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Há 30 anos, marcha no Rio inaugurava paradas do orgulho LGBT no Brasil

Conheça a história da marcha que fundou as paradas LGBT pelo país

Viní­cius Lis­boa — Repórter da Agên­cia Brasil
Pub­li­ca­do em 17/11/2025 — 07:48
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro (RJ), 14/11/2025 – Marcha da Cidadania, realizada no Rio de Janeiro em 1995, a primeira Parada LGBT do Brasil. Foto: Acervo do Grupo Arco Íris/Divulgação
Repro­dução: © Acer­vo do Grupo Arco Íris/Divulgação

Os 30 anos da primeira para­da do orgul­ho LGBTI+ do Brasil, a do Rio de Janeiro, serão cel­e­bra­dos no próx­i­mo domin­go (23). A man­i­fes­tação vol­ta à Pra­ia de Copaca­bana, seu cenário des­de 1995, para exal­tar sua jor­na­da e apos­tar no futuro, com o tema “30 anos fazen­do história: das primeiras lutas pelo dire­ito de exi­s­tir à con­strução de futur­os sus­ten­táveis”.

As três décadas são con­tadas a par­tir da Mar­cha da Cidada­nia de 25 de jun­ho de 1995, ao fim da 17ª Con­fer­ên­cia Mundi­al da Asso­ci­ação Inter­na­cional de Gays e Lés­bi­cas (Ilga, em inglês).

A pas­sagem do even­to inter­na­cional pelo Rio de Janeiro, pleit­ea­da e con­cretiza­da pelo movi­men­to LGBTI+ brasileiro, trouxe grande vis­i­bil­i­dade à comu­nidade, aju­dou a artic­u­lar os gru­pos nacional­mente e a impul­sion­ar as paradas do orgul­ho no país. Em vários locais, ativis­tas já se orga­ni­zavam des­de as décadas ante­ri­ores, mas com foco na urgên­cia de con­ter a epi­demia de HIV/Aids, expli­ca o pro­fes­sor da Uni­ver­si­dade Fed­er­al de São Paulo (Unife­sp) e pres­i­dente do Grupo de Tra­bal­ho Memória e Ver­dade LGBT, Renan Quinal­ha.

“Não era a primeira vez que o movi­men­to LGBTI+ saía às ruas, mas com esse for­ma­to de man­i­fes­tação, em diál­o­go com a sociedade, com uma agen­da de reivin­di­cações mais abrangente, acon­tece neste momen­to”, difer­en­cia ele.

Quinal­ha expli­ca que a mar­cha de 1995, no Rio de Janeiro, é icôni­ca por ini­ciar um proces­so de acú­mu­lo e apren­diza­do que se espal­ha pelo país nos anos seguintes e atinge a escala de mil­hões de par­tic­i­pantes nos anos 2000, com destaque para a Para­da LGBT+ de São Paulo, que se tor­na a maior do mun­do. 

“Dá para diz­er que as paradas são as maiores man­i­fes­tações democráti­cas do Brasil. Nen­hum out­ro movi­men­to colo­ca tan­ta gente nas ruas anual­mente em várias cidades”.

Primeira tentativa

Rio de Janeiro (RJ), 14/11/2025 – O presidente do Grupo Arco-Íris, Cláudio Nascimento, fala sobre os 30 anos da Parada LGBTI+. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Repro­dução: O pres­i­dente do Grupo Arco-Íris, Cláu­dio Nasci­men­to. Foto: Fer­nan­do Frazão/Agência Brasil -

A história da vin­da da con­fer­ên­cia da Ilga para o Brasil começa qua­tro anos antes, em 1991, quan­do o ativista Adau­to Belarmi­no con­segue ofi­cializar a can­di­datu­ra do Rio de Janeiro como sede do even­to, escol­ha que é con­fir­ma­da em 1993.

Naque­le ano, o Movi­men­to de Eman­ci­pação Homos­sex­u­al Grupo Ato­bá, o recém cri­a­do Grupo Arco-Íris e out­ros movi­men­tos havi­am ten­ta­do con­vo­car uma para­da já na Pra­ia de Copaca­bana. Mas o bal­anço foi de que a ten­ta­ti­va tin­ha fra­cas­sa­do: foram menos de 30 par­tic­i­pantes, sendo a maior parte deles, os próprios orga­ni­zadores.

