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Meninas de 10 a 14 anos de idade são maioria das vítimas de estupros

Repro­du­ção: © Mar­ce­lo Casal/Agência Bra­sil

Maioria dos casos aconteceu na casa das vítimas


Publi­ca­do em 21/02/2023 — 09:00 Por Lety­cia Bond — Repór­ter da Agên­cia Bra­sil — São Pau­lo

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No Bra­sil, a mai­o­ria (67%) dos 69.418 estu­pros come­ti­dos entre 2015 e 2019 tive­ram como víti­mas meni­nas com ida­de entre 10 e 14 anos. É o que des­ta­ca o estu­do Sem dei­xar nin­guém para trás — gra­vi­dez, mater­ni­da­de e vio­lên­cia sexu­al na ado­les­cên­cia, do Cen­tro de Inte­gra­ção de Dados e Conhe­ci­men­tos para Saú­de (Cidacs), vin­cu­la­do à Fun­da­ção Oswal­do Cruz Bahia (Fio­cruz). Tam­bém assi­nam a pes­qui­sa o Ins­ti­tu­to de Saú­de Cole­ti­va da Uni­ver­si­da­de Fede­ral da Bahia (ISC/UFBA) e o Fun­do de Popu­la­ção das Nações Uni­das (UNFPA).

O que sub­si­di­ou o levan­ta­men­to foram dados do Sis­te­ma de Infor­ma­ções sobre Nas­ci­dos Vivos (Sinasc) e do Sis­te­ma de Infor­ma­ção de Agra­vos de Noti­fi­ca­ção (Sinan-Data­sus), do Minis­té­rio da Saú­de. No perío­do de aná­li­se, ado­les­cen­tes com ida­de entre 15 e 19 anos repre­sen­tam 33% do total de víti­mas de estu­pro.

Ain­da sobre o per­fil das víti­mas, o que se cons­ta­ta é que pre­va­le­cem as meni­nas par­das (54,75%). Logo depois, apa­re­cem garo­tas bran­cas (34,3%), pre­tas (9,43%) e, por fim, indí­ge­nas (1,2%).

Outro dado que se con­so­li­da mais uma vez, como em outros estu­dos, é o que diz res­pei­to à rela­ção entre as víti­mas e os agres­so­res. De acor­do com a pes­qui­sa, 62,41% dos auto­res do cri­me eram conhe­ci­dos das víti­mas, con­tra ape­nas 17,22% de des­co­nhe­ci­dos.

Por meio das noti­fi­ca­ções reu­ni­das pelo gover­no fede­ral, obser­vam-se, ain­da, três dados de rele­vân­cia. O pri­mei­ro é o fato de que o estu­pro cos­tu­ma acon­te­cer na casa das víti­mas. No total, 63,16% dos epi­só­di­os se deram nes­se con­tex­to. Em 24,8% das vezes, o local era públi­co e, em 1,39% dos casos, o estu­pro ocor­reu em uma esco­la.

“Evi­den­cia-se que ado­les­cen­tes nem sem­pre encon­tram na famí­lia um lugar de pro­te­ção”, mos­tra o estu­do.

Para a ges­to­ra do Pro­je­to Bem Me Quer, do Hos­pi­tal da Mulher, psi­có­lo­ga Dani­e­la Pedro­so, é pre­ci­so ter em vis­ta que, assim como em rela­ci­o­na­men­tos entre mulher e com­pa­nhei­ro, em que ele a agri­de, as emo­ções das víti­mas meno­res de ida­de se mis­tu­ram, quan­do o agres­sor é alguém de seu cír­cu­lo. Em mui­tos casos, o agres­sor cau­sa con­fu­são de sen­ti­men­tos na víti­ma, inclu­si­ve por pro­por que ela guar­de para si o ocor­ri­do, como se se tra­tas­se de um acor­do de con­fi­an­ça que não pode ser rom­pi­do, já que a con­sequên­cia seria per­der o afe­to do agres­sor.

“Esta­mos falan­do de agres­so­res conhe­ci­dos, pes­so­as que mui­tas vezes tam­bém pro­vêm coi­sas boas, posi­ti­vas para essas cri­an­ças. Por isso é que é tão impor­tan­te cui­dar dis­so, por­que a gen­te está falan­do de algo que é tra­ta­do pelo agres­sor sexu­al como um segre­do, algo que não pode ser con­ta­do”, aler­ta.

“O abu­so sexu­al da cri­an­ça é crô­ni­co e recor­ren­te. A gen­te está falan­do da pes­soa que devia pro­te­gê-la. Esse é um dado que sem­pre sur­ge e que ain­da cho­ca mui­to, por­que é a ambi­va­lên­cia não só do sen­ti­men­to da cri­an­ça, mas tam­bém da ambi­va­lên­cia do com­por­ta­men­to do agres­sor”, com­ple­men­ta Dani­e­la, que hoje coor­de­na o Ambu­la­tó­rio de Vio­lên­cia Sexu­al na uni­da­de e que tra­ba­lha no local há 26 anos.

Na ava­li­a­ção da psi­có­lo­ga, a qua­li­da­de no aten­di­men­to é um fator capaz de defi­nir a per­ma­nên­cia das víti­mas no hos­pi­tal, con­for­me as reco­men­da­ções. Segun­do ela, além de ofe­re­cer o tra­ta­men­to de pro­fi­la­xia, que as pro­te­ge con­tra infec­ções sexu­al­men­te trans­mis­sí­veis (ISTs) e tem mai­or efei­to em uma jane­la de 72 horas após o estu­pro, o Hos­pi­tal da Mulher tam­bém ofe­re­ce cui­da­dos em outras áre­as impor­tan­tes. São eles o enca­mi­nha­men­to a assis­ten­tes soci­ais, que ori­en­tam e aco­lhem, e as con­sul­tas com pedi­a­tras ou gine­co­lo­gis­tas da equi­pe do ambu­la­tó­rio e com psi­có­lo­gos. As víti­mas têm direi­to a ter aten­di­men­to mes­mo sem apre­sen­tar bole­tim de ocor­rên­cia, ou seja, bas­ta que se diri­jam à uni­da­de.

“A manei­ra como elas são rece­bi­das pelo ser­vi­ço vai impac­tar não só na ade­são ao tra­ta­men­to como tam­bém em todo o pro­ces­so que pas­sam com a gen­te”, res­sal­ta Dani­e­la.

Sobre a con­tri­bui­ção dos psi­có­lo­gos, a ges­to­ra ava­lia que se encon­tra em ate­nu­ar o sofri­men­to psí­qui­co, a par­tir da trans­for­ma­ção da memó­ria em tor­no do estu­pro que se viven­ci­ou. “As pes­so­as per­gun­tam, a minha filha vai esque­cer? A gen­te não con­se­gue fazer com que se apa­gue isso da memó­ria des­sa cri­an­ça, des­sa ado­les­cen­te, mas a gen­te pre­ci­sa tra­ba­lhar da melhor for­ma pos­sí­vel para que isso não se tor­ne uma lem­bran­ça recor­ren­te, coti­di­a­na. Acho que isso é bem impor­tan­te. E tam­bém que ela pos­sa res­sig­ni­fi­car esse trau­ma”.

Edi­ção: Fer­nan­do Fra­ga

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