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Eventos sobre cultura negra mostram avanços sociais, diz historiador

Repro­dução: © Tomaz Silva/Agência Brasil

Back2Black está em sua 11ª edição e traz debates, música e dança


Pub­li­ca­do em 27/05/2023 — 15:15 Por Cristi­na Indio do Brasil – Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

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Even­tos como o Fes­ti­val Back2Black, que desen­volve dis­cussões sobre a cul­tura da pop­u­lação pre­ta, apre­sen­tações de artis­tas negros de destaque na músi­ca, dança e lit­er­atu­ra, além de cel­e­brar a África, rep­re­sen­tam avanços dos movi­men­tos soci­ais. A con­clusão é do his­to­ri­ador e pro­fes­sor da Uni­ver­si­dade Fed­er­al do Rio de Janeiro (UFRJ) Flávio Gomes, vence­dor do Prêmio Jabu­ti de Não Ficção de 2022. Gomes par­ticipou do encon­tro como apre­sen­ta­dor e medi­ador da roda de con­ver­sa Vida Quilom­bo­la: Sig­nifi­ca­do de Lutas pela Liber­dade e pela Ter­ra.

Par­tic­i­param do debate a pres­i­dente da Asso­ci­ação das Comu­nidades Quilom­bo­las do Esta­do do Rio de Janeiro (Acquil­erj), Bia Nunes, inte­grante do Quilom­bo Maria Con­ga de Magé, na Baix­a­da Flu­mi­nense; a engen­heira agrôno­ma Fran Paula, pesquisado­ra do Grupo de Tra­bal­ho em Meio Ambi­ente e Agri­cul­tura da Coor­de­nação Nacional de Artic­u­lação de Quilom­bos de Mato Grosso; e da dire­to­ra da Juven­tude na Acquil­erj, Rafa Quilom­bo­la.

“Gos­to muito de pen­sar ess­es even­tos, quais­quer que sejam eles, nas suas dimen­sões mais midiáti­cas, mais políti­cas, mais cul­tur­ais, como avanço dos movi­men­tos soci­ais. Talvez há 30 ou 40 anos, um even­to como esse fos­se impos­sív­el até pela inca­paci­dade da sociedade de com­preen­der a importân­cia de um even­to anu­al de vozes negras e de várias dimen­sões na pro­dução da cul­tura negra. Vejo sem­pre ess­es even­tos na per­spec­ti­va da luta con­tin­u­a­da da sociedade orga­ni­za­da com relação ao debate de desigual­dade racial, debate sobre as for­mas de pro­dução cul­tur­ais da comu­nidade negra”, afir­mou Flávio Gomes em entre­vista à Agên­cia Brasil.

Emb­o­ra ten­ha surgi­do em 2009, o Back2Black já teve edições inter­na­cionais. Em sua 11ª edição, o Back2Black voltou ao Armazém da Utopia, no Boule­vard Olímpi­co, região por­tuária do Rio. O últi­mo dia do encon­tro será no Par­que Madureira, na zona norte da cidade.

Flávio Gomes é autor de livros como Histórias Quilom­bo­las, Exper­iên­cias Atlân­ti­cas, Mocam­bos e Quilom­bos, Uma História do Campesina­to Negro no BrasilNegros e Políti­ca e A Hidra e os Pân­tanos. Além dessas obras, orga­ni­zou o Dicionário da Escravidão e Liber­dade, em parce­ria com a his­to­ri­ado­ra Lil­ia Schwar­cz.

O his­to­ri­ador desta­cou a importân­cia de a roda de con­ver­sa ter jus­ta­mente a par­tic­i­pação de três mul­heres negras rep­re­sen­ta­ti­vas das comu­nidades quilom­bo­las, que falaram sobre suas próprias real­i­dades e sobre questões raci­ais con­tem­porâneas, ter­ritórios e dire­itos con­sti­tu­cionais.

“O quilom­bo não é só um resto do pas­sa­do. Quilom­bo, hoje, sig­nifi­ca uma dis­cussão nacional e ampla sobre cidada­nia no mun­do rur­al e do homem do cam­po, sobre dis­tribuição de ren­da e dire­itos con­sti­tu­cionais em ter­ritórios e em ter­ras quilom­bo­las. O tema do quilom­bo não é só negro. É o tema da sociedade brasileira. É o tema da ter­ra, da dis­tribuição de ren­da. Se a gente quer falar do Brasil, tem que falar de quilom­bo­la, se a gente está falan­do de quilom­bo­la, está falan­do de Brasil”, afir­mou.

