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Formados no exterior, brasileiros apostam em recomeço do Mais Médicos

Repro­du­ção: © Mar­ce­lo Camargo/Agência Bra­sil

“Estou confiante. Acredito que vou ser bem recebida”, diz Mikaelle


Publi­ca­do em 19/08/2023 — 08:07 Por Pau­la Labois­siè­re – Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — Bra­sí­lia

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Ana Caro­li­ne Fei­to­sa tem 24 anos e se for­mou em medi­ci­na no Para­guai. Che­gou ao país vizi­nho em 2017, quan­do ain­da não pen­sa­va em atu­ar na saú­de. Em 2022, já com o diplo­ma em mãos, retor­nou ao Bra­sil. Nas­ci­da em São Luís, a jovem viveu com a famí­lia duran­te mui­tos anos em Bar­rei­ri­nhas (MA), onde pôde obser­var as difi­cul­da­des para se con­se­guir aten­di­men­to médi­co. Atu­al­men­te, Ana Caro­li­ne inte­gra um gru­po de 1.041 pro­fis­si­o­nais, for­ma­dos em medi­ci­na no exte­ri­or, e que pas­sam por um módu­lo de aco­lhi­men­to e for­ma­ção para pode­rem atu­ar no pro­gra­ma Mais Médi­cos.

“No Para­guai, me iden­ti­fi­quei mui­to com a par­te da saú­de e deci­di: que­ro ser médi­ca, que­ro cui­dar, que­ro aju­dar a comu­ni­da­de. Sou do Nor­des­te e, lá, a gen­te vê a comu­ni­da­de, vê que ela pre­ci­sa de um cui­da­do, de um olhar mais amplo. A gen­te pre­ci­sa ver o paci­en­te, o que ele pre­ci­sa. Lá, fal­ta­va não só médi­co, mas equi­pe. Temos bas­tan­te pos­tos de saú­de, mas há carên­cia de pro­fis­si­o­nais. Fal­ta médi­co, enfer­mei­ra. Temos um agen­te de saú­de, mas sobre­car­re­ga­do, com mui­tas famí­li­as.”

Brasília (DF), 17/08/2023 - A médica Ana Caroline Feitosa, que participa do 28° ciclo do Programa Mais Médicos. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Repro­du­ção: Médi­ca Ana Caro­li­ne Fei­to­sa par­ti­ci­pa do 28° ciclo do Pro­gra­ma Mais Médi­cos- Foto: Mar­ce­lo Camargo/Agência Bra­sil

Em cer­ca de duas sema­nas, Ana Caro­li­ne e os demais médi­cos con­clu­em o perío­do de for­ma­ção e serão enca­mi­nha­dos para 379 muni­cí­pi­os bra­si­lei­ros. Mais da meta­de deles vai atu­ar na região da Amazô­nia Legal. Dos pro­fis­si­o­nais que pas­sam pelo aco­lhi­men­to, 98% são bra­si­lei­ros for­ma­dos em medi­ci­na no exte­ri­or. Des­ses, 48% são for­ma­dos na Bolí­via; 41% no Para­guai; 3,8% na Argen­ti­na; 2,8% na Vene­zu­e­la; e 1,6% na Rús­sia. Os demais divi­dem-se entre paí­ses como Cuba, Peru, Uru­guai, Repú­bli­ca Domi­ni­ca­na, Nica­rá­gua, Equa­dor e Colôm­bia. Eles atu­a­rão com o Regis­tro do Minis­té­rio da Saú­de (RMS).

Ana Caro­li­ne será alo­ca­da em Godo­fre­do Via­na (MA), uma via­gem de nove horas de ôni­bus até o muni­cí­pio onde estão os pais e o namo­ra­do. Sobre o futu­ro, ela con­ta que pre­ten­de enca­rar o Exa­me Naci­o­nal de Reva­li­da­ção de Diplo­mas Médi­cos Expe­di­dos por Ins­ti­tui­ção de Edu­ca­ção Supe­ri­or Estran­gei­ra (Reva­li­da) para, um dia, tra­ba­lhar com medi­ci­na do tra­ba­lho.

“Pelo Mais Médi­cos, vamos aten­der na aten­ção bási­ca. Temos essa chan­ce de fazer espe­ci­a­li­da­de em medi­ci­na da comu­ni­da­de. Tam­bém estou fazen­do uma pós-gra­du­a­ção em saú­de públi­ca. Gos­to mui­to de medi­ci­na do tra­ba­lho, mas, pra isso, estou no pro­ces­so de reva­li­da­ção do meu diplo­ma, pra poder entrar na resi­dên­cia”, con­tou. “No come­ço, terei mui­tos desa­fi­os. Mas estou aber­ta pra conhe­cer a comu­ni­da­de, saber da neces­si­da­de dos paci­en­tes. Estar lá mes­mo pra tudo o que pre­ci­sa­rem”.

