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Homens ocupam seis em cada dez cargos gerenciais, aponta IBGE

Repro­du­ção: © mwitt1337/Pixabay

Mulheres só são maioria em cargos relacionados a cuidados


Publicado em 08/03/2024 — 10:01 Por Vitor Abdala e Cristina Indio do Brasil — Repórteres da Agência Brasil — Rio de Janeiro

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As mulhe­res são mai­o­ria entre os estu­dan­tes que estão em vias de con­cluir o ensi­no supe­ri­or, no entan­to são mino­ria em rela­ção a posi­ções de poder. Dados divul­ga­dos nes­ta sex­ta-fei­ra (8) pelo Ins­ti­tu­to Bra­si­lei­ro de Geo­gra­fia e Esta­tís­ti­ca (IBGE) mos­tram, por exem­plo, que ape­nas 39,3% dos car­gos geren­ci­ais no país são ocu­pa­dos por mulhe­res.

As mulhe­res só são mai­o­ria nas gerên­ci­as e coor­de­na­ções das áre­as de edu­ca­ção (69,4%) e saú­de huma­na e ser­vi­ços soci­ais (70%).

“As mulhe­res ocu­pam mais posi­ções de gerên­cia jus­ta­men­te onde elas estão tam­bém mais colo­ca­das de uma for­ma geral, que é na área de edu­ca­ção, na área de saú­de e ser­vi­ços soci­ais, ou seja, áre­as rela­ci­o­na­das a cui­da­dos”, cons­ta­ta a pes­qui­sa­do­ra Bár­ba­ra Cobo.

A menor par­ti­ci­pa­ção femi­ni­na é per­ce­bi­da no setor de agri­cul­tu­ra, pecuá­ria, enge­nha­ria flo­res­tal, aqui­cul­tu­ra e pes­ca (15,8%).

A dis­pa­ri­da­de é obser­va­da não ape­nas no per­cen­tu­al dos car­gos como tam­bém na remu­ne­ra­ção. O ren­di­men­to das exe­cu­ti­vas femi­ni­nas é ape­nas 78,8% dos pagos para os homens.

Em ape­nas três áre­as, o ren­di­men­to femi­ni­no supe­ra o mas­cu­li­no: agri­cul­tu­ra, pecuá­ria, enge­nha­ria flo­res­tal, aqui­cul­tu­ra e pes­ca (128,6%), água, esgo­to e ati­vi­da­des de resí­du­os (109,4%) e ati­vi­da­des admi­nis­tra­ti­vas e ser­vi­ços com­ple­men­ta­res (107,5%).

São curi­o­sa­men­te ati­vi­da­des em que os homens pre­do­mi­nam. “A gen­te ima­gi­na que isso este­ja asso­ci­a­do a elas esta­rem entran­do nes­ses seto­res carac­te­ris­ti­ca­men­te ocu­pa­dos por homens com uma espe­ci­a­li­za­ção pro­fis­si­o­nal mai­or, que leve a esse ren­di­men­to mai­or”, expli­ca Bár­ba­ra.

As mai­o­res desi­gual­da­des estão nos seto­res de trans­por­te, arma­ze­na­gem e cor­reio e de saú­de huma­na e ser­vi­ços soci­ais. Nes­ses seto­res, os ren­di­men­tos das mulhe­res cor­res­pon­dem a 51,2% e 60,9% dos homens, res­pec­ti­va­men­te.

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Outros cargos

As mulhe­res são mino­ria tam­bém em car­gos de poder no ser­vi­ço públi­co, tan­to na polí­ti­ca como na Jus­ti­ça, mos­tra a pes­qui­sa. Em rela­ção ao par­la­men­to, por exem­plo, ape­nas 17,9% dos depu­ta­dos fede­rais eram mulhe­res em novem­bro de 2023.

Ape­sar de apre­sen­tar um avan­ço em rela­ção a setem­bro de 2020, quan­do as depu­ta­das fede­rais repre­sen­ta­vam 14,8% do total, o Bra­sil ain­da está na 133ª posi­ção entre 186 paí­ses, no que se refe­re à par­ti­ci­pa­ção par­la­men­tar das mulhe­res.

Em 2020, somen­te 12,1% dos muni­cí­pi­os ele­ge­ram pre­fei­tas — das quais dois ter­ços eram bran­cas. Do total de par­la­men­ta­res muni­ci­pais elei­tos naque­le ano, 16,1% eram vere­a­do­ras.

Em rela­ção aos minis­té­ri­os, ape­nas nove dos 38 car­gos com sta­tus minis­te­ri­al eram ocu­pa­dos por mulhe­res em novem­bro de 2023.