Emb­o­ra admi­ta que hou­ve avanços na elab­o­ração de políti­cas públi­cas, o pro­fes­sor diz ain­da tem muito cam­in­ho pela frente. “Ironi­ca­mente, eu cos­tu­mo diz­er que fal­ta tudo. Quan­do digo que fal­ta tudo, pode ser só uma críti­ca de que nada foi feito. Não. Mui­ta coisa tem sido fei­ta, inclu­sive com uma pressão social. Ago­ra, fal­tam coisas, porque tem muitos inter­ess­es em torno de dis­tribuição de ren­da e de que, na ver­dade, uma políti­ca públi­ca chegue, de fato, até a pon­ta, ela não desa­pareça nas medi­ações das lóg­i­cas políti­cas e par­tidárias que envolvem inter­ess­es de vários setores econômi­cos da sociedade brasileira”, desta­cou.

Na avali­ação de Gomes, fal­ta tam­bém uma com­preen­são mais ampla de todos os setores e aí estão incluí­dos os gov­er­nos, de enten­der que as situ­ações quilom­bo­la e negra, não são questões especí­fi­cas ou só rel­a­ti­vas aos quilom­bo­las ou aos negros. “Essa é uma questão da sociedade brasileira, da democ­ra­ti­za­ção da sociedade brasileira e das dimen­sões do avanço da sociedade”, afir­mou.

“Não ter­e­mos avanços se não tra­bal­har­mos isso. É uma questão do Brasil, uma questão nacional. Acho que essa tem sido uma difi­cul­dade. Às vezes, tais questões são vis­tas como iden­titárias, de mino­rias, de ape­nas deter­mi­na­do setor de movi­men­to social, quan­do, na ver­dade, expres­sam von­tade de trans­for­mações mais pro­fun­das na sociedade brasileira, pro­fun­da­mente desigual. Aí, fico muito à von­tade para falar nis­so na condição de um his­to­ri­ador”, disse Gomes.

O pro­fes­sor aler­tou ain­da para a neces­si­dade da preser­vação das áreas das comu­nidades quilom­bo­las.

ci“Discute-se fun­do amazôni­co como se quilom­bo não exis­tisse. Dis­cute-se ter­ra como se quilom­bo fos­se ape­nas uma parte. Dis­cutem-se mel­ho­rias nas cidades como se não hou­vesse quilom­bo nas fran­jas das cidades. Então, todas as questões, além do óbvio e da edu­cação, porque temos pro­je­tos de edu­cação quilom­bo­la, da cul­tura, das for­matações das cul­turas orig­i­nais dos quilom­bos, tudo pas­sa pela questão da ter­ra, pela pre­sença dess­es cam­pone­ses negros e a essa dimen­são históri­ca dess­es cam­pone­ses negros.”

Censo

Flávio Gomes comen­tou ain­da o Cen­so 2022, do Insti­tu­to Brasileiro de Geografia e Estatís­ti­ca (IBGE), que incluiu vis­i­tas de recenseadores nas comu­nidades quilom­bo­las.

Segun­do o his­to­ri­ador, em um país como o Brasil, que tem mais de 50% de pop­u­lação negra, é rel­e­vante ter dados especí­fi­cos dos quilom­bos, porque, até ago­ra, o que existe são esti­ma­ti­vas. “Exis­tem cer­ca de 6 mil comu­nidades quilom­bo­las em todo o Brasil. O número pode ser até um pouco maior – não acred­i­to que seja menor. Isso rep­re­sen­ta que, no con­jun­to agrário rur­al brasileiro, em cada lugar, por exem­p­lo, no Rio de Janeiro, temos comu­nidades quilom­bo­las expres­si­vas tan­to em regiões nas mar­gens urbanas quan­to na Região dos Lagos. Ou seja, onde não tem quilom­bo? Há quilom­bo em todos os lados porque hou­ve escrav­iza­dos em todo o Brasil, hou­ve tradição de fuga ou de for­mação cam­pone­sa dessas comu­nidades. O que a gente tem não é o resto dis­so.”

O his­to­ri­ador desta­cou ain­da a importân­cia da pro­dução dos quilom­bos. “É a manutenção da trans­for­mação dessas comu­nidades inclu­sive na pro­dução, porque essas comu­nidades não estão só pedin­do dire­itos em função de uma dívi­da do pas­sa­do. Elas hoje pro­duzem ali­men­tos que chegam às nos­sas mesas, que não vêm do agronegó­cio, e as políti­cas de gov­er­no do Esta­do têm que recon­hecer isso como pau­ta prin­ci­pal.”

