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Hip hop é a maior cultura urbana da história, afirma pesquisador

Repro­du­ção: © Arte/Agência Bra­sil

Em entrevista, DJ Eugênio Lima fala sobre 50 anos do movimento


Publi­ca­do em 12/11/2023 — 08:45 Por Dani­el Mel­lo — Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — São Pau­lo

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Repro­du­ção: @Agência Bra­sil

“A mai­or cul­tu­ra urba­na da his­tó­ria da huma­ni­da­de.” É assim que o DJ Eugê­nio Lima defi­ne o hip hop, que em 2023 com­ple­ta 50 anos de exis­tên­cia e 40 anos de pre­sen­ça no Bra­sil. Pes­qui­sa­dor e um dos fun­da­do­res do Núcleo Bar­to­lo­meu de Depoi­men­tos, gru­po que pen­sa o tea­tro a par­tir da esté­ti­ca do hip hop, Lima vê nes­sa cul­tu­ra ele­men­tos tra­di­ci­o­nais afri­ca­nos que dia­lo­gam com as popu­la­ções negras em diás­po­ra por todo o mun­do.

Aqui, ele pega empres­ta­das as pala­vras de Afri­ka Bam­ba­a­taa, DJ e pro­du­tor pio­nei­ro do gêne­ro para expli­car essa rela­ção. “Uma coi­sa que o Bam­ba­a­taa fala é que o hip hop nada mais é do que [a téc­ni­ca] dos gri­ôs [con­ta­do­res tra­di­ci­o­nais de his­tó­ri­as] da Áfri­ca [leva­da] para o sul do Bronx [bair­ro de Nova York, nos Esta­dos Uni­dos]. E aqui, para mim, o sul do Bronx é só uma metá­fo­ra, por­que é o sul do Bronx pode ser o Capão Redon­do [zona sul pau­lis­ta­na], é o Alto José do Pinho [no Reci­fe], é a peri­fe­ria de São Luís, a peri­fe­ria de Manaus”, rela­ci­o­na.

A for­ma tra­di­ci­o­nal de trans­mis­são de sabe­res e his­tó­ri­as se trans­for­ma, segun­do Lima, para abar­car as cons­tru­ções que estão fora das for­ma­li­da­des aca­dê­mi­cas.

“Essa tec­no­lo­gia dos gri­ôs do oes­te afri­ca­no colo­ca­da, fun­da­men­ta­da, a par­tir dos toca-dis­cos, a par­tir da cul­tu­ra de rua, a par­tir do conhe­ci­men­to que não é o conhe­ci­men­to da sabe­do­ria for­mal, tran­ca­fi­a­da com seus parâ­me­tros, cons­truí­da pro­fun­da­men­te a par­tir da ora­li­da­de”, acres­cen­ta.

O toca-dis­cos, enfa­ti­za o pes­qui­sa­dor, é o pilar fun­da­men­tal da cul­tu­ra hip hop, que é cons­truí­da a par­tir de qua­tro ele­men­tos: o DJ, o MC, o gra­fi­te e o bre­ak – bati­da, can­to, pin­tu­ra e dan­ça. “A par­tir daí, se cria todo um gran­de voca­bu­lá­rio que a gen­te cha­ma de conhe­ci­men­to de rua. A esco­la da rua. O conhe­ci­men­to, a moda a pró­pria lógi­ca da rua”, enu­me­ra.

São Paulo SP 09/11/2023, DJ Eugenio de Lima - 50 Anos Hip-Hop. Foto Paulo Pinto/Agência Brasil
Repro­du­ção: Eugê­nio Lima é um dos fun­da­do­res do Núcleo Bar­to­lo­meu de Depoi­men­tos, que pen­sa o tea­tro a par­tir da esté­ti­ca do hip hop — Pau­lo Pinto/Agência Bra­sil

O momen­to fun­da­dor des­sa cul­tu­ra é quan­do os qua­tro ele­men­tos foram reu­ni­dos em uma úni­ca fes­ta no Bronx, em 1973, orga­ni­za­da pelo DJ Kool Herc jun­to com sua irmã, Cindy Camp­bell. Lima este­ve, nes­te ano, no mes­mo local onde essa pri­mei­ra fes­ta foi orga­ni­za­da, em uma cele­bra­ção de 50 anos de exis­tên­cia do hip hop.

