos ou der­ro­ta­dos por Isra­el. A ques­tão Pales­ti­na ficou aban­do­na­da até a cri­a­ção da Orga­ni­za­ção pela Liber­ta­ção da Pales­ti­na (OLP), na déca­da de 1960.

 

Agên­cia Bra­sil: Qual a impor­tân­cia e o sig­ni­fi­ca­do que o povo pales­ti­no dá a Nak­ba?

Soraya Mis­leh: Sig­ni­fi­ca o pre­sen­te na vida dos pales­ti­nos. A Nak­ba não aca­bou. O pas­sa­do para os pales­ti­nos é o pre­sen­te. Essa Nak­ba con­ti­nua pre­sen­te todos os dias e é a ame­a­ça de apa­ga­men­to exis­ten­ci­al do futu­ro. Meu pai con­ta­va como era a Pales­ti­na antes de 1948. Meu pai é uma víti­ma e um sobre­vi­ven­te da Nak­ba.

Ele fala­va sem­pre como eles leva­vam uma vida sim­ples, mas feliz. Não tinha tran­ca nas por­tas e a gen­te cor­ria por aque­le ver­de, tudo o que a gen­te pre­ci­sa­va a ter­ra dava. Era uma vida mui­to comu­ni­tá­ria.

Kocher: Você já deve ter vis­to os pales­ti­nos por­tan­do aque­las gran­des cha­ves anti­gas. É a cha­ve de casa que eles espe­ram algum dia vol­tar. Eles enxer­gam esse pro­ces­so de uma for­ma mui­to lúci­da, sem nenhu­ma ilu­são.

Nós que esta­mos lon­ge des­se con­fli­to, e os euro­peus que fin­gem que não veem, olhá­va­mos para a situ­a­ção de uma for­ma mui­to roman­ti­za­da sobre o que é Isra­el.

Para os pales­ti­nos, não foi dado esse direi­to de roman­ti­zar essa his­tó­ria e todos eles têm uma cons­ci­ên­cia mui­to cla­ra do que se pas­sou.

Agên­cia Bra­sil: Acre­di­ta que a deman­da de retor­no dos pales­ti­nos expul­sos na Nak­ba invi­a­bi­li­za um acor­do de paz com Isra­el?

Soraya Mis­leh: Sim, mas isso é um direi­to ina­li­e­ná­vel e ine­go­ciá­vel do povo pales­ti­no reco­nhe­ci­do pela ONU na sua Reso­lu­ção 194. Isra­el não quer a paz. Não exis­te paz sem jus­ti­ça para a tota­li­da­de do povo pales­ti­no. Você tem 6 milhões de pales­ti­nos em cam­pos de refu­gi­a­dos, milha­res na diás­po­ra, e se você não reco­nhe­ce o direi­to huma­no inter­na­ci­o­nal ao retor­no à ter­ra, não há qual­quer tipo de acor­do.

O his­to­ri­a­dor isra­e­len­se Ilan Pap­pé está falan­do há mui­tos anos que essa apre­go­a­da solu­ção de dois Esta­dos está mor­ta pela expan­são colo­ni­al agres­si­va isra­e­len­se.

Kocher: Os judeus foram expul­sos no sécu­lo 3 antes de Cris­to da Pales­ti­na pelos roma­nos e vol­ta­ram 2 mil anos depois. Os pales­ti­nos foram expul­sos há 75 anos, por que eles não podem vol­tar? A ques­tão não é o retor­no, mas sim que Isra­el vai ter que abdi­car de ter­ras e é um volu­me de ter­ras mui­to gran­de.

A gen­te está con­ver­san­do aqui e eles estão ocu­pan­do algum peda­ço da Cis­jor­dâ­nia ou de Jeru­sa­lém Ori­en­tal. Como fazer os isra­e­len­ses para­rem e devol­ve­rem as ter­ras? Não sei exa­ta­men­te como isso vai ser fei­to.

Edi­ção: Caro­li­na Pimen­tel

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Brasil repudia massacre de palestinos famintos: “situação intolerável”

Repro­du­ção: © Fotos REUTERS/Shadi  Taba­ti­bi Em nota, Itamaraty diz que ação não tem qualquer limite …