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Exposição do Museu do Ipiranga mostra evolução do mobiliário do Brasil

Repro­dução: © Paulo Pinto/Agência Brasil

Sentar, Guardar e Dormir traz usos de objetos do cotidiano


Publicado em 11/06/2024 — 20:57 Por Elaine Patrícia Cruz — Repórter da Agência Brasil — São Paulo

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Um guar­da-roupa que per­tenceu ao inven­tor Alber­to San­tos Dumont (1873–1932). Uma cama e uma mar­que­sa que foram usadas por Domi­ti­la de Cas­tro Can­to e Mel­lo, a Mar­que­sa de San­tos (1797–1867). Cadeiras cri­adas pelos arquite­tos Paulo Mendes da Rocha (1928–2021) e Lina Bo Bar­di (1914–1992). Estes são ape­nas alguns dos obje­tos de mobil­iário que estão expos­tos tem­po­rari­a­mente no Museu Paulista, mais con­heci­do por Museu do Ipi­ran­ga, a par­tir de des­ta terça-feira (11), na cap­i­tal paulista.

Chama­da de Sen­tar, Guardar, Dormir: Museu da Casa Brasileira e Museu Paulista em diál­o­go, a nova exposição rev­ela como obje­tos de uso cotid­i­ano doc­u­men­tam as difer­entes for­mas de morar da sociedade brasileira, sendo tam­bém evidên­cias da imen­sa diver­si­dade cul­tur­al e social do país, envol­ven­do as her­anças indí­ge­na, por­tugue­sa, afro-brasileira e de suas vari­adas migrações e imi­grações. Esse mobil­iário tam­bém dá teste­munho tan­to da vida de seus usuários quan­to das pes­soas que os pro­duzi­ram e aju­dam a con­tar parte da história desse país.

“Essa exposição foi orga­ni­za­da pen­san­do-se nas ações humanas, na vivên­cia e nas práti­cas cotid­i­anas da pop­u­lação em seus ambi­entes domés­ti­cos. Então a gente pen­sa ness­es artefatos na medi­da em que eles são uti­liza­dos e em que eles são sig­nifi­ca­dos por nós porque, afi­nal, todos sen­ta­mos, todos guardamos e todos dormi­mos”, disse Maria Apare­ci­da de Menezes Bor­rego, uma das curado­ras da mostra.

“É uma exposição para pen­sar­mos, de fato, como ess­es artefatos agem na nos­sa vida cotid­i­ana e pen­sar­mos tam­bém, como museu de história que somos, que essas ativi­dades, por mais banais e nat­u­ral­izadas que pareçam, depen­dem de um apren­diza­do e têm uma his­to­ri­ci­dade”, ressaltou à Agên­cia Brasil.

A coleção reúne 164 peças entre ban­cos, cadeiras, sofás, caixas, cômodas, escrivan­in­has, guar­da-roupas, redes, esteiras e camas – alguns com mais de 400 anos de existên­cia — e foi divi­di­da em três núcleos bási­cos, que mostram como neces­si­dades bási­cas como sen­tar, guardar e dormir foram aten­di­das por meio dess­es obje­tos ao lon­go do tem­po. A curado­ria é dos docentes do Museu Paulista, Paulo César Garcez Marins e Maria Apare­ci­da de Menezes Bor­rego, e do con­vi­da­do Gian­car­lo Lator­ra­ca, arquite­to e ex-dire­tor téc­ni­co do Museu da Casa Brasileira.

Módulos

O primeiro núcleo da mostra é o Sen­tar, que apre­sen­ta móveis, cadeiras, poltronas e sofás, entre out­ras peças de mobil­iário. “São muitas histórias que a gente con­ta aqui. E quan­do esta­mos pen­san­do no Sen­tar, esse é módu­lo que a gente tem mais peças porque a cadeira é um módu­lo por excelên­cia dos ambi­entes domés­ti­cos”, expli­cou Maria Apare­ci­da de Menezes Bor­rego.

