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“Luto pela memória do meu pai há 40 anos”, diz filha de indígena morto

Repro­du­ção: © Foto: Pau­lo Suess/Cimi/Divulgação

Marçal de Souza Tupã defendia direitos dos indígenas à terra


Publi­ca­do em 25/11/2023 — 09:36 Por Luiz Cláu­dio Fer­rei­ra — Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — Bra­sí­lia

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A pro­fes­so­ra de his­tó­ria Edna Sil­va de Sou­za com­ple­ta­va 33 anos de ida­de no dia 22 de novem­bro de 1983, mas a casa, na cida­de de Dou­ra­dos (MS), esta­va sem cli­ma de come­mo­ra­ção. O pai, Mar­çal de Sou­za Tupã, de 63, esta­va ten­so. 

“Ele esta­va apre­en­si­vo e dis­se pra gen­te que esta­va se sen­tin­do per­se­gui­do pelos dis­cur­sos que vinha fazen­do em defe­sa dos direi­tos dos indí­ge­nas à ter­ra. Ele denun­ci­a­va tudo o que via de erra­do. Mas a gen­te vivia numa dita­du­ra. Não exis­tia liber­da­de de expres­são”, pon­de­ra a filha.

Cinco tiros

Lide­ran­ça Gua­ra­ni Kai­owá, o auxi­li­ar de enfer­ma­gem do efe­ti­vo da Funai, Mar­çal de Sou­za  foi assas­si­na­do em sua casa, na aldeia Cam­pes­tre, no muni­cí­pio de Antô­nio João (MS), com cin­co tiros, no dia 25 de novem­bro há exa­tos 40 anos. Como havia sido trans­fe­ri­do, só vol­ta­va para casa uma vez por mês.

A famí­lia só foi avi­sa­da no dia seguin­te. Não bas­tas­se isso, o cri­me nun­ca foi escla­re­ci­do. “Des­de aque­le dia, bus­ca­mos por jus­ti­ça. Luto pela memó­ria do meu pai há 40 anos”, diz a filha, hoje aos 73 anos de ida­de.

Edna atu­ou por 35 anos como pro­fes­so­ra de his­tó­ria em esco­las indí­ge­nas na região. “Por onde fui, con­tei a his­tó­ria dele. Era um revo­lu­ci­o­ná­rio. Onde ia, as pes­so­as para­vam para ouvir”.

Isso gerou os pro­ble­mas. “Ele pro­cu­ra­va escla­re­cer os direi­tos para as pes­so­as. Na épo­ca, era cha­ma­do de agi­ta­dor”, con­si­de­ra a pro­fes­so­ra. Ela recor­da que a con­vi­vên­cia com o pai havia fica­do res­tri­ta com a fun­ção dele na Funai, mas Mar­çal não dei­xa­va de vol­tar para casa des­de que foi trans­fe­ri­do de cida­de, três anos antes.  “Meu pai rece­bia o paga­men­to dele como auxi­li­ar de enfer­ma­gem e vol­ta­va para Dou­ra­dos todo mês para fazer com­pras para casa”.

Manaus (AM) 25/11/2023 Edna Silva de Souza filha de Marçal de Souza, que em Manaus, fez um discurso para o Papa João Paulo II. “Este é o país que nos foi tomado. Dizem que o Brasil foi descoberto. Foto: Arquivo pessoal
Repro­du­ção: Manaus — Edna Sil­va de Sou­za, filha de Mar­çal, fala sobre a luta do pai pelos direi­tos indí­ge­nas — Foto: arqui­vo pes­so­al

Resistência

Em casa, havia dei­xa­do os sete filhos. Mas não dava um pas­so atrás. Fazia dis­cur­sos, pales­tras, cobra­va enti­da­des públi­cas. Não se con­for­ma­va ao ter conhe­ci­men­to de indí­ge­nas em situ­a­ção de vul­ne­ra­bi­li­da­de. “Ele dizia: ‘sou uma pes­soa mar­ca­da para mor­rer’”.

No tra­ba­lho como enfer­mei­ro, bus­ca­va remé­dio para as comu­ni­da­des mais vul­ne­rá­veis. Ouvia da famí­lia que deve­ria se cui­dar e evi­tar sair à noi­te. Outra pre­o­cu­pa­ção é que fazen­dei­ros ten­ta­vam ali­ciá-lo para que dei­xas­se de pro­tes­tar.

“Ofe­re­ce­ram mui­to dinhei­ro para ele. E garan­tia que a hones­ti­da­de não tinha pre­ço”. Na últi­ma vol­ta para casa, dis­se para a famí­lia que pre­ci­sa­va arru­mar mais remé­di­os para a comu­ni­da­de e que fal­ta­vam des­de os medi­ca­men­tos mais sim­ples.

Papa

Três anos antes do assas­si­na­to, Mar­çal de Sou­za, em Manaus, fez um dis­cur­so para o papa João Pau­lo II.  “Este é o país que nos foi toma­do. Dizem que o Bra­sil foi des­co­ber­to. O Bra­sil não foi des­co­ber­to não, San­to Padre, o Bra­sil foi inva­di­do e toma­do dos indí­ge­nas. Esta é a ver­da­dei­ra his­tó­ria”, dis­se ao papa.

Naque­le ano do encon­tro com João Pau­lo II, Mar­çal Tupã foi trans­fe­ri­do de cida­de, onde aca­bou mor­ren­do. Con­for­me regis­tra o arqui­vo do MInis­té­rio Públi­co Fede­ral em Mato Gros­so do Sul, os acu­sa­dos Libe­ro Mon­tei­ro de Lima e Rômu­lo Gamar­ra foram absol­vi­dos por fal­ta de pro­vas. “Lem­bro que nos fala­ram que o local do cri­me não foi pre­ser­va­do e, por isso, nin­guém foi puni­do”

Após o assas­si­na­to, a famí­lia ficou com medo. Mas pro­cu­rou hon­rar a ter­ra do pai. “Ele fala­va que não ia desis­tir da mis­são”. Para hon­rar a memó­ria de Mar­çal, enti­da­des como o Cen­tro Indi­ge­nis­ta Mis­si­o­ná­rio (Cimi), a Aty Gua­su – Gran­de Assem­bleia dos Povos Kai­owá e Gua­ra­ni, a  Uni­ver­si­da­de Fede­ral da Gran­de Dou­ra­dos e o Minis­té­rio Públi­co Fede­ral rea­li­zam atos de home­na­gem à memó­ria do indí­ge­na assas­si­na­do há 40 anos.

Edi­ção: Gra­ça Adju­to

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