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Genoíno: Forças Armadas devem desculpas ao país

Repro­du­ção: © Pau­lo Pinto/Agência Bra­sil

Para ex-assessor da Defesa, militares respaldaram os eventos de 8/1


Publi­ca­do em 09/01/2024 — 23:49 Por Lucas Por­deus León – Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — Bra­sí­lia

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Asses­sor espe­ci­al do Minis­té­rio da Defe­sa duran­te o gover­no Dil­ma, o ex-depu­ta­do fede­ral José Genoí­no acre­di­ta que os atos gol­pis­tas de 8 de janei­ro de 2022 ain­da exi­gem refle­xões e ações.

Ex-pre­si­den­te do Par­ti­do dos Tra­ba­lha­do­res (PT) e uma das refe­rên­ci­as da sigla para assun­tos mili­ta­res, Genoí­no con­si­de­ra que não é pos­sí­vel sepa­rar a ins­ti­tui­ção For­ças Arma­das da atu­a­ção dos mili­ta­res envol­vi­dos dire­ta­men­te nos atos gol­pis­tas. Na visão dele, a ins­ti­tui­ção res­pal­dou aque­le movi­men­to ini­ci­a­do com a vitó­ria de Lula em 30 de outu­bro.

Genoí­no foi guer­ri­lhei­ro duran­te a dita­du­ra mili­tar e, após a rede­mo­cra­ti­za­ção, par­ti­ci­pou da fun­da­ção do PT, par­ti­do pelo qual foi elei­to e ree­lei­to suces­si­vas vezes como depu­ta­do fede­ral. Ele renun­ci­ou ao car­go há 10 anos, em meio a denún­ci­as de cor­rup­ção, às quais ele nega e teve con­de­na­ção penal pres­cri­ta há qua­tro anos.

Em entre­vis­ta à Agên­cia Bra­sil, o petis­ta ava­lia a polí­ti­ca na área de defe­sa e acre­di­ta que é pre­ci­so punir não ape­nas aque­les mili­ta­res que depre­da­ram os pré­di­os em Bra­sí­lia, mas prin­ci­pal­men­te quem arti­cu­lou o movi­men­to que for­mou acam­pa­men­tos em fren­te aos quar­téis em todo o país.

Confira abaixo a entrevista:

Agên­cia Bra­sil: Qual foi o papel das For­ças Arma­das, ins­ti­tu­ci­o­nal­men­te, e de mili­ta­res, indi­vi­du­al­men­te, para os even­tos que aca­ba­ram no 8 de janei­ro?

Genoí­no: As For­ças Arma­das se com­pro­me­te­ram de manei­ra trans­pa­ren­te, de manei­ra pro­fun­da, com a cri­se polí­ti­ca que come­çou com a pre­pa­ra­ção do gol­pe [impe­a­ch­ment de Dil­ma Rous­seff], a elei­ção do ino­mi­ná­vel Bol­so­na­ro e os acon­te­ci­men­tos que mar­ca­ram os qua­tro anos do gover­no Bol­so­na­ro.

As mani­fes­ta­ções de 7 de setem­bro em 2021 e 2022, os pro­nun­ci­a­men­tos de auto­ri­da­des mili­ta­res, eles res­pal­da­ram aque­le tipo de gover­no, aque­le tipo de polí­ti­ca, a des­trui­ção do país, a ver­go­nha inter­na­ci­o­nal do Bra­sil, a polí­ti­ca em rela­ção à Covid, a polí­ti­ca em rela­ção aos movi­men­tos soci­ais, a polí­ti­ca em rela­ção ao Con­gres­so, eles foram uma for­ça de res­pal­do.