“Eu tive o pra­zer de conhe­cer esse lugar. Ele exis­te ain­da  e está sen­do pre­pa­ra­do para ser o tem­plo do hip hop. Ago­ra, essa rua é cha­ma­da de Bou­le­vard do Hip Hop. É uma rua sem saí­da, no sul do Bronx, den­tro de um con­jun­to habi­ta­ci­o­nal, em Nova York. Então, no dia 12 de agos­to de 2023, teve a block party nes­se lugar, que é o lugar fun­dan­te, come­mo­ran­do 50 anos da cul­tu­ra hip hop”, con­tou ao rece­ber a repor­ta­gem da TV Bra­sil para gra­va­ção do pro­gra­ma Cami­nhos da Repor­ta­gem. O epi­só­dio vai ao ar nes­te domin­go (12), às 22h, na emis­so­ra públi­ca.

Nes­sa opor­tu­ni­da­de, o DJ pôde mos­trar par­te da cole­ção de dis­cos, que inclui diver­sas peças impor­tan­tes para essa tra­je­tó­ria de cin­co déca­das do hip hop. “Esse aqui”, diz colo­can­do o dis­co para rodar, “é o pri­mei­ro vinil, o pri­mei­ro fono­gra­ma da his­tó­ria do hip hop. É o Rap­per’s Delight do The Sugarhill Gang. Ele é de setem­bro de 1978, lan­ça­do pela Sugarhill Records, ape­sar de a gen­te con­si­de­rar que o hip hop nas­ce em 1973”, con­ta.

Con­fi­ra abai­xo os prin­ci­pais tre­chos da entre­vis­ta com Eugê­nio Lima:

Agên­cia Bra­sil: Como fun­ci­o­na a mági­ca do DJ, essa rela­ção entre a base e a voz?
Eugê­nio Lima: Eu vou expli­car do prin­cí­pio. Em inglês é two turn­ta­bles and a micropho­ne — quer dizer, dois toca-dis­cos e um micro­fo­ne. Isso é a base do hip hop: dois toca-dis­cos em um micro­fo­ne. Por que tem um MC? Segun­do o Kool Herc, é por­que o DJ não tem três bra­ços. Cadê o ter­cei­ro bra­ço para segu­rar o micro­fo­ne? Então, ele con­vi­da um MC cha­ma­do Coke La Rock, ele está com qua­se 80 anos hoje, e um outro MC cha­ma­do Mark Wal­ters, esse já é fale­ci­do. Aqui você tem os dois toca-dis­cos e  você tem um mixer, onde você mixa volu­me. Isso aqui são os faders [con­tro­le de volu­me].

A par­tir des­se voca­bu­lá­rio, são cri­a­dos dois dos ele­men­tos mais impor­tan­tes da cul­tu­ra hip hop — o DJ e o MC. Mas a cul­tu­ra hip hop é fei­ta de vári­os outros conhe­ci­men­tos. Os outros ele­men­tos fun­dan­tes seri­am: o gra­fi­te, que eles cha­mam de graf­fi­ti writ­ters, ou seja, escri­to­res de gra­fi­te. Os dan­ça­ri­nos – b‑boys e b‑girls – por­que eles dan­çam nos bre­aks [inter­va­los] da músi­ca. Seria bre­ak­boy,  por­que se dan­ça­va nos inter­va­los ins­tru­men­tais entre cada músi­ca.

B‑boys e b‑girls, DJ, MC e gra­fi­te –  a par­tir daí se cria todo um gran­de voca­bu­lá­rio de conhe­ci­men­tos, que a gen­te cha­ma de conhe­ci­men­to de rua. Por isso que é a esco­la da rua. Tem o conhe­ci­men­to da moda da rua, da pró­pria lógi­ca da rua. Rua não só no sen­ti­do de que está fora é do cam­po, diga­mos assim, for­mal do conhe­ci­men­to. Mas é rua por­que tam­bém as outras for­mas de conhe­ci­men­to aca­bam sen­do per­me­a­das por esse conhe­ci­men­to fun­dan­te. E para um DJ tudo tem a ver com dis­cos.

Agên­cia Bra­sil: A gen­te pode dizer, então, que o hip hop come­ça na mesa do DJ?
Lima: A gen­te pode dizer, não, ele come­ça na mesa do DJ. O pilar fun­dan­te da cul­tu­ra é a block party de 1973, onde o Kool Herc mon­ta isso e con­vi­da as outras pes­so­as. Ele [o lugar] exis­te ain­da e está sen­do pre­pa­ra­do para ser o tem­plo do hip hop. Ago­ra, essa rua é cha­ma­da de Bou­le­vard do Hip Hop. É uma rua sem saí­da, no sul do Bronx, den­tro de um con­jun­to habi­ta­ci­o­nal, em Nova York. Então, no dia 12 de agos­to de 2023, teve a block party nes­se lugar, que é o lugar fun­dan­te, come­mo­ran­do 50 anos da cul­tu­ra hip hop.