Dados do Con­se­lho Naci­o­nal de Jus­ti­ça (CNJ) mos­tram que hou­ve um avan­ço na par­ce­la de magis­tra­das no país de 1988 (24,6%) para 2022 (40%), mas as mulhe­res ain­da são mino­ria. Na Jus­ti­ça esta­du­al, as mulhe­res são 38%, enquan­to no Supe­ri­or Tri­bu­nal de Jus­ti­ça (STJ) são 23%.

Educação

Se, no mer­ca­do de tra­ba­lho for­mal, os homens levam van­ta­gem, na edu­ca­ção são as mulhe­res que mais se des­ta­cam.

Entre os estu­dan­tes que estão no últi­mo ano da facul­da­de, 60,3% são mulhe­res. A mai­or par­te delas está con­cen­tra­da nos cur­sos de gra­du­a­ção rela­ci­o­na­dos à área de bem-estar (91% são mulhe­res).

“Elas con­clu­em o ensi­no supe­ri­or numa pro­por­ção mai­or do que os homens, então supos­ta­men­te deve­ri­am ter uma média sala­ri­al mai­or, mas quan­do você olha as áre­as em que elas têm par­ti­ci­pa­ção mai­or, são as áre­as menos valo­ri­za­das”, res­sal­ta a pes­qui­sa­do­ra Beti­na Fres­ne­da.

Nos cur­sos de ciên­cia e tec­no­lo­gia, que inclu­em as áre­as de ciên­cia, tec­no­lo­gia da infor­ma­ção, mate­má­ti­ca, esta­tís­ti­ca e enge­nha­ria, as mulhe­res são ape­nas 22% dos con­cluin­tes.

“Ape­sar de elas esta­rem em ampla van­ta­gem no aces­so ao ensi­no supe­ri­or, e isso não mudou mui­to em 10 anos, elas ain­da enfren­tam bar­rei­ras para ingres­sar em deter­mi­na­das áre­as do conhe­ci­men­to, espe­ci­al­men­te naque­las liga­das a ciên­ci­as exa­tas e à esfe­ra da pro­du­ção”, des­ta­ca Beti­na.

Segun­do a pes­qui­sa, entre as mulhe­res com 25 anos de ida­de ou mais, 21,3% tinham com­ple­ta­do o ensi­no supe­ri­or, con­tra 16,8% dos homens. Per­ce­be-se, no entan­to, desi­gual­da­de mai­or quan­do se com­pa­ra as mulhe­res bran­cas (29%) com as pre­tas ou par­das (14,7%). A dis­pa­ri­da­de de cor ou raça pode ser obser­va­da tam­bém no que­si­to frequên­cia esco­lar: 39,7% das mulhe­res bran­cas de 18 a 24 anos estu­da­vam, con­tra ape­nas 27,9% das mulhe­res pre­tas ou par­das.

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CEO

Milena Palumbo primeira mulher CEO da GL events Brasil - IBGE Seis em dez cargos gerenciais são ocupados por homens. Foto: GL events Brasil/Divulgação
Repro­du­ção: Mile­na Palum­bo, pri­mei­ra mulher CEO da GL events Bra­sil — Foto: GL events Brasil/Divulgação

O sonho de ado­les­cen­te era ser joga­do­ra de vôlei. Pas­sa­do algum tem­po, pen­sou em fazer facul­da­de de medi­ci­na. Enquan­to não che­ga­va esse momen­to, o rumo mudou e foi em um cur­so de turis­mo na Facul­da­de Fede­ral do Para­ná que Mile­na Palum­bo encon­trou o cami­nho na área de pla­ne­ja­men­to, que a levou atu­al­men­te a ser a pri­mei­ra mulher a ocu­par o car­go de CEO da GL events Bra­sil, uma das uni­da­des do gru­po espa­lha­do em mais de 20 paí­ses de cin­co con­ti­nen­tes com a matriz na Fran­ça.

O gru­po, no qual está há 17 anos, é líder mun­di­al do mer­ca­do de even­tos cul­tu­rais, espor­ti­vos, ins­ti­tu­ci­o­nais, cor­po­ra­ti­vos ou polí­ti­cos e con­gres­sos e con­ven­ções, além de fei­ras de negó­ci­os e expo­si­ções. “O cami­nho femi­ni­no é mui­to mais com­ple­xo. Tem mais obs­tá­cu­los, alguns sprints mai­o­res. Tem que estar mais bem pre­pa­ra­da, tem que estar com pre­pa­ro físi­co mui­to melhor. A mulher para che­gar em fun­ções ela pre­ci­sa entre­gar mais e ser mais pre­pa­ra­da do que os homens”, ava­lia em entre­vis­ta à Agên­cia Bra­sil.