Game

Flávio Gomes falou tam­bém sobre um jogo eletrôni­co em que o usuário é um “pro­pri­etário de escravos” e que ficou disponív­el até o iní­cio da tarde da quar­ta-feira (24) na platafor­ma do Google Play. O jogador era estim­u­la­do a obter gan­hos finan­ceiros e a con­tratar guardas para evi­tar rebe­liões. O jogo per­mi­tia tam­bém que o usuário explo­rasse sex­ual­mente as pes­soas colo­cadas sob seu poder den­tro do mun­do vir­tu­al.

Além de mostrar ima­gens de pes­soas acor­rentadas, inclu­sive de um homem negro, que apare­cia cober­to de gril­hões em uma estéti­ca semel­hante à de um desen­ho ani­ma­do. Na capa, uma gravu­ra históri­ca retrata­va um homem bran­co, em roupas ele­gantes, ao lado de um homem negro escrav­iza­do semi­nu.

Con­forme a própria platafor­ma, até a man­hã da quar­ta-feira, o jogo tin­ha sido baix­a­do mil vezes. O nome Mag­nus Games é apre­sen­ta­do como cri­ador deste e de out­ros jogos disponíveis no Google Play. No entan­to, não é pos­sív­el iden­ti­ficar com clareza nos per­fis nas redes soci­ais, qual seria a empre­sa ou pes­soa por trás do pro­du­to.

O his­to­ri­ador disse que não chegou a abrir o jogo, mas acom­pan­hou as reper­cussões sobre o assun­to e chamou a atenção para os cuida­dos necessários ante os efeitos de práti­cas que pareçam inocentes. É pre­ciso tomar cuida­do porque algu­mas práti­cas, aparente­mente infan­tis, suposta­mente educa­ti­vas e de laz­er e brin­cadeira, estão reforçan­do práti­cas raci­ais, de estig­ma sobre a pre­sença da pop­u­lação negra, que inclui seque­stro de africanos escrav­iza­dos, afir­mou.

“Esse game é caso de polí­cia, porque, se há uma relação dire­ta com a divul­gação dele, da imple­men­tação do tipo de pro­pa­gan­da, do tipo de con­teú­do, que reforça o estig­ma e pre­con­ceito, é caso de polí­cia, de Min­istério Públi­co, caso do Min­istério da Justiça, fun­da­men­tal­mente, aces­sar quem pro­gra­ma isso e os divul­gadores”, enfa­ti­zou.

“A out­ra coisa, que pau­lati­na­mente a isso já tem sido fei­ta, mas pode aumen­tar, são políti­cas de inclusão no cam­po da edu­cação e da cidada­nia, para a gente ter mais mate­r­i­al que divulgue de fato o que rep­re­sen­tou a história da pre­sença dos africanos no Brasil, da escravidão, a pós-eman­ci­pação e a história recente”, rela­tou.

Quitandinha

Neste sába­do (27), Flávio Gomes será o apre­sen­ta­dor e medi­ador do sem­i­nário Gênero, Arte e Diás­po­ra, com par­tic­i­pação das his­to­ri­ado­ras Iama­ra Viana e Raquel Bar­reto, às 17h, no Cen­tro Cul­tur­al Sesc Qui­tand­in­ha, em Petrópo­lis, na região ser­rana do Rio.

Ele é o curador das ações de pen­sa­men­to na lin­guagem escri­ta, literária e oral, da exposição Um Oceano para Lavar as Mãos, que inau­gu­ra o espaço cul­tur­al. A mostra ficará em car­taz até 17 de setem­bro.

For­ma­da por obras de artis­tas negros, a exposição é um movi­men­to inter­es­sante, por dar vis­i­bil­i­dade à pro­dução artís­ti­ca com uma assi­natu­ra étni­ca e de pro­je­to de inter­venção e de iden­ti­dades visuais, diz o pro­fes­sor.

Ele infor­mou que o even­to terá mais dois sem­i­nários: o próx­i­mo será sobre Insurgên­cias Negras, com os his­to­ri­adores João José Reis e Isado­ra Mota, e o últi­mo, sobre ima­gens negras, será com a his­to­ri­ado­ra Lil­ia Schwar­cz. “É um núcleo de sem­i­nários que se artic­u­lam com debate sobre arte, per­for­mance e diás­po­ra”, con­cluiu.

Edição: Nádia Fran­co

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