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Filme biográfico sobre morto político na ditadura militar abre CineBH

Repro­dução: © Rejeito/Divulgação

Produção mostra luta de jovem estudante contra o regime


Pub­li­ca­do em 26/09/2023 — 08:12 Por Léo Rodrigues — Repórter da Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

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José Car­los Novaes da Mata Macha­do tin­ha ape­nas 27 anos quan­do sua vida foi inter­romp­i­da. Seu nome está mar­ca­do na Fac­ul­dade de Dire­ito da Uni­ver­si­dade Fed­er­al de Minas Gerais (UFMG), onde estu­da­va. Em sua hom­e­nagem foi bati­za­do um espaço de auto-orga­ni­za­ção do movi­men­to estu­dan­til. O Ter­ritório Livre José Car­los Mata Macha­do é pal­co fre­quente de even­tos onde a comu­nidade acadêmi­ca se reúne para debater ideias. A refer­ên­cia recon­hece a luta de um jovem estu­dante con­tra a ditadu­ra mil­i­tar instau­ra­da no país.

Con­heci­do pelas pes­soas ínti­mas como Zé, José Car­los não ape­nas se tornou refer­ên­cia para aspi­rantes a advo­ga­dos na insti­tu­ição mineira, como tam­bém foi uma lid­er­ança de pro­jeção nacional, ten­do sido vice-pres­i­dente da União Nacional dos Estu­dantes (UNE). Mes­mo após ser pre­so no históri­co con­gres­so da enti­dade ocor­ri­do em Ibiú­na em 1968, man­teve-se mobi­liza­do con­tra o regime que havia se instau­ra­do no país. Em função dessa posição, tornou-se víti­ma da tor­tu­ra e mor­reu em 1973 na cidade do Recife, pelas mãos de agentes da Depar­ta­men­to de Oper­ações de Infor­mação — Cen­tro de Oper­ações de Defe­sa Inter­na (DOI-Codi), órgão sub­or­di­na­do ao Exérci­to.

Um olhar sobre essa história, cujas inves­ti­gações até hoje não foram sufi­cientes para fornecer todos os esclarec­i­men­tos, será apre­sen­ta­do no filme Zé, assi­na­do pelo cineas­ta Rafael Conde, que estreia na Mostra Inter­na­cional de Cin­e­ma de Belo Hor­i­zonte (CineBH) na noite des­ta terça-feira (26). A exibição, após a aber­tu­ra ofi­cial mar­ca­da para 20h, puxa uma pro­gra­mação estru­tu­ra­da para dar vis­i­bil­i­dade ao cin­e­ma lati­no-amer­i­cano.

De acor­do com Rafael Conde, o pro­je­to do filme exis­tia há cer­ca de 20 anos. A ideia chegou a ser pre­mi­a­da no Fes­ti­val Inter­na­cional de Roter­dã (Holan­da) para desen­volvi­men­to do roteiro. “Des­de então, hou­ve vários per­calços do cin­e­ma e da min­ha vida. Dig­amos assim que min­ha vida foi atrav­es­sa­da por out­ras pro­duções. E somente mais recen­te­mente con­segui via­bi­lizar a con­clusão desse filme”, con­ta.

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Repro­dução: São Paulo — A hora vagabun­da — Mostra CineBH — Foto A hora vagabunda/Divulgação

Rafael Conde expli­ca que o filme dialo­ga com o livro-reportagem tam­bém inti­t­u­la­do , do jor­nal­ista Samarone Lima, lança­do em 1998. Ele dá destaque a cor­re­spondên­cias entre José Car­los e seu pai, o jurista Edgar de Godoi da Mata Macha­do, dep­uta­do cas­sa­do em 1968 com base no Ato Insti­tu­cional nº 5 (AI‑5) e desta­ca­do pro­fes­sor da Fac­ul­dade de Dire­ito da UFMG onde o fil­ho estu­dou. As car­tas tro­cadas por eles doc­u­men­tam difi­cul­dades vivi­das durante o regime mil­i­tar.

“É um recorte. O filme opta por abor­dar um pouquin­ho da intim­i­dade de uma família na mil­itân­cia. E temos essa cor­re­spondên­cia envol­ven­do o pai na luta pela legal­i­dade, na luta pela restau­ração da democ­ra­cia, e o fil­ho atuan­do na clan­des­tinidade. E nesse con­tex­to, o Zé tam­bém se tornou pai. Ele era lig­a­do à Ação Pop­u­lar, orga­ni­za­ção ori­un­do da juven­tude católi­ca. E o filme é uma ficção, que usa atores, para nar­rar esse per­cur­so. Eu não vou con­tar a história para não dar spoil­er demais, mas é uma tra­ma com­pli­ca­da, que envolve uma traição que vem de den­tro da família”, diz o cineas­ta.