Mas no iní­cio da col­o­niza­ção brasileira até por vol­ta de 1850, con­tou a curado­ra, as cadeiras não eram obje­tos muito uti­liza­dos den­tro das casas brasileiras. “As casas paulis­tas eram pouco mobil­i­adas porque o con­vívio social se dava fora dos muros das casas. Essas socia­bil­i­dades acon­te­ci­am nas ruas, nas igre­jas, nas fes­tas reli­giosas e a casa era um espaço para abri­go. O que ess­es móveis aqui con­tam? Que a gente tem, na ver­dade, pou­cas peças de madeira den­tro das casas”.

Isso começa a mudar a par­tir do sécu­lo XIX. “Ao con­trário do que a his­to­ri­ografia disse há muito tem­po, a escassez dos móveis não indi­ca que as casas eram pobres, mas que elas eram um espaço ape­nas de abri­go. A par­tir do sécu­lo XIX, são os móveis de assen­to e de sen­tar que vão nos mostrar que essa casa começa a rece­ber vis­i­tas. Sofás, canapés e mar­que­sas pas­sam a indicar que tem mais pes­soas que sen­tam naque­les lugares e que está haven­do uma inte­ri­or­iza­ção das socia­bil­i­dades”, disse ela.

Out­ra história que pode ser con­ta­da por meio dess­es “obje­tos de sen­tar” é que as cadeiras eram uti­lizadas ini­cial­mente no Brasil ape­nas por home­ns ou pelos pro­pri­etários da casa. As mul­heres, até então, con­tin­u­avam se sen­tan­do no chão. “É de fato no sécu­lo XIX que a gente pas­sa a ter os canapés e que as mul­heres pas­sam a se sen­tar nas mar­que­sas e nos canapés”, con­tou.

É tam­bém neste módu­lo que se apre­sen­tam obje­tos de uso para o tra­bal­ho tais como uma cadeira de bar­beiro e um raro exem­plar de cadeira de den­tista portátil. “Temos que pen­sar o móv­el com uma exten­são do próprio cor­po humano. Ele é uma prótese do que nós temos para realizar bem o nos­so tra­bal­ho. Então não pode ser qual­quer cadeira de bar­beiro ou qual­quer cadeira de cos­tu­ra: elas devem ser apro­pri­adas jus­ta­mente para um tra­bal­ho mais efi­caz, que con­suma menos ener­gia do próprio cor­po humano”, expli­cou a curado­ra.

Guardar

Já o segun­do núcleo pen­sa na temáti­ca do Guardar. Aqui são expos­tos móveis que foram uti­liza­dos para armazenar roupas, car­tas, doc­u­men­tos e val­ores, como caixas, canas­tras, cofres, cômodas, armários, guar­da-roupas, con­ta­dores, papeleiras e escrivan­in­has. Eles rev­e­lam, por um lado, os mod­os de dar segu­rança ao que se quer preser­var ou trans­portar e, por out­ro, a pro­teção dos teste­munhos da nos­sa intim­i­dade e das roupas e acessórios que usamos.

De iní­cio, o que vemos são caixas que servi­am para se guardar de tudo. Depois ess­es móveis começam a ter pés, sep­a­rações e gave­tas. “A par­tir do momen­to que as caixas gan­ham pés e per­dem as argo­las [que per­mi­ti­am com que fos­sem trans­portadas], a gente já vê que são caixas para inte­ri­ores domés­ti­cos de pop­u­lações mais sed­i­men­tadas, porque aí você não vai mais car­regar a caixa de um lugar para o out­ro”, expli­cou a curado­ra. “Quan­do surgem os guar­da-roupas, a gente pas­sa a ter uma out­ra for­ma de guar­da, indi­vid­u­al­izan­do cada uma das suas peças de indu­men­tária. E as gave­tas cumprem esse papel de clas­si­fi­cação dos seus per­tences”.

Dormir

O últi­mo módu­lo da exposição é o Dormir, que evi­den­cia diver­sas for­mas de deitar e des­cansar que foram prat­i­cadas no Brasil ao lon­go de sécu­los, des­de as redes de origem indí­ge­na até as camas de solteiro. “Até o sécu­lo XIX nós vamos ter essa pre­pon­derân­cia das redes; mas em algu­mas casas de fato muito ric­as, nós vamos ter os leitos”, con­tou a curado­ra.