Quem con­vi­dou tudo isso foi o [MC e pro­du­tor musi­cal] KRS-One que é um cara da [pro­du­to­ra] Boo­gie Down Pro­duc­ti­ons.  Essa é um das músi­cas mais famo­sas dele, Step Into the World [mos­tra um dis­co]. [Pega outro dis­co] Uma outra pes­soa que tam­bém é mui­to fun­da­men­tal é esse cara aqui, Afri­ka Bam­ba­a­taa. Esse aqui é um encon­tro dele com James Brown. É cre­di­ta­do ao Bam­ba­a­taa a ideia a nomi­na­ção [hip hop]. É o Bam­ba­a­taa que cria a ideia de que isso que se faz com esses qua­tro ele­men­tos é hip hop, e isso não é um movi­men­to, é uma cul­tu­ra.

Em 2016, eles entre­ga­ram um docu­men­to na ONU [Orga­ni­za­ção das Nações Uni­das], que é a decla­ra­ção de paz da cul­tu­ra hip hop. É uma série de man­da­men­tos, como se fos­sem os dez man­da­men­tos, mas tem mais que dez, tem uns 24 man­da­men­tos, onde eles vão dizen­do quais são os prin­cí­pi­os fun­da­men­tais do que seria a cul­tu­ra hip hop. É assi­na­do pelo KRS-One, pelo Bam­ba­a­taa e por mais de 300 ati­vis­tas do hip hop no mun­do intei­ro.

Agên­cia Bra­sil: Onde o Grand­mas­ter Flash entra na his­tó­ria?
Lima: O Grand­mas­ter Flash é tipo o mago. Mui­ta gen­te cre­di­ta a inven­ção do cros­s­fa­der a ele [téc­ni­ca de redu­zir o volu­me de uma músi­ca e fazer a entra­da de outra gra­du­al­men­te]. É o cara que faz aque­la his­tó­ria de mar­car os dis­cos, de trans­for­mar o mer­ry go-round [téc­ni­ca que man­tém a par­te ins­tru­men­tal da músi­ca tocan­do por mais tem­po], que era a téc­ni­ca do Kool Herc, numa coi­sa mais pra fren­te, que é o back to back, que é ir e vol­tar com os toca-dis­cos, ir e vol­tar com os toca-dis­cos numa estru­tu­ra inter­mi­ná­vel sem tirar o pé da dan­ça.

back to back cria o voca­bu­lá­rio do que vai ser a ideia de que um MC e um DJ vão rimar jun­tos. E para com­ple­tar tem aqui um clás­si­co que é uma péro­la do que seria o Grand­mas­ter Flash and the Furi­ous Five, que cha­ma The Mes­sa­ge. E o The Mes­sa­ge é, vamos dizer assim, uma das pedras fun­da­men­tais da his­tó­ria. [Colo­ca o dis­co para rodar]. É o Melly Mel can­tan­do. Isso aqui é Grand­mas­ter Flash and the Furi­ous Five. Cow­boy, Kid Cre­o­le, Mel­le Mel, Scor­pio. Esse aqui é 1982. A gen­te cre­di­ta mui­to essa ideia de que o hip hop, o rap, é a crô­ni­ca da peri­fe­ria. Essa é a pri­mei­ra crô­ni­ca. Essa é a pri­mei­ra crô­ni­ca.

O Mel­le Mel vai des­cre­ver o que está acon­te­cen­do na que­bra­da. O pri­mei­ro ver­so é fan­tás­ti­co: [Toca um tre­cho da músi­ca] “Bro­ken glass everywhere/People pis­sin’ on the stairs, you know they just don’t care/ I can’t take the smell, can’t take the noi­se” — “Vidro que­bra­do por toda par­te. Pes­so­as mijan­do na esca­da, você sabe que eles sim­ples­men­te não ligam. Eu não con­si­go supor­tar o chei­ro, não aguen­to o baru­lho.”

