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Médicos alertam gestantes sobre importância da vacinação no pré-natal

Repro­du­ção: © REUTERS/Carla Carniel/Direitos reser­va­dos

Especialistas lembram que muitas grávidas não estão se vacinando


Publicado em 10/06/2024 — 09:09 Por Tamara Freire — Repórter do Radiojornalismo — Rio de Janeiro

A cober­tu­ra da dTpa, ou trí­pli­ce bac­te­ri­a­na ace­lu­lar, foi de ape­nas 75% em 2023. Essa é uma vaci­na apli­ca­da qua­se exclu­si­va­men­te em grá­vi­das e deve ser toma­da em todas as ges­ta­ções, jus­ta­men­te para pro­te­ger os recém-nas­ci­dos da coque­lu­che. Mas ela tam­bém pro­te­ge a ges­tan­te e o bebê con­tra o téta­no e a dif­te­ria. Mui­tas mulhe­res em fase de ges­ta­ção, no entan­to, não estão se vaci­nan­do.

A jor­na­lis­ta e atriz Natá­lia Gadi­o­li, está grá­vi­da pela segun­da vez e vai tomar a dTpa assim que atin­gir o tem­po reco­men­da­do, de 20 sema­nas de ges­ta­ção. Ela aler­ta, no entan­to, sobre o que pode estar afas­tan­do as ges­tan­tes das salas de vaci­na. “Infe­liz­men­te, a gen­te vê mui­ta fake news, mui­ta desin­for­ma­ção, que ten­ta assus­tar as pes­so­as. E isso aca­ba pre­ju­di­can­do indi­vi­du­al­men­te e cole­ti­va­men­te. É uma pena, sem­pre que pos­so ten­to com­ba­ter de algu­ma for­ma e defen­der a vaci­na para todos. Espe­ci­al­men­te nes­sa fase de ges­ta­ção, quan­do é mui­to impor­tan­te a gen­te se cui­dar e pro­te­ger o bebê”.

O dire­tor da Soci­e­da­de Bra­si­lei­ra de Imu­ni­za­ções, Jua­rez Cunha, expli­ca que a cha­ma­da hesi­ta­ção vaci­nal é cau­sa­da por mui­tos fato­res. O mai­or deles é a fal­ta de per­cep­ção de ris­co. No auge da pan­de­mia, com 4 mil mor­tes por dia, todo mun­do que­ria se vaci­nar con­tra a covid-19, por exem­plo. Hoje, que o núme­ro de víti­mas é menor, mas ain­da soma cen­te­nas por sema­na, é difí­cil atin­gir a cober­tu­ra das doses de refor­ço. Cunha cha­ma a aten­ção para o desa­fio da comu­ni­ca­ção em tem­pos de info­de­mia — a pan­de­mia de desin­for­ma­ção. Espe­ci­al­men­te por­que até pro­fis­si­o­nais da saú­de têm dis­se­mi­na­do dis­cur­so con­tra as vaci­nas, o que tem atin­gi­do em cheio as grá­vi­das e os res­pon­sá­veis por cri­an­ças.

“Se eu che­go a ter 70%, 75% [de cober­tu­ra], sig­ni­fi­ca que tenho ali uns 20% hesi­tan­tes. E é com esses hesi­tan­tes que a gen­te tem que falar. Por isso, é pre­ci­so pre­pa­rar mui­to bem os pro­fis­si­o­nais da rede, que têm que saber res­pon­der, têm que estar bem infor­ma­dos. Se um médi­co te diz que não deve fazer de jei­to nenhum e você che­ga a uma uni­da­de de saú­de e repas­sa essa infor­ma­ção, como é que o pro­fis­si­o­nal vai ques­ti­o­nar isso? Ele tem que estar mui­to bem infor­ma­do”, afir­ma Cunha.

