...
sábado ,15 junho 2024
Home / Economia / Entenda o que muda se a taxação de compras até US$ 50 for aprovada

Entenda o que muda se a taxação de compras até US$ 50 for aprovada

Repro­du­ção: © Joéd­son Alves/Agência Bra­sil

Cobrança deve ser votada no Senado nesta semana


Publicado em 02/06/2024 — 10:30 Por Bruno de Freitas Moura — Repórter da Agência Brasil — Rio de Janeiro

A cobran­ça de Impos­to de Impor­ta­ção para com­pras de até US$ 50 (equi­va­len­te a cer­ca de R$ 260) deve ser vota­da pelo Sena­do nes­ta sema­na, de acor­do com o pre­si­den­te da Casa, Rodri­go Pache­co (PSD-MG). O tri­bu­to impac­ta, prin­ci­pal­men­te, com­pras de itens de ves­tuá­rio femi­ni­no por meio de vare­jis­tas inter­na­ci­o­nais.

Agên­cia Bra­sil pre­pa­rou uma repor­ta­gem para expli­car o que muda­rá caso a cobran­ça seja apro­va­da e vire lei, a cro­no­lo­gia que envol­ve esse deba­te e o que defen­dem os que são con­tra e a favor.

Projeto de lei

A cobran­ça de impos­to nas com­pras inter­na­ci­o­nais até US$ 50 faz par­te do Pro­je­to de Lei (PL) 914/24, que che­gou ao Sena­do na últi­ma quar­ta-fei­ra (29), um dia depois de ter sido apro­va­do pela Câma­ra dos Depu­ta­dos.

Ori­gi­nal­men­te, o PL tra­ta do Pro­gra­ma Mobi­li­da­de Ver­de e Ino­va­ção (Mover), des­ti­na­do ao desen­vol­vi­men­to de tec­no­lo­gi­as para pro­du­ção de veí­cu­los que emi­tam menos gases de efei­to estu­fa. A taxa­ção das com­pras inter­na­ci­o­nais foi incluí­da no PL por deci­são do depu­ta­do Áti­la Lira (PP-PI), rela­tor da maté­ria.

Assim que che­gou ao Sena­do, o líder do Gover­no, sena­dor Jaques Wag­ner (PT-BA), reque­reu que a tra­mi­ta­ção seja em regi­me de urgên­cia, o que apres­sa a vota­ção. O pre­si­den­te da Casa infor­mou que con­sul­ta­rá as lide­ran­ças par­ti­dá­ri­as para que se defi­na se o pro­je­to tra­mi­ta­rá com ou sem urgên­cia.

O que mudaria

A medi­da apro­va­da pelos depu­ta­dos deter­mi­na que com­pras inter­na­ci­o­nais de até US$ 50 pas­sa­rão a ter a cobran­ça do Impos­to de Impor­ta­ção (II), com alí­quo­ta de 20%.

Com­pras den­tro des­se limi­te são mui­to comuns em sites de vare­jis­tas estran­gei­ros, nota­da­men­te do Sudes­te Asiá­ti­co, como Sho­pee, Ali­Ex­press e Shein.

Essas pla­ta­for­mas são cha­ma­das de mar­ket pla­ce, ou seja, uma gran­de vitri­ne de pro­du­tos de ter­cei­ros, e os pre­ços cos­tu­mam ser bem mais bara­tos que os de fabri­can­tes bra­si­lei­ros.

A cobran­ça tra­ta­da pelo PL é um tri­bu­to fede­ral. Fora isso, as com­pras den­tro des­se limi­te de US$ 50 rece­bem alí­quo­ta de 17% do Impos­to sobre Cir­cu­la­ção de Mer­ca­do­ri­as e Ser­vi­ços (ICMS), um encar­go esta­du­al.

Des­sa for­ma, o con­su­mi­dor que com­prar um pro­du­to de R$ 100 (já incluí­dos fre­te e segu­ro) teria que pagar a alí­quo­ta do Impos­to de Impor­ta­ção mais o ICMS, o que leva­ria o pre­ço final para R$ 140,40.

