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Escolas de samba foram espaço de resistência à repressão da ditadura

Repro­du­ção: © Acervo/Imperio Ser­ra­no

Censura se impôs às atividades dos sambistas


Publicado em 03/04/2024 — 08:32 Por Cristina Indio do Brasil — Repórter da Agência Brasil — Rio de Janeiro

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Con­si­de­ra­das ter­ri­tó­rio de ale­gria, diver­são e pre­ser­va­ção cul­tu­ral, as qua­dras das esco­las de sam­ba já foram locais de dor e sofri­men­to. Duran­te os anos do regi­me mili­tar, algu­mas agre­mi­a­ções aca­ba­ram se trans­for­man­do em espa­ços de resis­tên­cia da cul­tu­ra e das liber­da­des soci­ais para se con­tra­por às ações de agen­tes do gover­no fede­ral.

A repres­são e a cen­su­ra se impu­se­ram às ati­vi­da­des dos sam­bis­tas. Até aque­le momen­to as bati­das poli­ci­ais que sofri­am eram por dis­cri­mi­na­ção por­que os sam­bis­tas eram con­si­de­ra­dos uma cate­go­ria mar­gi­na­li­za­da da soci­e­da­de. Com a dita­du­ra, a situ­a­ção se agra­vou. Esco­las como Vai-Vai, Cami­sa Ver­de e Bran­co e Uni­dos do Peru­che, em São Pau­lo, e Impé­rio Ser­ra­no, no Rio de Janei­ro, além de verem suas qua­dras inva­di­das, tive­ram que bus­car mei­os para man­ter seus enre­dos e as ati­vi­da­des em comu­ni­da­de.

Aos 77 anos, o jor­na­lis­ta Fer­nan­do Pen­te­a­do, atu­al dire­tor cul­tu­ral da Vai-Vai, con­si­de­ra­do um griô ou gri­ot do sam­ba, que na cul­tu­ra afri­ca­na é a pes­soa que man­tém viva a memó­ria do gru­po, con­tan­do as his­tó­ri­as e mitos daque­le povo, lem­brou que na déca­da de 1960 o sam­ba era meio mar­gi­na­li­za­do e não tinha a acei­ta­ção públi­ca que tem atu­al­men­te. Mas, duran­te o regi­me mili­tar a per­se­gui­ção ficou mai­or, espe­ci­al­men­te, con­tra com­po­si­to­res que eram mais de esquer­da polí­ti­ca. Segun­do Pen­te­a­do, o Bixi­ga, onde a esco­la foi fun­da­da, era um bair­ro con­tes­ta­dor, o que a tor­nou mais visa­da pela repres­são.

São Paulo (SP), 22/03/2024 - O sambista emérito Fernando Penteado da velha guarda da Escola de Samba Vai Vai. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Repro­du­ção: Dire­tor cul­tu­ral da Vai-Vai, Fer­nan­do Pen­te­a­do lem­bra a per­se­gui­ção a sam­bis­tas no regi­me mili­tar — Rove­na Rosa/Agência Bra­sil

“O sam­ba na épo­ca era mar­gi­na­li­za­do, então, o ensaio, inde­pen­den­te­men­te se era na épo­ca da dita­du­ra ou não, quan­do a gen­te via uma via­tu­ra de polí­cia che­gar no domin­go à tar­de ou em uma quin­ta-fei­ra, sabía­mos que eles iam repri­mir”, con­tou à Agên­cia Bra­sil, rela­tan­do ain­da que, no fim da déca­da de 1960, quan­do com­po­nen­tes da esco­la fazi­am um ensaio, em um domin­go, em uma pra­ça da região da Bela Vis­ta, a polí­cia che­gou com vio­lên­cia.