É nesse espaço que tam­bém se pode ver, com maior clareza, a difer­ença entre as primeiras camas pro­duzi­das de for­ma mais arte­sanal e o ingres­so das camas feitas em série, já no proces­so de indus­tri­al­iza­ção. Uma dessas camas seri­adas é a chama­da cama patente, que foi desen­ha­da no começo do sécu­lo 20 para respon­der às neces­si­dades e exigên­cias san­itárias. “Esta é uma cama que foi fei­ta primeira­mente para uma clíni­ca médi­ca e que, depois, pas­sa a faz­er parte do ambi­ente domés­ti­co, se pop­u­lar­izan­do. É a par­tir dis­so que as camadas médias e pop­u­lares vão começar a dormir em camas a par­tir do sécu­lo XX”, falou.

Diálogo

As peças sele­cionadas pela curado­ria propõem um diál­o­go entre os acer­vos do Museu da Casa Brasileira, cri­a­do para reg­is­trar e expor as difer­entes for­mas de morar, e do Museu Paulista, volta­do ao estu­do de obje­tos e ima­gens que doc­u­men­tam a sociedade brasileira.

“O Museu Paulista foi fun­da­do em 1893 e inau­gu­ra­do em 1895 e é um museu que se pres­ta a con­tar a história do país a par­tir de São Paulo. Então aqui nós vamos ter muitos dos móveis doa­d­os pela elite paulista nesse começo do sécu­lo XX. Já o Museu da Casa Brasileira foi fun­da­do em 1975 e bus­ca tam­bém, a par­tir da cul­tura mate­r­i­al, falar dos ambi­entes domés­ti­cos da Casa Brasileira. No Museu Paulista temos uma maior quan­ti­dade de móveis dos sécu­los 17, 18 e 19 e dessas elites, ao pas­so que o Museu da Casa Brasileira tem esse seu acer­vo for­ma­do por móveis volta­dos mais às camadas médias e pop­u­lares do sécu­lo 20. Daí essa com­ple­men­tariedade”, disse a curado­ra.

Doações

Grande parte do mobil­iário do acer­vo dessa exposição foi doa­do pela sociedade, demon­stran­do que os museus, para além de serem lugares de guar­da, preser­vação ou estu­do dessas coleções, são tam­bém locais em que a sociedade deposi­ta expec­ta­ti­vas de sua preser­vação. “A própria sociedade deposi­ta nos museus a expec­ta­ti­va da perenidade das suas histórias e das suas famílias. Então, por bem ou por mal, é a própria sociedade que con­strói esse Museu Paulista que temos hoje”, disse a curado­ra.

E por se tratarem de doações, esse vas­to acer­vo aca­ba, de algu­ma for­ma, refletindo pou­ca diver­si­dade. “É jus­ta­mente por essa difi­cul­dade de doação que nós temos poucos móveis lig­a­dos aos diver­sos seg­men­tos soci­ais. É impor­tante diz­er que temos aqui out­ras for­mas de se sen­tar, de guardar e de dormir indí­ge­na, mas temos aqui uma ausên­cia em ter­mos de mobil­iário da pop­u­lação negra. Mas emb­o­ra não apareça, a mão de obra negra vai estar pre­sente nestes móveis. Muitos dess­es móveis tem difi­cul­dade de auto­ria. O marceneiro ou o carpin­teiro não deix­avam reg­istradas as suas assi­nat­uras no móv­el. Nós não sabe­mos quem fez [ess­es móveis] mas, pela doc­u­men­tação tan­to do Perío­do Colo­nial quan­to do Império, sabe­mos como os escrav­iza­dos foram se espe­cial­izan­do ness­es ofí­cios. Então, provavel­mente, todos ess­es móveis até o sécu­lo XIX têm a mão negra na sua con­fecção”, con­tou a curado­ra.

A mostra tem entra­da gra­tui­ta e é toda acessív­el, com­pos­ta por obje­tos táteis e recur­sos mul­ti­ssenso­ri­ais, que per­mitem ao vis­i­tante sen­tir alguns dos obje­tos. Além dis­so, no dia 29 de jun­ho, os curadores vão se reunir no auditório do museu para uma apre­sen­tação sobre os móveis expos­tos.

A exposição ficará em car­taz até o dia 29 de setem­bro. Mais infor­mações sobre ela podem ser obti­das no site https://museudoipiranga.org.br/exposicoes/ .

Edição: Aline Leal

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