Hoje pres­i­dente do Grupo Arco-Íris de Cidada­nia LGBTI+, enti­dade que orga­ni­za a para­da des­de a sua primeira edição, Cláu­dio Nasci­men­to tin­ha 23 anos e foi um dos que se sen­taram, ao fim da cam­in­ha­da, em um bar na Gale­ria Alas­ka, anti­go pon­to de encon­tro da comu­nidade em Copaca­bana, para dis­cu­tir o que tin­ha dado erra­do.

“Os mais vel­hos estavam muito “P” da vida, dizen­do que as pes­soas eram traido­ras, não tin­ham sen­so de cole­tivi­dade, de comu­nidade. E nós, do Arco-Íris, um grupo nov­in­ho que esta­va nascen­do, tive­mos a ousa­dia de diz­er para eles que, em vez de cul­par a comu­nidade, a gente tin­ha que anal­is­ar os fatores que prej­u­dicaram a par­tic­i­pação. Primeiro, tin­ha que tra­bal­har a autoes­ti­ma”, lem­bra.

A con­clusão veio após uma vira­da de chave que foi vivi­da pelo movi­men­to LGBTI+ no país nos anos 1990. A exper­iên­cia de mais de uma déca­da de luta con­tra a epi­demia de AIDS e a reaber­tu­ra democráti­ca tiraram o movi­men­to “da defen­si­va”, res­ga­ta Cláu­dio, per­mitin­do a con­strução de uma pau­ta sobre cidada­nia, orgul­ho e reivin­di­cação de políti­cas públi­cas.

Quan­do o Rio de Janeiro se con­fir­ma como sede da Con­fer­ên­cia da Ilga o Grupo Arco-Íris percebe que se trata­va de uma opor­tu­nidade para for­t­ale­cer essa mobi­liza­ção.

Autoestima

Mes­mo com os avanços, ain­da havia um con­tex­to que afas­ta­va os LGBTI+ da para­da: medo de ser recon­heci­do em públi­co e sofr­er agressões ver­bais e físi­cas, de ficar sem emprego, de ser expul­so de casa e até de perder com­pan­heiros que não estivessem dis­pos­tos a se assumir pub­li­ca­mente.

“Em 1994, a gente decide não faz­er mais a para­da, mas pro­move even­tos soci­ais e cul­tur­ais, encon­tros sem­anais que chegam a reunir 60, 70 pes­soas”, expli­ca Cláu­dio, con­tan­do que o grupo que­ria estim­u­lar os par­tic­i­pantes a gan­harem con­fi­ança.

Um dess­es even­tos é a própria cer­imô­nia públi­ca de casa­men­to de Clau­dio e Adau­to Belarmi­no, em 1994, cel­e­bra­da por ex-sem­i­nar­is­tas católi­cos na sede do Sindi­ca­to dos Fun­cionários de Saúde e Pre­v­idên­cia do Esta­do do Rio (Sind­sprev). Tam­bém naque­le ano, um encon­tro ao ar livre no jardim do Museu de Arte Mod­er­na do Rio de Janeiro, chama­do de tarde de con­vivên­cia, chegou a reunir 600 pes­soas.

Con­forme a mobi­liza­ção cres­cia, para­le­la­mente, a preparação para a con­fer­ên­cia e a son­ha­da para­da na cidade per­mane­ci­am no hor­i­zonte, lem­bra Cláu­dio.

“A gente rece­beu de Nova York um fac-símile, com mais de 50 pági­nas e uma série de exigên­cias. A gente, então, decide men­tir e diz­er que tin­ha tudo garan­ti­do. Se a gente falasse a ver­dade, que ain­da ia bus­car o apoio e as parce­rias, [a con­fer­ên­cia] pode­ria ter sido can­ce­la­da”, admite Cláu­dio.

Ele lem­bra que só ficou mais tran­qui­lo com a real­iza­ção da tarde com 600 par­tic­i­pantes. “Ali, a gente teve certeza de que era pos­sív­el, porque a gente saiu de menos de 30 para 600”.

1995, o marco inicial

Rio de Janeiro (RJ), 14/11/2025 – Ex-presidente do Grupo Arco Íris Augusto Andrade (esquerda), Luiz Carlos Ramos (centro), Claudio Nascimento (direito) na Marcha da Cidadania de 1995, a primeira Parada LGBT do Brasil Foto: Augusto Andrade/Arquivo pessoal
Repro­dução: Rio de Janeiro (RJ), 14/11/2025 – Ex-pres­i­dente do Grupo Arco Íris Augus­to Andrade (esquer­da), Luiz Car­los Ramos (cen­tro), Clau­dio Nasci­men­to (dire­ito) na Mar­cha da Cidada­nia de 1995, a primeira Para­da LGBT do Brasil Foto: Augus­to Andrade/Arquivo pes­soal — Augus­to Andrade/Arquivo pes­soal

O Grupo Arco-Íris era pre­si­di­do na época por Augus­to Andrade, que o havia fun­da­do com ami­gos na sala da casa em que mora­va com Luiz Car­los Bar­ros, em maio de 1993.