A últi­ma vez que o Bra­sil teve um sur­to de coque­lu­che foi em 2014, mas o Minis­té­rio da Saú­de aler­tou, na sema­na pas­sa­da, que vári­os paí­ses têm regis­tra­do aumen­to de casos e essa onda pode che­gar por aqui. Até o come­ço de abril, foram 31 infec­ções com­pro­va­das, e mais de 80% delas em bebês de até seis meses. O Sis­te­ma Úni­co de Saú­de (SUS) tam­bém vaci­na os bebês con­tra a coque­lu­che, mas ape­nas a par­tir dos dois meses de ida­de, com­ple­tan­do o esque­ma aos seis meses. Ou seja, as mai­o­res víti­mas da coque­lu­che depen­dem total­men­te da vaci­na­ção na gra­vi­dez para não ado­e­cer.

Para a gine­co­lo­gis­ta Nil­ma Neves, os pro­fis­si­o­nais que acom­pa­nham o pré-natal devem não somen­te pres­cre­ver as vaci­nas, mas tam­bém con­fe­rir se elas foram toma­das e ques­ti­o­nar as grá­vi­das sobre suas dúvi­das e recei­os. Até por­que mui­tas têm medo de tomar qual­quer subs­tân­cia ou remé­dio e aca­bar afe­tan­do o bebê. Nil­ma é vice-pre­si­den­te da Comis­são de Vaci­nas da Fede­ra­ção Bra­si­lei­ra das Asso­ci­a­ções de Gine­co­lo­gia e Obs­te­trí­cia (Febras­go) e cha­ma a aten­ção para outro gran­de pro­ble­ma que tem afe­ta­do as cober­tu­ras vaci­nais

“As salas de vaci­nas dos pos­tos de saú­de não abrem aos sába­dos e mui­tas ges­tan­tes tra­ba­lham. Ela não con­se­gue ir duran­te a sema­na. E até mes­mo quan­do vão fazer o pré-natal, acon­te­ce de alguns pos­tos só terem a téc­ni­ca de enfer­ma­gem espe­ci­a­li­za­da em vaci­nas, de manhã ou só à tar­de. Então, isso difi­cul­ta o aces­so da ges­tan­te para tomar as vaci­nas”.

No caso da vaci­na con­tra a gri­pe, nem o cha­ma­do Dia D, com apli­ca­ção aos sába­dos, con­se­gue fazer com que a meta de cober­tu­ra seja alcan­ça­da. Atu­al­men­te, as regiões Nor­des­te, Cen­tro-Oes­te, Sul e Sudes­te estão em cam­pa­nha. Mais de 1,7 milhão de grá­vi­das fazem par­te do públi­co alvo e nem um quar­to delas se vaci­nou. O imu­ni­zan­te pro­te­ge con­tra três cepas do vírus Influ­en­za. Ao con­trá­rio do que mui­tos pen­sam, não é só um res­fri­a­di­nho. A influ­en­za é um dos prin­ci­pais cau­sa­do­res da Sín­dro­me Res­pi­ra­tó­ria Agu­da Gra­ve, que pode levar à mor­te, espe­ci­al­men­te de pes­so­as vul­ne­rá­veis, como bebês e grá­vi­das.

Outro gran­de cau­sa­dor da sín­dro­me é a covid-19, que tam­bém pode pro­vo­car infla­ma­ção em diver­sas par­tes do cor­po. Há evi­dên­ci­as de rela­ção entre a covid e efei­tos como abor­to espon­tâ­neo, res­tri­ção de cres­ci­men­to no úte­ro e par­to pre­ma­tu­ro. A Fun­da­ção Oswal­do Cruz (Fio­cruz) já iden­ti­fi­cou que o núme­ro de mor­tes entre grá­vi­das ou pes­so­as que aca­ba­ram de dar à luz nos dois pri­mei­ros anos da pan­de­mia foi qua­se 70% a mais do que o habi­tu­al. Ain­da assim, a vaci­na con­tra a covid-19 encon­tra gran­de resis­tên­cia. Ges­tan­tes e puér­pe­ras devem tomar a nova vaci­na mono­va­len­te xbb da Moder­na, que está sen­do apli­ca­da pelo SUS.