Pelo PL, cobran­ças aci­ma de US$ 50 e até US$ 3 mil terão alí­quo­ta de 60% com des­con­to de US$ 20 (cer­ca de R$ 100) do tri­bu­to a pagar.

ARTE Taxa de importação compras até R$ 50
Repro­du­ção: Arte/EBC

Negociação

Se pas­sar pelas duas casas legis­la­ti­vas, a medi­da pre­ci­sa­rá do aval da Pre­si­dên­cia da Repú­bli­ca para entrar em vigor.

Na sex­ta-fei­ra (31), o vice-pre­si­den­te e minis­tro do Desen­vol­vi­men­to, Indús­tria, Comér­cio e Ser­vi­ços, Geral­do Alck­min, afir­mou que o PL é resul­ta­do de uma nego­ci­a­ção entre quem defen­dia isen­ção e quem dese­ja­va alí­quo­ta de 60% para qual­quer valor.

Segun­do Alck­min, o tex­to que foi para vota­ção “aten­de par­ci­al­men­te” à indús­tria. O vice-pre­si­den­te dis­se ain­da que acre­di­ta que o PL terá o aval do pre­si­den­te Luiz Iná­cio Lula da Sil­va.

“O meu enten­di­men­to é que ele não veta­rá, por­que isso foi apro­va­do pra­ti­ca­men­te por una­ni­mi­da­de. Foi um acor­do de todos os par­ti­dos polí­ti­cos. Acho que foi um acor­do inte­li­gen­te, não vai one­rar tan­to quem está com­pran­do um pro­du­to de fora, mas vai fazer dife­ren­ça para pre­ser­var empre­go e ren­da aqui”, afir­mou em entre­vis­ta à Band­News TV.

No últi­mo dia 23, ou seja, antes da apro­va­ção pela Câma­ra dos Depu­ta­dos, o pre­si­den­te Lula tinha dito, em con­ver­sa com jor­na­lis­tas, que “a ten­dên­cia é vetar, mas a ten­dên­cia tam­bém pode ser nego­ci­ar”. Lula acres­cen­tou que esta­va dis­po­ní­vel para dis­cu­tir o tema com o pre­si­den­te da Câma­ra, Arthur Lira (PP-AL).

Como é atualmente

O deba­te sobre a taxa­ção se ini­ci­ou em abril de 2023. Seria uma for­ma de o gover­no impe­dir que empre­sas bur­las­sem a Recei­ta Fede­ral, isso por­que remes­sas entre pes­so­as físi­cas até US$ 50, sem fins comer­ci­ais, não eram tri­bu­ta­das, e empre­sas esta­ri­am fazen­do ven­das como se fos­sem envi­os de pes­so­as físi­cas.

Além dis­so, vare­jis­tas bra­si­lei­ras pedi­am por algu­ma for­ma de cobran­ça des­ses pro­du­tos estran­gei­ros, ale­gan­do con­cor­rên­cia des­le­al.

O anún­cio da cobran­ça atraiu rea­ções con­trá­ri­as. Des­sa for­ma, o gover­no cri­ou o pro­gra­ma Remes­sa Con­for­me, que pas­sou a valer em 1º de agos­to de 2023. Empre­sas que ade­ri­ram à regu­la­men­ta­ção fica­ram isen­tas de cobran­ça de impos­to em pro­du­tos até US$ 50, des­de que obe­de­ces­sem a uma série de nor­mas, como dar trans­pa­rên­cia sobre a ori­gem do pro­du­to, dados do reme­ten­te e dis­cri­mi­na­ção de cobran­ças, como o ICMS e fre­te, para o con­su­mi­dor saber exa­ta­men­te quan­to esta­va pagan­do em cada um des­ses itens.