A des­co­ber­ta da área de pla­ne­ja­men­to foi fun­da­men­tal para a car­rei­ra de Mile­na. A medi­ci­na per­deu uma médi­ca e o mer­ca­do ganhou uma admi­nis­tra­do­ra. Mile­na reco­nhe­ceu que nem sem­pre outras mulhe­res con­se­guem o apoio que rece­beu tan­to dos pais, ao resol­ver o seu des­ti­no pro­fis­si­o­nal, quan­to, depois, do mari­do, quan­do pre­ci­sou se trans­fe­rir de Curi­ti­ba, no Para­ná, para assu­mir um car­go em uma uni­da­de da empre­sa no Rio de Janei­ro. Naque­le momen­to esta­va casa­da há 3 anos e che­gou a ficar inse­gu­ra, até pen­san­do em não acei­tar a trans­fe­rên­cia.

“No mun­do mas­cu­li­no seria uma coi­sa posi­ti­va, por­que a mulher acom­pa­nha, não tem tan­tos dra­mas, não pas­sa por um dile­ma como eu pas­sei. Embo­ra a pau­ta seja femi­ni­na, um dos meus mai­o­res supor­tes é o meu lado mas­cu­li­no em casa, por­que ele foi a pes­soa que mais me deu for­ça e dis­se ‘vai’”, dis­se, acres­cen­tan­do que em nenhum momen­to hou­ve a sen­sa­ção de ficar deven­do ao mari­do. “Nun­ca fui deve­do­ra des­se movi­men­to pro­fis­si­o­nal, e esse movi­men­to foi onde minha car­rei­ra ala­van­cou”.

A refe­rên­cia dos pais que são orto­don­tis­tas, e sem­pre tive­ram jun­tos uma vida pro­fis­si­o­nal, aju­dou na sua evo­lu­ção pro­fis­si­o­nal. Após a che­ga­da ao Rio de Janei­ro, foi um lon­go apren­di­za­do em áre­as onde não tinha exer­ci­do qual­quer fun­ção e o conhe­ci­men­to ain­da não era com­ple­to.

Preconceitos

Con­for­me foi evo­luin­do e alcan­çan­do car­gos, foram sur­gin­do tam­bém as dife­ren­ças. Em uma via­gem acom­pa­nhan­do um pre­si­den­te de uma empre­sa, foi per­gun­ta­da se era secre­tá­ria dele, mas, na ver­da­de, era dire­to­ra da empre­sa. Em outro momen­to, um dire­tor com o qual tra­ba­lha­va pre­ci­sou dizer a um exe­cu­ti­vo estran­gei­ro que se diri­gis­se a ela, por­que era a dire­to­ra do pro­je­to. “O cara con­ti­nu­ou falan­do com ele. Esse é o dire­to, é um cho­que, mas aí estou falan­do de cul­tu­ra”, dis­se, defen­den­do que não se pode nor­ma­li­zar situ­a­ções des­te tipo.

Mile­na apon­tou ain­da a ques­tão dos elo­gi­os à apa­rên­cia, como mais um fator cul­tu­ral. Nes­se caso, é como se as mulhe­res pre­ci­sas­sem ser agra­de­ci­das. “Eu não saio de um almo­ço de tra­ba­lho e falo ‘nos­sa como você está boni­to’ [se diri­gin­do a um homem]. ‘Nos­sa essa rou­pa te cai mui­to bem’. As mulhe­res não fazem isso. Você acei­ta um elo­gio se está em uma situ­a­ção soci­al dife­ren­te. Não em ambi­en­te pro­fis­si­o­nal”.

A CEO tem duas filhas, uma de 11 e a outra de 8 anos de ida­de. “Tive momen­tos difí­ceis. Na pri­mei­ra gra­vi­dez, eu esta­va no meio da Rio+20, um even­to super com­ple­xo, extre­ma­men­te estres­san­te. Eu já era dire­to­ra e a gen­te entre­gou tudo para a Rio+20. Foram 156 paí­ses repre­sen­tan­tes em um even­to com mais de 20 mil pes­so­as, que exi­giu 6 meses. O even­to aca­bou, dei à luz 3 sema­nas depois. É pos­sí­vel, mas você é exi­gi­da. Na segun­da filha, eu esta­va de licen­ça e pre­ci­sei vol­tar por­que a gen­te ia entrar em con­cor­rên­cia de um mega pro­je­to para o gru­po no Bra­sil”.

Para as filhas, Mile­na quer que façam boas esco­lhas na vida. “A pri­mei­ra coi­sa do fun­do do meu cora­ção é que elas façam boas esco­lhas. Em rela­ção à vida pro­fis­si­o­nal, que seja em algu­ma coi­sa que tenham mui­to pra­zer. Vai ser difí­cil, mas que elas sai­bam que 70% do tem­po vão ser de coi­sas que não gos­tam e 30% que gos­tam em qual­quer deci­são pro­fis­si­o­nal que tenham”, dese­jou, lem­bran­do de como é a rea­li­da­de.

Edi­ção: Fer­nan­do Fra­ga

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