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História de comunidade indígena premiada em Cannes chega aos cinemas

Repro­dução: © A Flor do Buriti/Divulgação

A Flor do Buriti estreia nesta quinta-feira nos cinemas brasileiros


Publicado em 04/07/2024 — 07:32 Por Daniel Mello — Repórter da Agência Brasil — São Paulo

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Um céu estre­la­do que só é pos­sív­el ver em áreas dis­tantes das luzes urbanas faz fun­do ao bal­ançar de um maracá, chocal­ho indí­ge­na. O rit­mo do instru­men­to é acom­pan­hado por can­tos na lín­gua krahô sobre as cores das flo­res. É assim que começa a A Flor do Buri­ti, filme pre­mi­a­do no Fes­ti­val de Cannes, na França, e que estreia nes­ta quin­ta-feira (4) nos cin­e­mas brasileiros.

“Quan­do o Hyjnõ sacode aque­le maracá, como diz o antropól­o­go Viveiros de Cas­tro, é um acel­er­ador de partícu­las. Eu acho que a par­tir dis­so abrem-se muitas pos­si­bil­i­dades”, reflete a codi­re­to­ra Renée Nad­er Mes­so­ra. A frase do reno­ma­do antropól­o­go foi dita para com­parar o papel xam­an­is­mo nas sociedades indí­ge­nas à ciên­cia nas cul­turas oci­den­tais.

O maracá de Fran­cis­co Hyjnõ Krahô foi ouvi­do no Cin­e­ma Claude Debussy, onde ocorre um mais impor­tantes fes­ti­vais ded­i­ca­dos à séti­ma arte. Ali, o elen­co, for­ma­do essen­cial­mente por atores indí­ge­nas de comu­nidades krahô do norte de Tocan­tins, foi pre­mi­a­do.

“Você tem um cin­e­ma como Debussy, cheio de gente, e aí no pal­co você tem mem­bros de uma comu­nidade indí­ge­na do norte do Brasil falan­do a sua própria lín­gua, fal­a­da por 4 mil habi­tantes”, descreve Renée, para dimen­sion­ar a importân­cia da exibição em Cannes.

A Flor do Buri­ti foi fil­ma­do ao lon­go de 15 meses, se apoian­do no tra­bal­ho de for­mação que os dire­tores João Salav­iza e Renée Nad­er Mes­so­ra desen­volver­am nos ter­ritórios krahô. “A gente começou primeiro a tra­bal­har com o audio­vi­su­al como fer­ra­men­ta. A comu­nidade esta­va muito curiosa e queren­do apren­der o cin­e­ma, fotografia, edição”, con­ta Renée sobre o proces­so que já teve como fru­to o lon­ga-metragem Chu­va é Can­to­ria na Aldeia dos Mor­tos, lança­do em 2018.

São Paulo (SP) 03/07/2024 - História de comunidade indígena premiada em Cannes chega aos cinemasFoto: A Flor do Buriti/Divulgação
Repro­dução:  Cole­ti­vo de audio­vi­su­al foi cri­a­do na aldeia a par­tir do tra­bal­ho de for­mação dos dire­tores João Salav­iza e Renée Nad­er Mes­so­ra. Foto — A Flor do Buriti/Divulgação

A par­tir da for­mação foi cri­a­do um cole­ti­vo de audio­vi­su­al na aldeia.

Massacre e milícia

Neste filme, os indí­ge­nas ence­nam dois momen­tos históri­cos mar­cantes para a comu­nidade: um mas­sacre ocor­ri­do em 1940 e o recru­ta­men­to dos jovens, em 1969, para inte­grarem uma milí­cia indí­ge­na for­ma­da pela ditadu­ra mil­i­tar, no poder à época. As lem­branças con­tex­tu­al­izam a situ­ação atu­al dos krahô, que lutam por espaço na políti­ca e para livrar suas ter­ras dos inva­sores, fazen­deiros e traf­i­cantes de ani­mais sil­vestres.

São Paulo (SP) 03/07/2024 - História de comunidade indígena premiada em Cannes chega aos cinemasFoto: A Flor do Buriti/Divulgação
Repro­dução: Indí­ge­nas par­tic­i­pam do filme A Flor do Buriti/Divulgação

“O pon­to de par­ti­da, a chis­pa ini­cial, foi essa von­tade que a gente tin­ha de traz­er a história do mas­sacre. Era uma von­tade des­de o Chu­va é Can­to­ria, que foi fil­ma­do em 2015 e 2016”, con­ta a dire­to­ra sobre como o pro­je­to surgiu. No meio do cam­in­ho, as batal­has cotid­i­anas da comu­nidade foram trazen­do ele­men­tos para a con­strução do novo filme.

“Um pouco mais tarde, o Fran­cis­co Hyjnõ que é um out­ro pro­tag­o­nista do Flor do Buri­ti, esta­va muito envolvi­do num proces­so de roubo de ter­ra em uma fron­teira da área indí­ge­na. Ele já tin­ha feito a denún­cia para a Funai, já tin­ha con­segui­do o drone para cap­turar essas ima­gens aéreas e uti­lizar essas ima­gens como pro­va. Essas ima­gens ter­mi­naram tam­bém por entrar no nos­so filme”, detal­ha Ren­né a respeito do proces­so de con­strução do lon­ga.

Narrativas

Com indí­ge­nas em parte da equipe de roteiro, o filme mis­tu­ra visões de mun­do e for­mas de con­tar histórias. “O filme ten­ta abrir isso [out­ras maneiras de con­tar histórias], não tem mais um pro­tag­o­nista úni­co, são vários pro­tag­o­nistas. E tem essa maneira de con­tar onde as tem­po­ral­i­dades vão se mis­tu­ran­do, vão ten­tan­do cri­ar uma nova uma nova for­ma. Quan­to mais a gente dialo­ga e pas­sa tem­po jun­to com a comu­nidade, mais eses­sa for­ma vai entran­do na nos­sa na nos­sa for­ma de faz­er filme”, diz a dire­to­ra ao relatar a imer­são na cul­tura krahô.

As nar­ra­ti­vas indí­ge­nas podem pare­cer com­plexas para pes­soas não habit­u­adas, mas abrem mais pos­si­bil­i­dades de acol­her a plu­ral­i­dade de pon­tos de vista. “Uma for­ma muito mais aber­ta, que con­tem­pla muitos olhares tam­bém. Às vezes o mito está sendo con­ta­do a par­tir da per­spec­ti­va de uma pes­soa humana, mas por momen­tos o mito pas­sa a ser con­ta­do a par­tir da per­spec­ti­va de um ani­mal. A pes­soa que escu­ta e que não está muito treina­da vai se per­den­do nes­sa mul­ti­pli­ci­dade. Aqui a gente que­ria traz­er um pouquin­ho dessa sen­sação.”

Edição: Maria Clau­dia

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