Mika­el­le Cruz, 35 anos de ida­de, tam­bém inte­gra o gru­po de médi­cos que pas­sa pelo módu­lo de aco­lhi­men­to e for­ma­ção do pro­gra­ma. For­ma­da em medi­ci­na na Bolí­via, em 2022, a jovem, do inte­ri­or da Bahia, foi sele­ci­o­na­da para o muni­cí­pio de Águia Bran­ca (ES). “Conhe­ço o esta­do do Espí­ri­to San­to, mas a cida­de em si não. Visi­tei a gran­de Vitó­ria, Cola­ti­na. Fui a pas­seio, nun­ca a tra­ba­lho. As expec­ta­ti­vas são mui­to for­tes, além de mui­ta ansi­e­da­de. Que­ro saber logo como é o local, a equi­pe, a popu­la­ção e poder atu­ar no Bra­sil”, dis­se.

Sobre a cida­de para onde será envi­a­da, Mika­el­le fez o dever de casa e pes­qui­sou cada deta­lhe.

“Tem qua­se 10 mil habi­tan­tes e era bem o que eu pen­sa­va. Que­ria morar no inte­ri­or. Pre­fi­ro o inte­ri­or à cida­de gran­de. É acon­che­gan­te, você con­se­gue conhe­cer todo mun­do, ter con­ta­to com todo mun­do e dar mais aten­ção ao seu paci­en­te”, dis­se.

“Estou mui­to con­fi­an­te. Acre­di­to que vou ser bem rece­bi­da e que vou ter uma equi­pe mara­vi­lho­sa. Esta­mos todos no mes­mo bar­co, todo mun­do aco­lhen­do todo mun­do. Todos bus­can­do novas expe­ri­ên­ci­as, com o mes­mo obje­ti­vo e, com isso, todo mun­do se aju­dan­do”.

O médi­co Ally­son Nunes Cho­ma, 31 anos, é natu­ral de Gua­ja­rá-Mirim (RO) e tam­bém se for­mou na Bolí­via, em 2021. Ele foi alo­ca­do para tra­ba­lhar em San­ta Isa­bel do Rio Negro (AM). A cida­de tem cer­ca de 28 mil habi­tan­tes e está inau­gu­ran­do sua ter­cei­ra uni­da­de de saú­de, mas con­ta com ape­nas um médi­co, que tra­ba­lha no hos­pi­tal muni­ci­pal.

Repro­du­ção: Bra­sí­lia (DF), 17/08/2023 — O médi­co Ally­son Nunes Cho­ma, que par­ti­ci­pa do 28° ciclo do Pro­gra­ma Mais Médi­cos. Foto: Mar­ce­lo Camargo/Agência Bra­sil

“Somos nove médi­cos indo pra lá. Acre­di­to que a gen­te vai mudar sig­ni­fi­ca­ti­va­men­te a ques­tão da saú­de no muni­cí­pio”, dis­se.

“As enfer­mei­ras, acre­di­to, esta­vam fazen­do esse tra­ba­lho de imu­ni­za­ção, pre­ven­ti­vos, pré-natal. Mas elas pre­ci­sam de uma assis­tên­cia, até pela sobre­car­ga de ser­vi­ço que elas têm. Então, acre­di­to que a gen­te con­si­ga mudar sig­ni­fi­ca­ti­va­men­te e melho­rar bas­tan­te a saú­de, tan­to da popu­la­ção de lá como das comu­ni­da­des em vol­ta.”

“Venho de uma cida­de do inte­ri­or. A saú­de lá é pre­cá­ria. Não che­gam os recur­sos ade­qua­dos. E, quan­do vêm, os médi­cos da capi­tal geral­men­te não que­rem ficar no inte­ri­or. Ficam um, dois, três meses e aca­bam sain­do e dei­xan­do a saú­de e a popu­la­ção desas­sis­ti­da. Estou sain­do de um inte­ri­or e indo para outro. Sei mais ou menos como fun­ci­o­na. Foi uma esco­lha minha por­que havia uma deman­da mai­or para a Amazô­nia. Mil vagas. Que­ria me desa­fi­ar a conhe­cer outro esta­do e ten­tar imple­men­tar uma coi­sa boa”, dis­se Allys­son.