Além do voca­bu­lá­rio, o Grand­mas­ter Flash tem outra para­da que é mui­to tre­ta: ele é a pri­mei­ra pes­soa a gra­var um dis­co den­tro de um dis­co. Quan­do ele cria o Adven­tu­res on the Whe­els of Ste­el, ele vai gra­van­do a músi­ca com vári­as téc­ni­cas de mixa­gem dos toca-dis­cos. Vai cri­an­do um voca­bu­lá­rio. E é a pri­mei­ra vez que vinis são usa­dos para se cri­ar um fono­gra­ma que tam­bém era em vinil. É meta­lin­gua­gem da meta­lin­gua­gem. A gen­te cha­ma isso de mashup hoje, mas não exis­tia nem o nome pra dizer o que ele esta­va fazen­do. O Grand­mas­ter Flash é o gran­de arqui­te­to mes­mo da estru­tu­ra do que viri­am a ser as téc­ni­cas de dis­co­te­ca­gem e a rela­ção dis­so com a músi­ca.

Vozes Hip Hop arte
Repro­du­ção: @Agência Bra­sil

Agên­cia Bra­sil: Como é que foi estar lá com o Kool Herc? Como é que foi essa fes­ta que cele­brou os 50 anos do hip hop no lugar de ori­gem?
Lima: Foi mui­to emo­ci­o­nan­te por­que são 50 anos, não são 50 dias. Eu vou pegar uma fra­se, vou sam­ple­ar uma fra­se do Prin­ce Paul, pro­du­tor do The Last Soul, no Har­lem. Ele esta­va dis­co­te­can­do os seus mai­o­res clás­si­cos, pro­du­tor do The Last Soul, do Tri­be Cal­led Quest, ele fala­va assim: “A gen­te pre­ci­sa come­mo­rar esse dia como se não hou­ves­se ama­nhã, por­que mui­to pro­va­vel­men­te nenhum de nós vai estar vivo pra come­mo­rar os 100 anos do hip hop”. Essa é a dimen­são da cul­tu­ra.

As come­mo­ra­ções foram o mês de agos­to intei­ro, no dia 11 teve uma block party no Might Point Park, onde vai se cri­ar um museu dedi­ca­do à cul­tu­ra hip hop. É o Uni­ver­sal Museum of Hip Hop. É um par­que às mar­gens do East River, que é o rio que sepa­ra o Bronx do Har­lem [bair­ros de popu­la­ção negra de Nova York]. É uma pon­te, mas pare­ce um mun­do. E depois teve um show no Yan­kee Sta­dium, o está­dio do time de bei­se­bol de Nova York, com todas as gera­ções. Era uma pro­gra­ma­ção exten­sa, come­çou às 6h da tar­de e ter­mi­nou às 2h da manhã. E ia des­de o Sugar Hill Gang, pas­san­do pelo Grand­mas­ter Flash and the Furi­ous Five, a home­na­gem ao Kool Herc e à irmã dele, a Cli­ve Camp­bell, coro­a­dos pela pró­pria mãe.

A mãe do Kool Herc está com 86 anos e ela coro­ou o filho e a filha. Até ter­mi­nar com o show do Run-MC pas­san­do pelo Nas, pelo Kid Capri, pela Lau­ren Hill, pelo Sno­op Dog, pelo Ice Cube, foi assim, pelo T.I. até o trap [sub­gê­ne­ro do rap], o Lil Way­ne, assim, até das novas gera­ções tam­bém con­ver­san­do, Lil’­Leo King, todo mun­do fazen­do isso no dia 11, que é o dia mes­mo que se come­mo­ra, por­que foi 11 de agos­to de 1973.

No dia 12, teve a block party no sul do Bronx e no, dia 13, a block party no Har­lem. Eu não vi a block party do dia 5, que foi no Bro­o­klyn, que é onde foi coman­da­do pelo Grand­mas­ter Flash. Essa eu per­di. Foi incrí­vel.

Depois a gen­te vol­tou pra São Pau­lo e eu tive a hon­ra de poder diri­gir esse espe­tá­cu­lo que é o Hip Hop aos 50 anos e a gen­te ten­tou fazer uma home­na­gem às diver­sas gera­ções do hip hop: teve a Shary­lai­ne, Thaí­de, o Dex­ter, a MC Sofia, a Backs­pin, o Cole­ti­vo Amen, teve a Bri­sa Flow, teve a Linn Que­bra­da, teve o Rin­con Sapi­ên­cia, o Nel­son Triun­fo. A ideia é de a gen­te home­na­ge­ar a par­tir des­sa his­tó­ria, a dan­ça, a músi­ca, a pro­du­ção ico­no­grá­fi­ca atra­vés dos gra­fi­tes, foi uma pes­qui­sa bem inten­sa e eu tive o pra­zer de diri­gir isso. Foi um docu­men­to baca­na. A gen­te fez isso no dia 24 de agos­to de 2023 no Sesc Pinhei­ros lota­do, mais de 1,1 mil pes­so­as.