“Entra­ram para den­tro, fura­ram os ins­tru­men­tos. Isso era em um domin­go. Na quin­ta-fei­ra, nós está­va­mos lá de novo ensai­an­do com os ins­tru­men­tos que eles fura­ram, e a gen­te encou­rou [botar peça de cou­ro no ins­tru­men­to] outra vez. Assim foi. Alguns com­po­si­to­res, que eram pre­sos por cau­sa de sam­ba-enre­do, eram pre­sos de noi­te e sol­tos de dia e iam fazer sam­ba outra vez. A con­tes­ta­ção sem­pre hou­ve”, dis­se.

De acor­do com Pen­te­a­do, outra for­ma de resis­tên­cia foram os encon­tros de sam­ba que algu­mas esco­las come­ça­ram a rea­li­zar. O pri­mei­ro foi da Cami­sa Ver­de e Bran­co, que rece­bia estu­dan­tes de uma uni­ver­si­da­de pró­xi­ma. “Eles não iam mais para os bares por­que eram fecha­dos e come­ça­ram a vir para o sam­bão. Aí foi cri­a­do o sam­ba uni­ver­si­tá­rio.”

“A nos­sa resis­tên­cia [na esco­la Vai-Vai] era fazer o que não podia. Dizi­am ‘não pode ensai­ar na Rua 13 de Maio’, era lá que a gen­te ia ensai­ar. Sabe aque­le mole­que mal­cri­a­do, que na minha épo­ca, já estou com 77 anos, era buli­ço­so. Sem­pre tinha alguém para nos defen­der, prin­ci­pal­men­te jor­na­lis­tas. A gen­te escre­via letras de enre­dos com outras pala­vras e aí pas­sa­va [na cen­su­ra]”, dis­se o dire­tor cul­tu­ral.

Ain­da con­for­me Pen­te­a­do, quan­do a Vai-Vai se trans­for­mou de cor­dão car­na­va­les­co para esco­la de sam­ba, teve a inte­gra­ção do com­po­si­tor Geral­do Fil­me, que era do Peru­che. Ele, o jor­na­lis­ta Dal­mo Pes­soa e a escri­to­ra e artis­ta plás­ti­ca Raquel Trin­da­de for­ma­ram o depar­ta­men­to cul­tu­ral. “Pes­so­as da ultra­es­quer­da for­ma­ram, aqui na Bela Vis­ta, no Vai-Vai, o pri­mei­ro depar­ta­men­to cul­tu­ral de uma esco­la de sam­ba. Isso foi em 72, 73, den­tro do regi­me mili­tar. Eles come­ça­ram a fazer enre­do no Vai-Vai com essa pers­pi­cá­cia de maqui­ar o enre­do”, des­cre­veu.

O com­po­si­tor Cláu­dio André de Sou­za, do Peru­che, con­tou que teve de pas­sar por momen­tos de apre­en­são na infân­cia. “Evi­ta­vam levar cri­an­ças nos ensai­os jus­ta­men­te com receio des­ses enfren­ta­men­tos entre com­po­nen­tes e polí­cia. A gen­te ia a ensai­os à tar­de, mas tinha um dis­tan­ci­a­men­to com as cri­an­ças. Quan­do a gen­te dizia que que­ria ir à esco­la dizi­am ‘sozi­nho você não vai’. “Mas porquê?’ ‘Por­que tem mui­ta bri­ga e polí­cia’. Foi des­sa for­ma que a gen­te acom­pa­nhou quan­do cri­an­ça”, recor­dou.

São Paulo (SP), 21/03/2024 - O compositor Cláudio André de Souza, diretor do Grêmio Recreativo Cultural Social Escola de Samba Unidos do Peruche, na quadra da escola de samba. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Repro­du­ção: Cláu­dio André, dire­tor do Peru­che, diz que com­po­si­to­res foram repri­mi­dos pelo regi­me mili­tar — Rove­na Rosa/Agência Bra­sil

