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Falta de recursos e violência armada são desafios de ativistas no Rio

Repro­du­ção: © Fre­e­pick

Pesquisa foi divulgada nesta quarta-feira pelo Observatório de Favelas


Publicado em 03/04/2024 — 07:30 Por Alana Gandra — Repórter da Agência Brasil — Rio de Janeiro

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Difi­cul­da­de de aces­sar recur­sos e vio­lên­cia arma­da são os dois desa­fi­os cen­trais enfren­ta­dos pelas ini­ci­a­ti­vas de defe­sa de direi­tos lide­ra­das por mulhe­res nas fave­las e peri­fe­ri­as da região metro­po­li­ta­na do Rio de Janei­ro. Esse é um dos resul­ta­dos da pes­qui­sa “Mulhe­res, Ati­vis­mo e Vio­lên­cia: a luta por direi­tos nas fave­las e peri­fe­ri­as do Rio de Janei­ro”, divul­ga­da nes­ta quar­ta-fei­ra (3) pelo Obser­va­tó­rio de Fave­las.

Rea­li­za­da atra­vés do Pro­gra­ma de Direi­to à Vida e Segu­ran­ça Públi­ca do Obser­va­tó­rio de Fave­las, a son­da­gem foi desen­vol­vi­da em duas eta­pas. Na pri­mei­ra, foram mape­a­das 115 ini­ci­a­ti­vas exis­ten­tes de defe­sa de direi­tos lide­ra­das por mulhe­res em peri­fe­ri­as da região metro­po­li­ta­na, mas somen­te 23,5% delas tinham algum tipo de apoio para rea­li­za­ção de suas ati­vi­da­des, ape­sar de o tra­ba­lho desen­vol­vi­do ser essen­ci­al para a garan­tia de direi­tos no ter­ri­tó­rio.

Do total de ini­ci­a­ti­vas, 70% estão situ­a­das na capi­tal, em espe­ci­al na zona nor­te da cida­de; 19% na Bai­xa­da Flu­mi­nen­se; 10% na região da Gran­de Nite­rói (Nite­rói, São Gon­ça­lo, Ita­bo­raí e Mari­cá); e 1% tem abran­gên­cia metro­po­li­ta­na.

“O que a gen­te vê é que, entre as (ini­ci­a­ti­vas) que têm apoio, pre­do­mi­na­va o finan­ci­a­men­to pri­va­do ou cole­ti­vo. Nes­se sen­ti­do, é fun­da­men­tal que a gen­te pos­sa avan­çar em uma estra­té­gia que poten­ci­a­li­ze a demo­cra­ti­za­ção do finan­ci­a­men­to públi­co que garan­ta a con­ti­nui­da­de e o for­ta­le­ci­men­to des­sas ações ter­ri­to­ri­ais de defe­sa de direi­tos”, dis­se à Agên­cia Bra­sil a dire­to­ra do Obser­va­tó­rio de Fave­las, Raquel Wil­la­di­no, coor­de­na­do­ra da pes­qui­sa.

Desafio contundente

Por outro lado, con­fir­mou que a vio­lên­cia arma­da apa­re­ce como um dos desa­fi­os mais con­tun­den­tes na atu­a­ção des­sas orga­ni­za­ções. Do gru­po de 115 expe­ri­ên­ci­as envol­vi­das na pri­mei­ra eta­pa do levan­ta­men­to, 60% rela­ta­ram que tinham suas ati­vi­da­des impac­ta­das por con­fron­tos arma­dos. As ope­ra­ções poli­ci­ais foram res­pon­sá­veis por 50,8% dos con­fron­tos arma­dos que cau­sa­ram a inter­rup­ção dos tra­ba­lhos das orga­ni­za­ções, sen­do a razão mais fre­quen­te para esse tipo de situ­a­ção.

Essas infor­ma­ções foram apro­fun­da­das depois com a rea­li­za­ção de entre­vis­tas com mulhe­res ati­vis­tas que desen­vol­vem ações ter­ri­to­ri­ais e com repre­sen­tan­tes de ins­ti­tui­ções públi­cas e orga­ni­za­ções da soci­e­da­de civil que atu­am na pro­te­ção de defen­so­ras e defen­so­res de direi­tos huma­nos.