Ele desta­ca a importân­cia de dar vis­i­bil­i­dade a essa história, ten­do em vista a dis­sem­i­nação, nos últi­mos anos, de dis­cur­sos extrem­is­tas que exal­tam o regime mil­i­tar. “O filme demor­ou a ficar pron­to e deu essa sorte de ser jus­ta­mente quan­do pre­cisamos voltar a falar desse tema com mais força. Estou con­tente que ele começa ago­ra a cir­cu­lar em fes­ti­vais, depois vai ser lança­do em sala de cin­e­ma”, acres­cen­tou.

Raquel Hal­lak, coor­de­nado­ra-ger­al da CineBH, endos­sa a importân­cia das reflexões que o filme poderá pro­por­cionar. “Acho que é um momen­to pra gente olhar para a tela e não perder a nos­sa memória. Ver o que faz parte da nos­sa história pra gente não regredir mais”.

Homenagem

A CineBH é orga­ni­za­da anual­mente des­de 2007 pela Uni­ver­so Pro­dução, tam­bém respon­sáv­el pelas tradi­cionais mostras de cin­e­ma de Tiradentes e de Ouro Pre­to. Nes­ta edição, 93 filmes nacionais e inter­na­cionais (39 lon­gas, 31 cur­tas e 3 médias-metra­gens) serão lev­a­dos para as telas. A pro­gra­mação, que se encer­ra no domin­go (1º), inclui filmes e out­ras ativi­dades para diver­sas idades, todas gra­tu­itas.

São Paulo (SP) - 26/09/2023- Samba-Canção - Direção: Rafael Conde Mostra Homenagem 17ª CineBH - International Film Festival | De 26 de setembro a 1º de outubro de 2023 | Programação gratuita Foto: Samba-Canção/Divulgação
Repro­dução: São Paulo — Sam­ba-Canção — Mostra CineBH — Foto Sam­ba-Canção/­Di­vul­gação

Além de assi­nar o filme de aber­tu­ra do even­to, Rafael Conde será hom­e­nagea­do e rece­berá o Troféu Hor­i­zonte jun­to com a atriz e dire­to­ra Yara de Novaes. As tra­jetórias de ambos, que seguem cam­in­hos especí­fi­cos e ao mes­mo tem­po entre­laça­dos, serão rev­er­en­ci­adas na cer­imô­nia de aber­tu­ra.

Pro­fes­sor aposen­ta­do da Esco­la de Belas Artes da UFMG, Rafael Conde tem lon­ga tra­jetória no cin­e­ma mineiro. Por sua vez Yara é uma refer­ên­cia do teatro, des­de a pre­sença nos pal­cos como atriz e dire­to­ra até o ensi­no nas salas de aula.

“São nomes desse faz­er artís­ti­co rep­re­sen­ta­ti­vo de Minas e que mostram o cin­e­ma com arte cole­ti­va. A Yara sem­pre atuan­do nos filmes do Rafael, como atriz ou como preparado­ra de elen­co. O Rafael surgiu no cin­e­ma e começou a faz­er filmes aos 22 anos, numa ger­ação que era prati­ca­mente ele soz­in­ho. E assi­na filmes emblemáti­cos envol­ven­do a cidade de Belo Hor­i­zonte”, diz Raquel Hal­lak.

Entre 1998 e 2008, Rafael Conde dirigiu seis filmes que con­taram com a par­tic­i­pação de Yara seja como atriz, dire­to­ra de elen­co ou assis­tente de direção. Entre eles estão os lon­gas-metra­gens Sam­ba Canção (2002) e Fron­teira (2008). Tam­bém são fru­tos dessa parce­ria os cur­tas A Hora Vagabun­da (1998), Françoise (2002), Rua da Amar­gu­ra (2003) e A Chu­va nos Tel­ha­dos Anti­gos (2006). Alguns dess­es tra­bal­hos serão exibidos durante a pro­gra­mação da CineBH.

“Estou muito feliz e espero, na ver­dade, que essa hom­e­nagem se esten­da. Porque pen­so que, com certeza, é uma hom­e­nagem para todo mun­do que tra­bal­hou comi­go. O cin­e­ma é uma arte cole­ti­va. Isso é impor­tante diz­er e que essa hom­e­nagem se des­do­bre em  novos tra­bal­hos”, diz Rafael Conde.

Edição: Graça Adju­to

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