Um dos efei­tos do pro­gra­ma, que teve a anuên­cia das prin­ci­pais empre­sas de mar­ket pla­ce, é que as entre­gas fica­ram mais rápi­das, pois a fis­ca­li­za­ção da Recei­ta Fede­ral ficou mais fácil com as infor­ma­ções for­ne­ci­das pelas empre­sas.

De acor­do com o minis­tro da Fazen­da, Fer­nan­do Had­dad, o Remes­sa Con­for­me deu mais trans­pa­rên­cia para as com­pras inter­na­ci­o­nais. “O Remes­sa Con­for­me é para dar trans­pa­rên­cia para o pro­ble­ma. Saber quan­tos paco­tes estão entran­do, quan­to cus­ta, quem está com­pran­do”, dis­se na Comis­são de Finan­ças e Tri­bu­ta­ção da Câma­ra dos Depu­ta­dos na últi­ma quar­ta-fei­ra (22).

Itens entre US$ 50 e US$ 3 mil con­ti­nu­a­ram com alí­quo­ta de 60%. Aci­ma des­se valor, a impor­ta­ção é proi­bi­da pelos Cor­rei­os e por trans­por­ta­do­ras pri­va­das.

Empresas brasileiras

A isen­ção pro­por­ci­o­na­da pelo Remes­sa Con­for­me inco­mo­dou seto­res da indús­tria e do comér­cio no Bra­sil. Enti­da­des repre­sen­ta­ti­vas apon­tam que a não cobran­ça de impos­tos per­mi­te um dese­qui­lí­brio na con­cor­rên­cia, que favo­re­ce empre­sas estran­gei­ras.

Ain­da antes do iní­cio do Remes­sa Con­for­me, a Con­fe­de­ra­ção Naci­o­nal da Indús­tria (CNI) e o Ins­ti­tu­to para Desen­vol­vi­men­to do Vare­jo (IDV) apre­sen­tam ao minis­tro Had­dad um estu­do que esti­ma­va até 2,5 milhões de demis­sões por cau­sa da isen­ção para empre­sas de fora do país.

Varejista chinesa

Após a apro­va­ção do PL 914/24 na Câma­ra dos Depu­ta­dos, a empre­sa chi­ne­sa Shein, uma das prin­ci­pais bene­fi­ci­a­das pela isen­ção, cha­mou a apro­va­ção de “retro­ces­so”. Apon­tan­do que 88% dos cli­en­tes da com­pa­nhia são das clas­ses C, D e E, a vare­jis­ta afir­mou ver ris­co para os con­su­mi­do­res.

“Com o fim da isen­ção, a car­ga tri­bu­tá­ria que recai­rá sob o con­su­mi­dor final pas­sa­rá a ser de 44,5%, o que com a isen­ção se man­ti­nha em tor­no de 20,82% devi­do à cobran­ça do ICMS, no valor de 17%. Ou seja, um ves­ti­do que o con­su­mi­dor da Shein com­pra­va no site por R$ 81,99 (com ICMS de 17% inclu­so) ago­ra cus­ta­rá mais de 98 reais com a nova car­ga tri­bu­tá­ria, for­ma­da pelo Impos­to de Impor­ta­ção de 20% mais o ICMS de 17%”, esti­mou em nota.

“A Shein rea­fir­ma o seu com­pro­mis­so com o con­su­mi­dor e refor­ça que segui­rá dia­lo­gan­do e tra­ba­lhan­do jun­to ao gover­no e demais par­tes inte­res­sa­das para encon­trar cami­nhos que pos­sam via­bi­li­zar o aces­so da popu­la­ção para que con­ti­nue ten­do aces­so ao mer­ca­do glo­bal.”

A vare­jis­ta tam­bém mini­mi­zou a rele­vân­cia do comér­cio ele­trô­ni­co a par­tir de empre­sas estran­gei­ras. “Estu­dos apon­tam que o e‑commerce, no geral, repre­sen­ta entre 10% e 15% do vare­jo naci­o­nal. Enquan­to isso, a par­ce­la do e‑commerce de pla­ta­for­mas inter­na­ci­o­nais não alcan­ça­ria mais do que 0,5% do vare­jo naci­o­nal, de acor­do com estu­do de 2024 da Ten­dên­ci­as Con­sul­to­ria.”

