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Ingressos com preços elevados favorecem a elitização do futebol

Repro­dução: © Gilvan de Souza/Flamengo/Direitos Reser­va­dos

Fenômeno tem levado a uma mudança do perfil de torcedores em estádios


Pub­li­ca­do em 26/10/2023 — 07:00 Por * Agên­cia Brasil — Rio de Janeiro

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final da últi­ma edição da Copa do Brasil, entre Fla­men­go e São Paulo (com entradas cus­tan­do entre R$ 400 e R$ 4.500 na par­ti­da de ida, no está­dio do Mara­canã), evi­den­ciou um fenô­meno que tem se tor­na­do cada vez mais comum, o dos altos val­ores cobra­dos por ingres­sos de jogos de fute­bol. Segun­do pesquisadores do assun­to, esta é mais uma evidên­cia de que o esporte mais pop­u­lar do plan­e­ta pas­sa por um proces­so de eli­ti­za­ção.

Em entre­vista à Agên­cia Brasil, o jor­nal­ista e pesquisador (do Lab­o­ratório de Estu­dos em Mídia e Esporte da UERJ) Irlan Simões, afir­mou que uma das con­se­quên­cias do aumen­to dos preços cobra­dos por ingres­sos é uma mudança do per­fil de torce­dores de fute­bol pre­sentes em muitos está­dios: “Não tive­mos exata­mente um esvazi­a­men­to dos está­dios, mas talvez uma sub­sti­tu­ição do públi­co. Pen­so que pela sen­sação de higi­en­iza­ção que as novas políti­cas de pre­ci­fi­cação provo­cavam. Mas, de cer­ta for­ma, dez anos após a inau­gu­ração das are­nas, parece que se recon­heceu o fra­cas­so do pro­je­to ini­cial. É pre­ciso ter [espaços] pop­u­lares den­tro do está­dio. De out­ra for­ma, ele fica vazio”.

As novas políti­cas de pre­ci­fi­cação às quais Irlan se ref­ere estão dire­ta­mente lig­adas ao proces­so de mod­ern­iza­ção dos está­dios. Alguns acabaram viran­do are­nas, como o Mara­canã e o Mineirão, pas­san­do por obras para rece­berem jogos da Copa do Mun­do de 2014, dis­puta­da no Brasil. Uma das medi­das mais sen­ti­das foi a extinção de setores con­sid­er­a­dos democráti­cos, como a ger­al.

Assim, parce­las pop­u­lares de tor­ci­das de fute­bol acabaram sendo sub­sti­tuí­das nas arquiban­cadas, que muitas vezes não ficam esvazi­adas, em espe­cial em clubes que alcançam resul­ta­dos esportivos pos­i­tivos. “Torce­dores gostam de estar no está­dio por causa de uma relação cul­tur­al con­struí­da para muito além do jogo em si. É socia­bil­i­dade, vivên­cia, exper­iên­cia, amizade. Quan­do se exclui um torce­dor do está­dio pelo preço [do ingres­so] prat­i­ca­do, se descon­tin­ua uma tradição da própria tor­ci­da em dar vida a aque­le ambi­ente. Claro que em clubes vito­riosos, que sem­pre têm está­dios cheios, esse debate é mais difí­cil. O prob­le­ma é que, mes­mo nas equipes que não con­seguem lotar está­dio com fre­quên­cia, se nat­u­ral­i­zou que cer­tos tipos de torce­dores não têm mais o dire­ito de con­viv­er como torce­dores”, declar­ou o pesquisador.

Na opinião de Pedro Daniel, pesquisador da con­sul­to­ria EY, os espaços dos está­dios por vezes ficam pequenos para o públi­co inter­es­sa­do em acom­pan­har as par­tidas: “Temos hoje 14 está­dios, 12 de Copa do Mun­do mais os de Grêmio e Palmeiras. A deman­da é muito forte e o espaço pequeno. Em con­tra­parti­da, é inter­es­sante que o clube enten­da quem ele quer enga­jar. Essa é uma reflexão que cada time deve faz­er, pois há uma bal­ança [a ser con­sid­er­a­da]. A cor­re­lação finan­ceira e esporti­va é dire­ta, então não pode ten­der muito para um lado, pois você aca­ba abrindo mão do out­ro”.

Como for­ma de ten­tar encon­trar uma respos­ta equi­li­bra­da para este desafio, Irlan Simões defende uma par­tic­i­pação políti­ca dos torce­dores nos clubes: “Muitas vezes os diri­gentes ou con­sel­heiros mais influ­entes são totais igno­rantes sobre a real­i­dade do torce­dor comum, sobre a difi­cul­dade de pagar um plano de sócio torce­dor, de se deslo­car até o está­dio. Pen­so que, na medi­da em que gru­pos de torce­dores sejam autor­iza­dos a ter voz, cer­tos apren­diza­dos acon­te­cerão”.

* Colab­o­ração de Pedro Dabés (estag­iário) sob super­visão de Paulo Gar­ri­tano.

Edição: Fábio Lis­boa

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