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Governo define grupo sobre uso indevido de telas por crianças

Repro­du­ção: © Val­ter Campanato/Agência Bra­sil

Comissão tem representantes de sete ministérios e da sociedade civil


Publicado em 14/03/2024 — 07:57 Por Pedro Rafael Vilela — Repórter da Agência Brasil — Brasília

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Os ris­cos do uso inde­vi­do e abu­si­vo de dis­po­si­ti­vos ele­trô­ni­cos por cri­an­ças e ado­les­cen­tes serão tema cen­tral de gru­po de tra­ba­lho (GT) ins­ti­tuí­do pelo gover­no fede­ral. Por­ta­ria publi­ca­da nes­ta quin­ta-fei­ra (14), no Diá­rio Ofi­ci­al da União, desig­na mem­bros de sete minis­té­ri­os e 19 repre­sen­tan­tes da soci­e­da­de civil, aca­de­mia e enti­da­des de reco­nhe­ci­da atu­a­ção no assun­to.

O obje­ti­vo é que o tra­ba­lho resul­te na pro­du­ção de um guia para uso cons­ci­en­te de telas, com ori­en­ta­ções para fami­li­a­res, cui­da­do­res e edu­ca­do­res, além de ser­vir de base para polí­ti­cas públi­cas nas áre­as de saú­de, edu­ca­ção, assis­tên­cia soci­al e pro­te­ção do públi­co mais vul­ne­rá­vel.

A ini­ci­a­ti­va é da Secre­ta­ria de Polí­ti­cas Digi­tais da Secre­ta­ria de Comu­ni­ca­ção Soci­al (Secom) da Pre­si­dên­cia da Repú­bli­ca. Segun­do a pas­ta, entre 2019 e 2022, hou­ve cres­ci­men­to de 64% nas taxas de lesões auto­pro­vo­ca­das inten­ci­o­nal­men­te por cri­an­ças e ado­les­cen­tes, em situ­a­ções como ten­ta­ti­vas de sui­cí­dio, por exem­plo. O dado está rela­ci­o­na­do ao uso de telas conec­ta­das à inter­net por esse públi­co.

A ins­ta­la­ção do GT era aguar­da­da por espe­ci­a­lis­tas. “É uma medi­da impor­tan­te e urgen­te, um esfor­ço mul­ti­dis­ci­pli­nar e mul­tis­se­to­ri­al que visa a enten­der deman­das e pro­por cami­nhos para um uso cons­ci­en­te de telas que pre­ci­sa envol­ver Esta­do, famí­lia e toda a soci­e­da­de, incluin­do empre­sas, con­for­me nos­sa Cons­ti­tui­ção Fede­ral, no Arti­go 227”, des­ta­ca Maria Mel­lo, coor­de­na­do­ra do Pro­gra­ma Cri­an­ça e Con­su­mo do Ins­ti­tu­to Ala­na, enti­da­de de his­tó­ri­ca atu­a­ção nos direi­tos da infân­cia e que fará par­te do gru­po.

A inte­ra­ção de cri­an­ças com as telas ocor­re cada vez mais cedo e de for­ma ampla. Cer­ca de um ter­ço dos usuá­ri­os da inter­net no mun­do é de cri­an­ças de ado­les­cen­tes, segun­do dados da pes­qui­sa TIC Kids onli­ne, pro­du­zi­da pelo Comi­tê Ges­tor da Inter­net (CGO.br). Ao todo, 95% das cri­an­ças e ado­les­cen­tes de nove a 17 anos aces­sa­ram a inter­net em 2023. Nas clas­ses AB, 93% aces­sa­ram a inter­net mais de uma vez por dia, nas clas­ses D e E esse per­cen­tu­al caiu para 71%, sen­do que a média foi de 83%. Em 2023, 24% dos entre­vis­ta­dos rela­ta­ram ter come­ça­do a se conec­tar à inter­net des­de o perío­do da pri­mei­ra infân­cia, ou seja, antes dos seis anos. Em 2015, essa pro­por­ção era de 11%. Entre as cri­an­ças de nove a 10 anos, 68% dis­se­ram ter per­fis em redes soci­ais.

“Impor­tan­te des­ta­car as opor­tu­ni­da­des de apren­di­za­do e entre­te­ni­men­to e aces­so a direi­tos fun­da­men­tais des­sa pre­sen­ça de cri­an­ças e ado­les­cen­tes no ambi­en­te digi­tal, mas tam­bém os ris­cos de explo­ra­ção, expo­si­ção e aces­so a con­teú­dos ina­pro­pri­a­dos, pre­sen­tes sobre­tu­do nos pro­du­tos e ser­vi­ços regi­dos por mode­los de negó­ci­os base­a­dos na lógi­ca da eco­no­mia da aten­ção, que desem­pe­nham papel cen­tral nes­ta dinâ­mi­ca de ampli­a­ção de ris­cos. Quan­to mais tem­po as pes­so­as pas­sam em deter­mi­na­das pla­ta­for­mas, mais inten­sa­men­te são sub­me­ti­das à publi­ci­da­de e à cole­ta de seus dados e explo­ra­ções vari­a­das, assim como mais sus­ce­tí­veis esta­rão a estra­té­gi­as que visam a influ­en­ci­ar e alte­rar suas pre­fe­rên­ci­as e visões de mun­do”, diz Maria Mel­lo. O deba­te, argu­men­ta a espe­ci­a­lis­ta, “é menos sobre as telas em si e mais sobre pro­du­tos e ser­vi­ços que não são pen­sa­dos para pro­mo­ver direi­tos de cri­an­ças e ado­les­cen­tes, des­de sua con­cep­ção”.