As orga­ni­za­ções e cole­ti­vos mape­a­dos atu­am em temas como edu­ca­ção, cul­tu­ra, igual­da­de étni­co-raci­al, segu­ran­ça ali­men­tar, gêne­ro e sexu­a­li­da­de, saú­de, gera­ção de tra­ba­lho e ren­da, segu­ran­ça públi­ca e aces­so à jus­ti­ça. Eles são vol­ta­dos de for­ma pri­o­ri­tá­ria para defe­sa de direi­tos de mulhe­res, pes­so­as negras, cri­an­ças, ado­les­cen­tes, jovens, pes­so­as LGBTQIA+, ido­sos e fami­li­a­res de víti­mas de vio­lên­cia.

Na segun­da eta­pa da pes­qui­sa, foi fei­to mape­a­men­to de dife­ren­tes dinâ­mi­cas rela­ci­o­na­das à vio­lên­cia arma­da que impac­ta o coti­di­a­no des­sas orga­ni­za­ções. Nes­se sen­ti­do, Raquel des­ta­cou a vio­lên­cia poli­ci­al como uma das ques­tões cen­trais, além de con­fron­tos rela­ci­o­na­dos à dis­pu­ta entre gru­pos arma­dos e prá­ti­cas que arti­cu­lam de algu­ma for­ma a vio­lên­cia arma­da com gru­pos polí­ti­cos, mui­to espe­ci­al­men­te a par­tir da atu­a­ção de milí­ci­as em ter­ri­tó­ri­os da peri­fe­ria da região metro­po­li­ta­na.

Mecanismos

Outro pon­to de des­ta­que no estu­do é a ques­tão dos meca­nis­mos de pro­te­ção para essas mulhe­res ati­vis­tas de direi­tos. Aí, as vio­lên­ci­as que apa­re­cem como mais recor­ren­tes no con­tex­to urba­no da região metro­po­li­ta­na e que fazem com que as ati­vi­da­des de peri­fe­ri­as pre­ci­sem aci­o­nar meca­nis­mos de pro­te­ção são a vio­lên­cia poli­ci­al, a vio­lên­cia rela­ci­o­na­da a gru­pos arma­dos, a vio­lên­cia polí­ti­ca de dis­pu­tas rela­ci­o­na­das à luta por ter­ra e ter­ri­tó­rio.

“Esses são os temas que apa­re­cem com mais ênfa­se como vio­lên­ci­as que, em algum momen­to, geram a neces­si­da­de de aci­o­na­men­to de meca­nis­mos de pro­te­ção”, apon­tou a dire­to­ra do Obser­va­tó­rio de Fave­las. Do total de ini­ci­a­ti­vas que par­ti­ci­pa­ram do mape­a­men­to, 37,4% afir­ma­ram ter sido víti­mas de algum tipo de vio­lên­cia pra­ti­ca­da em fun­ção de sua atu­a­ção no ter­ri­tó­rio. Den­tre as vio­lên­ci­as apon­ta­das pelas orga­ni­za­ções por con­ta de sua atu­a­ção, a vio­lên­cia poli­ci­al foi a mais recor­ren­te. Há rela­tos de ame­a­ças, inti­mi­da­ções, agres­sões físi­cas, casas inva­di­das, sedes alve­ja­das por tiros duran­te ope­ra­ções, equi­pa­men­tos apre­en­di­dos ou que­bra­dos em reta­li­a­ção a denún­ci­as, entre outros.

Raquel Wil­la­di­no des­ta­cou que quan­do se olha os cami­nhos para o for­ta­le­ci­men­to des­sas orga­ni­za­ções, den­tro das estra­té­gi­as de defe­sa de direi­tos que elas desen­vol­vem no seu ter­ri­tó­rio, é mui­to impor­tan­te não só a ampli­a­ção das fon­tes, mas estra­té­gi­as que demo­cra­ti­zem o aces­so às pos­si­bi­li­da­des de finan­ci­a­men­to públi­co e pri­va­do, de modo a garan­tir não só a cri­a­ção, mas a con­ti­nui­da­de e o for­ta­le­ci­men­to des­sas ini­ci­a­ti­vas.