Após a con­fir­mação da con­fer­ên­cia, Augus­to con­ta que o grupo enfren­tou todo tipo de obstácu­lo para sua real­iza­ção, inclu­sive do pon­to de vista finan­ceiro, con­train­do dívi­das no próprio nome dos inte­grantes para garan­tir o even­to.

Inscrições de par­tic­i­pantes estrangeiros e doações de enti­dades inter­na­cionais, ativis­tas e artis­tas, como o can­tor Rena­to Rus­so, nomea­do padrin­ho da con­fer­ên­cia, foram fun­da­men­tais. Car­ros de som e out­ros recur­sos do Sind­spre­vi, do sindi­ca­to dos bancários e do sindi­catos dos tra­bal­hadores das empre­sas tele­fôni­cas tam­bém foram indis­pen­sáveis para a mar­cha.

“A Ilga, naque­la ocasião, tin­ha o sta­tus de órgão con­sul­ti­vo da ONU. Então, nós usamos isso como um carim­bo para abrir por­tas. Porque, para muitas pes­soas, era um choque, uma coisa inad­mis­sív­el, ina­ceitáv­el”, con­ta ele.

“Mas con­seguimos uma vis­i­bil­i­dade imen­sa. Tiramos a homos­sex­u­al­i­dade das pági­nas poli­ci­ais para as pági­nas de econo­mia, de políti­ca, de cul­tura, de moda”.

Brasília (DF), 14/11/2025 - Augusto Andrade, organizador da primeira Parada LGBTI+ do Rio de Janeiro, que chega, em 23 de novembro de 2025, a sua 30ª edição. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Repro­dução: Augus­to Andrade, orga­ni­zador da primeira Para­da LGBTI+ do Rio de Janeiro. Foto: Marce­lo Camargo/Agência Brasil

A con­fer­ên­cia foi real­iza­da entre 18 e 25 de jun­ho de 1995, em um hotel no Pos­to 6, na Pra­ia de Copaca­bana. No cen­tro das dis­cussões, que reu­ni­am entre 2 mil e 3 mil pes­soas por dia, estavam pon­tos que só seri­am con­quis­ta­dos cer­ca de 20 anos depois, pela via judi­cial: o casa­men­to homoafe­ti­vo (2011), legal­iza­do pelo Supre­mo Tri­bunal Fed­er­al em 2011, e o recon­hec­i­men­to da dis­crim­i­nação con­tra a pop­u­lação LGBTI+, tip­i­fi­ca­da pela Corte em 2019. 

Com a para­da ao fim desse even­to, a ambição do Arco-Íris era cri­ar um sím­bo­lo de mobi­liza­ção que pudesse ser repeti­do nos anos seguintes.

“A para­da foi a solução que a gente achou para que, nos anos sub­se­quentes, a dis­cussão con­tin­u­asse, e a nos­sa pau­ta se man­tivesse viva”, rela­ta Augus­to.

Clau­dio Nasci­men­to exal­ta o sím­bo­lo prin­ci­pal da para­da do Rio, a ban­deira arco-íris de 124 met­ros de com­pri­men­to por 10 de largu­ra, que já esta­va pre­sente em 1995. Esse gigan­tismo era estratégi­co:

“Queríamos que todo mun­do pudesse ter o luxo de segu­rar, de tocar, e que, quan­do a impren­sa tivesse que escol­her ape­nas uma foto, escol­he­ria ela. E até hoje, 30 anos depois, é o que acon­tece”

Pertencimento

Rio de Janeiro (RJ), 14/11/2025 – A ativista LGBTQIA+, Rosângela Castro posa para fotografia no centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Repro­dução: A ativista LGBTQIA+, Rosân­gela Cas­tro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A ativista lés­bi­ca Rosan­gela Cas­tro par­tic­i­pa­va do Grupo Arco-Íris na época e lem­bra que, além do públi­co da con­fer­ên­cia inter­na­cional e dos ativis­tas de out­ros esta­dos, a adesão da para­da tam­bém foi resul­ta­do de um tra­bal­ho de divul­gação em bares, boates e out­ros pon­tos de encon­tro das comu­nidades de gays, lés­bi­cas, bis­sex­u­ais e trav­es­tis.