Agên­cia Bra­sil: Nes­sa pes­qui­sa, qual você sen­tiu que é a tra­je­tó­ria do hip hop no Bra­sil?
Lima: No ano que vem, faz 40 anos do hip hop no Bra­sil, que é o mar­co zero lá da cul­tu­ra hip hop a que o Nel­son [Triun­fo, pio­nei­ro do bre­ak] se refe­re. Nes­tes 40 anos, eu acho que pou­cas vezes na his­tó­ria do Bra­sil uma cons­tru­ção cul­tu­ral afro-dias­pó­ri­ca, pre­ta, indí­ge­na, peri­fé­ri­ca, trans­na­ci­o­nal, trans­cul­tu­ral fez o que o hip hop fez no Bra­sil nos últi­mos 40 anos.

Tem uma coi­sa tam­bém que eu sem­pre gos­to de colo­car, que é o Chi­co Sci­en­ce e Nação Zum­bi, quan­do ele fala: “É hip hop na minha embo­la­da”. É um pano­ra­ma de um pro­ces­so que é mui­to mai­or do que a arte, mas, sim, um pro­ces­so de sobre­vi­vên­cia. “Acha­ram que a gen­te esta­va mor­to”, como diz o Dex­ter no Oita­vo Anjo, “acha­vam que a gen­te esta­va der­ro­ta­do, quem achou isso esta­va erra­do”. Que a gen­te vivia sob ruí­nas e, por­tan­to, sería­mos arrui­na­dos, mas a gen­te trans­for­mou as ruí­nas na pro­du­ção poé­ti­ca mais poten­te, na cul­tu­ra urba­na, a mai­or cul­tu­ra urba­na da his­tó­ria da huma­ni­da­de. O hip hop bra­si­lei­ro está den­tro des­se pano­ra­ma e é mui­to legal por­que, como todo o hip hop no mun­do, é dias­pó­ri­co, é trans­na­ci­o­nal, se conec­ta com outras diás­po­ras no mun­do todo.

O ter­ri­tó­rio que a gen­te fala, seja a lín­gua, seja o pró­prio ter­ri­tó­rio bra­si­lei­ro, ele tem influên­ci­as de outras tan­tas cul­tu­ras, outros tan­tos beats, outras tan­tas sabe­do­ri­as. Por­que uma coi­sa que o Bam­ba­a­taa fala é que o hip hop nada mais é do que dos gri­ôs da Áfri­ca para o sul do Bronx. E pra mim o sul do Bronx é só uma metá­fo­ra, por­que o sul do Bronx pode ser o Capão Redon­do, o sul do Bronx é o Alto José do Pinho, o sul do Bronx é a peri­fe­ria de São Luís, o sul do Bronx é a peri­fe­ria de Manaus, é a peri­fe­ria de qual­quer outra gran­de cida­de do mun­do.

Essa tec­no­lo­gia dos gri­ôs do oes­te afri­ca­no colo­ca­da, fun­da­men­ta­da, a par­tir dos toca-dis­cos, a par­tir da cul­tu­ra de rua, a par­tir do conhe­ci­men­to que não é o conhe­ci­men­to da sabe­do­ria for­mal tran­ca­fi­a­da com seus parâ­me­tros tudo, além do que é um conhe­ci­men­to cons­truí­do pro­fun­da­men­te a par­tir da ora­li­da­de. Nes­se momen­to tam­bém em Nova York está ten­do uma expo­si­ção na bibli­o­te­ca do Bro­o­klin sobre a tra­je­tó­ria do Jay‑Z. E tem uma par­te da expo­si­ção que é “Everything without a pen”, quer dizer, tudo isso sem uma cane­ta, por­que o Jay‑Z nun­ca escre­veu nenhu­ma letra, todas as letras dele são na cabe­ça e ele gra­va. Isso é o tes­te­mu­nho da ora­li­da­de. Ele nun­ca escre­veu uma letra na vida. Eu acho que esse é o tes­te­mu­nho que tam­bém a cul­tu­ra hip hop traz. Como as sabe­do­ri­as ances­trais se conec­tam com as tec­no­lo­gi­as, com a pos­si­bi­li­da­de de sobre­vi­vên­cia.