Múltiplos danos

O pedi­a­tra e sani­ta­ris­ta Dani­el Bec­ker, um dos inte­gran­tes do GT, enu­me­ra uma série de pre­juí­zos cau­sa­dos pelo uso pro­lon­ga­do e ina­de­qua­do des­ses dis­po­si­ti­vos. “Não há mais dúvi­da nenhu­ma, na soci­e­da­de e na ciên­cia, sobre os danos múl­ti­plos e mul­ti­di­men­si­o­nais que o mau uso e o exces­so de telas estão cau­san­do na infân­cia e ado­les­cên­cia”, afir­ma. Os pre­juí­zos, segun­do o médi­co, vão des­de os físi­cos, como a pre­va­lên­cia de hábi­tos seden­tá­ri­os, o desen­vol­vi­men­to de dis­túr­bi­os visu­ais como mio­pia, e alte­ra­ções no sono, até com­pro­me­ti­men­tos cog­ni­ti­vos e emo­ci­o­nais, como a fal­ta de aten­ção e o pou­co desen­vol­vi­men­to de habi­li­da­des inter­pes­so­ais. A situ­a­ção é espe­ci­al­men­te mais pre­o­cu­pan­te quan­do o con­ta­to com a telas ocor­re em cri­an­ças mui­to peque­nas, com até 2 anos de ida­de.

“Nos peque­nos, já está mais do que com­pro­va­do. Há estu­do com 7 mil cri­an­ças mos­tran­do que o uso de telas, em meno­res de um ou dois anos, leva pre­juí­zos ao desen­vol­vi­men­to motor, cog­ni­ti­vo e emo­ci­o­nal, mais tar­de nes­sa cri­an­ça mais velha”, diz o espe­ci­a­lis­ta. São dis­túr­bi­os de apren­di­za­do e de aten­ção, por exem­plo. A arqui­te­tu­ra que pri­vi­le­gia víde­os cur­tos, comuns às redes soci­ais, frag­men­ta a capa­ci­da­de de con­cen­tra­ção das cri­an­ças. “Ela vai per­den­do a habi­li­da­de fun­da­men­tal da lei­tu­ra, não con­se­gue fixar a aten­ção numa fala que dure um pou­co mais de tem­po por­que pas­sa a estar acos­tu­ma­da com a hiper esti­mu­la­ção dos víde­os cur­tos e des­sa tro­ca de con­teú­do mui­to rápi­da”, deta­lha Bec­ker.

Em ter­mos soci­ais, outro ris­co das telas apon­ta­do por Dani­el Bec­ker tem a ver com o con­ta­to de cri­an­ças e ado­les­cen­tes com con­teú­do e ide­o­lo­gi­as extre­mis­tas, que pre­gam vio­lên­cia e pre­con­cei­to, como machis­mo, miso­gi­nia, racis­mo, nazis­mo e simi­la­res. Ou mes­mo a vul­ne­ra­bi­li­da­de a ações de cri­mi­no­sos, com ris­cos de expo­si­ção à pedo­fi­lia, prá­ti­ca de assé­dio e cyber­bullying. Nes­se sen­ti­do, defen­de o médi­co, é pre­ci­so que o gover­no e o Con­gres­so Naci­o­nal avan­cem na apro­va­ção de uma lei sobre liber­da­de, res­pon­sa­bi­li­da­de e trans­pa­rên­cia das pla­ta­for­mas de inter­net e redes soci­ais.

Políticas públicas

O enfren­ta­men­to ao pro­ble­ma, aler­tam os espe­ci­a­lis­tas ouvi­dos pela Agên­cia Bra­sil, não deve ser ape­nas com­por­ta­men­tal, com impo­si­ção de res­tri­ções e outras medi­das pare­ci­das, mas depen­de da garan­tia de uma série de outros direi­tos.  “É pre­ci­so inves­tir em polí­ti­cas públi­cas de cui­da­do com quem cui­da, como ampli­a­ção de cre­ches, apoio a mães solo, entre outras. Do con­trá­rio, as telas con­ti­nu­a­rão sen­do a aju­da”, aler­ta Maria Mel­lo, do Ins­ti­tu­to Ala­na.

Na mes­ma linha, Dani­el Bec­ker fala sobre a impor­tân­cia de que esco­las, famí­lia e o Poder Públi­co con­si­gam garan­tir um leque ampli­a­do de ati­vi­da­des para as cri­an­ças e ado­les­cen­tes, como espor­tes, cul­tu­ra, con­ta­to com a natu­re­za, fomen­tan­do o desen­vol­vi­men­to inte­gral de habi­li­da­de moto­ras, cog­ni­ti­vas e soci­o­e­mo­ci­o­nais.

Edi­ção: Gra­ça Adju­to

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