A dire­to­ra médi­ca de vaci­nas da Amé­ri­ca Lati­na da Adium, far­ma­cêu­ti­ca que dis­tri­bui o imu­ni­zan­te no Bra­sil,  Glau­cia Ves­pa, expli­ca por que elas não devem ter medo. “Quan­do a gen­te desen­vol­ve uma vaci­na, temos eta­pas. A pri­mei­ra é o que cha­ma­mos de pré-clí­ni­ca, que é quan­do faze­mos as pes­qui­sas no labo­ra­tó­rio, aí come­ça­mos com a fase clí­ni­ca que é onde a vaci­na é estu­da­da em seres huma­nos. Con­cluí­do o desen­vol­vi­men­to clí­ni­co, é fei­to um dos­siê sub­me­ti­do às agên­ci­as regu­la­tó­ri­as. Quan­do o pro­du­to che­ga [à popu­la­ção], con­ti­nu­a­mos acom­pa­nhan­do. Por isso, as vaci­nas não men­tem: sua efi­cá­cia e segu­ran­ça são com­pro­va­das em estu­dos”.

De acor­do com o Minis­té­rio da Saú­de, des­de o iní­cio da vaci­na­ção con­tra a doen­ça em 2021, qua­se 2,3 milhões de mulhe­res se vaci­na­ram. Mas esse núme­ro é infe­ri­or à pre­vi­são de ges­tan­tes e puér­pe­ras que devem se vaci­nar somen­te este ano, cer­ca de 2,24 milhões. O geren­te médi­co de vaci­nas da Far­ma­cêu­ti­ca GSK, Mar­ce­lo Frei­tas, des­ta­ca a impor­tân­cia do envol­vi­men­to fami­li­ar para que a estra­té­gia vaci­nal das ges­tan­tes avan­ce. Quan­do a famí­lia toda se vaci­na, é mais difí­cil que um indi­ví­duo fique para trás, além de for­mar um cír­cu­lo de pro­te­ção para o bebê. No caso da coque­lu­che, é inclu­si­ve reco­men­da­da a estra­té­gia Coc­co­on, ou casu­lo.

“A coque­lu­che é uma infec­ção alta­men­te con­ta­gi­o­sa, e sabe­mos que as pes­so­as em vol­ta da cri­an­ça, que con­vi­vem mais com ela, têm papel fun­da­men­tal na trans­mis­são. Coc­co­on é jus­ta­men­te você cer­car a cri­an­ça de pes­so­as vaci­na­das, blo­que­ar a trans­mis­são. É pre­ci­so lem­brar que as vaci­nas têm efei­to mui­to impor­tan­te indi­vi­du­al­men­te — redu­zem infec­ção, impe­dem a pro­gres­são para qua­dros gra­ves, a hos­pi­ta­li­za­ções e óbi­tos, mas tam­bém têm papel fun­da­men­tal cole­ti­va­men­te, o de redu­ção de trans­mis­são de doen­ças em sur­tos e epi­de­mi­as”.

O calen­dá­rio bási­co de vaci­na­ção do SUS tam­bém reco­men­da que as ges­tan­tes rece­bam a vaci­na con­tra a hepa­ti­te B, caso não tenham sido imu­ni­za­das ante­ri­or­men­te, ou com­ple­tem o esque­ma de três doses se ele esti­ver incom­ple­to. Tam­bém é pre­ci­so ini­ci­ar ou com­ple­tar a imu­ni­za­ção com a DT, que pro­te­ge con­tra téta­no e dif­te­ria em três doses, com refor­ço a cada dez anos.

Nil­ma Neves refor­ça que o ide­al é que antes mes­mo de engra­vi­dar, as famí­li­as con­fi­ram o car­tão de vaci­nas da ges­tan­te. “É mui­to impor­tan­te que ela rece­ba a trí­pli­ce viral, por exem­plo, que pro­te­ge con­tra saram­po, caxum­ba e rubéo­la, e não pode ser toma­da na ges­ta­ção”.

Edi­ção: Gra­ça Adju­to

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