Entidades brasileiras

Ao defen­der que não haja isen­ção para empre­sas estran­gei­ras, a Con­fe­de­ra­ção Naci­o­nal do Comér­cio de Bens, Ser­vi­ços e Turis­mo (CNC) apre­sen­tou na últi­ma segun­da-fei­ra (27) um estu­do fei­to com dados da Secre­ta­ria de Comér­cio Exte­ri­or (Secex), do Minis­té­rio do Desen­vol­vi­men­to, Indús­tria, Comér­cio e Ser­vi­ços (MDIC).

Segun­do o levan­ta­men­to, a quan­ti­da­de de itens de bens de con­su­mo com valor de impor­ta­ção de até US$ 50 por uni­da­de cres­ceu 35% em 2023 em rela­ção a 2022. Lide­ra­ram as enco­men­das pro­du­tos ori­gi­ná­ri­os da Chi­na (51,8% do total). O seg­men­to com mai­or aumen­to foi o de itens de ves­tuá­rio femi­ni­no, como cal­ças, ber­mu­das e shorts (alta de 407,4%).

“A isen­ção até US$ 50 é uma ofen­sa ao empre­sá­rio bra­si­lei­ro, que é o res­pon­sá­vel por gerar empre­go, ren­da e impos­tos para a eco­no­mia bra­si­lei­ra”, cri­ti­cou o eco­no­mis­ta-che­fe da CNC, Feli­pe Tava­res.

Na visão dele, a poten­ci­al per­da de empre­go no Bra­sil não com­pen­sa a opor­tu­ni­da­de de com­prar pro­du­tos mais bara­tos no exte­ri­or. “Sem empre­sas naci­o­nais, não tem tra­ba­lho. Sem tra­ba­lho, não tem ren­da. Sem ren­da, não impor­ta se aque­la blu­si­nha cus­ta R$ 1 ou R$ 1 milhão, não tem como o bra­si­lei­ro com­prar.”

Em comu­ni­ca­do con­jun­to com a CNC, a CNI clas­si­fi­ca de ine­fi­ci­en­te a apro­va­ção da alí­quo­ta de 20%.

“A deci­são de taxar em ape­nas 20% as com­pras inter­na­ci­o­nais não é sufi­ci­en­te para evi­tar a con­cor­rên­cia des­le­al, embo­ra seja um pri­mei­ro pas­so bas­tan­te tími­do em dire­ção à iso­no­mia tri­bu­tá­ria e sua equi­pa­ra­ção com a pro­du­ção naci­o­nal”, diz o comu­ni­ca­do.

A nota elen­ca como prin­ci­pais pre­ju­di­ca­dos os seto­res de pro­du­tos têx­teis, con­fec­ção de arte­fa­tos do ves­tuá­rio e aces­só­ri­os, cal­ça­dos, arte­fa­tos de cou­ro, pro­du­tos de lim­pe­za, cos­mé­ti­cos, per­fu­ma­ria e higi­e­ne pes­so­al.

A apro­va­ção da taxa­ção pelos depu­ta­dos fede­rais é “um impor­tan­te avan­ço no deba­te sobre a neces­sá­ria bus­ca de iso­no­mia tri­bu­tá­ria”, ava­lia comu­ni­ca­do con­jun­to da Asso­ci­a­ção Bra­si­lei­ra da Indús­tria Têx­til e de Con­fec­ção (Abit), Asso­ci­a­ção Bra­si­lei­ra do Vare­jo Têx­til (Abv­tex) e o IDV.

Edi­ção: Juli­a­na Andra­de

LOGO AG BRASIL

Você pode Gostar de:

Desenrola Brasil para faixa 1 não é prorrogado, informa Fazenda

Repro­du­ção: © Mar­ce­lo Camargo/Agência Bra­sil Prorrogação da MP não altera data de adesão ao programa …