Em 1972, a esco­la esco­lheu o enre­do Cha­ma­da aos Heróis da Inde­pen­dên­cia, de auto­ria de Geral­do Fil­me, e teve que pas­sar pelo cri­vo da cen­su­ra. “O seu Car­lão era pre­si­den­te na épo­ca, fize­mos o enre­do que foi um suces­so na ave­ni­da no car­na­val, e os dois foram con­vi­da­dos entre aspas a com­pa­re­ce­rem ao Dops [Depar­ta­men­to de Ordem Polí­ti­ca e Soci­al] para expli­ca­rem o enre­do que eles acha­vam sub­ver­si­vo e que o Peru­che esta­va inci­tan­do o povo a se rebe­lar con­tra o regi­me. Fica­ram uns dias lá res­pon­den­do per­gun­tas. Não fala­ram que esta­vam pre­sos, mas para ave­ri­gua­ções”, rela­tou o com­po­si­tor.

“Os com­po­si­to­res foram repri­mi­dos e tive­ram que ficar um tem­po afas­ta­dos do Uni­dos do Peru­che por­que não podi­am mais fazer sam­ba, não podi­am escre­ver”, apon­tou.

Simo­ne Tobi­as, neta de Ino­cên­cio Tobi­as, um dos fun­da­do­res da Cami­sa Ver­de e Bran­co, e filha de Car­los Alber­to Tobi­as, que foi pre­si­den­te da esco­la, lem­brou o que pas­sou. “Eu era cri­an­ça, mas lem­bro de para­rem ensaio, fura­rem ins­tru­men­tos e nem tinha um volu­me gran­de de gen­te como hoje tem. Para eles, inde­pen­dia se tinha cri­an­ça, mulher, ido­so, eles che­ga­vam com tru­cu­lên­cia e des­ci­am pau­la­das. Era uma épo­ca mui­to ten­sa. Tenho na memó­ria as cenas”, rela­tou à repor­ta­gem.

“A gen­te tinha que fazer o desen­vol­vi­men­to do tema, do enre­do, das ale­go­ri­as, e aí era sub­me­ti­do a um audi­tor fis­cal. Se eles achas­sem que tinham algu­ma coi­sa que não esta­va a con­ten­to, que não fos­se a favor do gover­no e fos­se algum pro­tes­to, não podia e tinha que mudar”, acres­cen­tou.

Simo­ne con­tou que,  embo­ra em 1982 a per­se­gui­ção aos temas da esco­la tenha come­ça­do a ficar menos inten­sa, os com­po­si­to­res ain­da pre­ci­sa­ram fazer mudan­ças na letra do enre­do daque­le ano, Negros Mara­vi­lho­sos, Mutuo Mun­do Kito­ko. As alte­ra­ções, no entan­to, não foram segui­das na ave­ni­da, e os com­po­nen­tes can­ta­ram o sam­ba ori­gi­nal.

“Óbvio que nós não ganha­mos o car­na­val. Meu pai aca­bou toman­do uns pete­le­cos. Acho que foi a pri­mei­ra gran­de gui­na­da para que a gen­te pudes­se expres­sar real­men­te. Não era só o Cami­sa, eram todas as esco­las. A gen­te não podia falar de temas que eles achas­sem polê­mi­cos”, rela­tou Simo­ne.

“Foi um perío­do bem difí­cil. Para quem viveu aqui­lo à flor da pele e quan­do se fala ‘temos que vol­tar com a dita­du­ra’, che­ga a arre­pi­ar a alma. As pes­so­as real­men­te não têm noção do que uma dita­du­ra é capaz de fazer”, apon­tou Simo­ne, lem­bran­do que a Nenê da Vila Matil­de tam­bém foi uma esco­la de sam­ba de resis­tên­cia duran­te o regi­me mili­tar.

Carnaval carioca

No Rio de Janei­ro, em ple­na vigên­cia do Ato Ins­ti­tu­ci­o­nal nº 5 (AI‑5), o Impé­rio Ser­ra­no esco­lheu um tema que se con­tra­pu­nha à dita­du­ra. Em 1969, des­fi­lou com o enre­do Heróis da Liber­da­de, com­pos­to por Silas de Oli­vei­ra, Mano Décio e Mano­el Fer­rei­ra, que defen­dia a liber­da­de por meio de mani­fes­ta­ções popu­la­res. Por isso, teve que se expli­car aos agen­tes da cen­su­ra, e os com­po­si­to­res tive­ram que alte­rar a letra do sam­ba.