Por­tan­to, não há como sepa­rar o 8 de janei­ro do que acon­te­ceu nos acam­pa­men­tos, nos pro­nun­ci­a­men­tos, no ques­ti­o­na­men­to das urnas ele­trô­ni­cas e toda aque­la arti­cu­la­ção, por­que hou­ve uma ten­ta­ti­va for­te de rup­tu­ra demo­crá­ti­ca, de rup­tu­ra cons­ti­tu­ci­o­nal, e que tinha res­pal­do das For­ças Arma­das.

Uma par­te esta­va a fim de fazer aven­tu­ra, outra par­te temia não ter con­di­ções para segu­rar o resul­ta­do de um gol­pe e uma outra par­te ficou omis­sa. Por­tan­to, eu acho que a ins­ti­tui­ção For­ças Arma­das deve um pedi­do de des­cul­pa ao país.

Agên­cia Bra­sil: Não é pos­sí­vel sepa­rar os mili­ta­res que par­ti­ci­pa­ram dos atos da ins­ti­tui­ção For­ças Arma­das?

Genoí­no: É mais ou menos como foi a expe­ri­ên­cia da tran­si­ção demo­crá­ti­ca de 1979 a 1985. ‘Quem feriu os direi­tos huma­nos eram indi­ví­du­os, a ins­ti­tui­ção não’. Isso não dá para sepa­rar. Se a ins­ti­tui­ção não faz uma colo­ca­ção polí­ti­ca, não pune quem fez, quem teve na linha de fren­te, se a ins­ti­tui­ção não faz uma ava­li­a­ção por­que seus mem­bros tive­ram envol­vi­dos numa ver­da­dei­ra tra­gé­dia naci­o­nal, elas dão, ou por omis­são ou por coni­vên­cia, res­pal­do a esse tipo de rup­tu­ra.

Por­tan­to, eu acho que havia den­tro das For­ças Arma­das uma visão auto­ri­tá­ria e mes­si­â­ni­ca de trans­for­mar o gover­no do Bol­so­na­ro numa ascen­são das For­ças Arma­das ao poder polí­ti­co. Isso é bem cla­ro a par­tir da manei­ra como ocu­pa­vam os car­gos, da manei­ra como influ­en­ci­a­vam nas deci­sões de gover­no e por­que nun­ca se mani­fes­ta­ram mini­ma­men­te con­tra­ri­a­dos com isso.

Agên­cia Bra­sil: Qual ava­li­a­ção o senhor faz das medi­das em res­pos­ta ao envol­vi­men­to de mili­ta­res e das For­ças Arma­das com o movi­men­to gol­pis­ta?

Genoí­no: Os [gene­rais] qua­tro estre­las das Três For­ças que ques­ti­o­na­ram urnas ele­trô­ni­cas, que mani­fes­ta­ram não res­pei­tar o resul­ta­do da sobe­ra­nia popu­lar atra­vés do voto, que cri­a­ram res­tri­ções para a sobe­ra­nia popu­lar expres­sa na elei­ção do Lula, esses qua­tro estre­las não devi­am ocu­par car­go de che­fia no coman­do das três For­ças Arma­das.

São Paulo SP 09/01/2024 José Genoino, ex-presidente do Partido dos Trabalhadores, ex-deputado federal. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Repro­du­ção: José Genoi­no, ex-asses­sor do Minis­té­rio da Defe­sa, defen­de o fim do GSI. “Visão auto­ri­tá­ria ultra­pas­sa­da”. Foto: Pau­lo Pinto/Agência Bra­sil

As For­ças Arma­das não estão pre­pa­ra­das para a defe­sa naci­o­nal. Elas não cui­da­ram, duran­te esse perío­do, do que é essen­ci­al para a defe­sa naci­o­nal: desen­vol­vi­men­to tec­no­ló­gi­co, a inte­gra­ção sul-ame­ri­ca­na e a inser­ção do Bra­sil no mun­do. As For­ças Arma­das foram imbuí­das e influ­en­ci­a­das pela ideia do mar­xis­mo cul­tu­ral pre­ga­do pela extre­ma-direi­ta, con­tra o poli­ti­ca­men­te cor­re­to, con­tra a esquer­da, con­tra os movi­men­tos por eman­ci­pa­ção. Enfim, ado­ta­ram uma pos­tu­ra que res­ga­ta a visão de tute­la.