Aqui a gen­te con­se­guiu cons­truir a par­tir dos toca-dis­cos e tudo, mas, por exem­plo, Cuba não teve toca-dis­co, mas teve hip hop. Eu esta­va assis­tin­do ontem uma meni­na de 16 anos de ida­de que cha­ma J Noah, da Repú­bli­ca Domi­ni­ca­na, riman­do, e eu falei, meu Deus do céu, o que que é isso? Uma meni­na tem 16 anos de ida­de e o flow dela é mons­tro, e a letra é mons­tra. Como ela con­se­gue acu­mu­lar tan­ta sabe­do­ria com 16 anos de ida­de? E ela falou: “É a minha expe­ri­ên­cia, o meu bair­ro, as pes­so­as que eu vi, as coi­sas que eu vi e nem sem­pre os tes­te­mu­nhos são agra­dá­veis”. Ou seja, é a pos­si­bi­li­da­de de con­se­guir trans­for­mar a dor em poe­sia, e não só isso, mas de trans­for­ma­ção.

Agên­cia Bra­sil: Ago­ra, uma coi­sa que eu acho que você pro­va­vel­men­te é a melhor pes­soa para me expli­car: Como é que foi isso de unir o hip hop com o tea­tro, que foi o Núcleo Bar­to­lo­meu de Depoi­men­tos?
Lima: Isso foi uma das bên­çãos na minha vida, na nos­sa vida. Essa aqui é a pala­vra como ter­ri­tó­rio, a nos­sa anto­lo­gia poé­ti­ca, que é trans­for­mar a nos­sa pala­vra em livro, são os 23 anos de exis­tên­cia do Núcleo Bar­to­lo­meu de Depoi­men­tos, e a gen­te cha­mou isso de casa­men­to esté­ti­co: do tea­tro épi­co com a cul­tu­ra hip hop e a par­tir de um prin­cí­pio mui­to bási­co, a autor­re­pre­sen­ta­ção. A ideia de que eu pre­ci­so ter a pos­si­bi­li­da­de de nar­rar a minha pró­pria his­tó­ria.

Eu, como ator nar­ra­dor, como atriz nar­ra­do­ra ou como uma per­so­na que não está colo­ca­da nem no gêne­ro mas­cu­li­no ou femi­ni­no, de nar­rar a pró­pria his­tó­ria. Por quê? Por­que eu con­si­go orga­ni­zar a cena, não é mais só sobre pro­ta­go­nis­mo ou anta­go­nis­mo, não. É sobre como eu pos­so orga­ni­zar todos os mate­ri­ais. O Núcleo Bar­to­lo­meu cria essa lin­gua­gem em 2000, ou seja, 23 anos atrás. Isso, há 23 anos atrás, era tipo como se eu xin­gas­se a mãe de alguém. Nin­guém acre­di­ta­va que isso fos­se pos­sí­vel, acha­vam que isso era uma gran­de bes­tei­ra, e a gen­te con­se­guiu, pela nos­sa insis­tên­cia no tea­tro e no hip hop, cons­truir lin­gua­gem.

A ideia do ator e da atriz MC, a ideia do DJ nar­ra­dor a ideia de que todos os ele­men­tos cêni­cos são neces­sá­ri­os para se con­tar uma his­tó­ria, então a gen­te cha­mou isso de dra­ma­tur­gia cêni­ca. A ideia de que não tem sub­ser­vi­ên­cia de lin­gua­gens, isso quer dizer o quê? O tex­to não ser­ve à músi­ca, a músi­ca não ser­ve ao tex­to, a atu­a­ção não está a ser­vi­ço [de outra lin­gua­gem]. Todos estão em con­di­ções hori­zon­tais e são ele­men­tos neces­sá­ri­os para con­tar a nar­ra­ti­va. E ao lon­go des­se tem­po a gen­te foi cri­an­do vári­os des­do­bra­men­tos.

Por exem­plo, o slam no Bra­sil che­ga a par­tir do Núcleo Bar­to­lo­meu de Depoi­men­tos em 2008. Hoje, nes­te ano, nos 50 anos do hip hop, são 15 anos do slam no Bra­sil, 2023. Quem trou­xe foi a Rober­ta Estre­la D’Al­va, o pri­mei­ro slam acon­te­ceu na sede do Clu­be Bar­to­lo­meu de Depoi­men­tos. Em 2008, você tinha uma comu­ni­da­de de slam, hoje você tem qua­se 300 no Bra­sil intei­ro. Esse é o poder da lin­gua­gem.