“A gente teve muitas mãos colab­o­ran­do com essa para­da, então, foi uma sen­sação muito boa, de per­tenci­men­to, de que, a par­tir dali, as coisas começari­am a mudar. Havia muitos olhares que não eram favoráveis, mas tam­bém muitos que encar­avam como novi­dade, se per­gun­tan­do: ‘Nos­sa, é tan­ta gente assim?’”, con­ta ela.

Depois da mar­cha no Rio, Rosân­gela e o Grupo Arco-Íris via­jaram para out­ros esta­dos, aju­dan­do na orga­ni­za­ção de uma série de primeiras paradas, como a de São Paulo, em 1997. A ativista ficou no Arco-Íris até o iní­cio dos anos 2000, quan­do fun­dou o Grupo de Mul­heres Feli­pa de Sousa, em 2001, ded­i­ca­do a mul­heres lés­bi­cas e bis­sex­u­ais e, pos­te­ri­or­mente, foca­do nas mul­heres negras dessa pop­u­lação.

“Há pouco tem­po que come­cei a ver a min­ha importân­cia em tudo isso, de tan­to as pes­soas me falarem. Para mim, era uma coisa que eu tin­ha que faz­er, era como estar viva. O ativis­mo é o que me move até hoje. Ano que vem, eu vou faz­er 70 anos, e essa é min­ha for­ma de viv­er. Se eu tivesse que faz­er tudo de novo, eu faria”.

Rio de Janeiro (RJ), 14/11/2025 – Ativista Jorge Caê Rodrigues na Marcha da Cidadania de 1995, a primeira Parada do Orgulho LGBTI+ do BrasilFoto: Jorge Caê Rodrigues/Arquivo Pessoal
Repro­dução:  Ativista Jorge Caê Rodrigues na Mar­cha da Cidada­nia de 1995. Foto: Jorge Caê Rodrigues/Arquivo Pes­soal

Para Jorge Caê Rodrigues, que tam­bém par­ticipou da orga­ni­za­ção da para­da, a história de sua vida e a do movi­men­to LGBTI+ no Brasil se mis­tu­ram. Jorge con­heceu o mari­do, John Mac­Carthy, na mil­itân­cia, nos anos 1980, e os dois ficaram 39 anos jun­tos. Nes­sa estra­da, a mar­cha pio­neira no Rio de Janeiro foi um mar­co em que os dois tra­bal­haram jun­tos.

“Não digo que foi o iní­cio. Em 1980, foi plan­ta­da a semente de uma árvore que cresceu e, ali, começou a dar fru­tos. Foi um proces­so lon­go, mas, em 1995, já era uma árvore forte, com raízes fin­cadas”, lem­bra ele “Foi um momen­to de uma glória ina­cred­itáv­el, de mui­ta emoção. A para­da foi a catarse”.

Mes­mo depois de sair da orga­ni­za­ção da para­da, no ano 2000, o casal não deixou de par­tic­i­par da man­i­fes­tação. Em 2019, quan­do John mor­reu, um dos trios elétri­cos des­filou com uma foto em sua hom­e­nagem, mas Jorge não se sen­tiu em condições de voltar à rua durante o luto.

Anos depois, em um novo rela­ciona­men­to, Jorge Caê desco­briu que o namora­do, um homem mais jovem que tin­ha nasci­do no inte­ri­or do Rio de Janeiro, nun­ca tin­ha ido a uma para­da LGBTI+. Depois de con­tar a ele sua história, os dois decidi­ram ir jun­tos em 2023.

“Foi tocante estar com uma pes­soa que nun­ca tin­ha ido, um homos­sex­u­al do inte­ri­or, e ver a ale­gria dele em ver que real­mente não está soz­in­ho, que não é o úni­co, que é um pen­sa­men­to que pas­sa pela cabeça de muitos homos­sex­u­ais. Foi muito comovente. Espero que a para­da con­tin­ue for­ev­er and ever”.

 

Rio de Janeiro (RJ), 14/11/2025 – John MacCarthy (esquerda), Jorge Caê Rodrigues e Gilza, na Parada LGBTI+ do Rio em 2009 Foto: Jorge Caê Rodrigues/Arquivo Pessoal
John Mac­Carthy (esquer­da), Jorge Caê Rodrigues e Gilza, na Para­da LGBTI+ do Rio em 2009 Foto: Jorge Caê Rodrigues/Arquivo Pes­soal
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