Entenda

Ao todo, 1.041 pro­fis­si­o­nais do Mais Médi­cos pas­sam por um módu­lo de aco­lhi­men­to e for­ma­ção em Bra­sí­lia. Os pro­fis­si­o­nais, sele­ci­o­na­dos no pri­mei­ro edi­tal após a reto­ma­da do pro­gra­ma, têm habi­li­ta­ção para exer­cí­cio da medi­ci­na no exte­ri­or e devem pas­sar pelo cur­so antes de ini­ci­ar a atu­a­ção em uni­da­des bási­cas de saú­de. Após esse perío­do de três sema­nas, os médi­cos serão enca­mi­nha­dos para 379 muni­cí­pi­os bra­si­lei­ros. Ao todo, o Minis­té­rio da Saú­de ofer­tou mil vagas para a Amazô­nia Legal que, his­to­ri­ca­men­te, sofre com a fal­ta de pro­fis­si­o­nais e a difi­cul­da­de de fixa­ção de médi­cos.

Cri­a­do no gover­no Dil­ma Rous­seff, o Mais Médi­cos foi des­mon­ta­do no gover­no de Jair Bol­so­na­ro. Quan­do lan­ça­do, em 2013, o pro­gra­ma sofreu diver­sas crí­ti­cas de enti­da­des pro­fis­si­o­nais por cau­sa da con­tra­ta­ção de médi­cos estran­gei­ros ou com diplo­mas no exte­ri­or. Alguns des­ses médi­cos foram vai­a­dos e hos­ti­li­za­dos ao che­ga­rem ao Bra­sil. Anos depois, mes­mo con­tri­buin­do para melho­rar os indi­ca­do­res de saú­de, os pro­fis­si­o­nais de saú­de cuba­nos aca­ba­ram expul­sos por Bol­so­na­ro.

Acolhimento

O pri­mei­ro Ciclo For­ma­ti­vo do Módu­lo de Aco­lhi­men­to tem o obje­ti­vo de apro­xi­mar o médi­co par­ti­ci­pan­te do Sis­te­ma Úni­co de Saú­de (SUS) e da rea­li­da­de enfren­ta­da pela popu­la­ção em regiões onde há fal­ta de médi­cos. O con­teú­do é vol­ta­do para a legis­la­ção do SUS, o fun­ci­o­na­men­to e as atri­bui­ções da rede de saú­de, os pro­to­co­los clí­ni­cos de aten­di­men­tos defi­ni­dos pelo Minis­té­rio da Saú­de e o códi­go de éti­ca médi­ca. O aco­lhi­men­to con­sis­te no pri­mei­ro momen­to for­ma­ti­vo do pro­fis­si­o­nal inter­cam­bis­ta, for­ma­do no exte­ri­or, no Mais Médi­cos. A eta­pa é obri­ga­tó­ria.

Brasília (DF), 17/08/2023 - Brasília sedia o curso de acolhimento e avaliação dos profissionais do 28° ciclo do Programa Mais Médicos, com mais de 1 mil profissionais. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Repro­du­ção: Médi­cos par­ti­ci­pam do cur­so de aco­lhi­men­to e ava­li­a­ção dos pro­fis­si­o­nais do 28° ciclo do Pro­gra­ma Mais Médi­cos — Foto: Mar­ce­lo Camargo/Agência Bra­sil

Avaliação

A car­ga horá­ria míni­ma da for­ma­ção é de 160 horas, divi­di­da em 140 horas de res­pon­sa­bi­li­da­de dos minis­té­ri­os da Saú­de e da Edu­ca­ção, e 20 horas vol­ta­das para os muni­cí­pi­os, que devem recep­ci­o­nar os pro­fis­si­o­nais no momen­to de che­ga­da aos pos­tos de atu­a­ção. Ao final do cur­so, os médi­cos são ava­li­a­dos sobre os con­teú­dos estu­da­dos e, logo após, são enca­mi­nha­dos aos muni­cí­pi­os em que atu­a­rão, for­ta­le­cen­do o aten­di­men­to à popu­la­ção nas regiões de mai­or vul­ne­ra­bi­li­da­de do país.

Atuação

Além des­ses pro­fis­si­o­nais, outros 4.096 médi­cos sele­ci­o­na­dos no edi­tal do 28º ciclo – que ofer­tou 5.968 novas vagas pelo pro­gra­ma – já come­ça­ram a atu­ar em pos­tos de saú­de. Nes­se caso, eles não pre­ci­sa­ram pas­sar pelo trei­na­men­to por­que têm regis­tro pro­fis­si­o­nal no Bra­sil. A pre­vi­são do gover­no é que a reto­ma­da do Mais Médi­cos garan­ta aces­so à saú­de para mais de 96 milhões de bra­si­lei­ros por meio da par­ti­ci­pa­ção, até o fim de 2023, de 28 mil pro­fis­si­o­nais, sobre­tu­do em regiões de mai­or vul­ne­ra­bi­li­da­de soci­al.

Edi­ção: Fer­nan­do Fra­ga

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