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Filho de sem-terra assassinado espera que Corte puna Estado brasileiro

Repro­du­ção: © Acer­vo da Famí­lia

Caso será julgado nesta quinta-feira na Corte IDH, na Costa Rica


Publi­ca­do em 08/02/2024 — 07:28 Por Lucas Por­deus León — Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — Bra­sí­lia

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O tra­ba­lha­dor infor­mal Mano­el Ade­li­no, de 31 anos, espe­ra que a Cor­te Inte­ra­me­ri­ca­na de Direi­tos Huma­nos (Cor­te IDH), com sede na Cos­ta Rica, puna o Esta­do bra­si­lei­ro por não dar res­pos­ta ao assas­si­na­to do seu pai, o tra­ba­lha­dor rural sem ter­ra Mano­el Luiz da Sil­va, mor­to em maio de 1997.

Nes­ta quin­ta-fei­ra (8), a Cor­te IDH ana­li­sa se o Esta­do bra­si­lei­ro foi omis­so e não cum­priu a obri­ga­ção de inves­ti­gar e punir os res­pon­sá­veis pelo homi­cí­dio do tra­ba­lha­dor rural, em um con­tex­to de con­fli­to por ter­ras e luta pela refor­ma agrá­ria.

“A espe­ran­ça é que esse jul­ga­men­to, que a Cor­te, pos­sa ana­li­sar e pena­li­zar os res­pon­sá­veis, que são o Esta­do bra­si­lei­ro, que dei­xa ocor­rer essas fata­li­da­des. A espe­ran­ça é que seja fei­ta jus­ti­ça”, afir­mou Ade­li­no.

Lide­ran­ça na luta pelo aces­so à ter­ra em São Miguel de Tai­pu (PB), Mano­el Luiz foi mor­to a tiros quan­do tinha 40 anos, dei­xan­do a espo­sa, grá­vi­da de dois meses, e o filho de qua­tro anos, Mano­el Ade­li­no, que con­ver­sou com a Agên­cia Bra­sil sobre a expec­ta­va para o jul­ga­men­to de hoje.

Na Cos­ta Rica para acom­pa­nhar o caso, Ade­li­no lem­brou que a famí­lia não rece­beu qual­quer res­pos­ta do Esta­do bra­si­lei­ro sobre o assas­si­na­to do pai.

“Nós nun­ca rece­be­mos nenhu­ma res­pos­ta, nenhu­ma liga­ção. E a opi­nião da famí­lia sobre esse Esta­do bra­si­lei­ro é que não tem lei que pos­sa ces­sar essa fata­li­da­de, essa cru­el­da­de que vem ocor­ren­do há mui­to tem­po lá no cam­po, ao povo tra­ba­lha­dor, que bata­lha para o sus­ten­to da famí­lia. É um Esta­do que não cor­re atrás de jus­ti­ça. Então, essa é a revol­ta da famí­lia. Nos­sa von­ta­de é que haja jus­ti­ça por par­te do Esta­do”, des­ta­cou.

Para Ade­li­no, a impu­ni­da­de no cam­po bra­si­lei­ro refor­ça os mas­sa­cres dos tra­ba­lha­do­res rurais. Por isso, acre­di­ta que o jul­ga­men­to da Cor­te IDH é impor­tan­te para evi­tar que outras pes­so­as pode­ro­sas con­ti­nu­em recor­ren­do à vio­lên­cia con­tra tra­ba­lha­do­res.

“Por­que se não, infe­liz­men­te, eles ficam apoi­an­do esses atos de ter­ro­ris­mo, esses atos vio­len­tos, incen­ti­van­do outros fazen­dei­ros, outros donos de pro­pri­e­da­des mai­o­res, a con­ti­nu­ar fazen­do essas bar­ba­ri­da­des”, argu­men­tou.

O filho da lide­ran­ça assas­si­na­da con­tou que a mor­te do pai deses­tru­tu­rou a famí­lia, levan­do a mãe à depres­são. Quan­do ela mor­reu, Ade­li­no ain­da tinha 12 anos..