Escolas de samba foram espaço de resistência à repressão da ditadura. - Escola de Samba Império Serrano - Heróis da Liberdade . Foto: Imperio Serrano/Youtube
Repro­du­ção: Esco­la de Sam­ba Impé­rio Ser­ra­no des­fi­lou com o enre­do Heróis da Liber­da­de em 1969, em meio à vigên­cia do AI‑5 — Impé­rio Serrano/YouTube

“Hou­ve, sim, repres­são aos com­po­si­to­res do Impé­rio Ser­ra­no. Eles sofre­ram per­se­gui­ção e proi­bi­ções do regi­me mui­to mais por uma ati­tu­de foca­da nes­ta resis­tên­cia indi­vi­du­a­li­za­da do que um pro­ces­so mais orga­ni­za­do de repres­são à esco­la como um todo”, con­tou à Agên­cia Bra­sil o jor­na­lis­ta e pro­fes­sor da Pon­ti­fí­cia Uni­ver­si­da­de Cató­li­ca do Rio de Janei­ro (PUC-Rio) Chi­co Otá­vio.

O pro­fes­sor de his­tó­ria Lean­dro Sil­vei­ra, mes­tre pela Uni­ver­si­da­de Fede­ral Flu­mi­nen­se (UFF) e dou­to­ran­do pela Uni­ver­si­da­de do Esta­do do Rio de Janei­ro (Uerj), lem­brou que, antes de ser enre­do do cam­pe­o­na­to da Man­guei­ra em 1998, o can­tor e com­po­si­tor Chi­co Buar­que tinha sido esco­lhi­do para tema da esco­la Cana­ri­nhos da Enge­nho­ca, de Nite­rói, na região metro­po­li­ta­na do Rio. A pre­sen­ça do home­na­ge­a­do cau­sou con­fu­são com a pre­sen­ça da polí­cia. Hoje a esco­la não exis­te mais.

“Ele [Chi­co Buar­que] veio, e a polí­cia foi atrás. Foi uma coi­sa bem ten­sa”, reve­lou Sil­vei­ra, um dos auto­res do livro Anti­ga­men­te É que Era Bom: a Folia Nite­roi­en­se entre 1900–1986.

O pro­fes­sor des­ta­cou que, duran­te o regi­me mili­tar, as esco­las de Nite­rói pre­ci­sa­vam nego­ci­ar com os agen­tes até os locais de ensaio. “Esco­la de sam­ba ensai­ar nos gran­des clu­bes aqui em Nite­rói, só se tives­se alguém que fizes­se uma pon­te com o cen­sor. Elas con­se­gui­am dri­blar um pou­co a cen­su­ra nos bair­ros, por­que a cen­su­ra não cos­tu­ma­va entrar na fave­la para repri­mir”, rela­tou.

Outra repres­são lem­bra­da por Lean­dro Sil­vei­ra nas esco­las das duas cida­des tinha como alvo o mate­ri­al de des­fi­les. “Mui­tos cro­quis e dese­nhos de fan­ta­si­as eram lite­ral­men­te proi­bi­dos, cen­su­ra­dos e tinham que fazer de novo. O que eu vejo tan­to para Nite­rói, quan­to para o Rio, é que as esco­las quan­do foram repri­mi­das tive­ram que des­fo­car as temá­ti­cas. Tem um perío­do em que a repres­são foi mai­or de 69 a 76 e os enre­dos não ver­sam mui­to sobre nada pro­gres­sis­ta”, apon­tou o his­to­ri­a­dor, acres­cen­tan­do que “o Impé­rio Ser­ra­no nun­ca per­deu a mar­ca da resis­tên­cia”.