Agên­cia Bra­sil: Você falou tam­bém do slam, o que você acha que o slam repre­sen­ta para a poe­sia bra­si­lei­ra?
Lima: Não vou nem falar pala­vras minhas. Segun­do o [escri­tor e pro­du­tor cul­tu­ral] Mar­ce­li­no Frei­re, o slam é, tal­vez seja, dos últi­mos 20 anos, o movi­men­to mais impor­tan­te da poe­sia bra­si­lei­ra. Mas, para além dis­so, ele cria comu­ni­da­des. E comu­ni­da­des são o quê? Pos­si­bi­li­da­de de pes­so­as em espa­ços livres fala­rem o que pen­sam sobre o mun­do atra­vés de lin­gua­gens poé­ti­cas.

Não exis­te uma poe­sia de slam. Slam, a com­pe­ti­ção é só um pre­tex­to para se cons­truir voca­bu­lá­rio. E a gen­te colo­cou o slam bra­si­lei­ro na rota, nos seus gran­des encon­tros mun­di­ais, tan­to é que este ano, em 2023, o Cam­pe­o­na­to Mun­di­al de Slam acon­te­ce no Rio de Janei­ro e quem vai apre­sen­tar é o Núcleo Bar­to­lo­meu de Depoi­men­tos. Você teve duran­te mui­to tem­po, qua­se dez anos, o Rio Poe­try Slam, que foi o pri­mei­ro fes­ti­val inter­na­ci­o­nal de poe­sia fala­da. Você tem o cam­pe­o­na­to bra­si­lei­ro, o Slam BR, que foi o Núcleo Bar­to­lo­meu que mon­tou. O cam­pe­o­na­to esta­du­al, que é o Slam SP, que foi o Núcleo Bar­to­lo­meu que mon­tou. Isso cri­ou uma pos­si­bi­li­da­de de inú­me­ras, múl­ti­plas reco­ne­xões de diver­sos cami­nhos com diver­sas comu­ni­da­des, des­de o Ama­zo­nas até o Rio Gran­de do Sul.

E, como dado con­cre­to, não que eu acho que isso seja uma pro­va, mas é um dado con­cre­to, há o livro esco­lhi­do no Jabu­ti de 2022, que é Tam­bém Guar­da­mos Pedras Aqui, da Lui­za Romão. A Lui­za Romão é uma poe­ta que se for­mou no slam. Depois de um pro­ces­so, cria um gran­de livro, que é um livro belís­si­mo, onde ela recria a par­tir da visão das mulhe­res a Ilía­da [poe­ma épi­co gre­go], e o livro ganha o Prê­mio Jabu­ti de Poe­sia. Há dois anos atrás, o Slam da Gui­lher­mi­na ganhou o Prê­mio Jabu­ti, como a melhor pro­po­si­ção de incen­ti­vo à lei­tu­ra. Ou seja, até as estru­tu­ras for­mais já reco­nhe­ce­ram o slam. Não é uma ques­tão mais do que eu acho, é um dado con­cre­to. O slam veio e veio pra ficar e mudou a cara da poe­sia, e não só da poe­sia, da rela­ção da poe­sia com o mun­do no Bra­sil.

Agên­cia Bra­sil: Sobre­vi­ven­do no Infer­no, dos Raci­o­nais é lei­tu­ra obri­ga­tó­ria para o ves­ti­bu­lar da Uni­ver­si­da­de Esta­du­al de Cam­pi­nas. Como é que você vê isso? Qual é a impor­tân­cia dis­so?
Lima: Eu acho que isso é só uma pro­va do que já esta­va cons­truí­do há mui­to tem­po. A aca­de­mia demo­ra mui­to para reco­nhe­cer aqui­lo que é óbvio, às vezes, acha que des­co­briu a pedra quan­do des­co­bre aqui­lo que era óbvio e cria outras nor­ma­ti­vas. Por­que, assim, o Sobre­vi­ven­do no Infer­no foi um clás­si­co ins­tan­tâ­neo. Diá­rio de um Deten­toEstou Ouvin­do Alguém me Cha­marFór­mu­la Mági­ca da Paz foram clás­si­cos ins­tan­tâ­ne­os. Não só pela docu­men­ta­ção do pro­ces­so his­tó­ri­co, por­que ali o Raci­o­nais se fir­ma­va como tal­vez a mai­or repre­sen­ta­ção da músi­ca bra­si­lei­ra naque­le momen­to his­tó­ri­co, em um lugar onde não se pen­sa­va que pode­ria se cons­ti­tuir sabe­do­ria.