Agên­cia Bra­sil: Qual ava­li­a­ção o senhor faz da manu­ten­ção do GSI sobre con­tro­le do Exér­ci­to e da trans­fe­rên­cia da Agên­cia Bra­si­lei­ra de Inte­li­gên­cia (Abin) para Casa Civil?

Genoí­no: Eu acho que o GSI tinha que ser extin­to. O pro­ble­ma é que essa visão de con­gre­gar todo o sis­te­ma de inte­li­gên­cia num úni­co órgão é uma visão auto­ri­tá­ria e ultra­pas­sa­da.

Essa ideia de ter um sis­te­ma de inte­li­gên­cia con­gre­ga­do num órgão, Gabi­ne­te de Segu­ran­ça Ins­ti­tu­ci­o­nal, che­fi­a­do por um qua­tro-estre­las, eu acho que aque­la visão anti­ga de que a inte­li­gên­cia e a infor­ma­ção é assun­to estra­té­gi­co sob o con­tro­le mili­tar. Eu dis­cor­do des­ta con­fi­gu­ra­ção polí­ti­ca e orgâ­ni­ca do Gabi­ne­te de Segu­ran­ça Ins­ti­tu­ci­o­nal.

Agên­cia Bra­sil: O que deve­ria ser fei­to para que o 8 de janei­ro não vol­te a ocor­rer?

Genoí­no: Acho que os par­ti­dos que dão sus­ten­ta­ção ao gover­no, os par­ti­dos do Con­gres­so Naci­o­nal e os órgãos de inves­ti­ga­ção do gover­no deve­ri­am atu­ar para evi­tar qual­quer blin­da­gem. Como sem­pre acon­te­ceu na his­tó­ria do Bra­sil, vamos inves­ti­gar para que nin­guém seja cul­pa­do. Foi essa a mar­ca da tran­si­ção de 1979 para 1985.

Eu acho que o rela­tó­rio da CPMI do 8 de janei­ro é um bom rela­tó­rio e deve­ria ser base para inves­ti­gar. Nós não pode­mos ter inves­ti­ga­ção e pri­são ape­nas dos magri­nhos, do andar de bai­xo, daque­les que esta­vam na aven­tu­ra mili­ta­ris­ta de 8 de janei­ro. E quem arti­cu­lou? Quem finan­ci­ou? E os acam­pa­men­tos? Aque­les acam­pa­men­tos foram natu­rais? Não foram, isso é a his­tó­ria de caro­chi­nha.

Por­tan­to, eu acho que a ques­tão que tá colo­ca­da é aque­la pala­vra de ordem da pos­se do Lula no dia 1º de janei­ro: sem anis­tia. Eu acho que o Bra­sil tem que pas­sar lim­po esse perío­do dra­má­ti­co da sua his­tó­ria.

O pas­sa­do não pas­sa, ele tem que ser ava­li­a­do, ele tem que ser dis­cu­ti­do de manei­ra demo­crá­ti­ca. E essa ques­tão não pode ser ape­nas uma ati­tu­de da polí­cia e da jus­ti­ça, tem que ser tam­bém uma mani­fes­ta­ção da popu­la­ção nas pra­ças públi­cas.

Por isso que eu acho mui­to impor­tan­te o 8 de janei­ro ser lem­bra­do não só no Con­gres­so Naci­o­nal, mas ser lem­bra­do na Cine­lân­dia, na Pau­lis­ta e em vári­as pra­ças públi­cas do país.