Escolas de samba foram espaço de resistência à repressão da ditadura. - Escola de Samba Em Cima da Hora - Os Sertões. Foto: Cola na História
Repro­du­ção: Esco­la Em Cima da Hora levou para a ave­ni­da no car­na­val de 1976 o sam­ba-enre­do Os Ser­tões — Cola na His­tó­ria

Além do Impé­rio Ser­ra­no, Sil­vei­ra lem­brou que a esco­la de sam­ba Em Cima da Hora mon­tou em 1976 o enre­do Os Ser­tões, com­pos­to por Ede­or de Pau­la. Ins­pi­ra­do no clás­si­co do escri­tor Eucli­des da Cunha, o sam­ba des­ta­cou as difi­cul­da­des enfren­ta­das pelo povo no Nor­des­te: “O Homem revol­ta­do com a sorte/ do mun­do em que vivia/ Ocul­tou-se no ser­tão espa­lhan­do a rebeldia/ Se revol­tan­do con­tra a lei/ Que a soci­e­da­de ofe­re­cia.”

“São dois momen­tos em que a temá­ti­ca é mais pro­gres­sis­ta, as esco­lhas con­se­guem furar um pou­co essa bolha, por­que no Rio e em Nite­rói tem mui­to enre­do falan­do de ufa­nis­mo, de Bra­sil, do futu­ro ou de fol­clo­re”, dis­se Sil­vei­ra, des­ta­can­do que as agre­mi­a­ções só reto­ma­ram os enre­dos mais pro­gres­sis­tas depois da aber­tu­ra do regi­me no gover­no do gene­ral João Figuei­re­do.

“Gra­da­ti­va­men­te vai apa­re­cer a crí­ti­ca soci­al e aí vai ter a Capri­cho­sos de Pila­res e Cabu­çu, no Rio, e, em Nite­rói, a Sou­za Soa­res, do bair­ro de San­ta Rosa. A esco­la União da Ilha da Con­cei­ção, já extin­ta hoje, na vira­da da aber­tu­ra ganhou um car­na­val com um enre­do sobre fave­la e cri­ti­ca tudo, inclu­si­ve a cen­su­ra. Aí já em 85”, comen­tou o his­to­ri­a­dor.

“As esco­las eram vigi­a­das. Quem tinha mais gar­ra­fas para ven­der [em Nite­rói] eram Cuban­go e Vira­dou­ro por­que de cer­ta for­ma tinham um trân­si­to mai­or com essa estru­tu­ra de poder”, dis­se ele.

Ufanismo

Ao mes­mo tem­po em que algu­mas esco­las enfren­ta­vam a repres­são e a cen­su­ra, outras no Rio fazi­am enre­dos ufa­nis­tas e de apoio ao gover­no mili­tar. Uma delas foi a Bei­ja-Flor de Niló­po­lis que levou para a ave­ni­da enre­dos como O Gran­de Decê­nio, de 1975, no qual reve­ren­ci­a­va pro­gra­mas soci­ais do gover­no mili­tar como o Pro­gra­ma de Inte­gra­ção Soci­al (PIS), o Pro­gra­ma de For­ma­ção do Patrimô­nio do Ser­vi­dor Públi­co (Pasep), o Fun­do de Assis­tên­cia ao Tra­ba­lha­dor Rural (Fun­ru­ral) e o Movi­men­to Bra­si­lei­ro de Alfa­be­ti­za­ção (Mobral).

“Ela come­mo­rou o Gran­de Decê­nio na ave­ni­da, os dez anos do gol­pe”, pon­tu­ou Sil­vei­ra, indi­can­do que a Azul e Bran­co de Niló­po­lis ain­da fez os enre­dos ufa­nis­tas Edu­ca­ção para o Desen­vol­vi­men­to e Bra­sil Ano 2000, como a nação do futu­ro. “O sam­ba dizia o ‘Fun­ru­ral que ampa­ra o homem do cam­po com segu­ran­ça total’, quer dizer a ideia de que o homem do cam­po está bem com o gover­no. O inte­res­san­te é que, no ano seguin­te, a Em Cima da Hora con­se­gue bur­lar e faz uma denún­cia, via Os Ser­tões”, obser­vou Sil­vei­ra.