Eu gos­to mui­to de um tre­cho do Fór­mu­la Mági­ca da Paz, do Raci­o­nais, que o Brown fala assim: “Essa por­ra é um cam­po mina­do. Quan­tas vezes eu pen­sei em me tacar daqui, mas aí, minha área é tudo o que eu tenho. A minha vida é aqui, eu não con­si­go sair. Eu podia fugir, mas eu não vou. Não vou trair quem eu fui e quem eu sou. Eu sei pra onde vou e de onde vim. O ensi­na­men­to da fave­la foi mui­to bom pra mim. Cada lugar um lugar, cada lugar uma lei, cada lei uma razão. E eu sem­pre res­pei­tei qual­quer juris­di­ção, qual­quer área”. Pen­sa nis­so, na tra­je­tó­ria da músi­ca, mas pen­sa nis­so se ele não está falan­do sobre a lin­gua­gem? É isso: a lin­gua­gem é um cam­po mina­do, enten­deu? Mas e aí?! Minha área é tudo eu tenho, a minha vida é aqui, enten­deu? Eu não con­si­go sair. É sobre cul­tu­ra, sobre lin­gua­gem, sobre per­ten­ci­men­to, sobre a dona Maria de luto, nar­ra­ti­vas que o Bra­sil nun­ca teve capa­ci­da­de de enten­der como elas eram pro­du­zi­das.

O livro Sobre­vi­ven­do no Infer­no não é nada mais do que a aca­de­mia enten­den­do, os pro­ces­sos das edi­to­ras enten­den­do a gran­de sabe­do­ria. Por­que ele é tudo: ele é lite­ra­tu­ra, é conhe­ci­men­to, é hino, é sobre­vi­vên­cia, é esti­lo de vida, é um mon­te de coi­sa. Sobre­vi­ven­do no Infer­no é um gran­de docu­men­to e é tam­bém um docu­men­to da dor. O Brown fala sobre isso: é um gran­de docu­men­to da dor. Nos shows de Sobre­vi­ven­do no Infer­no tive­ram aque­les gran­des acon­te­ci­men­tos, pes­so­as que fale­ce­ram e tal. Tam­bém é um docu­men­to da dor. Não está dis­so­ci­a­da uma coi­sa da outra. E os livros, eles são um dos ins­tru­men­tos. Não é o ins­tru­men­to, mas é um dos. É uma lite­ra­tu­ra que eu acho que sai da ora­li­da­de para se trans­for­mar em lite­ra­tu­ra.

E como isso é uma dico­to­mia só para a cul­tu­ra oci­den­tal, por­que, na ver­da­de, isso em outras cul­tu­ras não é dicotô­mi­co, mui­to pelo con­trá­rio. A Odis­seia e a Ilía­da foram fala­das duran­te sécu­los antes de serem escri­tas. Todo mun­do sabe dis­so.

Aque­les poe­mas ára­bes – cás­si­da [tipo de ver­so] — pas­sa­ram qua­tro sécu­los na ora­li­da­de antes de alguém escre­ver. Isso é um pro­ces­so natu­ral. O hip hop se conec­ta com outras estru­tu­ras de conhe­ci­men­to da ora­li­da­de, da pre­sen­ça e da pre­sen­ça dias­pó­ri­ca. Eu acho que é impor­tan­te falar dis­so. São mui­tas diás­po­ras.

A gen­te per­deu este ano um gran­de poe­ta, um gran­de MC, que é o Aza­gaia, de Moçam­bi­que. Tem uma músi­ca dele cha­ma­da Maço­na­ria, que ele faz uma espé­cie de digres­são des­de a escra­vi­dão até os dias atu­ais. Ele fala assim: “Quan­do os euro­peus ganha­ram gos­to pelo açú­car, escra­vos no Bra­sil plan­ta­ram cana-de-açú­car e algo­dão no sul da Amé­ri­ca e no Novo Méxi­co, enquan­to o chi­co­te ensi­na­va o novo léxi­co.” Isso é de uma poe­sia absur­da. O chi­co­te cri­ou um novo léxi­co. É sobre dor, é sobre resis­tên­cia, é sobre estar na linha de fren­te, ao mes­mo tem­po sobre como cri­ar estra­té­gi­as para além da sobre­vi­vên­cia, para a pró­pria exis­tên­cia.

Edi­ção: Juli­a­na Andra­de

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