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Repro­du­ção: “As mani­fes­ta­ções de 7 de setem­bro em 2021 e 2022, os pro­nun­ci­a­men­tos de auto­ri­da­des mili­ta­res, eles res­pal­da­ram aque­le tipo de gover­no, a des­trui­ção do país. Deram for­ça e res­pal­do”, afir­ma José Genoí­no — Joed­son Alves/Agencia Bra­sil

Agên­cia Bra­sil: Em rela­ção às puni­ções e sin­di­cân­ci­as que as For­ças Arma­das abri­ram con­tra mili­ta­res que par­ti­ci­pa­ram de acam­pa­men­tos ou do 8 de janei­ro, qual sua ava­li­a­ção?

Genoí­no: Elas são puni­ções sim­bó­li­cas, são uma espé­cie de faz de con­ta. Eu acho que as For­ças Arma­das, não digo todas elas, mas prin­ci­pal­men­te alguns dos seus inte­gran­tes que tive­ram papel des­ta­ca­do no 8 de janei­ro con­ti­nu­am pre­ser­va­dos.

E eu acho que esse vai ser um dile­ma para o Supre­mo Tri­bu­nal Fede­ral. Na medi­da em que o STF está punin­do aque­les que depre­da­ram os palá­ci­os, vai ficar só nes­ses aí? Ou vai tam­bém atin­gir quem, segun­do o minis­tro Ale­xan­dre Mora­es, tinha pre­ten­sões de matá-lo, tinha pre­ten­sões de pren­dê-lo?

Por outro lado, não foi só o 8 de janei­ro. E o 12 de dezem­bro? Aque­les atos de van­da­lis­mo em Bra­sí­lia para des­truir a sede da Polí­cia Fede­ral. E os acam­pa­dos que con­ti­nu­a­ram acam­pa­dos? Isso tem que ser inves­ti­ga­do, tem que ser rela­ta­do, tem que ser dis­cu­ti­do.

Por­tan­to, eu acho que o STF tem ado­ta­do posi­ções posi­ti­vas, por isso que eles são cri­ti­ca­dos pelo setor mais tru­cu­len­to da direi­ta, mas não pode ficar só nos magri­nhos. É neces­sá­rio que haja uma inves­ti­ga­ção ampla para que o país conhe­ça a exten­são, a dimen­são e quais as puni­ções que devem se pro­ces­sar.

Agên­cia Bra­sil: Quais opor­tu­ni­da­des de mudan­ças o 8 de janei­ro abre para o Bra­sil?

Genoí­no: Eu acho que a ques­tão demo­crá­ti­ca está den­tro da agen­da de trans­for­ma­ção do país. A ques­tão demo­crá­ti­ca envol­ve mudar a rela­ção entre os pode­res, mudar a rela­ção dos pode­res com a soci­e­da­de, esta­be­le­cer nor­mas mais fir­mes e trans­pa­ren­tes, prin­ci­pal­men­te para a gen­te pre­ser­var o prin­cí­pio da sobe­ra­nia popu­lar, o prin­cí­pio uni­ver­sal dos direi­tos e garan­ti­as e o res­pei­to às regras do jogo demo­crá­ti­co.

Eu acho que o Bra­sil não pode ser o país de inter­va­los demo­crá­ti­cos. Nem a ques­tão demo­crá­ti­ca pode ser uma espé­cie, como dizia Sér­gio Buar­que, um enga­no. Nós temos que, da Cons­ti­tui­ção de 1988 para ago­ra, tem um perío­do lon­go de Cons­ti­tui­ção, mas o desar­ran­jo ins­ti­tu­ci­o­nal con­ti­nua exis­tin­do e nós temos que tra­tar essa ques­tão com refor­mas polí­ti­cas ins­ti­tu­ci­o­nais para que a demo­cra­cia seja algo con­cre­to não só do pon­to de vis­ta polí­ti­co, mas prin­ci­pal­men­te para melho­rar a qua­li­da­de de vida do povo bra­si­lei­ro.

Edi­ção: Mar­ce­lo Bran­dão

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