“A gen­te fez a escu­ta de ati­vis­tas que atu­am em fave­las e peri­fe­ri­as da região metro­po­li­ta­na, mas tam­bém ouviu ins­ti­tui­ções esta­tais e da orga­ni­za­ção da soci­e­da­de civil que atu­am no cam­po de pro­te­ção a defen­so­res. Foram iden­ti­fi­ca­das algu­mas fra­gi­li­da­des ain­da den­tro des­sa polí­ti­ca”. Para enfren­tar os impac­tos da vio­lên­cia arma­da na atu­a­ção do tra­ba­lho des­sas ati­vis­tas, Raquel afir­mou que é fun­da­men­tal que se cri­em estra­té­gi­as que pos­sam supe­rar os desa­fi­os que foram mape­a­dos rela­ci­o­na­dos a espe­ci­fi­ci­da­des ter­ri­to­ri­ais de gêne­ro, sexu­a­li­da­de e raça, ven­do como é pos­sí­vel avan­çar em estra­té­gi­as que levem em con­ta espe­ci­fi­ci­da­des des­sas ati­vis­tas que estão lutan­do por direi­tos em fave­las e peri­fe­ri­as.

Fragilidade

“A pri­mei­ra coi­sa que a gen­te cons­ta­ta é que ain­da são mui­to frá­geis as medi­das que levem em con­ta essas espe­ci­fi­ci­da­des rela­ci­o­na­das a gêne­ro, sexu­a­li­da­de e raça”, dis­se Raquel. Entre os desa­fi­os apon­ta­dos des­ta­que para a fal­ta de reco­nhe­ci­men­to des­sas ati­vis­tas como defen­so­ras de direi­tos huma­nos, o que difi­cul­ta que aces­sem meca­nis­mos de pro­te­ção. Outro pon­to rele­van­te é a for­te pre­sen­ça de agen­tes do esta­do em casos de vio­lên­cia con­tra essas defen­so­ras; o con­tro­le ter­ri­to­ri­al exer­ci­do por gru­pos arma­dos e os vín­cu­los púbi­co-polí­ti­cos, caso das milí­ci­as. Esses ele­men­tos fazem com que as aná­li­ses de ris­co e a cons­tru­ção de medi­das pro­te­ti­vas sejam mais deli­ca­das.

A pes­qui­sa iden­ti­fi­ca que é mui­to impor­tan­te avan­çar no aper­fei­ço­a­men­to de medi­das de pro­te­ção que pos­sam pro­du­zir res­pos­tas à pro­te­ção des­sas defen­so­ras para além da reti­ra­da do ter­ri­tó­rio. “Por­que um dos prin­cí­pi­os fun­da­men­tais da polí­ti­ca de pro­te­ção a defen­so­ras e defen­so­res de direi­tos huma­nos é que as pes­so­as pos­sam seguir com suas lutas no ter­ri­tó­rio de ori­gem e, mui­tas vezes, a úni­ca res­pos­ta pos­sí­vel tem sido o des­lo­ca­men­to des­sas pes­so­as para fora do seu ter­ri­tó­rio de atu­a­ção, para garan­tia do seu direi­to à vida”.

Raquel comen­tou ain­da que mulhe­res negras e mulhe­res LGBTQIA+, que atu­am tan­to como ati­vis­tas ter­ri­to­ri­ais, como na polí­ti­ca ins­ti­tu­ci­o­nal, têm sido prin­ci­pais víti­mas dos pro­ces­sos de vio­lên­cia con­tra defen­so­res de direi­tos huma­nos no con­tex­to que foi pes­qui­sa­do.

A pes­qui­sa será lan­ça­da nes­ta quar­ta-fei­ra (3), às 14h, no Obser­va­tó­rio de Fave­las, duran­te ato do qual par­ti­ci­pa­rão orga­ni­za­ções par­cei­ras que atu­am nes­se cam­po, como Jus­ti­ça Glo­bal e Ins­ti­tu­to Mari­el­le Fran­co. O obje­ti­vo é que os resul­ta­dos do estu­do pos­sam con­tri­buir para for­ta­le­ci­men­to de polí­ti­cas de pro­te­ção a defen­so­res de direi­tos huma­nos, em espe­ci­al mulhe­res negras e LGBTQIA+ “que estão colo­can­do seus cor­pos à dis­po­si­ção da luta por direi­tos nos seus ter­ri­tó­ri­os e na polí­ti­ca ins­ti­tu­ci­o­nal”, expli­cou Raquel Wil­la­di­no.

Edi­ção: Valé­ria Agui­ar

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