Trocas de interesses

A apro­xi­ma­ção das esco­las com o regi­me mili­tar, segun­do o pro­fes­sor Chi­co Otá­vio, era de inte­res­se das duas par­tes. O gover­no bus­ca­va mais apoio popu­lar, e as agre­mi­a­ções que tinham como patro­nos con­tra­ven­to­res do jogo do bicho que­ri­am evi­tar a iden­ti­fi­ca­ção com o cri­me e pos­sí­veis pri­sões.

“O regi­me, no momen­to em que já come­ça­va a entrar em declí­nio, pre­ci­sa­va da popu­la­ri­da­de das esco­las de sam­ba para se rea­fir­mar jun­to à popu­la­ção. Então, foi uma espé­cie de tro­ca de inte­res­ses. Eu não te inco­mo­do e você me dei­xa pegar caro­na no pres­tí­gio e popu­la­ri­da­de das esco­las de sam­ba na ave­ni­da”, dis­se Chi­co Otá­vio, autor do livro Os Porões da Con­tra­ven­ção Jogo do Bicho e Dita­du­ra Mili­tar: a His­tó­ria da Ali­an­ça que Pro­fis­si­o­na­li­zou o Cri­me Orga­ni­za­do.

A rami­fi­ca­ção do jogo do bicho na cida­de favo­re­cia o “tra­ba­lho” exten­so que cola­bo­ra­va com a repres­são. “Eles aju­da­vam, con­tri­buíam com infor­ma­ções para que a dita­du­ra pudes­se pren­der sub­ver­si­vos. Os bichei­ros de cer­ta for­ma con­tri­buí­ram para isso. Tinham mui­ta pre­sen­ça nas ruas e for­ma­ram uma rede de espiões para abas­te­cer a dita­du­ra de infor­ma­ções a res­pei­to dos ini­mi­gos do sis­te­ma”, com­ple­tou Chi­co Otá­vio.

Para o pro­fes­sor, mais uma liga­ção de mili­ta­res e con­tra­ven­ção ocor­reu quan­do o gover­no Ernes­to Gei­sel come­çou a aber­tu­ra polí­ti­ca para encer­rar o regi­me mili­tar. Naque­le momen­to, agen­tes da repres­são que não con­cor­da­ram com esse pro­ces­so se ali­a­ram aos bichei­ros do jogo do bicho. “À con­tra­ven­ção inte­res­sa­va ter gen­te que tinha essa exper­ti­se de tor­tu­rar, matar, espi­o­nar, então foi um bom negó­cio para ambas as par­tes. Os agen­tes mili­ta­res que encon­tra­ram essa aco­lhi­da e con­ti­nu­a­ram a ter poder, via bichei­ros, eram segu­ran­ças de bichei­ros ou mui­to mais que isso, vira­ram capos tam­bém”, afir­mou o pro­fes­sor da PUC-Rio.

Em 1971, bem dife­ren­te da linha de enre­dos que vinha apre­sen­tan­do, a Man­guei­ra levou para a ave­ni­da Moder­nos Ban­dei­ran­tes, uma home­na­gem à Aero­náu­ti­ca Bra­si­lei­ra.

“As esco­las fize­ram isso espon­ta­ne­a­men­te. Eles foram cola­bo­ra­do­res do regi­me sem pre­ci­sar sofrer qual­quer pres­são para isso. Fize­ram de bom gra­do. Tinham inte­res­ses estra­té­gi­cos de agra­dar o regi­me. Os bichei­ros esta­vam no pro­ces­so de legi­ti­ma­ção da sua ati­vi­da­de cri­mi­no­sa jun­to à popu­la­ção atra­vés do car­na­val”, con­cluiu Chi­co Otá­vio.

Edi­ção: Juli­a­na Andra­de

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