“Já esta­va tra­ba­lhan­do na agri­cul­tu­ra, no roça­do dos outros, den­tro de man­gue, tra­ba­lhan­do no man­gue­zal, pes­ca­ria, ven­den­do balaio na fei­ra, pico­lé, bata­lhan­do para con­se­guir o pão de cada dia. Então, as opor­tu­ni­da­des de estu­do foram fican­do pra trás. As pou­cas pos­si­bi­li­da­des de estu­do foram se per­den­do. Era optar por estu­dar ou se ali­men­tar. A minha avó tam­bém sofreu bas­tan­te. Até hoje sofre. Bas­ta tocar no assun­to e ela se deses­pe­ra”, rela­tou.

Caso Manoel Luiz

O caso foi parar na Cor­te IDH por ini­ci­a­ti­va de orga­ni­za­ções como a Comis­são Pas­to­ral da Ter­ra da Paraí­ba e a Jus­ti­ça Glo­bal, que ape­la­ram ao órgão inter­na­ci­o­nal para cobrar a res­pon­sa­bi­li­da­de do Esta­do bra­si­lei­ro em rela­ção a esse cri­me.

Antes de a Cor­te IDH jul­gar o caso, ele foi inves­ti­ga­do pela Comis­são Inte­ra­me­ri­ca­na de Direi­tos Huma­nos (CIDH). Ao con­cluir seu pare­cer em novem­bro de 2021, a CIDH afir­mou que, ape­sar das inú­me­ras pro­vas que apon­ta­vam os res­pon­sá­veis pelo cri­me, “a omis­são da polí­cia com rela­ção às dili­gên­ci­as essen­ci­ais invi­a­bi­li­zou a per­se­cu­ção penal dos res­pon­sá­veis, entre eles do autor inte­lec­tu­al”.

O órgão lem­brou que “uma das pes­so­as acu­sa­das foi absol­vi­da, que as demais ain­da não foram jul­ga­das, que as defi­ci­ên­ci­as pro­ba­tó­ri­as não foram sana­das e que não se esgo­ta­ram todas as linhas de inves­ti­ga­ção, o que é incom­pa­tí­vel com o dever de inves­ti­gar com a devi­da dili­gên­cia”.

Violência no Campo

O repre­sen­tan­te da Comis­são Pas­to­ral da Ter­ra na Paraí­ba, João Muniz, des­ta­cou que o caso de Mano­el Luiz é mais um entre tan­tos agri­cul­to­res assas­si­na­dos no Bra­sil por lutar pela ter­ra.

“Os man­dan­tes nun­ca foram pro­ces­sa­dos, os fazen­dei­ros da épo­ca. Com isso, o caso foi leva­do para a Cor­te Inter­na­ci­o­nal. Por­que o Esta­do bra­si­lei­ro, mais uma vez, vio­lou os direi­tos des­sas famí­li­as por não ter fei­to um jul­ga­men­to jus­to nes­se caso”.

Os con­fli­tos por ter­ra no Bra­sil aumen­ta­ram 16,7% e atin­gi­ram 181.304 famí­li­as em 2022, segun­do a pes­qui­sa da Comis­são Pas­to­ral da Ter­ra (CPT). O levan­ta­men­to apon­ta que 47 pes­so­as foram assas­si­na­das naque­le ano, núme­ros 30% mai­or em rela­ção a 2021.

A Corte IDH

A Cor­te Inte­ra­me­ri­ca­no de Direi­tos Huma­nos (Cor­te IDH) é um dos tri­bu­nais regi­o­nais de pro­te­ção dos direi­tos huma­nos. É uma ins­ti­tui­ção judi­ci­al autô­no­ma, com obje­ti­vo de apli­car a Con­ven­ção Ame­ri­ca­na Sobre Direi­to Huma­nos. O Bra­sil, enquan­to inte­gran­te da Orga­ni­za­ção dos Esta­dos Ame­ri­ca­nos (OEA) reco­nhe­ce a com­pe­tên­cia da Cor­te para jul­gar vio­la­ções de direi­tos huma­nos nos Esta­dos-mem­bros sob sua juris­di­ção.

Se o Esta­do bra­si­lei­ro for con­si­de­ra­do cul­pa­do, a Cor­te IDH pode deter­mi­na que o país tome medi­das para repa­rar as famí­li­as afe­ta­das e capa­zes de evi­tar que novos cri­mes como esse ocor­ram no país.

Edi­ção: Gra­ça Adju­to

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